A época na qual pensei em ser médico

Essa polêmica absurda em torno da vinda de médicos cubanos (sim, a polêmica é por causa dos cubanos em específico porque a Veja – sempre ela! – disse que eles são “espiões comunistas” que estão invadindo o Brasil) me fez lembrar a minha infância. Não que naquela época tenha acontecido algo semelhante ao que se viu ultimamente (se ocorreu, não recordo), mas sim porque durante um tempo considerável em minha vida, pensei em ser médico.

Em meus primeiros anos de vida, fui um assíduo frequentador de hospitais e consultórios. Fruto de meu nascimento prematuro: meu aniversário é em 15 de outubro pois neste dia, em 1981, minha mãe estava com a pressão arterial muito alta e os médicos do Hospital Materno Infantil Presidente Vargas (onde ela já estava internada desde 30 de setembro) decidiram consultar o meu pai sobre realizar a operação cesariana mesmo que ainda não estivesse “na época” de eu nascer, que seria entre o final de outubro e o início de novembro. Meu pai autorizou a cirurgia e nasci às 23h05min daquela quinta-feira. Por conta do nascimento prematuro, acabei ficando no hospital até 30 de outubro, em observação.

Porém, nascer antes do tempo não me rendeu apenas passar os primeiros 15 dias de vida em um hospital. Tive outros problemas que me levaram a ter muito contato com médicos durante a infância. Fora outras doenças que todas as crianças têm, como sarampo e catapora.

Devido a tudo isso, lembro que tinha pavor de ir a hospitais. Mas, paradoxalmente, ali pelos seis ou sete anos de idade comecei a falar que queria ser médico. Lembro inclusive de em algum Natal ou aniversário ter ganho de presente uma ambulância de brinquedo, que vinha toda equipada para “socorrer” o “paciente” – no caso, um pequeno boneco.

Nem sequer imaginava, àquela altura, que a medicina era uma carreira cujos benefícios financeiros são elevados. Depois que insisti que queria ser médico é que comecei a ouvir as pessoas dizerem “que legal, médicos ganham bem” e outras expressões semelhantes. Mas na época, recordo que o dinheiro era o que menos importava. Ser médico, para mim, significava antes de tudo trabalhar pelos outros, pelas suas vidas. Era uma espécie de “retribuição”: depois de ter sido tão ajudado (e até mesmo salvo, como prova o meu nascimento), seria a minha vez de ajudar muitas pessoas a se livrarem de seus males – na época eu não pensava em “retribuição”, simplesmente achava bacana a ideia de ser médico, mas olhando retrospectivamente, faz todo o sentido.

Desisti de ser médico no início do Ensino Médio, depois de começar a me ferrar em Biologia e perceber que não teria saco de varar noites estudando aquilo. Mas minha ideia sobre a medicina não mudou. Sempre nos dizem que devemos escolher a profissão não pelo dinheiro e sim pela vocação, ou seja, pelo que gostamos de fazer. Optar pela medicina significa, portanto, dedicar sua vida para salvar outras, sendo isso mais valioso que o dinheiro no bolso. Não me parece nada bom procurar atendimento médico e recebê-lo de uma pessoa preocupada apenas em receber o pagamento, pouco se importando com meu estado de saúde.

E esse é o temor que despertam os médicos cubanos: mais do que bem qualificados, têm outra visão de mundo, se importando mais com as pessoas do que com o dinheiro, ao contrário dos “revoltadinhos de jaleco” que além de não quererem ir para o interior, não querem que mais ninguém o faça. Quem for atendido por cubanos vai comparar com o atendimento prestado pelos brasileiros, e assim muitos dos “nossos” terão de melhorar muito. Que assim seja.

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A “homérica” direita brasileira

Nada a ver com o grande poeta épico grego, autor dos clássicos “Ilíada” e “Odisseia”. O Homero ao qual me refiro neste caso é Homer Simpson, genial sátira do “estadunidense médio”: preguiçoso e idiota, Homer passa boa parte de seu tempo livre sentado defronte à televisão, na qual acredita sempre.

Porém, será que Homer é representativo apenas dos estadunidenses? Creio que não. Pois há muitos brasileiros que também são verdadeiros “Homers Simpsons”. Em especial, aqueles mais reacionários, que repassam qualquer coisa que contenha expressões do tipo “acorda Brasil”.

