A “homérica” direita brasileira

Nada a ver com o grande poeta épico grego, autor dos clássicos “Ilíada” e “Odisseia”. O Homero ao qual me refiro neste caso é Homer Simpson, genial sátira do “estadunidense médio”: preguiçoso e idiota, Homer passa boa parte de seu tempo livre sentado defronte à televisão, na qual acredita sempre.

Porém, será que Homer é representativo apenas dos estadunidenses? Creio que não. Pois há muitos brasileiros que também são verdadeiros “Homers Simpsons”. Em especial, aqueles mais reacionários, que repassam qualquer coisa que contenha expressões do tipo “acorda Brasil”.

É uma mais sem pé nem cabeça que a outra. Relembremos algumas:

  • Me mandaram por e-mail uma vez uma “denúncia” sobre supostas alunas de um curso dedicado a beneficiárias do Bolsa Família “que não quiseram trabalhar com carteira assinada para não perderem o benefício”. Sem nem pensarem que Bolsa Família é apenas assistência (os mesmos reaças não chamam de “bolsa-esmola”?), e que se elas deixaram seus empregos por conta disso, é sinal de que trabalhavam por um salário de fome;
  • Na campanha eleitoral, me disseram que Dilma Rousseff, “aquela terrorista”, participara do sequestro do embaixador dos Estados Unidos, Charles Elbrick, em 1969, e que por conta disso ela não poderia entrar nos EUA caso fosse eleita – e um ano depois, lá estava ela em Washington… Claro, pois ela não participara do sequestro: quem não conseguiu visto de entrada foram Franklin Martins e Fernando Gabeira – que inclusive não pôde assistir à sessão de estreia do filme “O que é isso, companheiro?” (inspirado em seu livro homônimo) nos EUA;
  • Certa vez o G17 (página que satiriza o G1, portal de notícias da Globo) publicou uma “notícia” sobre a construção de uma estátua gigante de Lula em Brasília, que seria visível em toda a cidade. O pessoal leu a “notícia” e o leiaute do G17, semelhante ao do G1, fez com que acreditassem que era verdade… Quando o bom senso recomenda não só prestar bastante atenção no que se lê antes de repassar, como também desconfiar até mesmo dos portais de notícia “sérios”;
  • Outra “denúncia” recebida foi sobre a “vagabundagem” do MST, que ao invés de produzir em um assentamento às margens do Rio Solimões, estaria roubando ovos de tartarugas que fazem ninhos no local para depois revendê-los (quando lhes convêm, os reaças se preocupam com o meio ambiente). Pelo visto, nas horas livres os “ladrões” pegavam a prancha e iam surfar no Solimões;
  • Tem também aqueles absurdos sobre o “Bolsa Bandido” e o “Bolsa Crack”, que semana passada já tratei de detonar.

Agora, a polêmica que se dá é acerca da decisão do governo de trazer médicos estrangeiros para atenderem a população em regiões mais afastadas dos grandes centros, para onde os médicos brasileiros não querem ir. O objetivo é de contratar cubanos, espanhóis e portugueses, mas a gritaria é contra os cubanos, claro: mesmo que a medicina de Cuba seja muito elogiada, se diz que os médicos cubanos “não seriam qualificados”*. Mas como o absurdo não tem limites, começou a circular pelo Facebook uma imagem que afirma serem os médicos cubanos “guerrilheiros” disfarçados, que atenderão ao propósito do governo de dar um “golpe comunista” em 2014… (Luís Carlos Prestes deu um duplo twist esticado no túmulo depois dessa.)

Um argumento dos críticos é incontestável: é preciso fazer com que os médicos não queiram ficar apenas nos principais centros. Porém, isso não é problema que se resolva de uma hora para a outra, e no interior as pessoas precisam de médicos agora, não podem esperar. Então, que venham os estrangeiros.

