Meritocracia viral

REVELADO: Mãe Ganha R$16.000/Mês E Você Não Irá Acreditar Como Ela Faz Isso!
googledrive.com
Tenha Acesso ao Maior Segredo Para Ganhar Dinheiro de 2013.

No Facebook, vários contatos postam o mesmo link, com o “segredo” para ganhar “dinheiro fácil”, com o mesmo comentário. E como se não bastasse, ainda te marcam nele.

Desculpem a sinceridade, mas… Quem clica num link desses acreditando que encontrará a solução da sua vida, merece pegar o vírus que faz essa porcaria se replicar e encher o saco dos amigos marcando eles nas postagens descontroladas.

Anúncios

Perdendo tempo

Um dos grandes males da atualidade, dizem, é a falta de tempo (que, na visão capitalista, “é dinheiro”). Estamos sempre atrasados, correndo contra o relógio. E em meio a tal maluquice, não há pecado pior do que perder tempo.

E o que é “perder tempo”? É fazer qualquer coisa que “não seja produtiva”. Dentre elas, sentar e pensar: lembro de muitas vezes ter feito isso e ouvir a pergunta “por que está aí pensando na morte da bezerra?”, o que me irritava demais, pois pensava em coisas muito mais importantes do que na bezerra falecida.

Será que ninguém nunca pensou no quanto a humanidade já perdeu por conta da “falta de tempo” ou por se achar que era “perda de tempo”? Quantas ideias geniais deixaram de ser postas em prática? Quantos contos e poemas não puderam ser escritos? Quantas músicas não foram compostas por conta disso?

Me acontece muito de ficar sem tempo para vir aqui escrever no blog. E isso é uma das coisas que me irrita, às vezes até me estressa. Pois detesto não ter tempo de fazer o que gosto.

Aliás, nem deveria ter escrito este breve texto, pois tinha mais coisas a fazer.

Um Grêmio mais caro

O Grêmio tem contratado bastante recentemente. Se será vencedor neste ano que começa, ainda acho cedo para prever: em janeiro de 2000, a torcida estava empolgada com os nomes que chegavam ao Olímpico (Paulo Nunes, Zinho, Astrada etc.), mas ao final daquele ano nenhuma taça entrou na sala de troféus do estádio. Obviamente minha torcida é para que em 2012 não se repita nem 2000, nem os últimos 10 anos.

De qualquer jeito, já senti diretamente no meu bolso um impacto das contratações: o aumento da mensalidade. Como pago tanto a minha como a da minha mãe (nada mais justo, já que comecei a ser sócio há mais de 10 anos porque ela pagava), hoje se foram 172 reais de minha conta bancária: 86 para cada boleto. Em 2011, a mensalidade era de 69 reais.

Não estranho: o dinheiro para pagar os salários do clube sai de algum lugar. De investidores, patrocinadores e… Dos sócios. Normal.

Mas, depois de um aumento de quase 25% na mensalidade, não peço mais ao Grêmio que ganhe títulos de verdade: passo a exigir. Quero, no mínimo, a Copa do Brasil.

Até porque será preciso taças para que esse time se pague…

Da idolatria perdida

Se o torcedor pertence ao time, por que não os jogadores? Muito raramente o torcedor aceita o novo destino de um jogador idolatrado. Mudar de time não é a mesma coisa que mudar de lugar de trabalho, embora o jogador seja, como é, um profissional que ganha a vida com suas pernas. A paixão pela camisa não tem muito a ver com o futebol moderno, mas o torcedor castiga o delito da deserção. Em 1989, quando o jogador brasileiro Bebeto trocou o Flamengo pelo Vasco da Gama, houve torcedores do Flamengo que iam às partidas do Vasco da Gama apenas para vaiar o traidor. Choveram ameaças contra ele, e o feiticeiro mais temível do Rio de Janeiro lançou sua maldição. Bebeto sofreu um rosário de lesões, não podia jogar sem se machucar e sem que a culpa lhe pesasse nas pernas, e foi de mal a pior, até que decidiu ir para a Espanha. Algum tempo antes, na Argentina, Roberto Perfumo, durante anos a grande estrela do Racing, se transferiu para o River Plate. Seus torcedores de sempre lhe dedicaram uma das mais longas e estrondosas vaias da história:

Percebi então que eles tinham gostado muito de mim – disse Perfumo.

