O fim de Porto Alegre

Crise no transporte público, calor desesperador… Alguma vez, na história recente, Porto Alegre passou por um momento tão terrível como este?

O problema, amigos, é que como diz o famoso ditado, “nada está tão ruim que não possa piorar”. Pois o prefeito já avisou, no rádio, que a passagem vai subir. Não consigo acreditar que ele já tenha esquecido o motivo pelo qual tanta gente foi às ruas ano passado, então a única explicação plausível é que ele adora ver o povo protestando.

E então, leio uma notícia no Correio do Povo informando que o edital da licitação dos ônibus prevê a extinção do uso de ar condicionado; o aparelho passaria a ser utilizado apenas nos veículos do sistema BRT, que era previsto para entrar em operação até a Copa do Mundo. É que faltou explicar qual era a Copa às empreiteiras: elas acharam que era a de 2078.

Isso, claro, se ainda houver Porto Alegre para sediar jogos em 2078. Pois do jeito que vai, a cidade acaba antes do mandato do atual prefeito, com a população presa em um congestionamento formado por todos os carros que entrarão em circulação devido ao transporte público mais caro e de pior qualidade.

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Para que serve uma árvore?

O prefeito de Porto Alegre parece não saber, conforme declarou ao Correio do Povo. Ele acha que todas aquelas árvores derrubadas defronte à Usina do Gasômetro “não eram utilizadas” pela população.

Aliás, o que quer dizer “utilizar uma árvore”? Eu achava que elas serviam para serem aproveitadas, proporcionar sombra, purificar o ar etc. Aliás, “aproveitar” é um dos sinônimos de “utilizar”, o que quer dizer que aquelas árvores eram muito bem utilizadas.

Porém, para a prefeitura aquelas árvores só serviam para atrapalhar o andamento de uma “obra da Copa”. É assim no Gasômetro, e também lá na Anita Garibaldi, onde será construída uma passagem de nível também chamada de “trincheira” (se bem que o nome acerta na mosca: priorizar o automóvel faz o trânsito ficar cada vez mais estressante, num clima de “guerra”).

Se as árvores são “inúteis” e atrapalham o trânsito, então botem-nas abaixo! Afinal, em Porto Alegre o tempo é sempre frio e chuvoso… Essa história de “Forno Alegre” é coisa da oposição.

11 anos depois

Charge do Kayser

Nada como um dia depois do outro…

Por 11 anos, ouvimos os nossos (de)formadores de opinião repetirem, quase como um mantra, que “o Olívio mandou a Ford embora do Rio Grande do Sul” – uma estratégia goebbeliana, de que “uma mentira contada cem vezes torna-se verdade”.

Tento imaginar tudo o que eles passarão a dizer diante da notícia de que a Ford terá de indenizar o Estado do Rio Grande do Sul em 130 milhões de reais por rompimento do contrato – ou seja, porque foi a empresa que não cumpriu com suas obrigações, e não o Estado. A Ford recorreu, é verdade, mas o principal discurso dos direitosos contra Olívio Dutra está detonado.

Vale lembrar que “mandar a Ford embora” na verdade era “renegociar o contrato”. Pois este, assinado durante o (des)governo de Antonio Britto, previa amplos incentivos fiscais à montadora, além de investimentos por parte do Estado para a instalação da fábrica em Guaíba. Olívio, que na campanha eleitoral de 1998 prometera renegociar contratos assinados pelo (des)governo Britto que fossem lesivos às finanças do Estado, tomou posse e logo caminhou nesta direção.

E olha que a proposta do governo não era de cortar absolutamente todos os benefícios à Ford (os incentivos fiscais já concedidos, da ordem de 3 bilhões de reais, não seriam contestados, assim como a empresa não teria de devolver o dinheiro já repassado a ela). Apenas deixava claro que não ia comprometer ainda mais as finanças do Estado, como aconteceria se Britto tivesse sido reeleito.