A propósito, talvez seja bom incluir psiquiatras dentre os médicos que vêm para cá, pois do jeito que anda nossa direita os que estão por aqui não são suficientes…

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Sobre poder falar mal do presidente (e de outras coisas mais)

Às vezes tenho a impressão de que quanto mais correntes são detonadas, mais “novidades” surgem. A última que recebi é um texto muito tosco, defendendo a ditadura militar. Me senti na obrigação de escrever uma resposta.

Primeiro vamos ao texto da mensagem, que copiei como veio: mal-formatado e (principalmente) mal-escrito…

É MUITO BEM HUMORADO E MUITO VERDADEIRO. . .
Na época da ‘chamada’ ditadura…
Podíamos namorar dentro do carro até a meia- noite sem perigo de sermos mortos por bandidos e traficantes.
Mas, não podíamos falar mal do presidente.

Podíamos ter o INPS como único plano de saúde sem morrer a míngua nos corredores dos hospitais.
Mas não podíamos falar mal do presidente.

Podíamos comprar armas e munições à vontade, pois o governo sabia quem era cidadão de bem,quem era bandido e quem era terrorista,
Mas, não podíamos falar mal do Presidente.

Podíamos paquerar a funcionária, a menina das contas a pagar ou a recepcionista sem correr o risco de sermos processados por “assédio sexual”,
Mas, não podíamos falar mal do Presidente.

Não usávamos eufemismos hipócritas para fazer referências a raças (ei! negão!), credos (esse crente aí!) ou preferências sexuais (fala! sua bicha!) e não éramos processados por “discriminação” por isso,
Mas, não podíamos falar mal do presidente.

Podíamos tomar nossa redentora cerveja no fim do expediente do trabalho para relaxar e dirigir o carro para casa, sem o risco de sermos jogados à vala da delinqüência, sendo preso por estar “alcoolizado”,
Mas, não podíamos falar mal do Presidente.

Podíamos cortar a goiabeira do quintal, empesteada de taturanas,sem que isso constituísse crime ambiental,
Mas, não podíamos falar mal do presidente.

Podíamos ir a qualquer bar ou boate, em qualquer bairro da cidade, de carro, de ônibus, de bicicleta ou a pé, sem nenhum medo de sermos assaltados, sequestrados ou assassinados,
Mas, não podíamos falar mal do presidente.

Hoje a única coisa que podemos fazer…

…é falar mal do presidente!

que merda !

Bom, agora vem a parte mais divertida: destruir os “argumentos” de quem escreveu esse lixo e-mail. Continuar lendo

Por onde andam os “correnteiros”?

Em junho do ano passado, detonei uma série de correntes que tinham por objetivo difamar Dilma Rousseff. Meu objetivo não era defender a então candidata petista à presidência (até porque eu pretendia votar em Plínio de Arruda Sampaio, só mudei o voto “em cima da hora” para tentar derrotar o PSDB mais rapidamente), e sim, frear as mentiras que vinham sendo constantemente difundidas por reacionários mal-intencionados e também por “inocentes úteis” que repassavam aquelas bobagens.

Uma das correntes dizia que, se eleita, Dilma Rousseff não poderia pisar nos Estados Unidos, pois seria presa por ter participado do sequestro do embaixador Charles Elbrick, acontecido em setembro de 1969 no Rio de Janeiro. Logo, o Brasil teria uma Chefe de Estado que não poderia representar o país em solo estadunidense. Ruim, né?

Ruim mesmo era ter de desmentir uma idiotice dessas. Dilma militou em organizações de esquerda durante a ditadura militar, que inclusive empreenderam ações armadas, mas não há prova alguma de que a agora presidenta do Brasil tenha participado de alguma delas. E sequestros, pelo que eu sei, são ações armadas.

