Quem quer o progresso da pesquisa científica no Brasil NÃO VOTA EM JOSÉ SERRA!

Já faz tempo que declarei voto em Plínio de Arruda Sampaio para presidente. O que não quer dizer que eu rejeite a candidatura de Dilma Rousseff: tem muita coisa feita pelo governo Lula (do qual Dilma representa a continuidade) que eu concordo; mas também tem outras que discordo totalmente (leia mais).

Agora, em quem eu não voto nem que a vaca tussa é José Serra (do PSDB, partido de Yeda Crusius). Afinal, sua candidatura representa o que existe de mais atrasado na política nacional: como considerar um governo integrado pelo DEM como “avanço”? Sem contar que não quero, de jeito nenhum, a volta dos tempos em que qualquer denúncia de corrupção no governo sequer era investigada: as CPIs eram barradas pela maioria parlamentar governista, a “grande mídia” não “testava hipóteses” à exaustão como hoje, e se as denúncias eram enviadas ao Procurador-Geral da República, eram majoritariamente arquivadas (o que rendeu ao PGR o apelido de “engavetador geral da República”).

Eu também não quero um Brasil que não dê incentivo à pesquisa científica, em todas as áreas do conhecimento. Pois é algo que está acontecendo em São Paulo, Estado governado por Serra até o final de março: enquanto sobram bolsas de mestrado na Computação, elas são limitadas para os que desejam fazer pesquisas na área de Ciências Humanas – o que deixou a Mari Moscou sem financiamento para seu mestrado em Sociologia da Educação, mesmo que o projeto dela tenha sido considerado merecedor de uma bolsa.

A visão de mundo que a candidatura Serra representa é aquela de que “Ciências Humanas não servem para nada”, e que por isso o incentivo deve ser dado ao que interessa ao tal do “mercado”. Os motivos são óbvios: com mais incentivo à produção de conhecimento em História, Sociologia, Antropologia, Educação etc., aumentaria muito a chance desse pessoal não ganhar mais nem eleição para síndico dos condomínios fechados em que moram.

Financiar o mestrado ou o doutorado de alguém não é “pagar para vagabundo não trabalhar”: só tendo uma mentalidade muito tacanha para se pensar assim, visto que a pesquisa acadêmica é, sim, muito trabalhosa, e se o mestrando ou o doutorando puder se dedicar a ela integralmente, sem precisar trabalhar com outra coisa para se sustentar, os resultados virão muito mais rápido (a propósito, não é isso, a rapidez, que o capitalismo tanto valoriza?). E tem prazo: o mestrando tem dois anos para defender sua dissertação, e o doutorando quatro para sua tese – quem não cumpre o prazo, é obrigado a devolver o dinheiro investido em sua formação.

Sou favorável, inclusive, a que todo aluno de mestrado ou doutorado tenha direito a uma bolsa. Com exceção, claro, ao que tiver emprego fixo, por motivos óbvios: este não poderá se dedicar integralmente à pesquisa. Algum direitoso dirá que “muita gente irá deixar de trabalhar por causa disso, que nem acontece com o Bolsa Família”, e isso certamente acontecerá, por um motivo muito óbvio: salário baixo demais, inferior ao que receberia se dedicando apenas ao mestrado ou ao doutorado; ou até nem tão baixo, mas que não compensa o cansaço de precisar trabalhar e ainda pesquisar para seu curso (se for na área de História, então, a coisa complica muito, já que a maioria dos arquivos não abre nem à noite, nem aos finais de semana).

Com mais incentivo à educação e à pesquisa científica em todas as áreas, ganhará (e muito) o Brasil, que terá mais gente produzindo conhecimento, que estará a disposição de uma sociedade mais preparada para ter acesso a ele (afinal, não pensem que é tão simples ler e entender um texto acadêmico – falo por experiência própria). É isso – e não o número de carros vendidos – que faz um país ser mais desenvolvido.

Só perderá quem paga baixos salários, e claro, os políticos defensores do atraso, que para eles é bom por ser sinônimo de “poder”.

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Como reconhecer um direitoso

Esses dias, eu conversava com o amigo que citei naquele post em outubro, escrito um dia após o primeiro turno da eleição municipal. Lembrávamos de um fato cômico acontecido quando iríamos a um comício do PT em 2000, e não perdi a oportunidade de alfinetar: “pra ver como o tempo passa, naquela época tu era de esquerda, e hoje é de direita”. Ele respondeu: “não, eu era louco, hoje sou realista”.

