Adivinhem de quem me lembrei?

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No fim do ano passado, um troglodita de codinome quase igual a um dos que estão na charge do Eugênio Neves, literalmente infestava o meu blog. Foi a partir de um post do próprio Eugênio no Dialógico que decidi cortar as asinhas de gente como o tal “Jubão”: afinal, não é o Cão Uivador – ou os outros blogs de esquerda – que devem ser “democráticos”, e sim, a internet, para que mesmo os direitosos e os colorados “pifados” (que eu também dou uns cortes) possam criar seus blogs. E lá, que escrevam as bobagens que lhes vierem à cabeça.

Tais trogloditas têm um objetivo muito claro: tumultuar a discussão. O debate sobre um assunto importante, acaba sendo esquecido devido à “necessidade” de se responder a uma provocação barata. E ainda por cima, nós, blogueiros de esquerda, acabamos dando espaço para fascistas – justamente o que deveríamos combater!

Portanto, fica o aviso: aqui, esse papo de “pacificação” não cola. Não sei quanto ao Rio Grande do Sul, mas o Cão Uivador não será “pacificado”!

“Ditabranda”: ato foi um sucesso

No sábado pela manhã, foi realizado a partir da iniciativa do Movimento dos Sem-Mídia (MSM) um ato em protesto contra o editorial do jornal Folha de São Paulo do último dia 17 de fevereiro, que chamou a ditadura militar brasileira de “ditabranda”. A manifestação também foi em desagravo aos professores Maria Victoria Benevides e Fábio Konder Comparato, chamados de “cínicos e mentirosos” pelo jornal.

Pelo menos 345 pessoas (de acordo com a lista de presenças do MSM) se reuniram em frente à sede da Folha, no Centro de São Paulo. O próprio jornal cobriu o ato, mas estimou em 300 o número de participantes. Pior foi o número divulgado pela Polícia Militar de São Paulo: 65 (pelo visto eles nem sabem da existência da lista de presenças). Como muitos não assinaram a lista (visto que apenas duas pessoas coletaram assinaturas), provavelmente o número de manifestante superou os 400.

Pode parecer pouco, mas foi um sinal para a “grande” mídia: ela não pode achar que vai dizer o que quiser, posar de “imparcial” e ficar por isso mesmo. Se as empresas de mídia largarem de mão essa balela da “imparcialidade” e assumirem seu lado, merecerão todo o meu aplauso, mesmo que eu discorde de suas opiniões: serão honestos com o leitor.

Quanto a fotos e vídeos, se pode encontrá-los nos blogs Cidadania.com (do Eduardo Guimarães, presidente do MSM) e Dialógico (onde também se encontra diversos links sobre o ato).

Fica aqui registrado o parabéns ao Eduardo Guimarães e ao MSM pelo sucesso do ato!

Documentário: “Criança, a alma do negócio”

Excelente dica achada no Dialógico: o documentário “Criança, a alma do negócio”, dirigido por Estela Renner, trata sobre a publicidade que é dirigida às crianças no Brasil. Abaixo, o trailer:

O texto abaixo foi copiado da página do Instituto Alana:

Por que meu filho sempre me pede um brinquedo novo? Por que minha filha quer mais uma boneca se ela já tem uma caixa cheia de bonecas? Por que meu filho acha que precisa de mais um tênis? Por que eu comprei maquiagem para minha filha se ela só tem cinco anos? Por que meu filho sofre tanto se ele não tem o último modelo de um celular? Por que eu não consigo dizer não? Ele pede, eu compro e mesmo assim meu filho sempre quer mais. De onde vem este desejo constante de consumo?

Este documentário reflete sobre estas questões e mostra como no Brasil a criança se tornou a alma do negócio para a publicidade. A indústria descobriu que é mais fácil convencer uma criança do que umn adulto, então, as crianças são bombardeadas por propagandas que estimulam o consumo e que falam diretamente com elas. O resultado disso é devastador: crianças que, aos cinco anos, já vão à escola totalmente maquiadas e deixaram de brincar de correr por causa de seus saltos altos; que sabem as marcas de todos os celulares mas não sabem o que é uma minhoca; que reconhecem as marcas de todos os salgadinhos mas não sabem os nomes de frutas e legumas. Num jogo desigual e desumano, os anunciantes ficam com o lucro enquanto as crianças arcam com o prejuízo de sua infância encurtada. Contundente, ousado e real este documentário escancara a perplexidade deste cenário, convidando você a refletir sobre seu papel dentro dele e sobre o futuro da infância.