Os Estados Unidos realmente negam o visto de entrada a todos os participantes do sequestro do embaixador Charles Elbrick. E entre os vetados obviamente não está Dilma Rousseff, que inclusive já tinha ido aos EUA em várias oportunidades, acompanhando Lula como ministra de Estado que era. Já Franklin Martins, que também era ministro, nunca acompanhou o presidente justamente por ter participado do sequestro e, por isso, não conseguir visto. Outro que não pode entrar é Fernando Gabeira – inclusive, quando o filme inspirado em seu livro “O que é isso, companheiro?” começou a ser exibido nos cinemas dos EUA, Gabeira não pôde ir assistir à sessão de estreia.

E agora, de novo, Dilma está em solo estadunidense. E os “correnteiros”, onde estão?

Me antecipando a ela

Corre na internet a notícia de que será erguida em Brasília uma estátua do ex-presidente Lula, projetada para ser mais alta que o Cristo Redentor, ao custo de R$ 13 milhões (13 milhões? Coincidência?) para os cofres públicos. Parece absurdo, né?

Não parece: É ABSURDO. (Inclusive, a ausência das aspas na palavra “notícia” do primeiro parágrafo foi proposital: me divertir um pouco, imaginando quantos reacinhas não cairiam facinho nessa.)

Foi via Facebook que achei a matéria de Carlos Newton no Tribuna da Imprensa publicada no último dia 5, alertando para mais uma dessas malditas correntes. Criação de algum imbecil para desinformar as pessoas: ele ri, mas muito “inocente útil” já deve ter repassado essa bobagem, “espumando de raiva” contra “mais essa dos petralhas”.*

E tenho certeza de que em breve mais essa merda corrente chegará à minha caixa de e-mail

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Fica uma dica aos leitores: antes de saírem repassando qualquer coisa, pesquisem na internet e chequem a informação. Pode até ser que não se trate de uma mentira (sabe lá se não é notícia em primeira mão), mas se for algo tão absurdo quanto uma estátua em homenagem a uma pessoa viva (ainda mais se acompanhada de comentários raivosos), é alta a chance de ser apenas mais uma dessas porcarias de correntes.

Para facilitar um pouco, indico textos que detonam algumas delas. Tem dois do Vinicius Duarte: um sobre a tal de “bolsa-bandido”, e outro simplesmente impagável sobre aquela “campanha cívica” para baixar o preço da gasolina.

E tem também os que escrevi aqui no Cão, em ordem cronológica (a maioria é relacionada à última campanha eleitoral, mas podem servir como lição):

  • Quem quer um Brasil melhor NÃO REPASSA CORRENTES! Neste aí, acabei com quinze desses e-mails;
  • Não alimente os trolls. Não foi exatamente sobre correntes, e sim sobre os malas que adoram tumultuar o debate em blogs – e enchem o saco também;
  • Depois dos concretoscos, os DIREITOSCOS. À medida que a campanha eleitoral de 2010 avançava, o nível das correntes baixava (e estávamos recém no final de julho). Neste, desmenti a suposta “censura” do governo federal contra o blog de uma jornalista que “desagradaria ao governo” por ser direitosa: na verdade, a “censura” se dera por ordem judicial de um deputado estadual do Mato Grosso, ou seja, nada a ver com Brasília;
  • Mais uma mensagem tosca… Não chegava a ser exatamente uma corrente, pois a informação de que o Brasil abriria uma embaixada em Tuvalu não era totalmente falsa: na verdade o relacionamento bilateral entre os países seria de responsabilidade da embaixada brasileira na Nova Zelândia. Mas foi preciso explicar que relações diplomáticas não são questão de governo, e sim de Estado: só imagino o que mundo pensaria se José Serra ganhasse a eleição e uma de suas primeiras medidas como presidente do Brasil fosse romper as relações com Tuvalu;
  • A última da “fábrica de correntes”. Esta era uma “pesquisa imparcial” que apontava ampla vantagem de Serra, com mais de 60% dos votos. Tão “imparcial”, que Dilma venceu a eleição com 56,05% dos votos válidos no 2º turno;
  • Tem gente que PEDE para não ser levada a sério. Na ânsia de chamar Dilma Rousseff de “ladra”, um amigo teve a ousadia de me enviar (mesmo eu sendo graduado em História) um vídeo de Jair Bolsonaro… Nem assisti até o fim, pois era muito previsível: Bolsonaro começou falando sobre o PNDH-3 – ou seja, a iminente implantação de uma “ditadura comunista” no Brasil – e depois certamente acusaria Dilma de ter sido “assaltante de bancos” na época da ditadura militar (que para o deputado foi o auge da democracia no Brasil), sem citar que não há prova alguma de que Dilma tenha participado de ações armadas, e também de que os “terroristas” dos anos 60 e 70 não combatiam um governo democrático – pelo contrário, o verdadeiro terrorismo era o governo;
  • Eu morro e não vejo tudo… Recebi uma suposta entrevista do nadador Cesar Cielo ao jornal O Estado de São Paulo detonando os dirigentes da Confederação Brasileira de Desportos Aquáticos (CBDA) e o governo federal. Mas detonado mesmo foi esse e-mail: Cielo realmente criticou muito os dirigentes da CBDA, só que na matéria do Estadão que fala disso, publicada em 2 de setembro de 2008, a palavra “governo” sequer aparece… Neste mesmo texto também relatei o recebimento pela segunda vez e da mesma pessoa, de uma outra corrente.

