Caça às bruxas

Fiquei doente não poucas vezes em 2011. Uma gripe forte, uma amigdalite, vários resfriados, sem contar um pé torcido: chegava a parecer bruxaria… Mas sabendo que não era, e sem estar disposto a repetir a dose em 2012, tomei a decisão de “dar uma geral” na minha saúde. (E também passei a tomar mais cuidado ao caminhar.)

Ainda assim, demorei para ir fazer o check-up. Só o fiz após não me sentir bem numa tarde de setembro: achei que era pressão alta, mas ela estava normal (na verdade era consequência de ter comido feito urso após o inverno no almoço daquele dia). Aproveitei o “susto” para enfim marcar hora com o médico e pedir a bateria de exames. Já com o espírito preparado para notícias não muito boas – tinha a certeza de que meu colesterol “ruim” estaria acima do ideal, visto que andava comendo muita porcaria.

O resultado? Meus exames estavam todos ótimos. Fiz um eletrocardiograma de esforço – sim, daqueles na esteira – e aguentei até o final, sem ficar extenuado (só tomei um suador, o que já esperava). O colesterol “ruim” não simplesmente estava no nível desejável, como mais baixo em relação ao exame anterior, feito no final de 2009. Ou seja, vale a pena fazer o check-up (fica a dica para o Milton Ribeiro não desistir de sua “resolução de Ano Novo”): você pode encontrar um problema e já começar a combatê-lo antes que ele se torne sério, ou descobrir que não há nada de ruim e, assim, ter um motivo para comemorar. (Mas sem exageros, até para que os próximos exames continuem dando bons resultados.)

Mas, como nem tudo são flores, constatei da forma mais dolorosa possível que deveria ter feito o check-up mais cedo: apenas três dias depois de ir ao médico pegar as requisições, tive uma cólica renal… Tempo insuficiente para receber o resultado do exame de urina que alertaria para o problema.

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Também vale a lembrança de que em 2011 o meu último siso incomodou uma barbaridade – acho que nunca antes na história um dente mereceu tanto ser extraído. Mandei-o para o inferno no começo de 2012.

Porém, foi na mesma época que descobri sofrer de bruxismo – ato de ranger os dentes (geralmente durante o sono) que é fruto principalmente de estresse, sem nada de “bruxaria” apesar do nome (o vídeo de abertura, como o leitor já deve ter percebido, foi só pela piada; sem contar que a Dona Clotilde não é nenhuma bruxa). Na verdade, confirmei: afinal de contas, era estranha aquela dorzinha nos ouvidos que sentia em algumas manhãs, mesmo sabendo que estava tudo bem com eles. Assim como no check-up, me enrolei, mas no fim do ano decidi “caçar a bruxa” (de novo, é só pela piada): comecei a usar uma placa, e desde então passei a dormir melhor e me estressar menos (nada como um sono de qualidade para reduzir o mau humor).

A “vida moderna” é uma fábrica de estresse

Quem nunca teve um dia terrível? Eu já tive vários, e já cheguei mesmo à ter “explosões” de raiva: quem me conhece e acha que sou “quieto”, experimente me irritar profundamente em um dia no qual não acordei de bom humor…

Situações estressantes são a coisa mais normal da chamada “vida moderna”. Um “abacaxi” no trabalho, problemas familiares, falta de dinheiro, ônibus lotado, trânsito caótico etc. “Anormal” é quem consegue manter a calma em momentos como esses.

Também somos extremamente cobrados para nos enquadrarmos em diversos padrões, a fazermos determinadas coisas que são consideradas “o certo”. Ser aprovado no colégio, passar no vestibular, namorar, se formar, arrumar um emprego, ficar de bom humor no trabalho mesmo após uma péssima noite de sono, casar, comprar casa e carro, ter filhos etc. Pode-se muito bem acrescentar mais itens à lista que forma o roteiro de uma “pessoa comum”. São regras que não estão escritas, e por isso bem mais eficazes: a maioria das pessoas não percebe que são arbitrariedades, que não têm obrigação nenhuma de segui-las.

Cobranças de todos os lados nos estressam, caso as levemos muito a sério. Se quisermos então seguir à risca o roteiro da “pessoa comum”, a tendência é um estresse ainda maior, pois nós mesmos nos cobraremos.

É sempre bom ter algo que sirva como “válvula de escape” para o estresse do cotidiano. Pode ser um jogo eletrônico, atividades físicas, uma cervejinha no bar… Aliviar a tensão ajuda a não “explodirmos” de raiva, muitas vezes agredindo quem nada tem a ver com nossa irritação.

O grande problema é que também somos cobrados a jamais demonstrarmos nossas fraquezas, visto que isso é considerado “coisa de fracassado”. Como se fosse possível existir alguém que não tem nenhum problema na vida. Porém, muita gente embarca nessa canoa furada, e não fala sobre suas aflições com ninguém. Assim a tensão não é aliviada conscientemente, e o resultado é que nosso inconsciente passa a agir: desta forma, acabamos tendo atitudes que não teríamos normalmente.

Sem contar os prejuízos à saúde. Afinal, o estresse nos debilita, baixa nossa imunidade, nos deixando mais propenso a doenças, principalmente as cardiovasculares.

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A decisão de escrever sobre este assunto veio semana passada, depois de descobrir que sofro de bruxismo – ato de ranger os dentes durante o sono e que é causado justamente por estresse. Pois é, guardei demais os problemas só para mim, e minha boca começou a “pagar o pato”… Inclusive, já “consegui” perder um pedacinho de um dente por conta disso.