Para baixar o vídeo completo, clique aqui.

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Não só a publicidade “infantil” (ou seja, que anuncia produtos destinados àquele público em específico), como também a publicidade “normal” influencia as crianças.

Muitas crianças conhecem marcas de cerveja por causa daquelas propagandas engraçadinhas, tipo as da tartaruguinha que faz embaixadinhas (veiculadas durante a Copa de 2002), ou com outros bichinhos. Começam a falar de assuntos nada adequados para sua idade, graças à televisão. Cada vez mais vemos crianças que deveriam estar brincando, se transformando em verdadeiros “adultos em miniatura”: trocando de celular até mais de uma vez por ano, meninas com menos de 10 anos maquiadas e calçando salto alto…

E o pior de tudo, é que muitos pais se percebem em uma situação terrível. Não querem fazer todas as vontades dos filhos – para não deixá-los mal-acostumados – mas ao mesmo tempo não têm muito tempo para conviverem com as crianças, devido aos muitos compromissos profissionais. Resultado: a “babá eletrônica” (televisão) acaba tendo mais influência sobre as crianças do que os próprios pais.

Então, elas querem sempre um brinquedo, uma roupa, um tênis novo (um dos meninos mostrados no filme tem em seu armário mais tênis do que eu tive nos últimos 20 anos). E logo que ganhem, querem outro. Por um motivo simples: se não tiverem nada de novo para mostrar por muito tempo, acabam se sentindo excluídas da turminha de amigos. E os pais acabam cedendo ao desejo das crianças.

Chega a parecer “coisa de velho”, mas “no meu tempo” (ou seja, quando eu era criança, e isso nem faz tanto tempo – menos de 20 anos), meu pai e minha mãe não davam tudo o que eu pedia. E quando eu ganhava algum presente, sempre devia dividi-lo com o meu irmão – e de nada adiantava eu protestar. Egoísmo não fez parte da minha educação.

Nova “política de comentários”

O Eugênio Neves escreveu excelente artigo no Dialógico a respeito do genocídio em Gaza e do tratamento que a direita raivosa vem dando ao assunto em seus “pitacos” nos blogs de esquerda – sempre repetindo as mesmas idiotices. Tem um trecho que acho fundamental:

Em nome do que temos que aturar isso??? Da democracia? Tenho uma opinião muito precisa a esse respeito: não são os nossos blogs que tem de ser democráticos. É a democracia e o acesso universal a Internet que precisam ser garantidos! Ali, todos, inclusive os fascistas que nos brindam com suas asquerosas presenças, podem construir os seus blogs e defender as barbaridades que bem entendem.

Sim, porque eles estão reivindicando, raivosamente, o direito de expressar a sua “opinião”, quando essa “opinião” significa, nada mais, nada menos, que defender a “idéia” de que um povo tem o direito de massacrar outro povo!!! Iremos debater ou pactuar com isso? A que ponto chegamos!!!

Nós, que reconhecemos o genocídio na Palestina, temos deixado clara a nossa posição. Mas também precisamos repensar o acesso de determinados indivíduos aos espaços que mantemos na Internet, a custa do nosso esforço pessoal. Ainda mais, se considerarmos que alguns deles são profissionais remunerados para cobrir a rede de blogs de esquerda com suas interferências, a fim de tumultuar os debates relevantes. Quem duvida disso, é só verificar a quantidade de comentários que alguns deles colocam na rede de blogs.

Esse momento é muito sério, pois além da guerra genocida, também se trava uma batalha de informação. Não podemos ficar tergiversando e aguentando essa verdadeira campanha fascista dentro de nossos espaços, só para parecer que somos tolerantes.

Alguém poderá dizer: mas precisamos saber o que essa gente pensa! E eu pergunto: mas ainda não sabemos??? E se precisarmos saber, é só ir nas suas fontes, sem precisar da intermediação desses garotos de recados.

Claro que ler só o que citei não basta: clique aqui para ler o texto na íntegra.

Em novembro, tomado de indignação pela aprovação na Câmara do projeto Pontal do Estaleiro, decidi censurar um direitoso que se identificava como “Jubão”. Claro que o sujeito achava que se eu não queria o Pontal, devia ir embora para Cuba, que Porto Alegre tinha pego “nojo do PT”, entre outras idiotices. Só voltei atrás devido a um pedido do leitor Jorge Nogueira: ele propôs que, cada vez que o “Jubão” aparecesse, detonássemos ele com suas respostas.