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* Retificação (14/09/2011, 21:14). Via Facebook, o Natusch me avisou que a origem da “notícia” é o G17, página que satiriza o G1. Ou seja, alguém viu, achou que era sério (já que o leiaute realmente lembra o do G1) e repassou… Ou seja, continua válida a dica de checar as informações. Inclusive para este que vos escreve, de modo a evitar xingamentos a quem fez algo que muito prezo: humor.

Dilma lá

No início desta noite de 31 de outubro de 2010, o Brasil vive um momento histórico, ao eleger pela primeira vez uma mulher para a Presidência da República.

Mais do que uma vitória das mulheres brasileiras, é também uma acachapante e merecidíssima derrota da direita reacionária (a “grande mídia” incluída). De nada adiantaram as manipulações, os boatos, as correntes, os trolls, a “polêmica” sobre o aborto…

Perderam! Bem feito!!!

Enfim, é hora de comemorar a vitória de Dilma – que significa a derrota reacionária. Mas depois, é preciso que não deixemos de ter um olhar crítico sobre o governo Dilma.

E vamos curtir, mais uma vez, o samba que podemos considerar a trilha sonora desta vitória:

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Atualização (31/10/2010, 21:37): Quando falo em derrota da direita reacionária, claro que me refiro apenas ao processo eleitoral, pois é preciso ficar de olho em suas movimentações. Quando o “jornalista” Arnaldo Jabor compara 2010 com 1963 (todos sabem – ou deveriam saber – o que aconteceu em 1964), se isso não é pregação golpista, sei lá o que é.

Não há argumentos pró-Serra

O texto abaixo foi escrito por meu amigo Fábio Castilhos Figueredo, professor de Língua Portuguesa, e que há um ano ministra aulas no Timor-Leste (mas em breve estará de volta ao Brasil). Leiam:

“Por que não votar na Dilma.” Ou “Votar na Dilma, por que não?”

Todas as pessoas que me conhecem sabem que sou libriano. E como tal, adoro fazer ponderações de toda ordem (mais bunda, menos bunda; beleza, inteligência; esquerda, direita). Sou aquele tipo de libriano que adora ser gentil e perguntar a todas as pessoas “E tu? Prefere o quê?” só para não ter comigo a responsabilidade de escolher o cardápio do dia. No entanto, depois de algumas ponderações, sei perfeitamente escolher, desde que tenha tido a oportunidade de observar todos os pontos.

