O 1950 de cada um de nós

Certamente, a criatura mais injustiçada na história do futebol brasileiro. Era um goleiro magistral. Fazia milagres, desviando de mão trocada bolas envenenadas. O gol de Ghiggia, na final da Copa de 50, caiu-lhe como uma maldição. E quanto mais vejo o lance, mais o absolvo. Aquele jogo o Brasil perdeu na véspera.

(Armando Nogueira)

Em 1988, Ana Luiza Azevedo e Jorge Furtado dirigiram o curta “Barbosa”. O filme, de 13 minutos, conta a história ficcional de um menino que estava entre os 200 mil presentes ao Maracanã em 16 de julho de 1950, dia da partida entre Brasil e Uruguai que decidiria o vencedor da Copa do Mundo. Ele acreditava que todos os sonhos dele eram possíveis, e tais sonhos (dele e de um país inteiro) se materializavam na Copa, que seria conquistada pela Seleção Brasileira caso empatasse o jogo que muitos consideravam “mera formalidade”. Mas a glória não veio e ele sofreu por 38 anos, até que conseguiu construir uma máquina do tempo e decidiu voltar àquele dia para tentar impedir a derrota, de modo a mudar o destino do goleiro Moacir Barbosa – e o seu próprio.

Aquela Copa do Mundo significava bem mais para o Brasil do que um simples campeonato de futebol. Era preciso mostrar ao mundo que não éramos mais um país atrasado, que já podíamos estar no seleto grupo das “nações civilizadas”. Daí a construção do Maracanã, que por muito tempo foi o estádio com maior capacidade de público do mundo. Até hoje o número de espectadores na decisão de 1950 não foi superado – e talvez jamais seja.

Porém, o momento em que o Brasil se afirmaria como “grande nação” acabou por se transformar numa tragédia, devido à vitória uruguaia por 2 a 1, de virada, aumentando o que Nelson Rodrigues chamava “complexo de vira-latas”: na hora decisiva, o Brasil enquanto povo “tremeria” diante dos estrangeiros, sendo a Seleção Brasileira mero reflexo disso. Contribuiu para a difusão de tal ideia as afirmações de que Bigode teria “se acovardado” depois de supostamente ter sido agredido pelo capitão uruguaio Obdulio Varela – fato negado por muitos dos jogadores brasileiros que participaram daquela partida. O tal “complexo de vira-latas” seria, em tese, superado a partir de 1958, quando a Seleção Brasileira conquistou sua primeira Copa do Mundo, na Suécia – e depois ainda ganharia mais quatro vezes, fazendo do Brasil o maior dos campeões mundiais, com cinco títulos.

Em tese, apenas. Pois quando as seleções de Brasil e Uruguai se enfrentam, voltam as lembranças de 1950. Para os uruguaios, gloriosas – tanto que, quando o jogo é no lendário Estádio Centenário de Montevidéu, a torcida sempre leva uma enorme bandeira na cor celeste, com apenas uma inscrição: “1950”. Para terem uma ideia: quando estive em Montevidéu pela primeira vez, em agosto de 1998, os uruguaios me tocaram flauta por aquela Copa.

Já os brasileiros lembram uma derrota que jamais foi superada*, mesmo depois de tantas vitórias. Lembro bem daquele 19 de setembro de 1993, quando Brasil e Uruguai se enfrentaram no Maracanã, pela última rodada das eliminatórias sul-americanas para a Copa do Mundo dos Estados Unidos. A principal manchete esportiva do Correio do Povo naquele domingo era: “1950, o ano que não terminou”. Tudo parecia pronto para uma tragédia semelhante à que ocorrera 43 anos antes, e na qual eu poderia encarnar o menino do filme “Barbosa”, apenas com a diferença de que veria pela televisão: eu tinha 11 anos de idade, e o Brasil precisava apenas empatar (sim, naquela época eu torcia pela Seleção). Uma derrota daria a vaga ao Uruguai, e pela primeira vez o Brasil ficaria fora de uma Copa. Felizmente, não aconteceu: 2 a 0 para o Brasil, dois gols de Romário que, no Mundial, foi fundamental para a conquista brasileira.

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O desfecho do filme “Barbosa” acabou por ser tão trágico para aquele homem de “agora” 49 anos (uso aspas pois o personagem vivia em 1988) quanto fora para ele próprio quando tinha 11 anos. Afinal, ele tentou fazer o que todos, certamente, já desejaram alguma vez: voltar no tempo e mudar a história. Pois todos temos uma espécie de “1950 pessoal”: um acontecimento traumático que deixou feridas que parecem nunca cicatrizar. Pode ser a perda de uma pessoas querida, problemas profissionais, uma desilusão amorosa etc. São coisas nas quais, assim como Barbosa em relação àquele chute de Ghiggia, “pensamos um milhão de vezes”: como poderíamos ter evitado que acontecesse, o que teria sido de nós caso aquele evento não tivesse ocorrido…

Quando as lembranças nos atormentam, a ideia de voltar no tempo para “consertá-las” é por demais tentadora. Pois temos a tendência de idealizar um passado que não aconteceu, acreditando que as coisas teriam sido melhores caso ele – e não o passado real – tivesse ocorrido.