Nada mais típico da direita do que isso. Pois reparem se existe algum partido forte e declaradamente de direita no Brasil. A resposta é não, e é válida mesmo considerando a mídia como um partido de direita, já que ela também não assume sua posição.

Em relação a pessoas, conheço apenas uma que se declara de direita. Que, obviamente, não é o amigo que citei, “realista”.

Porém, não dá para colocar toda a direita no mesmo saco. Existem dois tipos, conforme definiu um professor da faculdade com um exemplo bem simples: o conservador, se assaltado entrega os anéis para não perder (ou seja, para conservar) os dedos; já o direitoso (direitista raivoso) ou reacionário não aceita de jeito nenhum entregar os anéis, “frutos de muito trabalho duro” (mesmo que não sejam), e por isso acaba perdendo os dedos.

Ou seja, o conservador usa a cabeça e sabe os momentos de ceder, enquanto o direitoso não. Para citar dois exemplos: o primeiro é o meu amigo de direita, o segundo é o “realista”.

Mas só tal distinção não ajuda a reconhecer um direitoso. Ele tem mais características. Vamos a elas.

  • O direitoso é sempre a favor do “progresso”, como avenidas largas, viadutos e arranha-céus. Quem prefere um desenvolvimento sustentável, como ciclovias, transporte coletivo de qualidade e parques públicos, é “retrógrado” ou “ecochato”;
  • A famosa idéia de que “o trabalho dignifica o homem” norteia a vida do direitoso: nada é mais importante para ele do que trabalhar para melhorar a vida (dele, é claro). Quem recebe bolsa-família ou assemelhados é “vagabundo que não quer trabalhar”, mesmo que muita gente tenha voluntariamente deixado de receber o auxílio no momento em que passou a não mais necessitar dele para sobreviver;
  • Mas quem enriquece ganhando (diga-se jogando) na Bolsa de Valores não é “vagabundo” na visão do direitoso, mesmo que ganhe milhões sem fazer algo que possa ser chamado “trabalho”;
  • O direitoso, claro, é favorável à legalização da pena de morte. Afinal, quem rouba não o faz por viver na miséria e ao mesmo tempo ser estimulado pela mídia a querer ter o que os abastados têm, mas sim porque é “vagabundo que não aproveita oportunidades”. Logo, tem que morrer;
  • Mas, se a pena capital é aplicada em Cuba, o direitoso acha uma barbaridade e enche o saco de todos seus amigos e conhecidos que sejam de esquerda (em tempo: eu sou contra a pena de morte em qualquer lugar do mundo);
  • “Direitos humanos”, para o direitoso, é “defender bandido” (o que me faz lembrar de três postagens recentes do Valter: aqui, aqui e aqui);
  • O direitoso defende a ordem acima de tudo. Mesmo que seja absurdamente injusta e corrupta: em conflitos como ruralistas x MST e (des)governo Yeda x movimentos sociais, o reaça sempre é a favor dos primeiros;
  • Uma opinião implícita na mídia corporativa tem a incrível capacidade de, uma vez lida, ouvida ou assistida pelo direitoso, tornar-se opinião explícita dele;
  • O direitoso odeia o PT, esteja onde estiver e como estiver (ele ou o PT). Considera o partido como “bando de ladrões”, mesmo que haja partidos mais corruptos. Provavelmente tenha sido petista apaixonado no passado, mas desiludido com erros do partido no governo, tenha passado a acreditar que mudanças não são possíveis (como se “ser de esquerda” fosse sinônimo de “ser petista”), assim passando à extrema-direita: meu amigo “realista” se encaixa neste caso. Como diz aquele velho ditado, “o pior reacionário é o esquerdista recalcado”;
  • Em geral, o direitoso não admite que é de direita. Mais: diz que essa divisão “direita e esquerda” é ultrapassada, coisa de “radical”;
  • “Radical”, diga-se de passagem, é a pessoa de esquerda na visão do direitoso – pouco importa se de centro-esquerda ou de extrema-esquerda. Bom, de certo modo ele está certo: “radical” é quem ataca o problema pela raiz. Porém, o direitoso não imagina que, errando, acaba acertando… Na verdade, ele nem quer saber: acha que está certo, e que quem não concorda com ele é “radical”.

Como os direitosos acham que os certos são eles e eu sou “radical” (no sentido errado da palavra), termino minha parte na “teoria do direitoso modelo” por aqui, passo a palavra aos leitores. Espero que os próprios direitosos me ajudem a aperfeiçoá-la.

Mas, claro, quem é de esquerda também pode comentar. Qualquer opinião é bem-vinda.