Abril de 2021, 2020 ou 1964?

Muitas vezes já comentei que o tempo parece ter se acelerado desde o início da pandemia. Uma sucessão de dias muito parecidos uns com os outros que longe da “lentidão” que caracteriza a monotonia, em conjunto se tornam um “foguete”.

Parece que foi ontem que estive em minha última aglomeração, mas já faz mais de um ano. Quando chegou dezembro de 2020, a impressão era de estar “preso” em março, mês em que tudo parou.

Então veio 2021, passamos por outro março – muitíssimo pior que o de 2020 – e agora entramos no segundo abril pandêmico. Ano passado, foi o mês em que percebi a “aceleração do tempo”, o que só não faz parecer que simplesmente voltamos a abril de 2020 pois agora está muito pior.

Mas também há outros ecos do passado neste abril de 2021. Já faz quase 30 anos que a União Soviética saiu da geopolítica para entrar na história, e ainda há quem acredite em “ameaça comunista”. O que nunca existiu no Brasil, mas os defensores do golpe de 1964 (que completa 57 anos neste 1º de abril) defendem essa mentira com unhas e dentes (e alguns deles, com armas).

E agora, em meio à pandemia, temos um presidente que ao invés de fazer das tripas coração para comprar vacinas e preservar a saúde do povo brasileiro, prefere tramar um autogolpe contra os governadores, todos comunistas. (Atenção: contém ironia.)

Hoje já é 1º de abril de 2021, mas parece que 2020 não acabou. E no que dependesse do mitomaníaco que nos governa, estaríamos presos para sempre no Dia da Mentira de 1964.

30 mil, multiplicados por 10

Ontem, 24 de março de 2021, a Argentina lembrou o 45º aniversário do golpe militar que instaurou a mais sanguinária ditadura pela qual o país já passou. Em apenas sete anos de duração (1976-1983), o chamado “Processo de Reorganização Nacional” causou a morte e/ou o desaparecimento de aproximadamente 30 mil pessoas.

No mesmo 24 de março de 2021, o Brasil ultrapassou a marca de 300 mil mortes por covid-19. Desde o começo da pandemia o governo federal sabotou todas as medidas para combatê-la (distanciamento social, uso de máscaras e vacinação em massa) e ainda inventou um tal de “tratamento precoce” que em muitos casos só piora as coisas. Resolveu “se mexer” (mas só um pouco) quando seu principal adversário político voltou a poder concorrer à presidência.

A jurisprudência moderna argentina considera a morte e/ou desaparição de 30 mil pessoas em sete anos como um genocídio. Jorge Rafael Videla, general que chefiou a ditadura de 1976 a 1981, foi condenado à prisão perpétua e morreu na cadeia aos 87 anos, em 2013. E foi apenas um entre vários militares condenados por crimes contra a humanidade.

A omissão (para dizer o mínimo) do governo brasileiro fez (até agora) dez vezes mais vítimas que a pior ditadura da história argentina. E sete vezes mais rápido.


Lembram do que nosso atual presidente falou em 1999, quando era apenas um exótico deputado do “baixo clero”? Objetivo pessoal alcançado, dez vezes.

Adeus, Brasil?

Resolvi fazer uma enquete no Instagram sobre ir ou não embora do Brasil. Por enquanto, a emigração está vencendo de goleada…

Um dos votos “sim” é meu. Nunca tive tanta vontade de ir embora como neste momento desesperador pelo qual o Brasil passa. São três os fatores que me impedem: família, dinheiro (não tenho o suficiente para me manter por mais de dois meses fora) e pandemia (nenhum país que se preze deixaria entrar oriundos de um lugar onde o vírus corre solto).

A realidade, então, se impõe: não posso realizar minha vontade. Terei de ficar no Brasil.

Mas não ficarei “em vão”. Farei de tudo para sobreviver (na situação atual da pandemia isso não é exagero, só ver a quantidade de jovens sem comorbidades em UTIs) pois, quando isso tudo passar, pretendo pelo menos planejar uma mudança para o interior, onde o custo de vida é mais baixo.

E o fundamental: como graduado em História e testemunha de um genocídio em curso, passarei o resto da vida lembrando por que chegamos a isso. É obrigação moral e dever profissional, ainda que eu não exerça o ofício de historiador.