A proposta do Governo do Estado, publicada na capa do Correio do Povo, edição de 29/04/1999 (dia seguinte ao anúncio da Ford de que não se instalaria no RS)

Por favor: isso aí é “pedir para uma empresa ir embora”? Só se ela for extremamente gananciosa. Ou, se por acaso havia uma “boquinha” melhor, como de fato acontecia: a Bahia, apoiada pelo governo federal (à época, o presidente era Fernando Henrique Cardoso) oferecia amplos benefícios fiscais para que a Ford se instalasse em Camaçari. E com o apoio de boa parte da bancada gaúcha no Congresso Nacional – o lado direito, é claro…

Se Olívio estava tão empenhado em “mandar a Ford embora” devido a “razões ideológicas”, por que a GM também não deu adeus ao Rio Grande do Sul? Simples: seu contrato foi renegociado e assim sua fábrica está funcionando em Gravataí há 10 anos.

Porém, o “estrago” já estava feito. Principalmente por parte da RBS. Dia após dia, seus principais (de)formadores de opinião repetiam que “o Olívio havia mandado a Ford embora”, que isso “era uma tragédia”, que o Rio Grande do Sul “tinha perdido muitos empregos” etc. Mesmo que o governo preferisse dar apoio aos pequenos empresários do Estado em detrimento dos grandes (que não precisam desse apoio), assim como à agricultura familiar (que produz muito mais do que o “agronegócio”, tão exaltado pela “grande mídia”). Insuflou-se um antipetismo tão forte no Rio Grande do Sul, que por duas vezes consecutivas candidatos sem projeto algum “caíram de paraquedas” no governo do Estado: Germano Rigotto em 2002; e o exemplo mais absurdo, Yeda Crusius em 2006.

Sem dúvida, ambos venceram graças ao antipetismo. Em 2002, o preferido da velha direita era Britto, mas sua alta rejeição (que provavelmente resultaria em derrota para Tarso Genro no 2º turno) fez os votos direitosos migrarem para Rigotto, que só concorria para que o PMDB tivesse um candidato próprio (Britto deixara o partido em 2001 junto com vários de seus apoiadores, dentre eles José Fogaça, que ingressaram com ele no PPS). Já em 2006 a coisa foi mais bizarra: Rigotto era candidato à reeleição, mas o PMDB temia um segundo turno contra Olívio (o que inevitavelmente resultaria na comparação entre os governos de ambos); assim, muitos votos que seriam de Rigotto foram para a tucana Yeda (que assim como Rigotto em 2002 era “franco-atiradora” – o PSDB no Rio Grande do Sul não é nem a quarta força) para “tirar o Olívio do segundo turno” – e aí quem ficou de fora foi Rigotto e os direitosos tiveram de eleger Yeda, bem pior.

O resultado, é o que todos vêem: corrupção, atraso, polícia repressora (no governo Olívio era raro dar pancadaria com a Brigada)…

Em seu post sobre o assunto no Somos andando, a Cris pergunta se alguém indenizará o Estado pelas eleições de Rigotto e Yeda que se deram graças ao anti-petismo baseado no “argumento” de que “o Olívio mandou a Ford embora”. Quem deveria fazer isso (pois sabemos que não acontecerá) é uma resposta pra lá de barbada…

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Como a Zero Hora não daria um “tiro no pé” que seria não noticiar a decisão contra a Ford, o jornal publicou, é claro. Mas no começo da matéria eles já trataram de desqualificar a fonte (o Sul 21), dizendo que Vera Spolidoro, sua editora-chefe, é ligada ao PT – ou seja, “parcial”. Óbvio, pois na ótica deles a imprensa não pode dizer de que lado está, tem de ser imparcial, como a RBS.

O Apocalipse desembarca no Sul

São duas previsões diferentes, mas que antecipam os dias de brutal calor que assolarão Porto Alegre. Não sei qual das duas é mais desesperadora.

