Olimpicamente político (ou politicamente olímpico)

Os Jogos Olímpicos de Londres terminaram ontem, e a Grã-Bretanha teve um de seus melhores desempenhos na história olímpica: com 29 ouros, os britânicos acabaram em terceiro lugar no quadro de medalhas, embora tenham subido menos vezes ao pódio do que a Rússia (que obteve 24 ouros e 82 medalhas no total, contra 65 da Grã-Bretanha).

Porém, nesta mesma semana ouvi a notícia de que o Estado britânico cortará investimentos em esportes, devido à recessão que atinge o país – fruto da crise econômica quase que generalizada na Europa. Ou seja, os britânicos investiram bastante apenas com vista aos Jogos de 2012, para irem bem em casa – provavelmente, o governo temia que sua popularidade caísse com um mau desempenho da Grã-Bretanha, como se a população já não tivesse outros problemas para se preocupar.

A verdade é que os Jogos Olímpicos há muito tempo são uma arma política, vistos como oportunidade de um país demonstrar, através do esporte, que é uma potência. Não por acaso a China, que busca se afirmar como a nova superpotência mundial, também cresceu muito na área esportiva – por mais contestáveis que sejam seus métodos de formação de esportistas, assim como eram os de extintos países do antigo “bloco socialista” como União Soviética e Alemanha Oriental.

Sendo assim, relembremos alguns outros momentos em que os Jogos tiveram importância não só esportiva, como também política. Continuar lendo

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Uruguay en los cuartos de final

Dois vídeos de arrepiar, que mostram o nervosismo dos uruguaios pouco antes do fim de Uruguai x Coreia do Sul, e a grande festa que se seguiu nas ruas de Montevidéu após o apito final: depois de 40 anos, a Celeste volta a estar entre as oito principais seleções da Copa do Mundo!

AGUANTE CELESTE!

Já se passaram três dias, mas eu não podia deixar de escrever sobre isso. O Uruguai, que começou tão desacreditado, já está entre as oito melhores seleções da Copa!

Algo que para o Brasil, é até pouco (afinal, anormal é a Seleção não ficar entre os oito primeiros: só aconteceu em 1934, 1966 e 1990). Já para o Uruguai, que ganhou duas Copas do Mundo, mas desde 1970 não chegava às quartas-de-final, é algo acima das expectativas.

Depois da bela campanha de 1970 (quando a Celeste acabou em 4º lugar), antes de 2010 o Uruguai só havia participado de quatro das nove Copas disputadas (1974, 1986, 1990 e 2002), e vencido uma mísera partida, 1 a 0 contra a Coreia do Sul em 1990 (quando o futebol coreano não existia), gol marcado por Daniel Fonseca no último minuto de jogo. Além disso, no âmbito clubístico o futebol uruguaio também declinou acentuadamente nos últimos tempos: para se ter uma ideia, ao chegar à semifinal da Libertadores do ano passado, o Nacional quebrou um tabu que durava desde 1989, última ocasião em que um clube do Uruguai havia alcançado tal fase.

Assim, é mais fácil compreender porque a campanha do Uruguai na África do Sul já é histórica mesmo que venha a acabar na próxima sexta diante de Gana (aliás, êta jogo para me deixar dividido, visto que também gostaria muito de ver uma seleção africana na semifinal). É o resgate da auto-estima de um futebol com tantas glórias, mas que há tanto tempo não chega perto de alguma grande conquista – a última taça da Celeste foi a Copa América de 1995, disputada no próprio Uruguai. Mesmo não conquistando a Copa, ao menos os uruguaios poderão voltar a dizer sí, se puede.