O meu maior erro em 2018 foi acreditar que o bom senso prevaleceria. Não aconteceu. Muitas pessoas me decepcionaram: o ódio ao PT falou mais alto e tornou aceitável o voto em alguém que defende tortura e fuzilamento de adversários políticos. Aceito desculpas de quem se arrependeu, mas só se ele for real – ou seja, se a pessoa pudesse voltar ao segundo turno daquela eleição, digitaria “13” ao invés de “17” (não aceito voto nulo, pois era um momento em que ninguém deveria se omitir).

Perdoo, mas não esqueço. Uma das minhas virtudes é ter boa memória. Até o último dia da minha vida lembrarei de quem foi, ainda que “sem querer” (querendo?), cúmplice da barbárie.

Um ano roubado

No dia 12 de março de 2020, fui à Arena do Grêmio pela última vez até agora. Era o histórico Grenal da Libertadores: tanto falaram que “o mundo acabaria” quando isso acontecesse que pelo visto virou praga…

Desde então, considero minha vida paralisada, ainda que minha quarentena tenha começado uma semana após o jogo. No sábado (14 de março) almocei com minha mãe e depois fui visitar minha avó, no domingo (15) almocei com meu pai, e trabalhei “normalmente” (entre uma atividade e outra, só se falava de vírus) até a quarta-feira (18). Tudo isso já sem abraçar ninguém. O Grenal acabou virando meu “marco” pois fui à Arena naquela escaldante quinta-feira sabendo que após o apito final ficaria um bom tempo não só sem ir ao estádio como também sem futebol e (principalmente) sem abraços, conforme as recomendações científicas.

Desde então, nunca mais subi correndo a escadaria da Arena (por mais que sempre dissesse que não o faria, acabava fazendo pois queria tomar uma última cerveja antes de entrar), parei de abraçar pessoas e de frequentar bares e restaurantes, simplesmente fiquei a maior parte do tempo em casa, esperando a pandemia passar para poder voltar a fazer essas coisas. Mas ela não acaba nunca.

Nesse ano que se passou perdi minha avó (aquela visita em 14 de março de 2020 foi a última) e no velório dela não pude receber calorosos abraços reais que certamente aconteceriam se não fosse a pandemia. Minha mãe fez uma cirurgia cardíaca e deu tudo certo, mas fiquei o tempo todo preocupado com o risco dela pegar covid-19 durante a internação no hospital – e sigo apreensivo pois na semana passada ela teve consulta de revisão e precisou esperar por mais de duas horas até ser atendida.

Por mais que a pandemia impusesse certo período de reclusão, jamais imaginei que “comemoraria” um ano disso. Em março do ano passado achava que teríamos algumas semanas de restrições para depois retomarmos nossas rotinas. Afinal de contas, era só usar a lógica: com as pessoas ficando em casa, o vírus circularia pouco e o sistema de saúde se prepararia não apenas aumentando o número de leitos (clínicos e de UTI) como também fazendo o rastreamento de contatos nos últimos 14 dias das pessoas doentes tal qual a Coreia do Sul – e o Brasil, com o SUS, tem capacidade para isso.

Mas além do SUS, o Brasil tem Jair Bolsonaro como presidente. Ele chamou a covid-19 (contra a qual não temos imunidade alguma por ser doença nova) de “gripezinha” (sendo que pegamos gripes há muitos séculos e também existe vacinação contra o vírus influenza), falou contra o distanciamento social e o uso de máscaras (maneiras mais efetivas de se evitar o contágio no primeiro momento) e também cometeu o disparate de dizer que não se vacinaria. Era a receita para o óbvio desastre que vivemos um ano após o início da pandemia: enquanto países como Israel e Reino Unido (insuspeitos de terem governos “comunistas”) já enxergam “a luz no fim do túnel” graças às vacinas, o Brasil mergulha em um abismo aparentemente sem fundo e se torna uma ameaça global.


Impossível não pensar que perdi um ano de vida – ou, mais corretamente, que ele me foi ROUBADO por Bolsonaro e sua política genocida. Um roubo pior do que se fosse de dinheiro ou outros bens materiais, pois não há a menor possibilidade de ressarcimento. No dia em que eu morrer, não terei o direito de pedir “acréscimos” para recuperar o tempo perdido como acontece numa partida de futebol.

É um crime que segue em curso, pois a lentidão na vacinação e o discurso anticientífico do presidente – que infelizmente serve de “exemplo” a muitas pessoas – fazem com que esteja muito longe o fim da pandemia no Brasil. E ainda posso dizer que “reclamo de barriga cheia”, pelo simples fato de poder reclamar. Pois (por enquanto) mais de 285 mil brasileiros perderam este direito por terem morrido da doença. São vidas e amores roubados por Jair Bolsonaro.

