Duas classificações suadas

A quarta-feira teve bastante futebol.

Ontem, em Montevidéu, o Nacional podia empatar em 0 a 0 com o Palmeiras, para se classificar para a semifinal da Libertadores. Um jogo histórico. Afinal, a última vez que um clube uruguaio alcançara tal fase na Libertadores fora em 1989, com o Danúbio. O Nacional, por sua vez, não ia tão longe desde 1988, quando foi campeão.

Mais que uma vaga, valia também a melhora da auto-estima de um país com um passado tão vitorioso no futebol: a taça que o Nacional levantou em 1988 foi a sua terceira (ganhou também em 1971 e 1980) e a oitava do futebol do Uruguai (o Peñarol ganhou La Copa cinco vezes: 1960, 1961, 1966, 1982 e 1987). E para minha satisfação, aconteceu o resultado que o Nacional precisava: 0 a 0, classificação no saldo qualificado, já que a partida de ida, em São Paulo, acabara em 1 a 1.

Ainda resta uma vaga em disputa para o Uruguai, mas é tarefa muito complicada. O Defensor, que perdeu a primeira em casa para o Estudiantes por 1 a 0, precisa vencer por pelo menos 2 a 1 (1 a 0 leva para os pênaltis) em La Plata, para fazer a semifinal contra o… Nacional! Mas não custa nada torcer por uma final Brasil x Uruguai, o que não acontece desde 1983 – quando o campeão foi o Grêmio!

Aliás, o Grêmio… A situação era idêntica à do Nacional: podia empatar em 0 a 0 com o Caracas e se classificaria pelo saldo qualificado. E o resultado foi idêntico ao do time uruguaio. Embora o futebol da Venezuela tenha melhorado nos últimos tempos, e o Caracas seja o time menos pior enfrentado pelo Grêmio nessa Libertadores, não dá para ficar feliz com uma classificação vinda da forma que veio.

Pois se o Tricolor levou sufoco no final, isso se deve à enorme quantidade de gols perdidos por seu ataque – terminasse o primeiro tempo metendo uns 3 a 0 (o que não seria nada estranho), poderia só administrar o resultado no segundo tempo. São oportunidades que, se desperdiçadas contra um São Paulo ou um Cruzeiro (acho que vai dar Raposa), poderão tirar a vaga na final.

E chamam a atenção também as atuações ruins de Tcheco e Souza, como comprovam as médias dos dois jogadores no Almômetro do jogo de ontem e também no de domingo passado, contra o Fluminense. De positivo em Grêmio x Caracas, Adílson, que parece ter se encaixado bem no 4-4-2 de Autuori, assim como Túlio.

Até onde vamos?

Ontem seria o fim do sonho, sonhavam (literalmente) os colorados. Depois do Grêmio ter revertido tantos resultados negativos nas últimas semanas, a “sorte” acabaria diante do Defensor.

Pobres colorados… Não conhecem a gloriosa história do Grêmio. Afinal, ela é marcada justamente pela superação de grandes dificuldades. Muitas delas justamente contra “eles”, como o Campeonato Farroupilha de 1935 e a decisão do Campeonato Gaúcho de 2006, que muitos já consideravam ganha pelos “diamantes” deles.

Atualmente, o Grêmio vive uma fase incrível. E não me refiro simplesmente às vitórias recentes contra Caxias, Cerro Porteño, São Paulo e Defensor (última vítima do Imortal Tricolor). Tudo isso vem desde 2005 – e não começou com a Batalha dos Aflitos.

No início de 2005, o Grêmio vivia a pior fase de sua história. Não tinha um centavo nos cofres, devia para todo mundo, e ainda por cima estava na Segunda Divisão. O time que disputou o Campeonato Gaúcho daquele ano era tão ruim que se fosse mantido para a disputa da Série B, correria o risco de cair para a C. A remontagem do grupo foi feita ao longo do campeonato, e aos poucos surgiu um time ruim, mas que era suficiente para sair da Segundona. E mesmo assim não foi fácil: a Batalha dos Aflitos é a prova.

De volta para a Série A. Em 2006, o Grêmio seguiu superando os adversários aparentemente insuperáveis. Primeiro, na decisão do Campeonato Gaúcho, contra os eternos rivais, favoritos ao título com seus “diamantes” e sua arrogância. Foram dois empates, 0 a 0 no Olímpico e 1 a 1 no campo deles, que deram o título ao Tricolor. O regulamento ajudou o Grêmio, dizem, pois eles tinham a melhor campanha e não foram campeões. Então por que aceitaram jogar o campeonato deste jeito?

No Campeonato Brasileiro, o máximo que o Grêmio almejaria seria uma vaga na Copa Sul-Americana de 2007 – e se ficasse na Série A já poderia comemorar. Mas tudo foi diferente – e melhor. A vaga conquistada foi na Libertadores. E não bastasse isso, o Grêmio chegou a brigar pelo título.

E em 2007, o Grêmio apenas manteve a rotina de superações. Precisava fazer 4 a 0 no Caxias para ir à final do Campeonato Gaúcho, e fez 4 a 0. Precisava vencer o Cerro Porteño para se classificar na Libertadores, e venceu. Nas oitavas-de-final, precisava ganhar de 2 a 0 do São Paulo, e ganhou de 2 a 0. E ontem à noite, precisava de 3 a 0 para passar pelo Defensor e ir às semifinais. Ganhou de 2 a 0, placar que levava a decisão da vaga aos pênaltis. E mais uma vez, o Grêmio se classificou.

Um detalhe: todas estas vitórias foram obtidas no Olímpico. Se fora de casa o Grêmio não anda bem, em seu estádio as coisas são bem diferentes. Pois o Grêmio tem uma torcida fantástica, da qual me orgulho de fazer parte. Fomos nós que tiramos o Grêmio do atoleiro em que se encontrava há dois anos atrás, e o colocamos na semifinal da Libertadores.

E depois de tudo o que vi ultimamente, cheguei à conclusão de que temos tudo para levar o Grêmio ao Japão novamente. O Santos tem um bom time e um excelente treinador, e por isso merece todo o respeito. E por isso mesmo temos de transformar o Olímpico em um caldeirão na próxima quarta-feira. Já chegamos bem longe, mas ainda não está na hora de parar.