É uma mais sem pé nem cabeça que a outra. Relembremos algumas:

  • Me mandaram por e-mail uma vez uma “denúncia” sobre supostas alunas de um curso dedicado a beneficiárias do Bolsa Família “que não quiseram trabalhar com carteira assinada para não perderem o benefício”. Sem nem pensarem que Bolsa Família é apenas assistência (os mesmos reaças não chamam de “bolsa-esmola”?), e que se elas deixaram seus empregos por conta disso, é sinal de que trabalhavam por um salário de fome;
  • Na campanha eleitoral, me disseram que Dilma Rousseff, “aquela terrorista”, participara do sequestro do embaixador dos Estados Unidos, Charles Elbrick, em 1969, e que por conta disso ela não poderia entrar nos EUA caso fosse eleita – e um ano depois, lá estava ela em Washington… Claro, pois ela não participara do sequestro: quem não conseguiu visto de entrada foram Franklin Martins e Fernando Gabeira – que inclusive não pôde assistir à sessão de estreia do filme “O que é isso, companheiro?” (inspirado em seu livro homônimo) nos EUA;
  • Certa vez o G17 (página que satiriza o G1, portal de notícias da Globo) publicou uma “notícia” sobre a construção de uma estátua gigante de Lula em Brasília, que seria visível em toda a cidade. O pessoal leu a “notícia” e o leiaute do G17, semelhante ao do G1, fez com que acreditassem que era verdade… Quando o bom senso recomenda não só prestar bastante atenção no que se lê antes de repassar, como também desconfiar até mesmo dos portais de notícia “sérios”;
  • Outra “denúncia” recebida foi sobre a “vagabundagem” do MST, que ao invés de produzir em um assentamento às margens do Rio Solimões, estaria roubando ovos de tartarugas que fazem ninhos no local para depois revendê-los (quando lhes convêm, os reaças se preocupam com o meio ambiente). Pelo visto, nas horas livres os “ladrões” pegavam a prancha e iam surfar no Solimões;
  • Tem também aqueles absurdos sobre o “Bolsa Bandido” e o “Bolsa Crack”, que semana passada já tratei de detonar.

Agora, a polêmica que se dá é acerca da decisão do governo de trazer médicos estrangeiros para atenderem a população em regiões mais afastadas dos grandes centros, para onde os médicos brasileiros não querem ir. O objetivo é de contratar cubanos, espanhóis e portugueses, mas a gritaria é contra os cubanos, claro: mesmo que a medicina de Cuba seja muito elogiada, se diz que os médicos cubanos “não seriam qualificados”*. Mas como o absurdo não tem limites, começou a circular pelo Facebook uma imagem que afirma serem os médicos cubanos “guerrilheiros” disfarçados, que atenderão ao propósito do governo de dar um “golpe comunista” em 2014… (Luís Carlos Prestes deu um duplo twist esticado no túmulo depois dessa.)

Um argumento dos críticos é incontestável: é preciso fazer com que os médicos não queiram ficar apenas nos principais centros. Porém, isso não é problema que se resolva de uma hora para a outra, e no interior as pessoas precisam de médicos agora, não podem esperar. Então, que venham os estrangeiros.

A propósito, talvez seja bom incluir psiquiatras dentre os médicos que vêm para cá, pois do jeito que anda nossa direita os que estão por aqui não são suficientes…

Sobre a visita de Yoani Sánchez ao Brasil

No início da semana passada, a blogueira cubana Yoani Sánchez deu início a uma “turnê” mundial, na qual pretende visitar diversos países, após o governo de Cuba ter diminuído as restrições para viagens ao exterior. Sánchez começou seu “giro” pelo Brasil, onde foi alvo de protestos tanto em sua chegada ao país, no aeroporto do Recife, como em Feira de Santana (BA).

Sinceramente, achei uma tremenda burrice tais manifestações. Serviram apenas para a velha mídia repetir suas teses hipócritas de que a esquerda é contra a liberdade de expressão: embora saibamos que os campeões da restrição à livre expressão são justamente as grandes corporações midiáticas, ao mesmo tempo ficou claro que para alguns militantes de esquerda, o fato de Yoani Sánchez criticar o governo de Cuba é um incômodo.