Porém, nunca pensamos que tudo poderia ter sido bem pior, como mostra uma crônica de Luis Fernando Verissimo. Perdemos tempo demais nos lamentando pelo que poderíamos ter sido, esquecemos do que somos (com defeitos e qualidades), e principalmente, do que poderemos ser.

Obviamente não acho que a vida de Barbosa após 1950 teria sido pior caso ele tivesse conseguido defender aquele chute. De fato, ele caiu em desgraça justamente por conta daquele gol, mesmo que tenha sido um grande goleiro. Mas ao mesmo tempo, é impossível dizer que sua carreira seria apenas de glórias caso tivesse se consagrado como o goleiro campeão mundial naquele domingo. E o mesmo vale para o que aconteceria com a Seleção (e o próprio Brasil) caso tivesse ganho a Copa, assim como para todos os que ficam especulando sobre os caminhos que poderiam ter seguido, não necessariamente melhores.

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Barbosa faleceu em 7 de abril de 2000 na cidade de Praia Grande (SP), onde vivia só, aos 79 anos de idade. Em seus últimos anos de vida, o ex-goleiro recebeu uma pensão do Vasco, clube no qual mais se destacou, de modo a diminuir seus problemas financeiros. Faltavam pouco mais de três meses para os 50 anos do Maracanazo (como ficou conhecida aquela derrota brasileira) e da condenação de Barbosa por um crime que não cometeu.

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* Na já citada ida ao Uruguai em 1998, disputei uma partida de futebol: era mais uma boa maneira de integrar brasileiros e uruguaios, visto que se tratava de uma viagem de intercâmbio escolar (um mês depois, foram os orientales que vieram a Porto Alegre). Fomos escolher os times e decidimos facilitar: brasileiros de um lado, uruguaios do outro. E passou pela minha cabeça um pensamento: “hora de dar o troco por 1950”. Porém, não falei nada, pois tinha a intenção de que o jogo fosse limpo. Resultado: tomamos olé, envergonhamos o Brasil…

Brasil versus combinados regionais: errei

No texto anterior, o leitor Causlos deixou um comentário que corrige uma informação errada. Disse eu que aquele Seleção Brasileira versus “Seleção Gaúcha” em 17 de junho de 1972 teria sido o último confronto do Brasil contra um combinado regional de dentro do país. Mas, depois daquela partida, só a “Seleção Gaúcha” (chamo assim, entre aspas, por ela na verdade reunir jogadores que jogavam no Rio Grande do Sul, principalmente na dupla Gre-Nal, fossem eles gaúchos ou não) ainda jogou duas vezes contra a Seleção Brasileira.

A primeira foi pouco antes da Copa do Mundo da Argentina. E de forma semelhante ao acontecido seis anos atrás, havia ressentimento nas arquibancadas do Beira-Rio: o técnico Cláudio Coutinho deixara Falcão (catarinense de Abelardo Luz) fora da Seleção que disputaria a Copa do Mundo, apesar dele vir jogando muita bola no Inter. Assim como em 1972, o jogo da noite de 25 de maio de 1978 acabou empatado, desta vez em 2 a 2.

Em 19 de janeiro de 1983, pela última vez a “Seleção Gaúcha” enfrentou a Seleção Brasileira. Só que, diferentemente do acontecido nos dois confrontos anteriores, os “gaúchos” levaram 4 a 1.

Definitivamente, estou ficando velho

Lembram do dia 17 de julho de 1994? Pois é, hoje fez 18 anos

Brasil x Itália, final da Copa do Mundo de 1994. A Seleção voltava a decidir um Mundial depois de 24 anos (a última final fora em 1970, coincidentemente, também contra a Itália). Nas ruas de Porto Alegre (e certamente de todo o país) se vivia um clima de absoluta empolgação, visto que muitos jamais tinham visto o Brasil chegar à decisão. Meu pai, então com 42 anos, era mais “cauteloso” e alertava sobre a festa antecipada, imaginando o clima “de velório” que tomaria conta do país caso a Seleção perdesse.

Foi um jogo “morno”, sem graça, como comprovei no verão de 1995: em casa, de férias, decidi assistir à gravação da partida e quase dormi… Ficamos tensos naquele 17 de julho só porque era o Brasil em campo (naquela época eu ainda conseguia torcer pela Seleção).

Obviamente os italianos, fanáticos por futebol como os brasileiros, também sofreram muito naquela tarde; e foi até mais, por terem perdido. Assim, o vídeo que posto aqui é da televisão italiana – mas reparem o quão “calmo” é o narrador, principalmente na hora que Roberto Baggio chuta o último pênalti para fora. Um belo contraste com os gritos enlouquecidos de Galvão Bueno, que aqui no Brasil já assistimos incontáveis vezes nos últimos 18 anos.

E eu lembro disso como se tivesse sido ontem. Tinha apenas 12 anos de idade, agora tenho 30… Definitivamente, estou ficando velho em uma velocidade absurda!