Porém, ao contrário do que parece, permitir a expressão de fascistóides não é bom para a democracia. Justamente porque eles não têm o menor apreço por ela. E não é bom para o debate, visto que por mais que respondamos, jamais a discussão com eles terminará.

E tem mais: como gremista, percebo o mesmo em relação a comentários “pifados” de colorados. Não aqueles de bom senso, mas sim, os que procuram desmerecer o título mundial do Grêmio e acham mais importante disputar a Copa Suruba Suruga do que a Libertadores no ano do centenário.

Assim, a partir de agora passarei a me utilizar mais de meu poder “ditatorial”: a moderação de comentários. Serão permitidos comentários discordantes, mas desde que baseados em argumentação racional – ou seja, que ajudem a qualificar o debate. O mesmo vale em relação aos colorados.

Ofensas, besteiras e “pifações” terão como destino a “lata do lixo”, ou seja, o SPAM.

Peço também que usem endereços de e-mail verdadeiros para seus comentários (os fascistas costumam se esconder sob e-mails falsos), já que eu não os divulgarei jamais. Pois, ao contrário dos vikings do vídeo acima, eu não gosto de SPAM, logo não contribuiria com os que espalham esta praga.

Se o leitor acha que as mudanças no Cão são “ataques à liberdade de expressão” e não tem blog, aproveite para criar o seu então. Nada mais democrático do que ele ter o direito a expressar-se em um blog, e a participar de um debate de bom nível em outros blogs.

E para não dizerem que “não avisei”, deixarei o texto com as novas regras para comentários no menu superior do blog, sempre visível.

Por um 2009 utópico

mafalda

A mensagem acima foi enviada pela amiga Cláudia Cardoso, do Dialógico. Considero-a perfeita para a época em que vivemos.

Pois pensar em um 2009 de paz parece difícil, diante da barbárie perpretada pelas forças israelenses na Faixa de Gaza. Prosperidade, depende de qual tipo se quer: se o objetivo é só ganhar dinheiro, isso nunca foi possível para todos, e com a crise será privilégio ainda mais restrito. Amor, é algo cada vez mais em falta. Justiça e igualdade parecem piada. Recompensa pelo esforço, assim como o Guile (irmãozinho da Mafalda), eu nunca vi. Desejos cumpridos, nunca se consegue todos – e na maioria dos casos, não dependem apenas de nós. E um mundo em que se realizem as utopias… Bom, é mais uma utopia.

Então, que tal pelo menos fazermos nossa parte para que tenhamos um pouco de tudo o que citei acima?

Que haja prosperidade não só em termos materiais: tem coisa muito mais importante que dinheiro. O ano de 2008 foi a prova disso para mim, quando conheci pessoas fantásticas, que fazem sua parte na luta por um mundo melhor. Posso dizer que enriqueci muito nesse ano que termina, mesmo sem ganhar muito dinheiro.

Diante da guerra e da injustiça, manifeste seu repúdio, não faça de conta que “não é da sua conta”: hoje é no Oriente Médio; no futuro, quem garante que não será aqui?

Já que o amor está em falta, contribua para que falte menos.

Lute por mais justiça e igualdade.

Tenha desejos, sonhos, mas não esqueça de fazer o necessário para que se tornem realidade.

E, quanto às utopias, passo a palavra para Mario Quintana:

Se as coisas são inatingíveis… ora!
Não é motivo para não querê-las…
Que tristes os caminhos, se não fora
A mágica presença das estrelas!

Um abraço a todos os leitores do Cão Uivador, e feliz 2009!

Dia de Ação dos Blogs: A pobreza em Porto Alegre

Meu post não se diferencia muito dos que hoje foram publicados nos blogs Amigos da Rua Gonçalo de Carvalho e Dialógico, visto que ambos tratam de assuntos semelhantes, embora com abordagens diferentes: a pobreza em Porto Alegre.

Os Amigos da Gonçalo optaram por falar sobre a Vila Chocolatão, uma das mais pobres da capital, que fica bem próxima ao Centro. Há anos se discute sua remoção, porém não o fundamental: como os moradores sobreviverão longe dali? Pois atualmente eles recolhem papel no Centro: levá-los para uma região distante não os privará de seu sustento?