(Eduardo Galeano. Futebol ao sol e à sombra. Porto Alegre: L&PM, 2002, p. 125-126.)

O trecho acima da crônica “Fervor da camisa” ajuda a explicar a relação de amor e ódio da torcida gremista para com Ronaldinho. Principalmente, as palavras de Perfumo sobre a sonora vaia que levou dos torcedores que antes o idolatravam.

Nossa mágoa contra Ronaldinho se deve principalmente ao fato de que nós gostávamos muito dele (fosse um perna-de-pau qualquer, já teria sido esquecido). Depois daquela decisão do Gauchão de 1999, quando ele fez o gol do título e ainda entortou Dunga, fez a torcida delirar ao dizer que jogaria até de graça pelo Grêmio e que o importante não era dinheiro, mas sim, “jogar por amor a camisa”.

Menos de dois anos depois, o dinheiro falava mais alto que o “amor à camisa”. Ele saía do Grêmio pela porta dos fundos, já sendo rejeitado por parte da torcida. No dia 25 de janeiro de 2001, jogou pela última vez no Olímpico e marcou um golaço de falta na vitória de virada (2 a 1) sobre o Figueirense, pela extinta Copa Sul-Minas. Ouviu muitas vaias, mas também aplausos – dentre estes, os meus. Eu não queria xingar um jogador que preferia idolatrar, e que ainda vestia a camisa do meu clube do coração.

Dez anos depois, esperamos que seria restabelecida a relação de amor entre Ronaldinho e torcida gremista. Não aconteceu. Novamente, o dinheiro falou mais alto do que o suposto amor. Ficamos magoados, o chamamos de mercenário, de tudo o que é adjetivo depreciativo. Perdemos aquela romântica esperança de ver alguém jogando apenas por amor à camisa.

Agora, se aproxima o momento em que Ronaldinho reencontrará a torcida que um dia o adorou e da qual ele próprio fez parte. Uma torcida que, por tanto amá-lo, sentiu-se traída quando ele a desprezou por duas vezes. Por mais que Guerreiro e Odone também tenham sua parcela de culpa, não se brinca com uma paixão dessas (aliás, pelo mesmo motivo estes dirigentes também não merecem umas vaiazinhas?).

E é exatamente por isso que iremos vaiar Ronaldinho. É a oportunidade de desabafar, mostrar que um dia nós o amamos, mesmo que isso nem signifique mais nada para ele. Talvez alguns tenham até a maluca esperança de que ele se arrependa e peça perdão de joelhos…

Mas o fundamental é que o 30 de outubro de 2011 represente exatamente isso: o fim definitivo da mágoa. Depois, é preciso virar a página. Ronaldinho não será esquecido, mas não pode continuar a ter tamanha importância para nós.

Grandes empresas privadas não precisam de incentivos fiscais

A Azaléia fechou sua unidade em Parobé, pondo “no olho da rua” 800 trabalhadores. Os motivos, são as famosas “reduções de custos”. E aí não entendem porque tanta gente quer trabalhar no serviço público… Afinal, na iniciativa privada se trabalha (bem) mais por um salário menor, e ainda com o risco de perder o emprego por “corte de gastos”.

Pior do que isso, é saber que a empresa já recebeu generosas verbas do Estado – ou seja, de todos os gaúchos. Pagamos, supostamente para “gerar empregos”, mas na verdade, apenas para que a Azaléia lucrasse mais por um tempo, e depois, alegando “perda de competitividade”, decidisse “cortar gastos”, ou seja, funcionários. Convenhamos: não é fácil demais reclamar da “interferência do Estado na economia” ao mesmo tempo em que se recebe milhões dele próprio?

Já li uma vez em algum lugar que o Brasil não vive um regime capitalista puro, pois se assim o fosse, apenas o “mercado” ditaria os rumos da economia. Num exemplo de como seria: se a tua empresa tá mal, o azar é teu, outra vai ocupar o teu espaço…

Porém, sou favorável a que o Estado dê algum incentivo às empresas que dele necessitem. Com a ressalva: que sejam pequenas, no máximo médias. Azaléias e Fords (lembram?) da vida, não precisam do nosso dinheiro, pois o que não falta a elas é grana.

