Politizados?

Por muito tempo o Rio Grande do Sul teve a fama de “estado mais politizado do Brasil”. Aqui a política teria caráter mais ideológico e menos fisiológico do que em outras regiões.

Antigamente isso até podia fazer algum sentido. Em “O regionalismo gaúcho e as origens da Revolução de 1930”, o historiador estadunidense Joseph Love trata sobre tal aspecto da política sulina no início do Século XX – época em que famílias chegavam a “rachar” por divergências políticas (ou seja, não “valia tudo” para defender os interesses da parentada).

Só que por conta deste passado, instaurou-se um mito: o do “povo politizado”. Ajudou muito nisso o fato de que o Rio Grande do Sul teve importante papel na política nacional em duas oportunidades no Século XX: além da citada Revolução de 1930, isso também se deu na chamada Campanha da Legalidade em 1961 (porém, vale lembrar que também construiu-se um mito acerca desse evento, o de que o Rio Grande do Sul “resistiu sozinho”, quando na verdade a resistência aconteceu em várias partes do Brasil).

Ainda há quem acredite nessa balela, por incrível que pareça. Acham que aqui – e somente aqui – se discute política em bom nível. Porém, a verdade é dolorosa: o nível da discussão política no Brasil está sofrível em todos os cantos do país. Inclusive aqui.

Duvida disso? É só acessar portais de notícias como ClicRBS ou Correio do Povo, abrir uma matéria e ir para os comentários. (Não recomendo que se faça muito isso, sob pena de perder a sanidade mental, mas vez que outra é uma experiência válida para se ter ideia do nível de bestialidade a que pode chegar o ser humano.)

Pois é: os nossos “comentaristas de portal” não são menos estúpidos que os do restante do Brasil. Aqui também tem muito “petralha x coxinha”, se diz que tudo é “culpa da Dilma”, se vota em qualquer um só porque é “contra o PT”…

Aliás, não é por acaso que o Rio Grande do Sul, de modo geral, vem andando para trás: a partir de 1986 o nosso eleitorado adquiriu o hábito de não reeleger nenhum governo. Das duas, uma: ou escolhe mal sempre, quatro anos depois resolve “consertar o erro” e acaba cometendo nova “cagada”; ou, mais provável, faz oposição por oposição, mesmo que isso signifique não dar continuidade a governos que fazem por merecê-la. Só que ambas as hipóteses são sinais de que já passa da hora de parar com essa história de “povo politizado”. Não cola mais.