Parece que é pior ser ladrão do que genocida no Brasil. Como prova a eleição de Bolsonaro em 2018: se IMPLOREI para que não votassem nele, é por que seu histórico como deputado já “dava a dica” do que seria sua presidência; mas ainda assim diziam que “podem chamar ele de tudo, menos de ladrão” e com isso estava “justificado” elegê-lo contra a “roubalheira do PT”. (Engraçado que boa parte de quem falou essa baboseira repetia feito DISCO ARRANHADO que “político é tudo ladrão” e votou em alguém que estava no Congresso desde 1991.)

Mas a verdade é que Bolsonaro é, sim, ladrão. Nem falo das controvérsias (para não usar outro termo) de seu filho. Tampouco de outras coisas mal explicadas, como a multiplicação de seu patrimônio desde que entrou na política (1988, quando foi eleito vereador no Rio de Janeiro). Bolsonaro é um ladrão de tempo e vidas. Ele rouba o que é irrecuperável.

Bolsonaro promove o maior roubo da história do Brasil. Meu maior desejo é que um dia ele seja condenado por isso – ainda que seja impossível devolver o tempo e as vidas surrupiadas.

Já que não o chamam de genocida, então podem chamá-lo de ladrão, pois ele o é. O pior de todos os ladrões.

Brasil, o túmulo do bom senso

Apesar de não ser fã da folia carnavalesca, sempre gostei do feriadão. Como reclamar de não precisar acordar cedo por cinco dias seguidos sem estar de férias?

Eis que veio a pandemia maldita e me bateu uma “deprê” pela ausência (oficial) do Carnaval. Talvez porque mesmo preferindo ficar em casa (suprema ironia) tomando cerveja comprada no supermercado (portanto, mais barata) e no ar condicionado, me agradava a ideia de haver VIDA nas ruas – se me desse vontade de fazer festa, era só escolher o “bloquinho”. Ou, o que me marcou mais, duas semanas após o Carnaval de 2020 minha vida parou sem previsão de retorno. (E o primeiro caso de covid-19 no Brasil foi confirmado justamente na “terça-feira gorda”.)

Mas, como falei, a ausência do Carnaval foi apenas oficial em 2021. Pois Brasil afora foram registradas muitas aglomerações, em praias e em locais fechados. Sendo que o contágio está na ascendente, e ainda temos a variante mais transmissível circulando em todo o país.

Como falei tempos atrás, voltei a ter “ranço” de baladas, por elas estarem acontecendo em um momento como este. E pensar que já vi gente criticando quem diz que se ganhasse na Mega Sena iria embora do Brasil pois isso seria uma atitude “egoísta”. Interessante conceito de egoísmo esse: é querer deixar um país no qual não se tem mais um minuto de paz, e não fazer festa de galera em meio à maior pandemia dos últimos 100 anos.

Na eterna rixa entre paulistas e cariocas, os segundos costumam dizer que São Paulo é o “túmulo do samba”. Não sou exatamente um especialista para poder avaliar se isso é verdade ou não (meu pai sempre preferiu o Carnaval do Rio por achar o samba paulistano mais “acelerado”), mas não me parece nem um pouco difícil dizer que o Brasil inteiro está provando, nesta pandemia, que é o túmulo do bom senso. Óbvios sinais disso já vinham de antes (como a eleição de 2018), mas agora ficou escancarado.

O presidente é muito culpado por dar péssimo exemplo atrás de péssimo exemplo e se enrolar demais para adquirir vacinas. Só que as pessoas, independentemente de suas escolhas eleitorais, não são obrigadas a dar bola para as merdas que ele fala repetidamente. Se seguem o que ele diz, conscientemente ou não, também são culpadas.

Até porque ele não chegou ao Palácio do Planalto por um toque de mágica: 57.797.847 pessoas o colocaram lá, dando uma banana para o bom senso. E muitas delas não se arrependeram do voto.

Mas, egoísta é quem quer ir embora se a oportunidade surgir.

Um alento

Enfim, temos vacinas aprovadas.

Enfim, temos vacinas aplicadas no Brasil.

Ainda falta muito, há um longo caminho a percorrer. Mas venceremos essa pandemia maldita.

E Jair Bolsonaro há de ir embora da presidência, de preferência direto para a cadeia. Hoje um impeachment não teria votos suficientes na Câmara, mas há um grande número de deputados que ainda não se posicionou. Os dois terços não surgem por mágica, é preciso construí-los, fazer pressão.