O que me deixa bastante feliz, por conta do grande carinho que nutro pelo país vizinho. É do Uruguai uma parte de minha própria origem: minha avó paterna, Luciana, é filha de uruguaios, nascida na zona rural de Santa Vitória do Palmar. Durante boa parte da infância, só falou espanhol (e ainda hoje, aos 88 anos de idade, conserva alguns traços do idioma na sua fala). Em 16 de julho de 1950, torceu pelo Brasil, assim como os irmãos, junto ao rádio. Já a mãe dela, minha bisavó, em silêncio desejou a vitória uruguaia.

E ao final, foi a minha bisavó que dançou e cantou, feliz da vida: ¡Viva el Uruguay! E todos celebraram juntos. O mesmo futebol que “separou” mãe e filhos durante 90 minutos por conta deles terem nascido “um pouco para cá” de uma linha imaginada, acabou por “uni-los” novamente, e deixando a todos felizes.

Interessantíssima Copa

Terminada a primeira fase da Copa do Mundo, percebi alguns fatos interessantes com base na lista das 16 seleções classificadas para as oitavas-de-final.

Como a decepção da África. Afinal, com a Copa sendo realizada pela primeira vez no continente, esperava mais das seleções africanas. Mas quase que nenhuma delas passa: a única a se classificar foi Gana, e foi por pouco, visto que a Sérvia quase buscou o empate em 2 a 2 contra a Austrália, resultado que eliminaria os ganeses e levaria os sérvios às oitavas-de-final. Sem contar a África do Sul, que mesmo tendo um time muito fraco, jogava em casa e foi eliminada: nunca um anfitrião de Copa havia parado na primeira fase. Até mesmo os Estados Unidos, em 1994, chegaram às oitavas.

Aliás, que evolução tiveram os Estados Unidos! Já falei de 1994. Em 2002, eles foram “zebra”, indo até as quartas. Já em 2010, ficaram com justiça em 1º lugar num grupo que tinha a Inglaterra como favorita. E acredito que chegam pelo menos até as quartas.

Se a África decepcionou, a Ásia tem um ótimo desempenho, com duas seleções (Coreia do Sul e Japão) nas oitavas-de-final, repetindo o feito de 2002 (quando ambas as seleções jogavam em casa – e a Coreia foi até as semifinais). A propósito, a classificação japonesa foi merecidíssima: pensar que em meu primeiro prognóstico para a Copa, feito logo que saíram os grupos, apontei que no grupo E a única certeza seria a eliminação do Japão…

Também vai muito bem a América Latina. O México mais uma vez vai às oitavas – mas para, provável e infelizmente, já cair fora. Tudo porque terá pela frente a Argentina, que vem jogando o melhor futebol da Copa. Os demais sul-americanos também estão nas oitavas, com o continente tendo seu melhor desempenho desde quando passou a ter direito a cinco representantes (na verdade são “quatro e meio”, já que uma das vagas é disputada em repescagem contra outra confederação): todas as seleções da América do Sul passaram da primeira fase. Nas quartas, teremos no máximo quatro, já que Brasil e Chile se enfrentam nas oitavas, mas é certo que um sul-americano já está lá.

Em compensação, a Europa tem um de seus piores desempenhos, com apenas seis seleções nas oitavas-de-final (para se ter uma ideia, em 2006 tal número correspondia aos europeus nas quartas-de-final; em 1994, sete europeus estavam entre os oito melhores). E eles já vão “se matar”, restando apenas três para as quartas. Assim, já é certo que não teremos uma “Eurocopa” nas semifinais, como aconteceu em 2006.

E não nos surpreendamos se, pela primeira vez na história das Copas, não tivermos nenhuma seleção europeia entre as quatro melhores, e também se as semifinais forem uma “Copa América”.

Para aproveitar bem o 12 de junho

Cineminha (para assistir “comédia romântica”)? Jantar “romântico”? “Bem-me-quer, mal-me-quer”?

NÃO!

Sábado é dia de assistir Copa do Mundo! Tem Coreia do Sul x Grécia às 8 e meia da manhã, Argentina x Nigéria às 11, e o “clássico dos imperialismos”, Inglaterra x Estados Unidos às 3 e meia da tarde.