A primeira é do CPTEC/INPE, que prevê temperatura MÍNIMA de 30°C para a quinta-feira. Para fazer tanto calor de madrugada, é preciso muita umidade: se com alta umidade 30°C de máxima já é ruim, imagine de mínima! Como faltam quatro dias, há a esperança de que a previsão mude ou erre.

Captura de tela feita ao meio-dia de hoje da previsão do CPTEC/INPE (clique para ampliar)

Já a do Correio do Povo de hoje não aponta tamanho calor pela madrugada, mas em compensação, prevê dois dias (sexta e sábado) com máxima de 40°C, o que representa risco à saúde. Muito mais danoso do que o frio (claro que não falo de Sibéria): quando a temperatura está baixa, a solução é se agasalhar e se abrigar – diferente do calorão infernal previsto para Porto Alegre nos próximos dias, pois mesmo que fosse permitido andar PELADO na rua, não se evitaria o risco de hipertermia.

O que mata no inverno não é o frio, e sim a desigualdade social – ou alguém acha que na Escandinávia, onde faz muito mais frio do que aqui, morre muito mais gente? É capaz de até serem registradas menos mortes… Lá existe distribuição de renda. Entendo que as pessoas mais pobres não gostem do inverno: afinal, não tendo muito dinheiro para comprarem roupas, qualquer frio representa sofrimento.

Assim como quem mora em cidades onde é quente o ano inteiro, o que faz qualquer queda maior na temperatura ser muito sentida. É preciso um certo tempo para se acostumar (inclusive acho que o ideal é pegar de cara um inverno dos mais frios, aí dá para aguentar melhor os seguintes que forem menos frios).

Agora, quem mora aqui há anos e não passa dificuldades, por favor… Se está com frio, vista um casaco! Pés gelados? Meias grossas são a solução. Mãos geladas? Luvas nelas!

Não gosta de usar casaco? Pois eu não gosto de bermuda, só uso para passar um pouco menos de calor – diferente do casaco no inverno, que esquenta o corpo, inclusive, dando uma caminhada é até possível sentir… Calor!

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Tudo bem, tudo bem, sei que muitos devem estar pensando: “esse cara exagerado aí, falando de apocalipse, pensa que pode mandar o verão embora”. Sei que (infelizmente) não posso, tudo isso é apenas um desabafo. A maioria acha o verão uma beleza. A mídia, então… Só fala de praia e “corpo bronzeado” essa época (bem que podiam não mostrar aquelas imagens de gente torrando no sol ao meio-dia, isso faz muito mais mal à saúde do que frio).

Um interessante paradoxo: um monte de gente, bem de vida, diz adorar o calor, mas no primeiro sinal do verão, corre para a praia, onde… Faz menos calor! Na praia, até eu gostaria do verão – agora, em Porto Alegre, simplesmente não dá.

Já no inverno, quem gosta do frio quer ir para onde faz mais frio, e não fugir dele. Se eu gostaria até de ir morar em São Joaquim… Só não vou porque não tenho como.

Total descaramento

Incrível a diferença de tratamento dada às denúncias de caixa dois na campanha de Yeda pelos dois principais jornais de Porto Alegre.

Enquanto o Correio do Povo tem como manchete “Denúncias comprometedoras”, a Zero Hora estampa em sua capa “A batalha da CPI” – procurando retomar a ideia de “guerra fria” que estaria sendo retomada devido ao vigor da oposição ao (des)governo.

Correio do Povo, capa de 12/05/2009

Correio do Povo, capa de 12/05/2009

Zero Hora, capa de 12/05/2009

Zero Hora, capa de 12/05/2009

Tudo bem, vamos dar um desconto. ZH pode não ter falado que as denúncias são comprometedoras, mas pelo menos tocou no assunto na manchete de capa. Só que ao mesmo tempo em que demonstra estar “abandonando o navio” – provavelmente para apoiar Fogaça em 2010 – também coloca todo mundo “no mesmo saco”: denunciantes e denunciados.