Como também devem saber, estou vivendo um ano fora do Brasil. Justamente ano de eleição. Apesar de não ter transferido meu título para cá, para não ter toda a burocracia de refazer o processo novamente ao chegar no Brasil, tenho acompanhado os debates e as propagandas políticas da melhor forma possível. Acompanhei algumas propagandas do Tiririca e seus atuais confrontos com a Justiça Eleitoral; fiquei sabendo das vitórias de cada estado; concordei com as derrotas, tanto eleitorais como judiciárias, de muitos medalhões. Por estar mais próximo de pessoas de outros recantos do Brasil, acompanhei a eleição em quase todo o território, do Ceará ao Rio de Janeiro, de Minas Gerais a Bahia. No entanto, não tenho uma televisão para isso.

No Brasil eu gostava de acompanhar o horário eleitoral. Não era, nem sou, um fanático, mas gostava de poder saber porque poderia votar neste ou naquele candidato. Com essa distância das urnas (entenderam a metáfora?), recebi muitas manifestações pela internet, meio de comunicação maravilhoso, pois não tem filtro, é público e nem um pouco criterioso. Como na internet todos podem mandar o que quiserem para quem quiserem, recebi toda a sorte de correntes, piadas, charges, manifestos políticos.

O que me chama a atenção é que os lendo, senti uma grande falta do que se dizer. Sou professor, eu trabalho com a Língua Portuguesa, ela é meu meio de sustento; sua escrita é meu objeto de estudo; sua argumentação é meu mestrado. Como professor, posso afirmar que li muitas comparações entre os governos Lula e FHC, li ponderações sobre os feitos de um e de outro; admito que FHC foi essencial para o Brasil durante 8 anos de mandato; reconheço que os 8 anos de governo Lula foram os mais crescentes da nação. Não há como negar que a população brasileira teve seus momentos de glória durante a presidência de FHC, mas conseguiu ser mais emergente no governo Lula. Não vamos dar todos os méritos para o Lula, pois sabemos de suas falhas, de seus exageros e de seus “eu não sabia de nada”; contudo, não é possível canonizar um FHC que pouco investiu em educação, saúde e segurança, apesar de tê-lo feito em economia, somente.

Os candidatos que ao povo se apresentam para o pleito devem de fato continuar o trabalho de um ou de outro. O problema, para mim, é como farão isso. Recebi muitas propostas para o governo Dilma. Com algumas concordo, com outras discordo.

Sobre o candidato Serra, nada recebi de proposta. Sempre que abro minha caixa de e-mail recebo diversos pedidos para não votar na Dilma, mas em nenhum deles me dizem seriamente porquê. Não devo votar na Dilma porque ela é mulher; porque ela é dentuça; porque o amigo dela fala errado; porque foi guerrilheira; porque supostamente não vai poder viajar senão será presa logo após a aterrissagem do avião; porque ela é o diabo, vai provocar o armagedom e obrigar as pessoas a fazer abortos. Se descarregar minha caixa de mails, há uma infinidade de piadas (muitas sem graça) para que apenas não vote na Dilma. Mas vou votar em quem? No Serra? Por quê?

A argumentação em Língua Portuguesa se sustenta em vários alicerces. Podemos usar desde o discurso de autoridade até uma argumentação baseada na escolha das palavras. Como linguísta, prefiro observar a linguagem nela mesma. Se um discurso é bem feito, é porque houve uma série de escolhas, de escritas, de construções que o fizeram ser bem feito. Confesso que não recebi nenhuma proposta ou discurso para que imaginasse votar no Serra, nem uma frase, nem uma proposta, nem uma ideia; apenas os clássicos “não vote na Dilma”.

Então me questiono: “Votar na Dilma, por que não?” Desde incentivo à Educação, aos professores e às universidades; desde o combate ao racismo e à violência contra a mulher; desde uma avaliação das diversas bolsas-caridade espalhadas no país, o que aparece como ideia ou descontentamento do brasileiro, meus descontentamentos atuais, estão presentes nas propostas dela. Não como uma coisa extremamente nova, mas como um ajuste ao que vem sendo feito pelo atual governo.