Já no Dialógico foram publicados trechos de uma entrevista coletiva feita por blogueiros com moradores de rua, na tarde do último dia 4 de setembro (para ler a entrevista completa, clique aqui). Falou-se de diversos assuntos, como a criminalização e o preconceito dos quais são vítimas: são vistos como “ladrões”, mesmo que prefiram mil vezes pedir do que roubar para sobreviver.

Provavelmente uma das causas do preconceito do qual são vítimas os pobres em geral de Porto Alegre seja o mito de “cidade sem favelas”, detonado pelo economista Ricardo Martini em uma série de posts em seu blog. Com o uso do Google Earth, ele traçou um “mapa da pobreza em Porto Alegre” que mostrou que a capital gaúcha tem vários núcleos de pobreza espalhados por seu território, porém com uma característica singular: boa parte de nossas favelas são “escondidas”.

Dois ótimos exemplos são as vilas Cruzeiro do Sul e Bom Jesus, das quais todos os porto-alegrenses pelo menos já ouviram falar, mas provavelmente muito poucos já as viram – exceto, é claro, os moradores delas. Afinal, ambas não são “visíveis” pelas pessoas que passam de carro ou ônibus por avenidas movimentadas como Carlos Barbosa, Teresópolis, Nonoai (próximas à Cruzeiro), Protásio Alves e Ipiranga (próximos à Bom Jesus).

Em fevereiro, o meu amigo Diego Rodrigues (que me indicou o blog do Ricardo Martini) esteve no Rio de Janeiro e escreveu a respeito da cidade. O Hélio Paz esteve no Rio em março, mas também já morou lá. Em comum entre ambos, a impressão de que o Rio de Janeiro é uma cidade mais democrática do que Porto Alegre, em que há maior convivência entre classes sociais. Fruto da geografia carioca: com a cidade espremida entre o mar e as montanhas, as favelas encontram-se ao lado de condomínios de luxo.

Porém, como o próprio Hélio escreveu recentemente, a classe média mais consciente e solidária no Rio vive em bairros onde há essa convivência diária com a pobreza, como Copacabana. Na Barra da Tijuca, as pessoas vivem em condomínios fechados: assim como em Porto Alegre, não enxergam a pobreza. E por isso, tanto na Barra quanto em Porto Alegre, em geral são extremamente intolerantes e preconceituosas.

Recordar é viver

Ontem, publiquei na íntegra o artigo do Cristóvão Feil no Diário Gauche, a respeito da “guerra civil esquecida” pela qual Porto Alegre passou de 1989 a 2004 – de acordo com Fogaça, que se diz “pacificador”.

O Feil desafiou os historiadores a buscarem registros da “guerra civil”. Aceitei o desafio e acabo de encontrar alguns. Com ajuda, é verdade: três posts no Dialógico nos mostram bem quem era “pacificador” em 2004. Leia aqui, aqui e aqui.

Um texto que eu gostaria de ter escrito

Em geral não costumo publicar na íntegra textos que não sejam da minha autoria, apenas posto um trecho e sugiro ao leitor que clique no link onde se encontra o texto original na íntegra – ou seja, no blog do autor.

Mas desta vez precisei abrir uma exceção para o artigo do Ayrton Centeno, a respeito da nada empolgante campanha eleitoral de 2008 aqui em Porto Alegre. Recebi por e-mail do meu pai, que por sua vez leu o texto no Dialógico, que cita a primeira publicação do texto no RS Urgente.

O Grande Nada

Ayrton Centeno

Após os primeiros dias de propaganda eleitoral na TV em Porto Alegre, o que emerge da tela é algo que, ao longo da minha não curta vida, nunca havia visto. A começar pela sensação de que não existem mais partidos. Ou talvez haja um só, o do Nadismo. O Nadismo é desmembrado em tendências bastantes sutis: o Nadismo radical e o Nadismo moderado, o Nadismo fisiológico e o Nadismo revolucionário, entre tantas. Nenhuma delas, porém, implica conflito com a outra. Convivem harmonicamente, já que desfraldam idêntico estandarte: a defesa convicta do Grande Nada.

No Partido Nadista, todas as correntes fraternalmente empunham as mesmas propostas: fazer um Porto mais Alegre, realizar o sonho de Porto Alegre, ou afirmar, intrepidamente e não sem um certo grau de temeridade, que amam o pôr-do-sol do Guaíba. E tome-lhe contraluzes do crepúsculo e jingles de uma pieguice que alguém mal humorado diria que soqueiam violentamente o baixo ventre do eleitor.

