Ainda querem que Porto Alegre vire Dubai?

Mês passado, quando eu viajava ao litoral gaúcho, vi uma placa anunciando um condomínio fechado (que aos poucos vão tomar conta das praias) cujo nome era “Dubai”. A página do empreendimento não podia ser mais significativa: “Eu quero Dubai”.

Em outubro de 2008, a Cristina Rodrigues publicou em seu blog Interpretando um post com o título “A mentalidade Dubai”, que vale muito a pena ser lido (faça isso clicando aqui). O texto faz uma comparação entre Dubai, com obras faraônicas como um prédio com a altura absurda de mais de 800 metros (para ter uma idéia, isso é mais alto que o Morro do Corcovado, no Rio de Janeiro), e Porto Alegre, onde muitas pessoas são fascinadas pelo modelo de Dubai.

O fascínio obviamente se deve à idéia de que aquilo é “progresso”. Em menos de 50 anos, Dubai deixou de ser apenas um pequeno emirado para se tornar uma metrópole, a maior dos Emirados Árabes Unidos. Pouco importa que o idioma árabe venha sendo deixado de lado e substituído pelo inglês – devido aos negócios – e que cada vez menos as pessoas se conheçam mesmo que vivam próximas (qualquer semelhança com Porto Alegre é mera coincidência?).

Pois é… Mas veio a crise, e Dubai não ficou imune à ela. O colapso econômico gera desemprego e protestos, como se vê no vídeo abaixo.

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“O Corte”, de Costa-Gavras

Assisti na tarde de segunda-feira ao filme “O Corte”, de Constantin Costa-Gavras. É a história de Bruno Davert (interpretado por José Garcia), um típico pai de classe média na França, que era executivo de uma fábrica de papel mas foi demitido porque a empresa queria “cortar despesas”. Depois de passar dois anos e meio desempregado, decidiu solucionar o problema de forma drástica: eliminando – diga-se matando – seus prováveis concorrentes a uma vaga de emprego.

O filme começa com Davert fazendo uma “confissão” em um gravador, arrependido depois de ter cometido seu terceiro assassinato. Depois volta no tempo, ao ponto em que o ex-executivo toma a decisão de matar seus concorrentes. Aí Costa-Gavras pecou: poderia ter explorado mais o período em que Davert buscava emprego e fracassava nas entrevistas para mostrar melhor o drama do desemprego, que afeta também os países desenvolvidos.

Mas isto não impede que “O Corte” seja um bom filme, que sirva para fazer uma ótima reflexão sobre o mundo do trabalho na atualidade: para termos “sucesso”, devemos ser extremamente competitivos, precisamos viver para trabalhar. Era o que Davert fazia até sua demissão: o trabalho era sua vida, sem emprego ele se sentia uma pessoa “sem valor”. Personagem principal, Bruno Davert é um “anti-herói”: nos sensibilizamos com seu drama, mas ficamos chocados com o meio que ele utiliza para resolver seu problema, visto que seus concorrentes a uma vaga, “inimigos” no seu ponto de vista, são pessoas que também enfrentam o desemprego, algumas há até mais tempo do que ele.

Por fim, um diálogo que considero central no filme: quando Bruno Davert almoça com a esposa e os filhos, surge o questionamento sobre o fato dos meios utilizados serem ou não justificados pelos objetivos desejados. Logo vem uma resposta: “os fins não justificam os meios, exceto nas guerras”. Davert está em guerra, e fará qualquer coisa para conseguir um emprego.