Aí algum “romântico” (aliás, qual o romantismo de uma data meramente comercial?) dirá que se pode fazer aqueles “programinhas a dois” depois dos jogos. Nem pensar! E as mesas-redondas? E a cerveja com os amigos, discutindo os resultados dos jogos? E a atualização da pontuação nos diversos bolões promovidos nessa época? E a discussão dos jogos pela internet (blogs, Twitter)?

Como disse Bill Shankly (1913-1981), ex-técnico do Liverpool,

O futebol não é uma questão de vida ou morte. É muito mais importante que isso…

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Se o(a) leitor(a), além de não gostar de futebol, está deprimido(a) por não ter ninguém para gastar dinheiro presentear no sábado, e quiser compensar isso comendo, saboreie uma boa pizza de alho e óleo, a melhor que existe.

Não gosta também? Bom, talvez seja a hora de aprender a gostar… Da pizza de alho e óleo, de futebol, ou da solteirice (que tem muitas vantagens, dentre elas, a de ver muito futebol e comer bastante alho sem ter ninguém para reclamar!).

As Copas que eu vi – Alemanha 2006

No final da tarde do dia 4 de setembro de 2005, me reuni com o meu amigo Diego Rodrigues para tomar cerveja e comer uns pastéis na pastelaria “República do Pastel”. O local, propriedade de um uruguaio, era ponto de encontro de orientales que vivem em Porto Alegre em dias de jogos da Celeste Olímpica. Caso daquele domingo, em que Uruguai e Colômbia se enfrentavam no Estádio Centenário, em Montevidéu, pelas Eliminatórias da Copa do Mundo de 2006, que se disputaria na Alemanha.

Naquele momento, eu nem imaginava que, em menos de seis meses, estaria no local que via pela televisão. Conversávamos sobre desilusões amorosas, e foi quando eu disse que “o amor é regido pela Lei de Murphy”. O Diego gostou tanto do que falei, que parou um garçom, pediu uma caneta emprestada e anotou a frase em um guardanapo que guardou consigo até o início de 2010, quando me repassou o que é um verdadeiro documento histórico.

Outra coisa que eu não imaginava, era que o Uruguai acabaria ficando fora da Copa. A vitória por 3 a 2 naquele jogo contra a Colômbia foi fundamental para a Celeste chegar à repescagem contra a Austrália, treinada por Guus Hiddink. Na primeira partida, em Montevidéu, 1 a 0 para o Uruguai. Quatro dias depois, em Sydney, 1 a 0 para os australianos nos 90 minutos. Na prorrogação, não foram marcados gols, e assim a decisão foi para os pênaltis. E a vitória foi dos Socceroos por 4 a 2: a Austrália voltava à Copa do Mundo depois de 32 anos – a última (e única) participação fora em 1974, ironicamente também na Alemanha (embora fosse apenas a Ocidental). Continuar lendo

Sobre a crise coreana

Muito se fala na “grande mídia” sobre a possibilidade de guerra entre as Coreias do Norte e do Sul (na verdade, da retomada da guerra, visto que oficialmente ela nunca terminou, apenas foi assinado um cessar-fogo em 1953).

Pena que não haja muito compromisso com a verdade… Pois como conta a Denise Arcoverde, que vive em Seul, a coisa por lá não parece tão feia como estão pintando aqui. Ela também escreveu um primeiro post sobre a história da divisão da Coreia, fruto da Guerra Fria e que sobreviveu a ela (ou poderíamos dizer que é a Guerra Fria que ainda não acabou lá?).

No Twitter, ela falou uma coisa interessante que não dizem por aqui. Semana que vem tem eleição na Coreia do Sul: a esquerda, oposicionista, defende o diálogo com Pyongyang, enquanto o governo de direita se utiliza do afundamento do navio sul-coreano (aliás, por que afundaram?) para obter votos. Inclusive, a oposição pede ao governo que pare com as provocações à Coreia do Norte.