Sei que ninguém é ingênuo na Política. Por vezes, ingênuo é o povo brasileiro, que se deixa levar pelo riso fácil ou pelo discurso religioso. Meus amigos que me conhecem sabem que não sou dado a mails de corrente e de bobagens a toda hora. Se me dou ao trabalho de escrever essas duas páginas de texto, é porque sei que os que lerão poderão perceber que ainda sou o ponderado de sempre. Colocar uma mulher na presidência, por que não?

Prof. Ms. Fábio Castilhos Figueredo

Quando nem a direita acredita nas mentiras reaças

Semana passada, recebi novamente aquela “corrente” sobre a “bolsa bandido”, que teria sido supostamente criada pelo governo Lula – mentira destroçada pelo Vinicius Duarte. Obviamente respondi, e como o meu amigo havia mandado o lixo e-mail sem usar a opção “com cópia oculta”, cliquei em “responder a todos”, enviando apenas o link para o texto do Vinicius, nada mais, para que mais gente recebesse o “antídoto” contra a mentira.

Já recebi duas respostas – ambas apenas para mim, e não para todos. Uma delas foi a que mais me deixou satisfeito. Pois veio de um outro amigo, que é de direita. E ele disse que achara a “denúncia” sobre a “bolsa bandido” exagerada… Inclusive, me agradeceu pelo esclarecimento.

Ou seja: há uma luz no fim do túnel. Há pessoas que são conservadoras e não saem acreditando em qualquer bobagem só por ser “contra o governo Lula”. Quanto menos gente tendo mentiras como verdades, melhor.

Direita é derrotada no RS, e ganha “sobrevida” nacionalmente

No Rio Grande do Sul, deu Tarso governador no primeiro turno. Uma vitória histórica, por dois motivos.

O primeiro, porque Tarso Genro tornou-se o primeiro governador no Estado a ser eleito no primeiro turno desde que se passou a exigir mais de 50% dos votos válidos para o candidato ser eleito, conforme a Constituição Federal de 1988. A partir de então todas as eleições para o governo do Rio Grande passaram a ser decididas em dois turnos. Até chegar esta de 2010… Tarso teve 54,35% dos votos – superando o percentual que Olívio Dutra teve ao ser eleito no segundo turno de 1998, de 50,78%.

O outro motivo, é a derrota do tradicional discurso de que “o PT mandou a Ford embora” (que, apesar de já ter sido provado que era baseado em uma mentira, ainda chegou a ser usado na campanha), assim como de outras tosquices muito usadas pelos direitosos para justificarem seu antipetismo. Nas últimas duas eleições, foi justamente o antipetismo que fez Germano Rigotto (PMDB) e Yeda Crusius (PSDB) “caírem de paraquedas” no Palácio Piratini, já que quando ambos foram eleitos os favoritos eram outros: em 2002 tudo indicava que Tarso enfrentaria Antônio Britto (PPS) no segundo turno, mas a alta rejeição de Britto fez os direitosos passarem a votar em Rigotto, que acabou sendo eleito; já em 2006, Rigotto concorria à reeleição e era favorito, mas o próprio PMDB passou a pedir que seus apoiadores votassem Yeda para evitar um segundo turno entre Rigotto e Olívio, e com isso quem ficou de fora foi Rigotto e no segundo turno, é óbvio, os direitosos elegeram a tucana.

A propósito, sobre o (des)governo Yeda, só tenho uma coisa a dizer: adeus, e até nunca mais!

Mas numa coisa, não se pode discordar da futura ex-(des)governadora. Yeda disse que a eleição foi “despolitizada”. De fato, foi, como provam as eleições de Ana Amélia Lemos (PP) ao Senado (votaram nela só porque era da RBS!!!), assim como do ex-goleiro do Grêmio, Danrlei (PTB), para a Câmara Federal. Resta torcer para que eles me provem que estou errado e sejam ótimos parlamentares (embora eu não acredite muito), mas acho que está na hora de parar com a balela de que o Rio Grande do Sul é o “Estado mais politizado do Brasil”.