Não tem outra música mais apropriada para este domingo (ironicamente, um dia 17) do que “Apesar de Você”, de Chico Buarque.

E sim, João Doria pode se beneficiar politicamente por ter sido ele – e não o presidente do Brasil – que estava presente no momento da aplicação da primeira vacina em território brasileiro. Mas ainda tem muita água para rolar até outubro de 2022, e isso não anula o fato de que, enfim, começou a vacinação em nosso país.

Prematuro

Em menos de nove meses, completarei quatro décadas de vida. Planejava celebrar a data com amigos em um bar, ainda mais que neste ano 15 de outubro será uma sexta-feira, mas acho improvável que aconteça posto que o desgoverno instalado em Brasília não fará nenhum esforço para vacinar gente suficiente contra a covid-19 em 2021. (Cada vez mais sinto vontade de HIBERNAR, estar acordado durante esta pandemia é um fardo.)

Serão 40 anos de um nascimento prematuro: era para eu vir ao mundo entre o final de outubro e o começo de novembro de 1981. Mas acabou sendo já no dia 15 pois minha mãe estava com a pressão arterial bastante alta e esperar mais tempo seria muito perigoso tanto para ela como para mim. Meu pai autorizou a cesariana e dei meu primeiro chorinho às 23 horas e 5 minutos daquela quinta-feira de primavera.

Tive de passar mais quinze dias em uma incubadora, só fui para casa no final de outubro. Felizmente correu tudo bem e hoje posso escrever este texto.

Isso foi a primeira coisa que lembrei quando li a notícia de que 60 bebês prematuros tiveram de ser transferidos do Amazonas para outros estados, pois corriam muito risco de morrer devido ao esgotamento do estoque de oxigênio nos hospitais de Manaus. Se lá em outubro de 1981 correu tudo bem comigo e após quinze dias no hospital pude ir para casa, foi porque não havia uma pandemia e um colapso no sistema de saúde em Porto Alegre.

E é por isso que há DEZ MESES se insiste tanto que só se saia de casa apenas se necessário (lembrando que “balada”, bar e praia NÃO SÃO necessidades). Quando um hospital fica superlotado por conta de uma doença que se espalha muito rápido, pessoas que têm outros problemas também ficam sem atendimento. E quando o conseguem, profissionais da saúde estão mais suscetíveis a erros por conta do trabalho exaustivo (e que podemos até chamar de HEROICO) que vêm fazendo desde março de 2020.

E assim muitas mortes que em situações normais seriam evitadas, acabam acontecendo. Seja por covid-19 ou por qualquer outra causa.

Se o caos deste janeiro de 2021 em Manaus fosse em outubro de 1981 aqui em Porto Alegre, talvez eu não estivesse vivo para escrever as palavras acima, apenas não consigo parar de pensar nisso.

Asfixia

Ao sair do trabalho na quinta-feira, só pensava no que faria após chegar em casa: tomar banho, higienizar óculos e celular, fazer um lanche e escrever, mas sobre nada que lembrasse a pandemia maldita.

Mas a realidade se impôs: hospitais de Manaus sem suprimento de oxigênio devido ao imenso aumento dos casos de covid-19 na cidade e em todo o Amazonas.

BRASILEIROS MORRENDO ASFIXIADOS POR FALTA DE OXIGÊNIO EM HOSPITAIS, é isso mesmo. O que sobra é cloroquina, sem utilidade alguma contra a covid mas que foi “receitada” por certo genocida.

Antes eu sentia vergonha pelo Brasil não estar vacinando sua população enquanto outros países, boa parte deles mais pobres, já o faziam. Mas agora é ainda pior: brasileiros não apenas ficam sem imunização, como também sem oxigenação. Morrem dentro de hospitais da maneira que penso ser a mais apavorante de todas.

Que tempos terríveis esses… Pois enquanto muitas famílias choram suas perdas, abostados seguem fazendo festinha como se nada de mais estivesse acontecendo, inspirados pelo genocida, por mais que digam ser contra ele.

A ciência nos salva

Demorou, mas temos uma vacina. Ou melhor, duas, pois além do Instituto Butantan ter pedido o registro da Coronavac para uso emergencial, a Fiocruz também solicitou o mesmo para a que ela produzirá em parceria com a AstraZeneca e a Universidade de Oxford.

Foi muito tempo com domínio absoluto de notícias ruins, tristes. E no mesmo 7 de janeiro em que o Butantan divulgou a eficácia da vacina que produzirá em parceria com a Sinovac, o Brasil atingiu a catastrófica marca de 200 mil mortos pela covid-19: é o mesmo número de presentes ao Maracanã na final da Copa de 1950 que, definitivamente, está bem longe de ser a maior tragédia da história brasileira.