“Ah, mas Yoani Sánchez é agente da CIA e blá-blá-blá”. Pode até ser. Inclusive, há muita coisa mal-explicada sobre ela. E justamente por isso que é preciso deixá-la falar: para que mais de suas contradições se tornem visíveis (uma delas já é notória: Yoani, a “defensora da democracia”, apareceu numa foto junto com o deputado Jair Bolsonaro, nostálgico da ditadura militar).

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Em geral, as opiniões sobre Cuba são “contaminadas”, variando conforme a ideologia de cada um. É muito grande a probabilidade de que o país não seja nem um inferno como costuma definir a direita, nem o “paraíso” pintado por muitos da esquerda: obviamente tem qualidades (como a educação e a saúde famosas por serem públicas e de qualidade), mas também problemas. (Recentemente o Alexandre Haubrich esteve lá e escreveu uma matéria sobre as eleições gerais que aconteceram no dia 3 de fevereiro, em breve certamente teremos mais relatos dele sobre Cuba.)

Um dos problemas certamente diz respeito à liberdade de expressão: há muitas acusações de que ela não existe em Cuba. Dar uma opinião sem correr risco de perseguição política tem de ser um direito assegurado, e a luta por ele é das mais legítimas.

Porém, é preciso que ela se dê em toda a parte, não só onde os Estados Unidos não têm seus interesses atendidos. Muitos dos que endeusam Yoani Sánchez não costumam falar nada sobre Julian Assange, fundador do WikiLeaks, que há meses está refugiado na embaixada do Equador em Londres para não ser preso devido a uma acusação por crime sexual na Suécia (que veio à tona, curiosamente, logo após o WikiLeaks revelar telegramas secretos da diplomacia dos EUA): há o temor de que caso o australiano seja entregue às autoridades suecas, ele acabe sendo extraditado para os EUA e condenado à morte.

Charge de Carlos Latuff

Campanha da Legalidade – 50 anos

O povo na Praça da Matriz, agosto de 1961

Folha da Tarde, 25/08/1961

Entre o final de agosto e o começo de setembro de 1961, o Brasil esteve na iminência de uma guerra civil. O presidente Jânio Quadros, no poder há menos de sete meses, renunciou ao cargo no dia 25 de agosto denunciando a pressão de “forças terríveis”. Conforme previa a Constituição de 1946, o vice-presidente João Goulart deveria assumir a presidência. Só que este encontrava-se em viagem oficial à República Popular da China, e os ministros militares iniciaram um movimento golpista que tinha por objetivo impedir o retorno de Jango ao Brasil e, consequentemente, sua posse como Presidente da República.

Naquela época o mundo vivia o auge da Guerra Fria. Em abril, uma tentativa de invasão a Cuba – a famosa Invasão da Baía dos Porcos – por exilados cubanos treinados pelos Estados Unidos e ligados à anterior ditadura de Fulgêncio Batista – derrubada pela Revolução Cubana no início de 1959 – resultou em fracasso, e a Revolução, iniciada como um movimento nacionalista, assumiu seu caráter socialista. No dia 13 de agosto, teve início a construção do Muro de Berlim, que por 28 anos impediria o trânsito do lado oriental (capital da República Democrática Alemã, alinhada com a União Soviética) para o lado ocidental (pertencente à República Federal da Alemanha, alinhada com os EUA). Tais fatos aumentaram a tensão entre as duas superpotências mundiais, e obviamente tiveram reflexos no debate político de todo o mundo – antes da renúncia de Jânio Quadros, a crise internacional provocada pela construção do Muro de Berlim era destaque nos jornais.

Correio do Povo, 26/08/1961

E justamente em uma época de tanta tensão internacional, Jânio Quadros, que em outubro de 1960 fora eleito com o apoio da conservadora UDN, dava mostras de que sua política externa não seria voltada apenas ao Ocidente: no início de agosto, recebeu o cosmonauta soviético Yuri Gagarin (primeiro homem a ir ao espaço), e no dia 19, condecorou com a Ordem do Cruzeiro do Sul (a mais alta honraria brasileira) o revolucionário argentino e Ministro da Economia de Cuba, Ernesto “Che” Guevara. Tais atos desagradavam não somente aos conservadores, como também aos Estados Unidos.