Como os grandes empresários privados são geralmente os primeiros a reclamarem da “interferência do Estado na economia”, deveriam ao menos ser coerentes, né?

Reflexos do futebol-negócio

Quinta-feira, fui ao jogo do Grêmio contra o León de Huánuco, pela Libertadores. Vitória de 2 a 0, sem jogar bem.

Mas não é sobre o desempenho do Grêmio que quero falar. O que chamou muito a atenção (como já ocorrera em jogos anteriores) foram alguns guris assistindo à partida na Social. Eram jogadores das categorias de base.

Eles enquadravam-se naquele estereótipo de jogador de futebol, que quando começa a ganhar algum dinheiro, corre para se “emperiquitar” com correntinhas e tênis de marca. Tudo bem, é direito deles (e quem sou eu para condená-los?). O que incomoda, é a maneira com que eles assistem ao jogo: de fato, apenas “assistem”, não torcem, não vibram nos gols, nem mesmo veem o jogo vestindo a camisa do Grêmio!

É isso mesmo: o Grêmio está formando jogadores que não são gremistas…

Antigamente, os jogadores formados em um clube costumavam também torcer por ele, a ponto de ficarem identificados com sua origem, mesmo quando jogavam por outros times. Claro que também havia exceções: às vezes o guri não dava certo na base do time do coração, mas sonhava em ser jogador profissional, e procurava outro clube onde tivesse mais chance (até para, no futuro, poder jogar onde o coração mandava).

Hoje, a maior parte da gurizada está jogando só por dinheiro, “sucesso”, fama etc. Muitas vezes não têm idade nem para votar, e já têm um “procurador” para negociar – e aí vão para onde pagarem melhor. E então eu percebo que fico surpreso quando um Ronaldinho vai embora do Grêmio quase de graça, depois de enganar a torcida com inúmeras juras de amor.

É hora da direção gremista tomar alguma atitude para “doutrinar” (por favor, patrulheiros direitosos de plantão, isso é só futebol!) essa gurizada. Se não for para transformá-los em gremistas fanáticos, que ao menos faça eles entenderem que estão num clube de muita história, e que valoriza os jogadores que “dão o sangue” pelo time. Já “mascarados” como Ronaldinho, todos sabem qual o lugar dele nos mais de cem anos de história do Grêmio…

————

Outro reflexo do “futebol-negócio” é o que está acontecendo com as obras da Arena do Grêmio. Apesar de nem ser culpa do clube (eles são contratados da OAS, que gerenciará o estádio por 20 anos), me envergonha ver o nome do meu time associado a coisas assim.

O melancólico fim de carreira de Ronaldo

Hoje, ouvi no rádio a notícia de que a eliminação do Corinthians na pré-Libertadores poderá antecipar a aposentadoria de Ronaldo. Dizem que a única motivação do atacante em seguir jogando seria a de poder conquistar uma Libertadores, título que, assim como o Campeonato Brasileiro, ele não tem.

É um melancólico final para a carreira de um dos maiores jogadores que já vi. Hoje, Ronaldo não é nem sombra do craque que foi em seus bons tempos. Aos 34 anos, é praticamente um ex-atleta que insiste em se manter em atividade.

Ronaldo ainda não se aposentou por motivos meramente comerciais. O Corinthians apostou alto em sua contratação, no final de 2008, conseguindo muitos patrocinadores – que desejavam investir na “imagem” do “Fenômeno”, mas também eram fundamentais para o clube conseguir pagar os salários dele. Assim, ele ainda entra em campo, mesmo não jogando mais nada, apenas para exibir logomarcas associadas à sua “imagem”. (Aliás, é algo que poderia acontecer no Grêmio, se Ronaldinho tivesse sido contratado.)

Ou seja, o jogador que mais gols marcou em Copas do Mundo, foi três vezes eleito o melhor do mundo (1996, 1997 e 2002) e fundamental para a Seleção Brasileira ganhar a Copa de 2002 (assim como Rivaldo, que aos 38 anos estreou ontem pelo São Paulo, com direito a um golaço), virou apenas um outdoor.

Senhora hipocrisia

Nós, gremistas, estamos frustrados, até um pouco revoltados. Por quase um mês, acreditamos na possibilidade do retorno de Ronaldinho ao Grêmio. Mesmo os que mais o xingaram em 2001 estavam dispostos a dar uma segunda chance ao craque, para que ele se redimisse pelo erro de dez anos atrás.

