Calado, é um poeta

Foi, sem dúvida alguma, o maior jogador de todos os tempos. Mas como pessoa…

A cada declaração de Pelé, mais admiro Maradona. (E mais concordo com Romário: “O Pelé calado é um poeta.”)

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Balotelli 2 x 0 racismo

Não, caro leitor, não é nada do que deves estar pensando. Sei que a vitória italiana foi por 2 a 1, assim como não seria estúpido de dizer que ser alemão é sinônimo de ser racista (afinal, isso também é preconceito). Os 2 a 0 de Mario Balotelli não foram contra o racismo na Alemanha (que obviamente existe, como sentem bem os turcos que vivem lá), mas sim, contra o que ele sofre na própria Itália.

Prova disso é uma charge publicada no Gazzetta dello Sport, principal jornal esportivo italiano, caracterizando Balotelli como “King Kong”. Sem comentários…

Na Itália existe racismo até mesmo entre italianos. Como prova a rixa entre nortistas e sulistas, com os primeiros tratando os segundos como “inferiores” e mesmo “não-italianos”. Não por acaso, quando Maradona foi jogar no Napoli e foi decisivo para o clube do sul conquistar o título italiano em 1987 e 1990 (derrotando os clubes do norte cujas torcidas reagiram com cânticos e cartazes abertamente racistas), tornou-se um ídolo tão amado que, na semifinal da Copa do Mundo de 1990 entre Itália e Argentina, disputada em Nápoles, os napolitanos ficaram divididos entre torcer para seu país ou para o jogador que representava o anseio dos sulistas em serem melhor tratados pelos nortistas. Com um estádio não tão favorável à Itália, a vitória acabou sendo argentina, nos pênaltis. (Na final entre Argentina e Alemanha, disputada no Estádio Olímpico de Roma poucos dias depois, o norte “se vingou” vaiando intensamente o hino nacional argentino, e Maradona não deixou barato: quando percebeu que aparecia na tela, soltou um perceptível “hijos de puta”.)

Mario Balotelli, então, combina dois fatores que causam ódio nos nortistas: além de ser filho de ganeses, ainda nasceu no sul da Itália (em Palermo, Sicília).

Mas, para o desespero dos racistas, foi Balotelli o jogador que manteve a escrita da Itália jamais perder para a Alemanha em jogos oficiais. Tomara que seja também ele o autor do gol do título italiano na Eurocopa. Será bom demais ver o racismo derrotado duas vezes.

E na Copa, torces para quem?

O Milton Ribeiro escreveu um belo texto no seu blog sobre a Seleção Brasileira e a falta de identificação de muitos brasileiros com o time.

Hoje em dia, basta dar uma olhada nas listas de convocações para perceber que a maior parte dos jogadores que, dizem, “representam o Brasil”, atuam em clubes europeus. É raro alguém ir a um estádio brasileiro e ver, ao vivo, um destes “seus representantes”. Três semanas atrás, naquele Grêmio x Santos, eu vi Robinho, e só – já que Victor não foi convocado para a Copa do Mundo.

E o pior é que nem se pode mais falar isso apenas para se referir aos clubes onde atuam os jogadores da Seleção Brasileira. Nos últimos anos, a CBF simplesmente não marcou mais amistosos por aqui, exceto aquele Brasil x Portugal (6 x 2) jogado em 2008 na reinauguração do Bezerrão, em Brasília (a propósito, por que construir outro estádio “moderno” lá para a Copa de 2014, ao invés de ampliar o já existente?). A Seleção joga onde “pagam mais”: ou seja, mais que um time que representa um país, virou uma “marca”.

E do jeito que vai, não duvidemos que nas Eliminatórias da Copa de 2018 a Seleção mande seus jogos em sua “nova casa”, o Emirates Stadium

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Quanto à pergunta do título: este ano, pelo menos, vejo a Seleção com menos antipatia do que em 2006, quando chegava a sentir nojo (além da baderna, a “grande mídia” insistia naquela porra de “quadrado mágico” que só funcionava na ficção). Assim fica mais fácil torcer por ela – ou não secá-la.

Mas não escondo que acharia muito bacana ver a Copa sendo levantada pelo Uruguai ou por alguma seleção africana. Se não der nenhum deles (o que é mais provável), pode ser a Argentina (por causa do Maradona) ou a Holanda (para reparar uma tripla injustiça, já que a Laranja Mecânica era o melhor time nas Copas de 1974, 1978 e 1998, e não ganhou nenhuma delas).