A condecoração de Che deu início a uma crise política. O governador da Guanabara, Carlos Lacerda, passou a atacar violentamente o governo federal, inclusive acusando Jânio de tramar um golpe de Estado com o objetivo de tornar-se ditador. Lacerda era dono do jornal Tribuna da Imprensa, que tivera importante papel na crise política de agosto de 1954, que culminara com o suicídio de Getúlio Vargas.

Na manhã do dia 25 de agosto, Jânio Quadros enviou ao Congresso sua carta de renúncia, surpreendendo o país. Diz-se que o verdadeiro objetivo de Jânio era que sua renúncia não fosse aceita tanto pelo parlamento como pelo povo, de forma a que ele pudesse retornar ao governo com poderes ampliados. Porém, nada disso aconteceu.

João Goulart (PTB), o vice-presidente, era considerado pelos setores conservadores como “esquerdista demais”. Contribuía para o temor destes o fato de Jango estar na República Popular da China, onde a revolução socialista se dera no campo – e no Brasil de 1961, a maior parte da população era rural.

Correio do Povo, 29/08/1961

O veto dos ministros militares à posse de Jango desencadeou a chamada Campanha da Legalidade. O governador do Rio Grande do Sul, Leonel Brizola (PTB), conclamou os brasileiros a resistirem ao golpe e desta forma garantirem o cumprimento da Constituição e a manutenção do regime democrático. Para que suas mensagens chegassem o mais longe (e o mais rápido) possível, em 27 de agosto Brizola requisitou a Rádio Guaíba, que na época tinha os mais potentes transmissores de rádio no Estado, formando uma rede de radiodifusão que ficou conhecida como “Cadeia da Legalidade”. O principal estúdio foi instalado no porão do Palácio Piratini, de onde Brizola falava. Os transmissores foram ajustados acima da potência máxima permitida por lei, e o sinal chegou a ser captado por radioamadores na Nova Zelândia, do outro lado do mundo.

Os ministros militares estavam decididos a esmagar a resistência e assim consolidar o golpe. Se preciso, o Palácio Piratini seria bombardeado, para calar Brizola e a Cadeia da Legalidade. Por conta da real ameaça, no dia 28 o governador ordenou o fechamento das escolas, e pediu também que a multidão em frente ao palácio se retirasse – pedido que não foi atendido.

Folha da Tarde, 28/08/1961

O III Exército (sediado em Porto Alegre) aderiu à causa da Legalidade, assim como o governador de Goiás (Estado que praticamente circunda Brasília), Mauro Borges. E o golpe não se consumou. Mas ainda assim, não foi uma vitória completa: a solução para o impasse foi uma emenda constitucional que instaurou o parlamentarismo como sistema de governo no Brasil (até janeiro de 1963, quando em um plebiscito o povo decidiu pela volta ao presidencialismo), de forma a enfraquecer Jango. E além disso, o golpe apenas foi adiado para 1964 – com os mesmos argumentos de 1961, ou seja, de “combater o comunismo”.

Mas ainda assim, a Campanha da Legalidade tem grande valor histórico. Pois demonstrou a importância de se saber usar a mídia: Brizola percebeu que não bastava declarar resistência, também era preciso comunicá-la o mais rápido possível para o máximo de pessoas, e por isso tratou de logo formar a “Cadeia da Legalidade” com tal propósito. Naquela época, o rádio era o meio mais eficaz de se atingir muita gente: a televisão era incipiente, os jornais não tinham um público leitor tão grande (aliás, como ainda não têm), e não existia internet.

A Legalidade também serviu de lição aos golpistas, que perceberam a necessidade de terem “apoio da opinião pública” para seu propósito. Tanto que, se em 1961 a população foi às ruas repudiar a quebra da ordem constitucional, três anos depois aconteceu o contrário. O que também deve servir de alerta a todos nós: com base nessa tal de “opinião pública”, se procurou “legitimar” o golpe de 1964.

Leonel Brizola no estúdio instalado no porão do Piratini

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Imagens: Acervo do Museu da Comunicação Social Hipólito da Costa

Câncer de Chávez é ameaça a seu projeto político

O que era rumor, se confirmou ontem. O presidente venezuelano Hugo Chávez, em pronunciamento à TeleSur, admitiu estar combatendo um câncer.

