Água, fonte de lucro?

É o que pensam as grandes corporações – para elas, a água não tem de ser um bem natural, e sim, apenas uma mercadoria.

E não pensem que isso é tão surreal. Já aconteceu em Cochabamba, na Bolívia, quando os serviços municipais de abastecimento de água foram privatizados. Chegou-se ao absurdo de proibir as pessoas de coletarem água da chuva, já que ela também era considerada “propriedade privada” (ué, cadê a “democracia” que os privatistas tanto defendem?). O povo se mobilizou contra tamanho autoritarismo entre janeiro e abril de 2000, no episódio que ficou conhecido como “Guerra da Água”. E no fim, conseguiu reverter a situação.

Foi uma vitória importante, mas apenas em uma batalha. Pois com a tendência da água potável tornar-se mais escassa devido à poluição, crescerá o risco dela ser vista com olho grande pelas grandes corporações. Sem contar as prováveis guerras por água no futuro, assim como hoje vemos pelo petróleo.

Aliás, tudo isso é de especial motivo de preocupação para nós, já que aqui na América do Sul encontra-se a maior reserva subterrânea de água doce do mundo, o Aquífero Guarani – cuja maior parte fica em território brasileiro.

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Esta foi minha contribuição para o Dia de Ação dos Blogs 2010 – era para ter sido postado ontem, mas…

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Correção (16/10/2010, 19:18): O leitor Marcos Correa (ao qual agradeço) deixou comentário com a informação de que o maior aquífero é o Alter do Chão, na Amazônia, que tem quase o dobro de volume d’água em relação ao Guarani.

Uma catástrofe, mas que pode dar lucro

bad2009

Li hoje no Correio do Povo uma pequena notinha acerca de uma pesquisa realizada sobre a situação do degelo no Ártico durante os verões do hemisfério norte. De acordo com a minúscula notícia (por que será?), poderá acontecer, num prazo de 10 anos, do Pólo Norte ser mar aberto durante o verão.

Ruim? Para o planeta, sim. Mas para quem só pensa em lucrar cada vez mais, não. Há quem veja com bons olhos o pouco gelo no Ártico durante o verão, devido à chamada “passagem noroeste”, rota marítima entre o Atlântico e o Pacífico ao norte da América: com o maior – ou total – derretimento da calota polar, seria possível navegar por lá, e assim gastar menos tempo para se chegar da Europa Ocidental e leste da América do Norte ao Extremo Oriente.

O derretimento do gelo ártico também atiça a cobiça pelo petróleo que dizem existir aos montes na região: países banhados pelo Oceano Ártico – no caso, Estados Unidos, Canadá, Dinamarca, Islândia, Noruega e Rússia – já tratam de “estabelecer suas fronteiras” no mar polar, para reivindicarem jazidas de petróleo como sendo “suas”.

Ou seja: ao invés de tomarem medidas para tentarem reverter – ou pelo menos amenizar – as consequências catastróficas que o degelo trará, o genial ser humano prefere descobrir possibilidades de lucrar mais. Como se pudesse levar o dinheiro para o caixão. Isso se o mar não subir demais, matando-o afogado – e o dinheiro serviria para alguma coisa?

Pois reparem que as metas para redução da emissão de gases nunca são para já. Sempre se estabelecem lomgos prazos, e para reduzir pouco. “Não podemos ter prejuízo por causa da ecologia” – tá, cara pálida, e do que vai adiantar não perder dinheiro, mas morrer de calor, afogado ou asfixiado por um ar irrespirável?

E ainda há a balela dos tais “créditos de carbono”, que significam nada mais do que “pagar para poluir”. Adianta o quê? Paga um pouquinho e mantém os lucros, sem precisar pensar em agredir menos o planeta.

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Sinceramente, com tanta gente tapada que não enxerga essas coisas e não aceita mudar alguns hábitos – como, por exemplo, de ir trabalhar usando o carro, mesmo que seja um deslocamento curto e feito solitariamente – às vezes chego a pensar que é melhor deixar a humanidade ser extinta mesmo, então que estraguem o planeta até não poder mais. Porém, os outros animais não têm culpa disso.

Então, se a humanidade não for motivação suficiente para agir contra tudo isso, que façamos pelos outros animais. Eles não merecem uma extinção tão estúpida.

Dia de Ação dos Blogs: A pobreza em Porto Alegre

Meu post não se diferencia muito dos que hoje foram publicados nos blogs Amigos da Rua Gonçalo de Carvalho e Dialógico, visto que ambos tratam de assuntos semelhantes, embora com abordagens diferentes: a pobreza em Porto Alegre.

Os Amigos da Gonçalo optaram por falar sobre a Vila Chocolatão, uma das mais pobres da capital, que fica bem próxima ao Centro. Há anos se discute sua remoção, porém não o fundamental: como os moradores sobreviverão longe dali? Pois atualmente eles recolhem papel no Centro: levá-los para uma região distante não os privará de seu sustento?

Já no Dialógico foram publicados trechos de uma entrevista coletiva feita por blogueiros com moradores de rua, na tarde do último dia 4 de setembro (para ler a entrevista completa, clique aqui). Falou-se de diversos assuntos, como a criminalização e o preconceito dos quais são vítimas: são vistos como “ladrões”, mesmo que prefiram mil vezes pedir do que roubar para sobreviver.

Provavelmente uma das causas do preconceito do qual são vítimas os pobres em geral de Porto Alegre seja o mito de “cidade sem favelas”, detonado pelo economista Ricardo Martini em uma série de posts em seu blog. Com o uso do Google Earth, ele traçou um “mapa da pobreza em Porto Alegre” que mostrou que a capital gaúcha tem vários núcleos de pobreza espalhados por seu território, porém com uma característica singular: boa parte de nossas favelas são “escondidas”.

Dois ótimos exemplos são as vilas Cruzeiro do Sul e Bom Jesus, das quais todos os porto-alegrenses pelo menos já ouviram falar, mas provavelmente muito poucos já as viram – exceto, é claro, os moradores delas. Afinal, ambas não são “visíveis” pelas pessoas que passam de carro ou ônibus por avenidas movimentadas como Carlos Barbosa, Teresópolis, Nonoai (próximas à Cruzeiro), Protásio Alves e Ipiranga (próximos à Bom Jesus).

Em fevereiro, o meu amigo Diego Rodrigues (que me indicou o blog do Ricardo Martini) esteve no Rio de Janeiro e escreveu a respeito da cidade. O Hélio Paz esteve no Rio em março, mas também já morou lá. Em comum entre ambos, a impressão de que o Rio de Janeiro é uma cidade mais democrática do que Porto Alegre, em que há maior convivência entre classes sociais. Fruto da geografia carioca: com a cidade espremida entre o mar e as montanhas, as favelas encontram-se ao lado de condomínios de luxo.

Porém, como o próprio Hélio escreveu recentemente, a classe média mais consciente e solidária no Rio vive em bairros onde há essa convivência diária com a pobreza, como Copacabana. Na Barra da Tijuca, as pessoas vivem em condomínios fechados: assim como em Porto Alegre, não enxergam a pobreza. E por isso, tanto na Barra quanto em Porto Alegre, em geral são extremamente intolerantes e preconceituosas.