E tu, leitor ou leitora, torces para quem?

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Atualização (03/06/2010, 02:49): mais um texto interessante sobre “torcer ou não pela Seleção”, lá no Somos todos torcedores.

As Copas que eu vi: Estados Unidos 1994

No ano letivo de 1993, como sempre acontecia, eu ia muito bem em todas as matérias. Na verdade, em quase todas as matérias: minhas notas em Educação Artística é que destoavam do resto. Comecei bem a 5ª série, com 9 no 1º bimestre, mas no 2º bimestre minhas notas começaram a decair – fruto do que considero uma certa implicância da professora, pois só com ela que fui mal, mesmo que jamais tenha desenhado bem – e cheguei ao último bimestre precisando de 6,5 para evitar o vexame de pegar recuperação. Não era uma tarefa das mais difíceis para quem tirava 10 em tudo, é verdade, mas eu não estava acostumado a uma situação daquelas; e além disso já tivera uma nota 6 no segundo bimestre (e 6,5 no terceiro). Mas consegui tirar 7, e obter a média final de 7,1: foi a única vez em todo o tempo de colégio (1989-1999) em que vibrei com uma aprovação (já que as outras nem tinham graça).

O leitor deve estar pensando: “tá, e o que isso tem a ver com futebol?”. A resposta é que pouco depois da notícia, comentei com um colega: “escapei da repescagem!”. Referência à situação vivida pela Argentina, que só se classificou para a Copa do Mundo de 1994 após vencer a Austrália na repescagem entre América do Sul e Oceania. Sinal dos tempos: eu já me interessava por futebol, graças a uma professora de Educação Física (cujo nome infelizmente esqueci) do Colégio Estadual Marechal Floriano Peixoto, que na segunda semana de aulas de 1993 praticamente me obrigou a jogar, pois não queria mais me ver parado – foi o bizarro episódio em que um colega inventou um gol que eu teria marcado no passado, que tenho certeza absoluta de jamais ter feito (lembro de ter marcado pela primeira vez no colégio na 6ª série, foi tão marcante que até o dia eu recordo: 19 de outubro de 1994).

Assim, o Mundial realizado nos Estados Unidos em 1994 não foi uma Copa qualquer, foi A Copa. A primeira que eu, mais que “dar bola”, curti aos montes. Isso após eu voltar a apenas observar meus colegas na Educação Física: no dia 14 de abril eu acordei com uma estranha dor de barriga que não passava, fui à aula de tarde e comecei a me sentir pior; voltei para casa, me deitei, e quando levantei novamente, não conseguia mais caminhar direito e ainda vomitei; minha mãe me levou ao médico e ele de cara deu o diagnóstico: apendicite – e a cirurgia teria de ser feita urgentemente. Uma semana depois, saí do hospital, mas com atestado médico me liberando da Educação Física. Eu queria jogar, mas não podia… Continuar lendo

As Copas que eu vi: Itália 1990

A Copa do Mundo de 1990, realizada na Itália, é a primeira da qual eu tenho lembranças. Mesmo assim, não chegou a ser marcante para mim, visto que na época, mesmo que já com 8 anos de idade, eu não gostava muito de futebol – talvez por sempre ser o último escolhido na hora de montar os times nas aulas de Educação Física. Eu preferia ser “craque” em outras coisas, como em Matemática e Ciências (matéria na qual fui aprovado com média final 10 na 2ª série do 1º grau, que eu cursava naquele ano). Assim, acabei por não dar muita bola para a Copa.

Posso dizer que não perdi muita coisa em matéria de futebol. O Mundial da Itália foi o de menor média de gols por partida até hoje: 2,2 (115 em 52 jogos). O artilheiro foi “da casa”: o italiano Salvatore “Toto” Schillaci, com 6 gols.

Como eu disse, poucas coisas me marcaram desta Copa. Mas, vamos a elas.

Primeiro, a vinheta da RAI que sempre abria as transmissões dos jogos da Copa. Provavelmente a mais bacana dos Mundiais recentes.

Também foi marcante o “Amarelinho”. Aquele bonequinho redondo, de cor amarela, que me fazia sempre querer ver os jogos do Brasil no SBT. Ele reagia de diversas formas aos lances do jogo: vibrava e berrava a cada gol do Brasil, roía as unhas nas horas de sufoco, e chorava quando a Seleção perdia.