Mesmo estando em Cuba para o tratamento de saúde, Hugo Chávez não transmitiu interinamente o cargo ao vice-presidente Elias Jaua, gerando protestos da oposição. Chávez diz estar acompanhando e liderando as questões políticas na Venezuela.

Em fevereiro de 2009, logo que a população venezuelana aprovou em referendo a reeleição ilimitada para cargos executivos, escrevi sobre o assunto, defendendo que, ao contrário do que muitos apoiadores pensam, tal medida era prejudicial a seu projeto político. Pois este é vinculado a apenas a uma pessoa, o próprio Hugo Chávez, não havendo a preocupação em se formar novas lideranças dentro de seu partido – e com o fim do limite de reeleições, se passou a pensar menos ainda em alguém que possa suceder Chávez sem dificuldades caso ele não possa mais ser o presidente.

Pois tal situação parece mais próxima: embora Chávez diga que o tratamento do câncer esteja evoluindo bem, sabemos como tal doença é traiçoeira, muitas vezes voltando quando se acredita estar livre dela. E a próxima eleição presidencial na Venezuela ocorrerá no final do próximo ano… Chávez terá condições de continuar?

Do “correio eletrônico” à blogosfera

Reportagem exibida pela Record em 1990 sobre a grande novidade na área da informática: o correio eletrônico!

O meu pai descobriu o vídeo acima, e logo começamos a falar do quanto a informática evoluiu nos últimos tempos, e também a lembrar de quando compramos o primeiro computador, em 16 de março de 1995. Era um 486, com 8MB de memória RAM, disco rígido de 400MB (um latifúndio!), que usava o Windows 3.11 como sistema operacional, enfim, uma baita aquisição! Melhor que isso, só se comprássemos o último lançamento, o moderníssimo Pentium! Só que aí era caro demais…

A ideia do meu pai era comprar o computador para trabalhar, já que mais cedo ou mais tarde ele precisaria se “informatizar” para se manter no mercado. Internet, ele ainda nem cogitava. Já meu irmão e eu, claro, víamos a máquina como um videogame em potencial. E logo compramos os primeiros jogos: os sensacionais FIFA International Soccer e World Circuit. Como não tínhamos joystick, fazíamos revezamento: no FIFA, cada um jogava um tempo; já no de Fórmula-1, não era raro estar esperando a vez quando aparecia a mensagem de que eu estava fora da corrida porque tinha batido, ou o carro tinha dado problema…

Eram partidas sempre silenciosas: o computador não tinha placa de som! Tanto que muitas vezes eu me ferrava no Doom porque era atacado pelas costas e demorava a perceber. Mas acabamos descobrindo como ligar um som do próprio computador para os jogos – aqueles ruídos bem “eletrônicos”, mas que eram melhor que nada.

Mas além dos jogos, os programas também podiam ser interessantes. Como os editores de texto. Olhando para aquela época, chega a parecer estranho que cinco anos depois eu iria estar cursando Física: eu já gostava de escrever. Tanto que também conseguia ver o computador como “uma máquina de escrever mais moderna”, além da função básica (videogame). Aliás, não por acaso o divertidíssimo livro “Detesto PCs” fazia uma escrachada comparação entre o computador e a máquina de escrever, explicando os motivos pelos quais o leitor não deveria trocar sua velha máquina por um computador (desta forma, com muito bom humor, ajudava o iniciante a perder o medo).

No início de 1996, acabamos com o silêncio do computador, adquirindo uma placa de som. Finalmente podíamos jogar FIFA com o barulho da torcida, ouvir os rugidos dos monstros no Doom, os barulhos dos carros de Fórmula-1… E aí vieram também jogos melhores como o FIFA 96, com os nomes verdadeiros dos jogadores (apesar de ter vibrado com muitos gols de Janco Tianno pelo Brasil no FIFA “antigo”) e até narração das partidas (em inglês, claro). Era possível montar o próprio time, embora sem poder jogar os campeonatos que o jogo oferecia; lembro que o meu tinha craques como Preud’homme, Hagi, Stoichkov, e o destaque maior, o francês Loko – cada vez que o narrador se referia ao jogador, sempre pronunciando seu nome incorretamente (dizia “loucou” ao invés de “locô”), era garantia de risada.