Mas, por outro lado, finalmente vemos uma luz no fim do túnel. Ainda vai demorar para todo mundo ser vacinado, mas começando pelos grupos de risco, com o passar do tempo veremos a redução da lotação nas UTIs, profissionais de saúde estarão imunizados e, principalmente, terão um alívio depois de um ano de trabalho incessante e mesmo massacrante. E o melhor de tudo, é que ainda em 2021 vamos parar de ver tantas notícias falando em muitas centenas de mortes diárias por essa doença maldita que já enlutou milhares de famílias.

Viva a ciência! É ela, e não o charlatanismo, que vai nos livrar dessa desgraça.

Nada de novo

Pelo contrário, tudo muito velho neste começo de 2021 – e nem dava para esperar algo diferente.

A pandemia, obviamente, não respeita calendário, seguindo firme e (ainda mais) forte. Ali pelo meio de janeiro veremos os resultados das aglomerações durante as festas de final de ano.

Em Porto Alegre, temos um novo velho governo. Sebastião Melo, vice-prefeito no segundo mandato de José Fortunati, assumiu a prefeitura na sexta-feira e hoje já decretou uma irresponsável flexibilização que também ajudará a abreviar muitas vidas. Parecia difícil imaginar que um dia eu sentiria saudades de ver Nelson Marchezan Júnior no Paço Municipal, e mais incrível que isso se dê menos de uma semana após ele transmitir o cargo.

Nada de novo também no tocante ao pouco caso de muitas pessoas sobre o que é racismo e como ele passa desapercebido. Como vemos no hino do Rio Grande do Sul, com aquele famoso trecho sobre o destino de “povos sem virtude”. Discussão que ocorre justo quando a Austrália alterou a letra de seu hino nacional por conta de um verso que desconsiderava os indígenas – que chegaram àquelas terras milhares de anos antes do primeiro europeu pôr seus pés lá.

Dizem que Francisco Pinto da Fontoura, autor da letra do Hino Rio-Grandense, não se referiu aos negros quando escreveu “acaba por ser escravo”, mas sim aos rio-grandenses em relação ao Império do Brasil. Da mesma forma que Peter Dodds McCormick (que escreveu os versos do hino nacional australiano) provavelmente nem pensou que suas palavras desconsiderariam os indígenas – até porque eles sequer eram considerados como pessoas pelos censos da Austrália antes da década de 1960. Assim como August Heinrich Hoffmann von Fallersleben nem se preocupou que seu “Alemanha acima de tudo” pudesse ser associado ao nazismo, já que ele escreveu a letra da canção que se tornaria o hino nacional alemão quase meio século antes do nascimento de Adolf Hitler. E ainda há gremista que jure de pés juntos que o uso do termo “macaco” para se referir aos colorados é porque eles “eram imitões”, e não porque nosso rival abriu antes suas portas aos negros. (Sim, reconhecer isso não me faz menos gremista.)

Só que os tempos mudam. E certas coisas não cabem mais neles.

Eram negros os escravizados nos tempos em a letra que o Hino Rio-Grandense foi escrita – e a então província foi reintegrada ao Império do Brasil, não sem antes entregar “de presente” os Lanceiros Negros, tirando-lhes as armas que precisariam para a defesa. Ao contrário do que era cantado com sentido patriótico até 31 de dezembro de 2020 na Austrália, ela não foi descoberta no Século XVIII como diz sua “história oficial”, pois já era habitada mais de 60 mil anos antes da chegada dos europeus. Depois dos horrores perpetrados pelos nazistas, tornou-se inaceitável que os alemães cantassem em coro um verso que colocasse seu país “acima de tudo” mesmo que ele tivesse sido escrito um século antes. E, sinceramente, acho que a torcida do Grêmio fica bem mais legal incentivando o time ao invés de ficar falando do Internacional de forma escrota.

Só não mudam as pessoas que preferem manter suas cabeças fechadas. Assim como as que põem o lucro acima da vida e que agora estão, infelizmente, com mais poder em Porto Alegre.

Até o SARS-CoV-2 muda. Inclusive, sua famosa variante mais transmissível já está no Brasil.


Para alterar aquele verso do Hino Rio-Grandense, vi no Facebook uma sugestão que embora mude um pouco a rima, mantém a mesma vocalização:

Povo que não tem virtude, adora o Bolsonaro.