No dia 24 de junho de 1990, eu não vi o choro do Amarelinho, pois assistia o jogo pela Bandeirantes. Melhor, quase todo o jogo. Justo na hora do gol da Argentina que eliminou o Brasil nas oitavas-de-final, eu estava fazendo cocô… Então, 20 anos depois, aí está o vídeo (mas claro que eu já vi antes, meu pai gravou aquele jogo) – e reparem que na hora que Luciano do Valle narra o gol, ao fundo o comentarista (cujo nome esqueci) Juarez Soares diz um “puta que pariu”…

O Brasil, de qualquer jeito, não enchia os olhos de ninguém. Numa Copa marcada pelo defensivismo, quem chamou a atenção foi Camarões, que logo de cara surpreendeu a Argentina, campeã de 1986, na partida de abertura.

Com um futebol ofensivo e mais “brasileiro” do que o próprio Brasil, e ainda por cima contando com o veterano craque Roger Milla (jogando muito aos 38 anos), os Leões Indomáveis seguiram surpreendendo, chegando até as quartas-de-final, feito até então inédito para uma seleção da África (que seria igualado por Senegal em 2002). Camarões caiu diante da Inglaterra, mas só na prorrogação – e no tempo normal esteve a 10 minutos da semifinal.

A Copa de 1990 teve a participação do Uruguai, que foi eliminado pela anfitriã Itália nas oitavas-de-final, em partida que assisti com a minha avó, filha de uruguaios. Desde então, a Celeste só jogou uma Copa em 2002, e sem passar da primeira fase.

A taça ficou com a Alemanha Ocidental, que bateu a Argentina (que teve dois jogadores expulsos) na final por 1 a 0, gol marcado por Andreas Brehme em um pênalti que foi, no mínimo, duvidoso.

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Agora, algumas curiosidades sobre a Copa do Mundo de 1990 (não necessariamente ligadas à minha memória):

  • Três seleções fizeram sua estreia em Copas na Itália: Costa Rica, Emirados Árabes e Irlanda;
  • Três também se despediram. A Tchecoslováquia, que se dissolveu em 1º de janeiro de 1993, ainda disputou as eliminatórias para a Copa de 1994 (iniciadas em 1992), mas sem obter classificação. A União Soviética deixou de existir em dezembro de 1991, quando a tabela das eliminatórias para a Copa de 1994 já estava pronta, e foi substituída pela Rússia, considerada “herdeira” da URSS pela FIFA – às outras ex-repúblicas soviéticas não foi dado o mesmo direito. A outra despedida, mas em tom bem mais feliz, foi da Alemanha Ocidental, que durante a Copa “unificou” a torcida em um país que legalmente ainda era dividido; no dia 3 de outubro de 1990 a Alemanha voltou a ser uma só, e a seleção também;
  • O goleiro italiano Walter Zenga estabeleceu um recorde de invencibilidade em Copas, passando 517 minutos sem levar gol. O primeiro foi na semifinal contra a Argentina – justamente o do empate que levou a decisão aos pênaltis, na qual a Itália foi eliminada;
  • A estreante Irlanda conseguiu uma façanha: foi até as quartas-de-final sem vencer nenhum jogo e marcando apenas 2 gols;
  • O grupo F da Copa, formado por Inglaterra, Irlanda, Holanda e Egito, foi um dos piores da história dos Mundiais: em 6 partidas, foram marcados apenas 7 gols. O único jogo que não acabou empatado foi Inglaterra x Egito, vencido pelos ingleses por 1 a 0;
  • Em sua segunda participação em Copas, a Colômbia foi às oitavas-de-final, classificação obtida em um empate no último minuto contra a Alemanha Ocidental. O goleiro colombiano era o folclórico René Higuita, que tinha o hábito de ficar adiantado e, às vezes, sair driblando os atacantes adversários. Mas, foi inventar de fazer isso com o camaronês Roger Milla, na prorrogação… Resultado: Colômbia eliminada, Camarões nas quartas;

  • Na final, o gênio argentino Maradona foi hostilizado pelos torcedores italianos presentes ao Estádio Olímpico de Roma. Além do remorso pela eliminação da Itália diante da Argentina, havia também outro motivo: Maradona era o grande ídolo do Napoli, e também representava o anseio dos italianos do sul de serem ouvidos, depois de tanto tempo sendo desprezados pelos do norte – que, pelo visto, mantinham a mesma atitude. Quando o hino nacional argentino foi executado, os italianos vaiaram, apupos que nitidamente aumentam quando Maradona aparece na tela, e o craque não deixou barato, soltando um perceptível “hijos de puta”.