Os anos passaram, e computadores mais potentes vieram. Assim como jogos com gráficos mais perfeitos, como o FIFA 98 – com direito à disputa das Eliminatórias da Copa do Mundo de 1998, permitindo algumas façanhas históricas como a classificação de Cuba para o Mundial, sob meu comando.

Começamos a acessar a internet – conexão discada, com velocidade de 14,4 kbps, uma beleza! (E na minha casa foi assim até o início de 2005.) Eram tempos em que era preciso esperar a meia-noite para entrar na rede, horário a partir do qual as companhias telefônicas passavam a cobrar pulso único por ligação. Conectávamos e encontrávamos os amigos no ICQ – isso quando conseguíamos nos conectar.

Aliás, coisa bem interessante o que aconteceu nos últimos tempos. Lembro que no ICQ (aliás, alguém ainda usa???) eu falava principalmente com gente que eu conhecia pessoalmente. O mesmo se dava no MSN, assim como no Orkut. Alguns anos se passaram, e comecei a conhecer “na vida real” pessoas com as quais estabeleci os primeiros contatos no espaço virtual – e que, não fosse a internet, dificilmente eu as conheceria. Num exemplo bem simples, provavelmente eu passaria pelo Guga e pelo Hélio na social do Olímpico e os veria apenas como mais vozes a apoiarem o Grêmio, se eu não tivesse um blog e não conhecesse os deles.

E o incrível é pensar que tudo isso aconteceu em tão pouco tempo. Afinal, há menos de 10 anos, eu ainda precisava esperar a meia-noite para me conectar na internet e pôr o papo em dia com os amigos via ICQ… Enquanto a hora não chegava, jogava um FIFA e tentava levar as seleções mais fracas para a Copa do Mundo.

46 anos do GOLPE

Só chama aquele descalabro de “revolução democrática” justamente quem não tem o menor apreço pela democracia. E nem vale a desculpa de que “o Brasil estava prestes a virar uma Cuba ou uma União Soviética”: isto é tão verdadeiro como prever neve em Porto Alegre no Natal.

Em um post no blog Impertinências, sobre o papel dos reacionários paulistas no golpe de 1964, o historiador Antonio Celso Ferreira lembrou a “Marcha da Família com Deus pela liberdade” em São Paulo:

Da Praça da República à Praça da Sé, os paulistas e as paulistas reacionárias da classe média gritaram Um, dois, três, Brizola no xadrez, Trinta e dois mais trinta e quatro é sessenta e quatro (sic), Nossa Senhora Aparecida, iluminai os reacionários e outros slogans travestidos de democráticos. Coroaram sua odienda manifestação com uma missa campal rogando que Deus livrasse o Brasil dos comunistas.

“Trinta e dois mais trinta e quatro é sessenta e quatro”? Os caras eram tão “democráticos”, que nem a Matemática foi poupada! Se eles desconsideraram uma ciência exata, alguém acreditava que não fariam o mesmo com a democracia?

E no final, ele alerta que aquele mesmo pensamento reacionário tem o objetivo de eleger José Serra – que ironicamente foi exilado por conta da mesma ditadura que esses reaças apoiaram.

Brasil, Cuba, liberdade e falta dela

Ontem, o presidente Lula cometeu um ato extremamente infeliz. Questionado sobre o recurso à greve de fome utilizado por presos por motivos políticos em Cuba para obterem liberdade, Lula comparou-os a presos comuns para criticar a medida.

A declaração do presidente foi infeliz por dois motivos. Primeiro, porque no passado muitos presos políticos no Brasil se utilizaram da greve de fome para denunciarem suas detenções arbitrárias pela ditadura militar. Segundo, porque não dá para comparar um preso por assassinato com um que simplesmente declarou ser contra o governo e por isso foi para trás das grades: assassinato é crime sempre, já ser contra o governo só é considerado crime se o governo for ditatorial.