Outro fenômeno é a ausência completa da política. A política, esta coisa chata que fermenta o nascimento de tantos conflitos foi ejetada ao ostracismo. Presume-se que, antes da deflagração da campanha, os coordenadores dos diversos Nadismos, sabiamente aconselhados pela marquetagem, reuniram-se e decidiram dar um basta nessa história de política. Chega! Onde já se viu aborrecer as pessoas, num momento de civismo e exaltação da cidadania, com discussões tão desconfortáveis como, por exemplo, saber quem e por que apóia o (a) candidato (a) X e como este mesmo (a) candidato (a) se posiciona claramente diante dos problemas concretos, presentes ou futuros da cidade?

Claro que sempre haverá aquele eleitor inconveniente querendo, por exemplo, saber do candidato qual é exatamente, sem papas na língua, sua posição a respeito do estupro imobiliário planejado da orla do Guaíba na zona sul. São aquelas chateações que acabam se refletindo lamentavelmente na redução do aporte tão necessário dos desinteressados recursos empresariais para a produção de campanhas bonitas na TV. É um tipo de extremismo que o Grande Nada não pode tolerar. Discrepâncias, sim, até poderão ser tratadas. Afinal, é preciso contentar a todos e a nenhum. Nada é exatamente igual ao outro. O Nada é Uno mas também é Múltiplo. Há que ter esta flexibilidade.

Para tanto, a TV, de modo tão absorvente, já está proporcionando à atenta cidadania um debate profícuo. Que, claro, está centrado naquilo que os candidatos e seus programas democraticamente nos oferecem: a imagem, a fachada, o lado externo de suas candidaturas.

Será, sem dúvida, impactante discutir se a candidata A tornou-se mais merecedora do sufrágio agora depois da chapinha ou se era melhor antes com os cabelos crespos [1]. Debater, conceitualmente, se o semblante sonâmbulo do candidato B é compatível com sua auto-propalada audácia e se seu ar letárgico, de fato, fomenta a esperança [2]. Ou se a blusinha da candidata C combina, republicanamente, com os seus olhos cor de anil [3]. Avaliar se houve progresso na lavourinha laboriosamente cultivada no topo do crânio pelo candidato D — eu diria que não, mas você, caro (e)leitor, pode dizer que sim, que ela é intensamente produtiva e viçosa, atingindo índices de produtividade enaltecidos até pela Farsul [4]. É seu direito. Ou, por outra, pode concordar comigo, mas responsabilizar a avara resposta da natureza à falta de apoio do Pronaf. Pronto, assim do Nada eis aí o debate instalado. Tão civilizado, tão estimulante, tão cidadão.

Templo do Grande Nada, a RBS ajudou sobremaneira na conversão dos candidatos que, um a um, vieram, genuflexos, queimar incenso no altar de Zero Hora. Um mergulho de profundidade cosmética no cotidiano dos concorrentes do qual emergimos enriquecidos pela informação de que um é papai coruja, que aquele sabe de cor as músicas da Disney, que outro adora cozinhar, que aquela foi obesa [5], que esta borda em ponto cruz, e que há ainda quem expresse sua rebeldia mesmo sem cachos e quem a faça através de brincos. Ufa!

Olívio Dutra sempre repetiu – e repete – aquele bordão que sintetiza boa parte do sentimento e das ações que Porto Alegre vivenciou especialmente nos anos 90. Aquele que afirma que, para construir uma nova e mais justa sociedade, é imprescindível que cada cidadão não seja objeto, mas sim sujeito da política. Sentiam-se e portavam-se como sujeitos, até então, somente os candidatos.

Porém, agora, neste ano da graça de 2008, largada de campanha, os candidatos é que abdicaram de serem sujeitos da política. Sua nova condição é a de objetos. Estão na TV como se estivessem na gôndola dos supermercados. Não têm história. Não porque a perderam, mas porque optaram por sepultá-la. Escolheram serem coisas. São produtos práticos e versáteis, adaptáveis a qualquer gosto ou ambiente. Desconstróem-se num palco de ilusões de olho no teleprompter dizendo um texto em que só eles acreditam (Acreditam?). Não parecem de carne e osso. Aparentam hologramas cambiantes e fugidios, projetados desde um passado longínquo e impreciso, repetindo palavras ocas que se desmancham no ar.

