Encontro de stalinistas

Em maio de 1978, o ditador romeno Nicolae Ceauşescu visitou a Coreia do Norte. Seu par norte-coreano, Kim Il-sung (o “presidente eterno”, sucedido em 1994 por Kim Jong-il e agora, por Kim Jong-un), recebeu-o de maneira apoteótica, como manda a cartilha stalinista.

Não era a primeira vez que Ceauşescu ia à Coreia do Norte. A visita anterior ocorrera em 1971, e fora “inspiradora”: o ditador ficara impressionado com a “mobilização ideológica”, a megalomania e o culto à personalidade de Kim Il-sung, e decidira aplicar algo semelhante na Romênia.

Não por acaso, as celebrações do dia 23 de agosto, em lembrança à libertação da Romênia do domínio nazista (1944), não eram muito diferentes da recepção que Ceauşescu recebera em Pyongyang. Performances que, imagino, devam ter sido ensaiadas várias centenas de vezes, além de muita bajulação ao ditador.

A megalomania também foi característica dos dois ditadores. Em 1º de maio de 1989, Kim Il-sung inaugurou em Pyongyang o que é na atualidade o maior estádio do mundo, o Rungrado May Day, com capacidade para 150 mil espectadores. Além de receber jogos da seleção da Coreia do Norte, também é palco de grandes celebrações de endeusamento dos líderes políticos do país.

Já na Romênia, enquanto o povo tinha de racionar tudo (até a calefação durante o inverno) para que o país pagasse sua dívida externa, Ceauşescu decidiu construir um novo centro para a capital Bucareste (arrasando assim vários prédios históricos), com destaque para o maior palácio do mundo, projetado para abrigar todo o poder político e também servir de residência para o ditador e sua esposa.

Em dezembro de 1989, a obra ainda não estava concluída. Mas o exasperado povo romeno, cansado de tanta opulência por parte de seus líderes políticos, depôs a ditadura. E há exatos 22 anos, enquanto eu brincava com o “Pense Bem” que tinha ganho de Natal (naquela época eu gostava de Natal), Nicolae e Elena Ceauşescu foram fuzilados após um julgamento sumário que os condenou à morte. O palácio, cuja construção era muito onerosa para os cofres públicos romenos mas sairia ainda mais caro para ser derrubado, hoje abriga, incompleto, o parlamento da Romênia.

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Vinte anos atrás, e dois após o fuzilamento do casal Ceauşescu, eu continuava a gostar de Natal. Por novamente estar me divertindo com os presentes, perdi um momento histórico naquele 25 de dezembro de 1991: a renúncia de Mikhail Gorbachev à presidência da União Soviética, fato que resultou na dissolução do país. Foi apenas a antecipação do fim, pois este já estava marcado para dali a seis dias.

Pouco após a renúncia de Gorbachev, a bandeira vermelha da URSS que tremulava no mastro do Kremlin foi arriada. Em seu lugar, foi hasteado o pavilhão branco, azul e vermelho da Rússia.

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¡VAMOS URUGUAY!

Já escrevi sobre meu pouco (para não dizer “nenhum”) entusiasmo pela Seleção Brasileira, e alguns de seus motivos. Eu torço bastante pelo Brasil em outros esportes (em 2004, para terem uma ideia, eu sentia vontade de pular para dentro da televisão e encher de porrada aquele padre que empurrou Vanderlei Cordeiro de Lima para fora da maratona dos Jogos de Atenas). Se é para falar de futebol, acho que a Seleção Feminina, cujas craques não tem nenhum apoio por parte da CBF, merecem muito mais nossos aplausos do que o time que hoje perdeu para a Holanda (e mesmo que tivesse ganho).

Talvez muitos achem que eu estava torcendo “por causa do Dunga”. Na verdade, estava indiferente, torcia mesmo só para que o técnico xingasse mais aqueles caras da Globo. Ainda mais que eles merecem mesmo, e “cagão” é pouco, diante do absoluto desrespeito com que as reportagens feitas pela empresa tratam países como o nosso vizinho Paraguai e também a Coreia do Norte (uma coisa é discordar do regime político norte-coreano – inclusive eu discordo – mas isso é bem diferente de achincalhar seu povo em rede nacional). Queria ver como muitos dos que devem ter achado graça reagiriam se matérias preconceituosas como essas fossem feitas por uma emissora estadunidense sobre o Brasil.

Cerca de dois meses atrás, em uma entrevista ao programa Roda Viva, o ex-jogador e agora comentarista Paulo Roberto Falcão disse que o povo brasileiro, quando fala de futebol (masculino, claro), torna-se extremamente arrogante, e é a mais pura verdade. Nos outros esportes, se não somos propriamente humildes (como no caso do vôlei, em que somos realmente muito fortes), ao menos não nos sentimos “os tais”. Respeitamos os adversários, que têm seus méritos, suas qualidades, não ganham apenas “porque o Brasil jogou mal” ou “porque o técnico brasileiro é burro”.

Essa arrogância toda apenas me faz sentir menos entusiasmo pela Seleção. Não digo que eu seque o time, mas apenas não torço. Até grito nos gols, mais pela farra do que por convicção.

Gritar, comemorar de verdade, e com convicção, foi o que eu fiz horas após Holanda x Brasil: Uruguai nas semifinais depois de 40 anos! Tá certo que também com uma pontinha de lamento pela (má) sorte que teve Gana: se Asamoah Gyan tivesse convertido aquele pênalti e levado uma seleção africana pela primeira vez às semifinais da Copa do Mundo, eu não ficaria triste. O problema para Gyan foi o nervosismo: imaginem o estado emocional dele naquele momento em que a esperança da África inteira estava em seus pés? É muita pressão.

Mas, qualquer que fosse o resultado, teria valido a pena. Ainda mais que Uruguai x Gana foi um JOGAÇO, daqueles dignos de serem lembrados para sempre.

E agora, claro, a festa em Montevidéu…

E também na fronteira com o Brasil, Chuy/Chuí:

Sobre a crise coreana

Muito se fala na “grande mídia” sobre a possibilidade de guerra entre as Coreias do Norte e do Sul (na verdade, da retomada da guerra, visto que oficialmente ela nunca terminou, apenas foi assinado um cessar-fogo em 1953).

Pena que não haja muito compromisso com a verdade… Pois como conta a Denise Arcoverde, que vive em Seul, a coisa por lá não parece tão feia como estão pintando aqui. Ela também escreveu um primeiro post sobre a história da divisão da Coreia, fruto da Guerra Fria e que sobreviveu a ela (ou poderíamos dizer que é a Guerra Fria que ainda não acabou lá?).

No Twitter, ela falou uma coisa interessante que não dizem por aqui. Semana que vem tem eleição na Coreia do Sul: a esquerda, oposicionista, defende o diálogo com Pyongyang, enquanto o governo de direita se utiliza do afundamento do navio sul-coreano (aliás, por que afundaram?) para obter votos. Inclusive, a oposição pede ao governo que pare com as provocações à Coreia do Norte.