E no último sábado, quando saíram as denúncias na Veja (se até o panfletão tá batendo na Yeda…), o assunto foi tratado de diferente maneira por Correio e ZH.

Correio do Povo, capa de 09/05/2009

Correio do Povo, capa de 09/05/2009

Zero Hora, capa de 09/05/2009

Zero Hora, capa de 09/05/2009

Não quer dizer que eu não ache importante noticiar a seca no Estado – é um problema sério que assola muitas pessoas. Mas as denúncias contra a Yeda não apareceram nem nas outras chamadas da capa de ZH, nem no interior do jornal! Foram surgir só na capa do domingo, mas sem maior destaque – que foi novamente para a seca – enquanto o Correio mais uma vez noticiou o assunto como manchete de capa.

Zero Hora, capa de 10/05/2009

Zero Hora, capa de 10/05/2009

Correio do Povo, capa de 10/05/2009

Correio do Povo, capa de 10/05/2009

Repito: não penso que a seca não é importante. E muito menos que o Correio do Povo é santo. Mas essas capas mostram claramente de que lado está a RBS. Só não vê quem não quer.

“Diletas” Já!

Caderno "Domingo" do Correio do Povo, 22 de janeiro de 1984 (clique para ampliar)

Caderno "Domingo", Correio do Povo, 22 de janeiro de 1984 (clique para ampliar)

O ano era 1984. Ao contrário do que previra George Orwell, (ainda) não vivíamos em uma sociedade da vigilância total. O que não quer dizer que fosse um mundo muito democrático: aqui no Brasil, os militares ainda estavam no governo.

Porém, a ditadura iniciada em 1964 se encaminhava para seu final, conforme a idéia de uma abertura “lenta, gradual e segura”. Pela primeira vez, se vislumbrava a eleição de um civil para a Presidência da República, após 20 anos de governos militares. Mas, conforme previa a Constituição de 1967, a escolha do sucessor do general Figueiredo se daria de forma indireta, via Colégio Eleitoral, em 15 de janeiro de 1985.

Em março de 1983, o deputado Dante de Oliveira (PMDB-MT) apresentou uma proposta de emenda constitucional para reestabelecer a eleição direta para presidente. Para mostrar à ditadura militar que o povo queria votar, diversos líderes políticos decidiram mobilizar a sociedade. Em 27 de novembro de 1983 foi realizado um comício no Pacaembu (São Paulo), e no dia seguinte, diversos governadores oposicionistas assinaram manifesto por eleições presidenciais diretas em 1984.

Zero Hora, 14 de janeiro de 1984 (capa)

Zero Hora, 14 de janeiro de 1984 (clique para ampliar)

A campanha adotou as palavras de ordem “Diretas Já!” e “Eu quero votar para presidente”. O primeiro comício aconteceu em Curitiba, no dia 12 de janeiro, reunindo 60 mil pessoas. No início da tarde do dia seguinte, uma passeata de 10 mil pessoas percorreu o Centro de Porto Alegre, apesar do forte calor – que provocou indisposição no governador mineiro Tancredo Neves, impedindo sua ida ao comício de lançamento das “Diretas Já” no Estado, realizado na noite de 13 de janeiro em Cachoeira do Sul, com a presença de 5 mil pessoas.

No dia 14 de janeiro, o veraneio deu lugar à politização em Camboriú (SC), onde um comício reuniu 15 mil pessoas. A campanha cresceu e ganhou força com o comício realizado na Praça da Sé, em São Paulo, no dia do aniversário da cidade (25 de janeiro) – utilizado pela Globo como pretexto para encobrir a verdadeira razão de um público estimado entre 250 mil e 400 mil pessoas se reunir.