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Claro que não dá para igualar o regime do Partido Comunista Cubano com a ditadura militar brasileira de 1964-1985. Pois se os dois reprimiram discordantes em relação ao governo, Cuba hoje é melhor do que era antes da Revolução (e vale lembrar que não era nem um pouco democrática): basta verificar seus indicadores sociais, superiores aos nossos. Já o Brasil de 1985 tinha a economia em frangalhos, pior distribuição de renda do mundo, aumento da favelização e do domínio do tráfico nas favelas (já que por 21 anos o Estado esteve mais preocupado em “combater o comunismo” do que em dar assistência aos pobres), dentre outras mazelas. Diz o ditado que “a melhor das ditaduras não é melhor que a pior das democracias”, mas na comparação entre ditaduras, não resta dúvidas sobre qual delas foi melhor (ou pior) para seu povo.

Quanto à liberdade (ou a falta dela), Cuba pode ser criticada. Mas é preciso ter cuidado, porque para os cubanos, “liberdade” pode ser muito mais do que o simples direito a contestar seus governantes – provavelmente eles não se sentissem muito livres em um país no qual se pode falar mal do governo mas, caso não se tenha dinheiro para o tratamento de uma doença, a morte fica mais próxima.

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Ao mesmo tempo, uma coisa é certa. Muitos direitosos virão com o papo de que “em Cuba se violam os direitos humanos!” e blá blá blá para criticarem a esquerda.

Porém, ao mesmo tempo defendem a ditadura militar no Brasil, pena de morte e ainda dizem que “o pessoal dos direitos humanos só defende bandidos”. Trata-se de pura hipocrisia, pois criticam os atos de um outro país mas defendem os mesmos ou semelhantes para o seu.

Porto Alegre: já é insuportável, vai piorar…

Olhar a previsão do tempo em Porto Alegre nos últimos dias tem sido algo que me desespera. Ao contrário dos últimos dois verões, este que começou ontem deverá ser mais rigoroso. Nada mais desanimador para quem literalmente “derrete” de tanto suar…

E vai piorar. Cada vez mais, a cidade se transforma numa selva de concreto. Ontem, foi aprovado o projeto de “revitalização” do Cais Mauá.

Revitalizar, de verdade, é necessário. Já acontecem alguns eventos no local, como a Feira do Livro (a área infantil é lá) e a Bienal do Mercosul. Mas é preciso que haja atividades no cais durante o ano inteiro. Com mais pessoas circulando, a área se torna mais segura – e consequentemente, o próprio Centro de Porto Alegre.

Porém, vão acontecer é alguns absurdos por ali. Haverá um shopping (mais um!), com 5 mil vagas de estacionamento. PORRA! O trânsito no Centro já é um caos, e agora vão estimular a circulação de mais 5 mil carros por ali!

Não bastasse isso, haverá dois prédios de 100 metros de altura. 100 metros! Não se iludam, pensando que é só ali: em Porto Alegre, virou moda “legislar por partes” (passando por cima inclusive do Plano Diretor, que prevê altura máxima de 52 metros), em breve haverá muitos outros espigões desses não apenas por toda a orla, como por toda a cidade, em bairros onde hoje há apenas casas e prédios baixos. Se preparem: o que já é infernal, ficará ainda mais infernal…

Claro que os concretoscos são todos a favor disso: “gera empregos” (que tal uma usina nuclear, para dar oportunidades de trabalho a físicos desempregados?), e Porto Alegre se tornará uma cidade “cosmopolita”. Inclusive acham que mesmo 100 metros é pouco, Porto Alegre tinha de ter torres de mais de 500 metros, tipo Dubai.

Já eu prefiro uma cidade boa para se viver, por isso quero ir embora de Porto Alegre assim que possível (por tanto insistirem em estragar a cidade, os concretoscos me convenceram). Não pretendo ir para Cuba, como eles desejam: detesto calor. Pena que a União Soviética não existe mais, facilitaria a vida dos que virão me xingar…

Procurarei alguma cidade menor e de elevada altitude aqui no Brasil, que não seja desesperada por tornar-se “cosmopolita” (infelizmente não há como já ir para uma cidade dessas para fazer mestrado).

Ato em frente à Folha é a máxima liberdade de expressão

A indignação contra o editorial da Folha de São Paulo que chamou a ditadura militar brasileira de “ditabranda” também fez surgirem defensores do jornal, e mesmo da ditadura. Como a própria Folha.