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Já para presidente, haverá segundo turno, como o Hélio já alertara semana passada. Provavelmente vai dar Dilma (que contará com o meu voto), já que Serra precisa conquistar para si mais de 80% dos votos que foram para Marina no primeiro turno, e acho isso muito difícil. Ainda assim, acredito que Dilma não conseguirá repetir as votações de Lula em 2002 e 2006.

Até 31 de outubro, ainda veremos muita baixaria, muitas “correntes” nas nossas caixas de e-mail… Haja paciência.

Eu morro e não vejo tudo…

Pelo visto, esta última semana de campanha eleitoral (e é provável que seja a última mesmo, tanto a nível nacional como estadual aqui no Rio Grande do Sul, pois acho que dá Dilma e Tarso no 1º turno) terá um aumento exponencial da direitosquice digital no Brasil.

No começo da noite de hoje, acessei meus e-mails, e vi entre eles duas “correntes” contra o PT (óbvio, né?). A primeira, trata de uma suposta entrevista do nadador César Cielo, campeão olímpico dos 50 metros livre em 2008, ao jornal O Estado de São Paulo. De acordo com o texto da mensagem, Cielo teria feito muitas reclamações quanto à falta de apoio da Confederação Brasileira de Desportos Aquáticos (CBDA) e do governo brasileiro.

Concordo que falta (e muito!) apoio ao esporte no Brasil (minha amiga Liciana Possani, que entre 2004 e 2008 ganhou quatro títulos brasileiros e um sul-americano na ginástica aeróbica esportiva, que o diga: ela deixou de disputar o campeonato mundial da modalidade por falta de patrocínio, e abandonou temporariamente as competições), mas por favor, não podemos sair repassando qualquer coisa sem verificar a fonte. No caso desta tal entrevista de César Cielo, fiz uma busca e achei uma matéria, de 2 de setembro de 2008, falando que o nadador realmente detonou os dirigentes da CBDA. Só que no texto não há nenhuma menção ao governo! A própria palavra “governo” sequer aparece…

Mas pior ainda foi o outro e-mail. O título: “500 mulheres cearenses! ! ! ! ! INACREDITÁVEL!!!” (é assim mesmo, cheio de exclamações). Na hora fiz uma busca… Nos meus e-mails! Sim: eu já tinha recebido isso, pasmem, da mesma pessoa, no dia 29 de maio! Inclusive, naquele primeiro texto sobre as “correntes” eleitorais, eu já havia citado essa… Fiz a busca pensando que tinha respondido aquela vez (aí mandaria a mesma réplica), mas sei lá por que cargas d’água, não o tinha feito. Então respondi ao meu amigo, e claro, lembrei que ele mesmo já tinha me mandado aquela merda mensagem há quatro meses.

Agora, resta ver o que ainda aparecerá na minha caixa de e-mails nos próximos dias. Certo que receberei muitos “ACORDA BRASIL” e semelhantes…

A última da “fábrica de correntes”

Agora, os direitoscos resolveram inventar uma “pesquisa imparcial”, já que as divulgadas na televisão são “manipuladas pelo governo”.

A minha mãe recebeu essa de uma amiga, e respondeu: “nunca vi pesquisa tão mal-feita”. Ela me repassou, para que eu pudesse ver o que era…

Simples: uma página onde se pode votar só uma vez (diferente de muitas enquetes). Cliquei no Plinio, e depois apareceu o resultado na tela: Serra na frente, com mais de 60%.

É “prova de que as pesquisas na televisão são manipuladas pelo governo”? Claro que não! As da TV podem não ser corretas – como já vimos muitas vezes – mas essa da internet, por favor… É muito fácil fazê-la favorecer o candidato do PSDB: como quem repassa isso é quem vota nele, certamente repassa para um monte de gente que também vota nele. Barbada!