As Copas que eu vi – Coreia do Sul/Japão 2002

Como definiu Eduardo Galeano, eram “tempos de quedas”. Em 11 de setembro de 2001, caíram as torres gêmeas do World Trade Center, em Nova Iorque. Caiu também o mito de que os Estados Unidos eram invulneráveis a ataques externos. Em resposta, a partir de 7 de outubro de 2001 bombas caíram de aviões estadunidenses sobre o Afeganistão – e continuam caindo até hoje.

Caia também o presidente da Argentina, Fernando de la Rúa. Os argentinos não aguentavam mais a penúria que lhes era imposta pela crise econômica e os ditames do FMI, e foram para a rua pedir a renúncia do governo, em dezembro de 2001. O presidente argentino atendeu aos pedidos das massas no dia 20, mas não sem antes decretar estado de sítio e ordenar a repressão aos protestos.

Para mim também eram “tempos de quedas” – no caso, de convicções “profissionais”. Desde meu ingresso no curso de Física da UFRGS, em março de 2000, eu nunca questionara tanto a opção que eu tinha tomado como começou a acontecer no início de 2002. Aos poucos, fui perdendo totalmente a motivação, mas ainda sem coragem de admitir a outras pessoas que eu havia errado – o que fui fazer apenas no final de abril.

Eu ainda insisti por mais um semestre – que começou só em junho de 2002, devido ao atraso no calendário proporcionado pela longa greve dos professores da UFRGS em 2001 (que fez o segundo semestre daquele ano iniciar-se em 17 de dezembro). O primeiro semestre de 2002 começou junto com a Copa do Mundo, pela primeira vez realizada na Ásia e em dois países, Coreia do Sul e Japão. Foi uma Copa diferente também quanto aos horários dos jogos, com muitos sendo disputados pela madrugada no horário brasileiro, correspondente à tarde na Coreia e no Japão. Continuar lendo

As Copas que eu vi: França 1998

O ano de 1998 começou de forma terrível para mim. Tão ruim que antes mesmo do Carnaval (que é quando começam, na prática, todos os anos no Brasil), eu já queria que chegasse logo 1999. Tudo por causa daquele 5 de janeiro, que considerei como o pior dia da minha vida por quase nove anos.

Mas, aos poucos, aquela dor perdeu boa parte de sua intensidade, e o ano de 1998 foi se transformando em ótimo. Primeiro, porque em abril foi confirmado que aconteceria em agosto a viagem a Montevidéu, para a realização de intercâmbio cultural entre o Colégio Marista São Pedro – onde cursei o 2º grau (1997-1999) – e o Instituto de los Jóvenes (IDEJO), colégio da capital uruguaia. Mas também porque se aproximava a Copa do Mundo da França. Enfim, chegava ao fim aquela longa espera de quatro anos iniciada em julho de 1994! E desta vez haveria mais jogos: o número de seleções participantes foi ampliado de 24 para 32. Continuar lendo

Península da Coreia volta a ser um só país. E é comunista!

Certamente é o que devem ter pensado os concretoscos ao ver a reportagem que foi ao ar ontem no Jornal Nacional. Afinal, para eles quem é contra Pontal do Estaleiro, “arena” do Grêmio, espigões do Inter e outros descalabros, é “comunista”! Pouco importando para eles que a pessoa seja filiada a algum partido que nada tenha de comunista.

Imaginem se quisessem fazer algo igual em Porto Alegre? Os concretoscos teriam um troço! “Ora, que história é essa de transformar a beira do Guaíba em parque, sem carros e sem prédios? Isso é coisa de ecochato comunista retrógrado que tem que ir embora pra Cuba, aquele atraso!”. Ou para a Coreia do Sul, país mais comunista que existe na ótica dos concretoscos.