O jornal xingou os professores Fabio Konder Comparato e Maria Victoria Benevides porque eles “não atacariam a ditadura cubana”. Porém, a questão em debate não é Cuba (país do qual a maior parte das pessoas fala sem conhecer muito – tanto por um lado quanto pelo outro): é o Brasil.

O mais incrível de tudo foi alguém achar que os cidadãos que estarão em frente à sede do jornal têm por objetivo “censurá-lo”, que “não prezam pela liberdade de expressão”. Ora, isso é uma bobagem sem tamanho: é justamente a liberdade de expressão que permite tanto à Folha expressar a opinião que quiser em seu editorial, como às pessoas discordarem, criticarem e mesmo protestarem.

E além disso, se tais “democratas” são realmente favoráveis à liberdade de expressão, não deveriam posar de senhores da moral, querendo determinar “quem pode” e “quem não pode” criticar a ditadura brasileira.

Abaixo, “copio e colo” na íntegra o artigo do Eduardo Guimarães que trata justamente sobre as comparações entre Brasil e Cuba.

Libres del paredón

Fico impressionado com a criatividade dos argumentos de alguns de meus compatriotas que tentam determinar quem pode e quem não pode criticar período ditatorial da história de um país no qual todos nascemos sem que cada um tenha antes que dar “explicações” sobre quais as ditaduras que já condenou ou não publicamente.

Ora, sou brasileiro. Cresci num país mergulhado num regime no qual certa vez, quando garotinho, perguntei em voz alta à minha mãe num restaurante o que era “comunista”, e pouco tardou para ela ser convidada a se retirar comigo do estabelecimento.

Esse é o Brasil que não quero mais. Quero o direito de criticar aquele regime no qual apenas cresci, mas no qual brasileiros de todas as idades e classes sociais tiveram dissabores muito maiores do que o de terem que sair de um restaurante por terem assustado as pessoas em volta com uma simples palavra, então proibida. Uma palavra que poderia facilmente condenar qualquer um à morte.

Minha família não tinha nenhum comunista e nem amigos partidários de tal ideologia. Jamais me envolvi com política na juventude, quando a ditadura militar já agonizava. Porém, sempre percebi os sinais da falta de liberdade de pensamento ao meu redor, e era assustador.

Não tenho que responder se critiquei o regime cubano, e isso simplesmente porque não o vivi. Muitos que estiveram em Cuba dizem que o país é uma maravilha humanista e outros que é um inferno de opressão. Os indícios que tenho me dizem que o regime cubano não é nem uma coisa, nem outra.

Quando vejo contarem horrores sobre Cuba e depois verifico seus indicadores sociais superiores, e quando vejo que em cinco décadas o povo cubano não tirou o regime do poder, penso que as críticas e elogios àquele país são produtos muito mais de convicções sobre fatores que não necessariamente o fator Cuba.

Enfim: o regime cubano não é uma unanimidade de críticas como é, por exemplo, o regime do Chile sob Pinochet. E não me venham fazer contabilidades do número de mortos, como se a ditadura que mata menos pudesse ser chamada de “ditabranda”. Tudo depende de quantos se levantaram para lutar, e aqui no Brasil foram menos e em outras partes foram mais.

Seguramente o regime chileno matou mais do que o nosso e ainda influiu em seu congênere brasileiro, pelo menos na retórica, pois a “ditablanda” de Pinochet acabou virando a “ditabranda” da Folha.

Nem por isso todos esses que andam exigindo atestados de “crítico de todas as ditaduras” ostentam críticas à ditadura chilena em suas versões desse “currículo ideológico” inventado pelo jornalão paulista.

Como se vê, trata-se de uma estratégia usada para vedar críticas a um regime que todos vivemos por meio de alusões a regimes que nem a milionésima parte dos brasileiros conhece. É uma estratégia espertalhona que visa turvar o debate sério sobre aquele período sombrio de nossa história recente.

O que me espanta é gente que elogiou e até ajudou a ditadura do país em que vive chamar de cínico e mentiroso quem não criticou a ditadura de um país em que não vive. Os professores Maria Victória Benevides e Fábio Konder Comparato pelo menos não emprestaram seus veículos para Fidel Castro levar prisioneiros ao “Paredón”.