Carta Aberta do Movimento pela Abertura dos Arquivos da Ditadura à Governadora Yeda Crusius

Exma. Sra. Governadora do Estado do Rio Grande do Sul,

Yeda Crusius


O Movimento Pela Abertura dos Arquivos da Ditadura toma a iniciativa de escrever-lhe esta carta, em referência ao cartaz que a senhora escreveu ontem pela manhã, dia 16 de julho de 2009, e apresentou aos fotógrafos de órgãos de imprensa de todo o país. A sua declaração, de que aquelas pessoas que ali estavam não eram professores, mas “torturadores”, atinge não somente aqueles professores, que estão em seu pleno direito de reivindicar melhores salários e condições de trabalho, mas também todos os cidadãos brasileiros, vítimas diretas ou indiretas dos crimes cometidos por torturadores ao longo da história do Brasil. A utilização deste termo é uma prova da total falta de conhecimento histórico da senhora, e mais: um grande desrespeito à memória do país, que recentemente passou por um período de ditadura, não só militar, mas com contribuição de muitos civis, muitos hoje acusados de terem, esses sim, torturado pessoas. Com sua declaração, a senhora ignorou totalmente a carga histórica que o conceito de “torturador” carrega. A senhora já ouviu o depoimento de alguém que tenha sofrido, verdadeiramente, uma tortura? Estas pessoas merecem o nosso respeito, o que não observamos na sua atitude.

Isso corrobora para o que estamos chamando atenção há tempos: a utilização inadequeada de adjetivos, sem conhecer seu teor histórico, sem valor explicativo, e usado de forma pejorativa e impune. Isso acontece, também, com o conceito de “terrorista”, que é utilizado para a luta armada brasileira, mas nunca atribuído às ações do aparato repressivo do Estado – ainda não desmontado, julgado e condenado – e com grupos para-militares, como o CCC, sigla que ainda hoje circula na sociedade brasileira, e é lembrada como o grande grupo que combatia o comunismo, sem saber de fato o que aquele grupo fez no Brasil.

A sua atitude se assemelha à dos torturadores e repressores, na medida em que, assim como as balas, as palavras ferem, e vêm justamente do lugar que deveria tomar conta de todos os cidadãos, independente de posicionamento político: o Estado. A senhora comparou uma classe trabalhadora, que exercia um direito que fora suprimido por mais de 20 anos, àqueles responsáveis pela supressão do mesmo. Comparou-os a pessoas que cometeram crimes, e que estão por aí, impunes. Isto, senhora governadora, é considerado calúnia, segundo as leis do Estado que a senhora representa.

A senhora sentiu-se intimidada pela manifestação que impediu o direito de ir e vir de seus netos. A senhora sabe que durante os anos 1960, 1970 e 1980, vigoraram no Cone Sul ditaduras civil-militares que sequestraram, torturaram, desapareceram, mataram e apropriaram-se de crianças? Na Argentina, por exemplo, há mais de 500 crianças desaparecidas. Apenas 91 tiveram sua identidade restituída. A senhora sabe como isto foi feito? Através de lutas, confrontos, manifestações, como esta, que se realizava em frente a sua residência.

Seus netos, senhora governadora, provalvemente não saibam o estado em que se encontra a educação pública no Rio Grande do Sul, pois devem frequentar os melhores e mais caros colégios em Porto Alegre. Seus netos não devem fazer idéia do que seja passar trimestres, às vezes anos, sem uma disciplina, por falta de professor; ou estudarem em turmas com 50 alunos, por causa do enturmamento promovido pela senhora; ou enfrentarem as condições precárias em que se encontram muitas escolas; ou não possuírem uma boa educação por falta de recursos; ou encontrarem professores desmotivados pela miséria que é paga todos os meses. Estes sim, são torturados.

Senhora governadora, por todos esses motivos expostos nós, do Movimento Pela Abertura dos Arquivos da Ditadura, escrevemos esta carta com o objetivo de solicitar uma retratação pública da senhora, em frente às câmeras de televisão, para com todos os cidadãos brasileiros, que de uma forma ou de outra, sabem exatamente o que signifca o termo “torturado”. Pedimos que a senhora tome essa atitude, em nome de todas as verdadeiras vítimas de crimes de tortura cometidos no Brasil, seja durante a ditadura civil-militar, seja ainda hoje em dia, pelo Estado.