O título “à moda Cebolinha” se deve ao fato de que o meu pai me ensinou a gritar “Diretas Já!”, mas eu, com 2 anos e meio de idade em abril de 1984 (quando se realizaram os maiores comícios da campanha, dentre eles o que reuniu 200 mil pessoas em frente à Prefeitura de Porto Alegre), gritava “DILETAS JÁ!”.

É HOJE!!!

A partir do final da manhã, começa a mobilização das entidades contrárias ao projeto Pontal do Estaleiro para a votação na Câmara Municipal de Porto Alegre. Serão distribuídas igualmente entre apoiadores e contrários 200 senhas para que possam assistir à votação no plenário, que começa às 14h.

Prevendo a grande presença de público, a Câmara decidiu instalar um telão no lado de fora para que as pessoas que não tiverem acesso ao plenário possam assistir à votação.

Em coluna no Correio do Povo de ontem, Juremir Machado da Silva disse que a Câmara “vai virar uma Bombonera”. Só espero que a maioria dos vereadores não seja “meia-boca” como o time que enfrentou o Inter semana passada.

Manipulação da IstoÉ e dificuldades da mídia de esquerda

“Roubei” a imagem abaixo do Moldura Digital – o Valter, por sua vez, a “roubou” do Vi o Mundo, do Luiz Carlos Azenha. A revista IstoÉ publicou uma foto alterada no Photoshop, sem o “Fora Serra” que aparecia na original. Ficou apenas a manifestação do MST e uma placa rodoviária de “pare” que, com a inscrição “MST” abaixo dá a clara idéia do que a reportagem quer dizer: defende a repressão ao MST.

Como disse o Valter, “não é só a Veja que faz merda no mundo editorial brasileiro”. Evidente. Faz tempo que outras revistas semanais brigam com a notícia para atender a seus interesses políticos e, principalmente, comerciais.

Abaixo, o Valter lembra que nenhum meio de comunicação que se pretenda “sério e isento” deveria agir de tal forma, ou que pelo menos deveria assumir seu lado. E este é um grande problema.

No final do século XIX e início do século XX, a imprensa no Brasil era, em geral, totalmente parcial. Aqui no Rio Grande do Sul, por exemplo, o jornal de maior circulação era A Federação, propriedade de Julio de Castilhos, e que era um verdadeiro panfleto do Partido Republicano Rio-Grandense (PRR), que dominou a política gaúcha até a década de 1930. O jornal concorrente era do partido de oposição. Foi neste contexto que surgiu o Correio do Povo, em 1895: com a pretensão de ser “imparcial” e manter distância dos principais partidos do Estado, era impresso em papel rosa, para simbolizar sua independência frente ao branco republicano e o vermelho federalista, que recém haviam ensangüentado o Rio Grande do Sul na chamada Revolução Federalista (1893-1895).

Com o tempo, os jornais partidários entraram em decadência, pois houve um aumento do público leitor dos jornais ditos “imparciais”, que tinham por objetivo “informar” e não defender interesses político-partidários. Bom, pelo menos não de forma aberta como era feito nos jornais partidários.

Mas os jornais ditos “imparciais” tinham outra vantagem em relação aos partidários: eram empresas que visavam ao lucro. Logo, tinham a obrigação de precisarem “informar” seus leitores para que, além de vender mais exemplares, fosse mais fácil obter anunciantes – a verdadeira maior fonte de renda de um jornal. Pois não pegaria bem anunciar em um jornal sem credibilidade – isto poderia afastar consumidores em potencial dos produtos anunciados.

Com o tempo, estes jornais “imparciais” passaram a, literalmente, ser uma “autoridade”, influenciando as decisões políticas e as discussões cotidianas na sociedade. Dá para traçar um paralelo com o que diz Pierre Bourdieu¹ a respeito do jornal francês Le Monde:

Pode-se dizer que, no universo do jornalismo escrito, Le Monde ditava a lei. Havia já um campo, com a oposição, estabelecida por todos os historiadores do jornalismo, entre os jornais que dão news, notícias, variedades, e os jornais que dão views, pontos de vista, análises etc.; entre os jornais de grande tiragem, como o France Soir, e os jornais de tiragem relativamente mais restrita mas dotados de uma autoridade semi-oficial. Le Monde estava bem situado sob os dois aspectos: era suficientemente grande por sua tiragem para ser um poder do ponto de vista dos anunciantes e suficientemente dotado de capital simbólico para ser uma autoridade. Acumulava os dois fatores do poder nesse campo.