Quem é de esquerda apresenta uma narrativa – que carrega tanto de Nadismo quanto de ambição — sonhando cabalar o voto não apenas do eleitor de centro sempre oscilante, mas até da direita. Esta, por sua parte, lança, além do centro do tabuleiro, piscadelas para o eleitor de esquerda. A conseqüência deste discurso aguado do qual a política foi exilada só poderia ser a superfluidade. Parte de nenhum lugar para lugar algum. A diferença é que a direita está na sua: este é o mundo que pedra por pedra levanta a cada dia. É o que temos. E o que nos esmaga. À esquerda caberia questioná-lo, expor a sua estreiteza, as suas contradições, a sua insuficiência e as suas vastas iniqüidades. Mas isto só se faz fazendo campanha além da epiderme. E quem faz isso são homens e mulheres, pessoas com história, com partido, com política e com diversas e divergentes visões da vida e do mundo. Não é uma tarefa para espectros.

OBSERVAÇÕES:
[1] Luciana Genro (Dep. Fed. PSOL/RS)
[2] José Fogaça (PMDB, atual prefeito)
[3] Mª do Rosário (Dep. Fed. PT/RS)
[4] Onyx Lorenzoni (Dep. Fed. DEM/RS)
[5] Manuela D’Ávila (Dep. Fed. PCdoB/RS)

Nosso encontro com o MST (24 de julho de 2008)

A reforma agrária só vai acontecer se o latifúndio quiser

Quinta-feira, 24 de julho, 13h. Depois de dois dias e meio de marcha, mais de 600 integrantes do MST chegavam à sede do INCRA, em Porto Alegre, para reivindicar o atendimento de um acordo que prevê assentar duas mil famílias no Rio Grande do Sul ainda este ano. O primeiro prazo, de assentar mil famílias até abril, não foi cumprido.

A marcha começou cedo, antes das 7h. A alvorada no ginásio da Federação dos Metalúrgicos de Canoas foi às 4h. No meio da manhã, quando entravam em Porto Alegre, os trabalhadores foram recebidos por um enorme contingente, fortemente armado, da Brigada Militar. Todos foram revistados, muitos colocados contra a parede, seus pertences vasculhados, mesmo que se soubesse que nada “perigoso” seria encontrado, como não foi.

Quando a marcha foi interrompida pela polícia, os jornalistas das grandes empresas de comunicação estavam lá para captar que os sem terra seriam abordados como potenciais criminosos. Nas notícias que escreveram depois não estranharam isso. Pareceu-lhes justo ou normal. O que suas imagens e textos nunca registram é que esses trabalhadores organizados, homens e mulheres humildes, são humilhados pelas forças de segurança. São oprimidos. O noticiário os confunde (e é impossível acreditar que faça isso inocentemente) com pessoas oportunistas e violentas, mesmo quando são vítimas do oportunismo do sistema e da violência de estado.

As iniciativas do jornalismo independente, sejam elas tocadas por jornalistas formados ou não, acabam sendo, quase sempre, os únicos espaços em que movimentos sociais que contestam a estrutura e a lógica do sistema possam expor suas verdades.

Naquele dia, enquanto a mídia corporativa selecionava uma ou outra declaração oficial recolhida às pressas, preparando as informações que iriam novamente envenenar a opinião da população contra um movimento popular legítimo; no momento em que o superintendente Mozart Dietrich explicava a dezenas de integrantes do MST, no auditório do oitavo andar do INCRA, que está tentando adquirir áreas para assentamentos, mas que não pode divulgá-las nem para o próprio Movimento, com receio de que a informação chegue aos latifundiários e que eles estraguem as negociações, pressionando os fazendeiros a não vender as terras, como já fizeram antes, duas jovens lideranças do MST estadual participavam, por uma hora e meia, de uma espécie de entrevista coletiva informal concedida a seis blogs gaúchos. Uma conversa franca, aberta, reveladora. Dessas que nunca chega à população pelas páginas dos grandes jornais e revistas.

Contraditoriamente ou não, foi numa sala cedida pelo Sindicato dos Jornalistas, no centro da cidade, que encontramos Gilson, filho de assentados, 23 anos de idade e desde os quatro vivendo em acampamentos e assentamentos e Cristiane, também filha de assentados e há dois anos acampada em Tupanciretã, formada em curso técnico agropecuário com habilitação em agroecologia numa escola do Movimento, ambos integrantes do setor de frente de massa do MST. Continuar lendo