No fim, ele não veio. Os motivos, foram os mesmos de 2001: dinheiro. Dez anos atrás, Ronaldinho foi embora praticamente de graça, depois de várias juras de amor ao Grêmio. Agora, dizia-se que a preferência dele era o Tricolor, mas o dinheiro falou mais alto, e só um cataclisma o impedirá de jogar pelo Flamengo.

Consumada a desistência do Grêmio, obviamente se multiplicaram as manifestações de repúdio ao jogador – sendo que “mercenário” é a palavra mais “carinhosa”. Justíssima crítica, pena que boa parte dos que a fazem não tenha moral alguma para chamarem alguém de “mercenário”.

Isso mesmo. Pois muitos destes “indignados de ocasião”, são daqueles que têm por objetivo de vida o mero “acumular e ostentar bens” (e para isso, é preciso dinheiro!). Ou seja, são aqueles indivíduos extremamente consumistas. A única diferença destes para Ronaldinho, talvez sejam as cifras.

Ou seja, vamos deixar de hipocrisia: se médio-classistas podem ostentar, por que um milionário como Ronaldinho não pode? Aceitemos isso, ou repensemos bem o que andamos fazendo e dizendo por aí – o que, aliás, acho melhor.

————

Pelo que percebo, há uma tendência, igual a 2001, de vilanizar apenas Ronaldinho e seu empresário-irmão Assis. Tanto dez anos atrás como agora eles têm sua parcela de culpa, mas não podemos isentar a direção do Grêmio.

Em 2001 Ronaldinho “saiu de graça” porque o então presidente José Alberto Guerreiro recusou propostas “irrecusáveis” pelo craque – além, é claro, de desvalorizá-lo enquanto principal jogador do time, pagando salários astronômicos (mais que o dobro de Ronaldinho) a “reservas de luxo” como Amato, Astrada e Paulo Nunes. Agora, o próprio presidente Paulo Odone confessou que em nenhum momento conversou com o Milan – ou seja, com o clube que detinha os direitos sobre Ronaldinho! Diz Odone que teria sido orientação de Assis, mas será que o passado já não servira de lição?

E vamos combinar que, para vítima, Odone não serve. Não acredito que ele não soubesse das tais caixas de som no gramado do Olímpico, sexta-feira, a ponto de falar em “demitir o responsável”. Sinceramente, me parece que Odone fez de tudo para “sair bem na foto” – e conseguiu: se Ronaldinho viesse, o presidente seria glorificado por trazer o craque de volta; como ele não veio, Odone detonou Assis, e virou “defensor da dignidade do Grêmio”.

Vítima nisso tudo fomos nós, gremistas, iludidos por todo esse tempo.

O que está acontecendo com parte da juventude?

Não acho a juventude dos dias de hoje “sem noção”, mesmo com a onda de preconceito no Twitter após a eleição (eram jovens destilando ódio). Afinal, generalizar a partir do que alguns racistas disseram, é também ser preconceituoso, é ignorar que há sim muitos jovens que não aceitam a estupidez reinante.

Mas, não podemos negar que há uma tendência ao crescimento do percentual de jovens de classe média (que está em expansão) que não são simplesmente conservadores, mas sim reacionários, raivosos. Que não têm vergonha de expressarem opiniões totalmente preconceituosas (e que eles não acham ser isso, mas sim “a verdade”). Não fazem uma reflexão crítica sobre o que ouvem, o que lêem.

Engana-se quem pensa que eles não são rebeldes, “coisa típica da juventude”. O problema, é que hoje em dia até a rebeldia foi “enquadrada”, virou “produto”, “moda”, como prova uma loja em um centro comercial de Porto Alegre especializada em “rock e cultura alternativa”. Agora é assim: quer ser “alternativo”, vá ao shopping… E, por favor, isso não é culpa dos jovens. Eles não se tornam consumistas “ao natural”, e sim, porque são compelidos a isso. Afinal, praticamente vivem dentro do shopping, ouvem o tempo todo que “a rua é muito perigosa”. É muito difícil resistir a este verdadeiro terrorismo que é praticado pela “grande mídia”.