Aqui no Rio Grande do Sul, era esta a situação do Correio do Povo até a década de 1970: tinha grande tiragem e era uma “autoridade”. Meu pai lembra que a Zero Hora era um jornal sensacionalista tal qual o Diário Gaúcho, e inventava tantas notícias que era chamada de “mentirosa” – e ainda é assim que um tio meu se refere à ZH. Com a crise do grupo Caldas Júnior, no início da década de 1980, a Zero Hora contratou os principais jornalistas do Correio do Povo, em busca do capital simbólico que lhe faltava para poder “ditar a lei”. Se hoje está muito longe de ser um jornal imparcial, pelo menos a Zero Hora é menos ruim que seu “filhote”, o Diário Gaúcho.

Bom, mas onde quero chegar com tudo isto que escrevi? O que tem a ver com “as dificuldades da mídia de esquerda”? Tem tudo a ver.

Segunda-feira à noite, em conversa com colegas no intervalo da aula, falamos sobre a mídia em geral, com destaque para as revistas semanais: uma colega assinante da CartaCapital chamou atenção para o fato de que a tiragem da revista é de aproximadamente 75 mil exemplares (se não me falha a memória), enquanto a da Veja é de mais de um milhão.

Pois bem: a CartaCapital tem uma clara linha editorial de esquerda, enquanto a Veja é ultra-reacionária. Porém, a Veja sempre faz questão de lembrar “a sua primeira capa”, que mostravam uma foice e um martelo (símbolo do comunismo) em plena ditadura militar, como exemplo de “jornalismo corajoso”, para induzir o leitor a pensar que trata-se uma revista que jamais será “chapa branca”. Some-se isto ao fato de ter grande tiragem, que se entende a razão da Veja ter tornado-se uma “autoridade”, e quem não faz uma leitura crítica acaba acreditando que as palavras ali escritas são “a verdade”. Mesmo que hoje em dia as críticas a ela sejam muitas, elas estão restritas à esquerda. E a CartaCapital, que oferece um contraponto ao que diz a Veja, tem muito menos circulação.

Como superar este problema? Pois uma publicação de esquerda com tom panfletário não só afasta os leitores que não sejam de esquerda, como também não atrai anunciantes por não ser lucrativa. Uma revista isenta de influências partidárias tem o problema da publicidade: determinadas matérias poderão ir de encontro aos interesses dos anunciantes, e deixar de publicá-las para não perder o patrocínio faz com que a publicação deixe de ser realmente livre.

Restam os blogs: muitos oferecem uma visão crítica sem serem panfletários e ao mesmo tempo são livres, as postagens não sofrem influência de interesses comerciais. Porém, não são tão lidos como poderiam, oferecem um contraponto à mídia comercial apenas aos que têm acesso à internet e têm interesse em buscar uma outra opinião.

P. S.: Mal eu ia terminando de escrever, decidi procurar por uma postagem do Palanque do Blackão que falava sobre o fato dos blogs não atingirem um público além da esquerda. E coincidentemente, hoje mesmo o Hélio postou sobre o assunto, lembrando que o discurso de esquerda muitas vezes é extremamente partidário, “panfletário”, não produzindo diferença na sociedade, e que é preciso defender não partidos, e sim, causas. Leia mais lá no Palanque do Blackão.

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¹ BOURDIEU, Pierre. Sobre a Televisão. Rio de Janeiro: Jorge Zahar Ed., 1997, pp. 60-61.