Esta carta seguirá com cópia para órgãos de imprensa e endereços eletrônicos que quiserem publicá-la.


Assinado: MOVIMENTO PELA ABERTURA DOS ARQUIVOS DA DITADURA-RS

Porto Alegre, 17 de julho de 2009

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Manifestação na casa da (des)governadora

Yeda disse aos professores “As minhas crianças têm aula”, para justificar o fato de chamar a Brigada Militar para conter o protesto em frente à casa dela, quando os netos dela iriam à escola.

E eu pergunto à (des)governadora: A aula delas é num contêiner?

Outro aniversário

Ontem, completaram-se três anos do tombamento da Gonçalo de Carvalho. Já hoje, 6 de junho, faz um ano

Mas, a situação continua praticamente a mesma. CPI no Rio Grande do Sul, nem pensar, diz Pedro Simon, “paladino da ética e da moral na política”. Mas em Brasília ele quer… Quanta coerência!

ZH em “cruzada” contra o MST

Tive a mesma impressão do Marco Weissheimer ao ler rapidamente a Zero Hora da quinta-feira.

Em conjunto com o (des)governo Yeda, o procurador Gilberto Thums, do MP-RS, determinou em fevereiro o fechamento das escolas itinerantes do MST, responsáveis pela educação dos filhos dos sem-terra independentemente de onde se localizem. Porém, recuou da decisão, alegando “pressões”. Não seria constrangimento por ter ficado frente a frente com crianças sem aula devido à sua ordem?

A Zero Hora, claro, não perdeu mais uma oportunidade de criminalizar o MST. O que fica claro com os títulos das matérias: “Procurador denuncia pressões e abandona ações contra o MST” (capa), “A desistência do homem que enfrentava o MST”, “Como o MST tramou a reação” e “Gilberto Thums jogou a toalha em sua cruzada contra o MST”.

Se isso não tem o objetivo de “santificar” Thums e criminalizar o MST, eu sou o Coelhinho da Páscoa (e não levarei nenhum ovinho aos direitosos).

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O episódio Yeda/MP x MST mostra muito bem a prioridade que esse (des)governo dá à educação. Enquanto fecha escolas – tanto itinerantes do MST como fixas – e aloja crianças em contêineres para terem aulas, vê como solução para a superlotação de presídios a transformação de escolas fechadas em cadeias!

Bem típico de políticos que tratam a questão social como caso de polícia: se investissem mais em educação, não seriam necessárias mais cadeias.

Living La Vida Loca

Está muito certo o Kayser. Para um (des)governo tão craque em proporcionar acontecimentos inusitados, uma charge é pouco para cada fato. Então, ele decidiu produzir uma série em quadrinhos sobre a nossa (des)governadora!

Abaixo, as duas primeiras historinhas:

yeda_tira01

yeda_tira02

Aliás, em conversa com o meu pai, ontem, comentávamos sobre o monte de escândalos e fatos envolvendo o (des)governo ocorridos desde 1º de janeiro de 2007. A Yeda começou muito bem: depois de sofrer uma derrota política antes mesmo de assumir (rejeição do “tarifaço” apoiado por ela, no apagar das luzes de 2006), após tomar posse foi à sacada do Palácio Piratini e pendurou a bandeira do Rio Grande do Sul… De cabeça para baixo.

rs-de-pernas-pro-ar

E também não é a toa que dizem que a Yeda é pé-frio. Quando ela foi ao Olímpico o Grêmio perdeu, e quando esteve na Paraíba, pouco depois o governador Cássio Cunha Lima (PSDB) foi cassado. E ela também briga com todo mundo em seu (des)governo.

Esses dias li em um comentário de um blog (não lembro se era o Diário Gauche ou o RS Urgente) que no Rio Grande do Sul, de tédio não se morre. Concordo.

Teremos a reeleição de uma nulidade?

Quem disse isso não é “petista”, e sim o Rodrigo Alvares, do blog A Nova Corja:

Não sou a favor de ninguém, mas vocês vão mesmo reeleger essa nulidade como prefeito da capital bovina, apesar de toda a catrefa que está ao lado dele? Deviam se adiantar e votar antecipadamente pela reeleição da desgovernada, para adiantar a castração.