Além disso, eles refletem um problema sério de nossa época, que é a aparente falta de uma utopia, de um ideal pelo qual lutar, como lembra muito bem o excelente documentário Utopia e Barbárie, de Sílvio Tendler. Tanto que, a quem acha que a vida dos jovens de hoje é melhor por não estarmos mais sob uma ditadura, o meu amigo Diego Rodrigues lembra em um ótimo texto escrito em seu antigo blog Pensamentos do Mal (clique aqui para ler na íntegra):

Os que dizem que a vida dos jovens hoje é mais fácil não têm idéia do que é viver sem causa, numa época que não pensa, que não reflete. Faço parte da juventude mais revolucionária de todos os tempos, mas que não tem inimigo. Não sabemos contra o que lutar. Vivemos na era da descrença: as religiões são uma farsa; a política, uma hipocrisia; e os sonhos, ilusões. Isso é que a juventude pensa, e de forma cada vez mais individualista.

Assim, quais são os principais sonhos de boa parte dos jovens? Ganhar dinheiro, “subir na vida”… Uma luta extremamente solitária, o que fortalece o individualismo e faz com que eles não descubram o quão podem ser revolucionários. Enquanto quem luta por algum ideal se insere num grupo de pessoas com objetivos semelhantes, laços que reforçam a solidariedade e a motivação para seguir sonhando.

No que se tornou a Feira do Livro

Termina hoje a 56ª Feira do Livro de Porto Alegre, sem que eu sequer tenha chegado perto da Praça da Alfândega – o que não acontece desde quando eu era criança.

Contribuíram para isso motivos climáticos, financeiros e também “de espaço”. Gosto mais de ir à Feira quando chove, pois assim fica mais fácil caminhar pelos corredores – que ficam abarrotados em dias de sol. E faltou chuva na Feira esse ano. Na última terça-feira choveu (e foi um temporal), mas só à tarde. Mas de qualquer jeito, mesmo que chovesse todos os dias eu provavelmente não iria à Feira, pois com pouco dinheiro, seria difícil não voltar “zerado” (é difícil resistir a livros). E por fim, mesmo com chuva e carteira recheada, também teria o problema sério de falta de espaço para novos livros na minha estante.

Porém, antes desta primavera seca, sem grana e de estante abarrotada, eu já não vinha mais tendo o mesmo entusiasmo que tinha pela Feira do Livro em anos anteriores. A última vez em que realmente percorri os corredores em busca de livros foi em 2007. Eu cursava uma cadeira sobre mídia na faculdade, e teria de ler “Sobre a televisão”, de Pierre Bourdieu. Como havia retirado o livro na biblioteca da UFRGS e percebido o quanto era bom, decidi comprá-lo na Feira. Devo ter procurado em mais de cem bancas… Já estava praticamente decidido a desistir e ir a uma livraria, quando consegui encontrar o livro. No ano seguinte, em busca de outra obra de Bourdieu (“O poder simbólico”), nem perdi tempo procurando na Feira, e fui direto à livraria.

Aí é que está: para concorrerem com a Feira do Livro, várias livrarias de Porto Alegre também oferecem descontos nesta época. Ou seja, pode-se gastar um pouco menos (os livros apenas ficam menos caros), com direito a ar condicionado (num dia como foi a segunda-feira passada, faz diferença) e a achar as obras que têm menor apelo comercial e por isso não vão para a Feira – onde o mais fácil de se encontrar são os best-sellers.

E foi para criticar a atual mercadologização da literatura que a escritora Telma Scherer apresentou a performance artística “Não alimente o escritor” na Feira do Livro, na última sexta-feira. Apresentação que foi encerrada pela Brigada Militar (aliás, quem chamou a Brigada?). Pouco me interessa que Telma não tivesse autorização ou apresentação prevista na programação da Feira, visto que a Constituição Federal, no artigo 5º, inciso IX, estabelece que “é livre a expressão da atividade intelectual, artística, científica e de comunicação, independentemente de censura ou licença”; sem contar que o espaço em que a Feira acontece é público.

E pior é que não se tratou de um fato isolado: no último dia 16 de outubro, uma apresentação de teatro de rua foi interrompida na esquina da Avenida Borges de Medeiros com a Rua dos Andradas – o ponto da cidade que ironicamente é conhecido como “Esquina Democrática”.