“Jean Marie, o Brasil vai até o Chuí”

Em 30 de outubro de 1969, o general Emílio Garrastazu Médici, fanático por futebol e que costumava frequentar estádios, tornou-se ditador do Brasil. Durante seu período de governo (até 15 de março de 1974), o país viveu o período mais sangrento da repressão política, com a intensificação da tortura e dos desaparecimentos forçados. Continuar lendo

O dia em que percebo o quanto estou velho

17 de junho. Hoje o Brasil celebra os 50 anos do bicampeonato mundial conquistado no Chile. Desde então, nunca mais uma seleção ganhou duas Copas seguidas.

Hoje também é o 40º aniversário do famoso jogo da Seleção Brasileira contra uma “Seleção Gaúcha” (na verdade, um combinado Gre-Nal), em “desagravo” a Everaldo. Já era para ter um texto aqui sobre a partida, mas me atrapalhei demais e ficou para amanhã.

Mas este 17 de junho também mostra o quanto estou velho, por outros dois fatos importantes – e também relacionados a futebol – que são lembrados hoje.

O primeiro deles é que hoje faz 20 anos que o São Paulo ganhou a Libertadores pela primeira vez. Mesmo sendo gremista, não posso negar que dava gosto ver aquele São Paulo de 1992/93, timaço que marcou época como um dos melhores times que já vi jogar. Foi o esquadrão que dominou o futebol brasileiro antes do início dos duelos entre Grêmio e Palmeiras.

Já o segundo, é algo que já falei alguns meses atrás. Hoje faz 18 anos que começou a Copa do Mundo de 1994, nos Estados Unidos. Quem nasceu naquele dia do qual me lembro tão bem, acaba de atingir a maioridade.

Em questão de semanas, será a vez de Mattheus, filho de Bebeto, comemorar sua chegada à maioridade…

Maioridade

Há algumas semanas, o Vicente Fonseca fez um comentário no Facebook que demonstra bem o quanto é interessante essa história de “ficar velho”. Ele chamou a atenção para o fato de que pessoas nascidas em 1994 completam 18 anos em 2012.

Tá, até aí, nada mais natural, pura “questão de matemática”. Os números podem ser “frios”; porém, o fato é que ele lembra bem daquele ano de 1994 – e eu também.

Alguém poderá dizer que lembramos com facilidade porque 1994 foi realmente um ano marcante: Copa do Mundo, morte de Ayrton Senna, Plano Real, rebelião do Presídio Central, neve granular em Porto Alegre, Grêmio bi da Copa do Brasil… Bastante coisa para 365 dias. Porém, 1989 também foi um ano histórico (massacre da Praça da Paz Celestial, primeiras eleições presidenciais no Brasil depois de 29 anos, queda dos regimes autoritários ditos “socialistas” na Europa Oriental etc.), mas não teve para mim o mesmo significado: lembro “em primeira mão” (ou seja, sem ser graças ao conhecimento adquirido posteriormente) apenas de que foi o ano em que entrei no Floriano, de ter torcido para o Brizola no primeiro turno e para o Lula no segundo, e de ter ganho um Pense Bem no Natal.

Já de 1994, lembro bem de todos aqueles fatos que citei. Além de acontecimentos mais pessoais como, por exemplo, a apendicite que me mandou para uma sala de cirurgia no mês de abril.

Agora, como entender que gente nascida naquele ano, que não lembra nada da Copa do Mundo mais marcante para nossa geração (a dos nascidos nos anos 80), que não conheceu inflação de verdade (quando os preços subiam todos os dias), agora esteja em idade de prestar vestibular, tirar carteira de motorista, ser obrigada a votar e se alistar no Exército? (Lembram do filho do Bebeto, que ele “embalou” após marcar aquele gol contra a Holanda? Pois é…)

Pois é, tudo que aconteceu em 1994 completa 18 anos em 2012. Passou-se o mesmo tempo que o compreendido entre 1981 e 1999 – com a diferença de que em 1999 (quando completei 18 anos) eu não lembrava de absolutamente nada acontecido em 1981 sem precisar me “socorrer” de memórias alheias e livros de História.

Morre o criador do “Jean Marie”

O meio esportivo do Rio Grande do Sul está de luto pelo falecimento, no final da tarde da terça-feira, de Escurinho, ex-atacante do Inter e exímio cabeceador. O jogador recebeu justas homenagens de vários ex-colegas, dirigentes, até mesmo do Grêmio e de ídolos tricolores, como Tarciso.

Na terça também se perdeu outro nome ligado aos esportes. Trata-se do jornalista Antônio Carlos Porto, 81 anos, que sofria de câncer. Porto destacou-se como cronista esportivo, e trabalhou nos jornais Folha da TardeFolha Esportiva – no último, assinava a coluna “De alto a baixo”.

Foi justamente na Esportiva que Antônio Carlos Porto começou a definir o título de minha monografia de conclusão de curso, 37 anos antes dela ser escrita.

Em 1972, o Brasil celebrava os 150 anos de sua independência política. Dentre os diversos eventos (dos quais todos eram vistos pelo governo ditatorial como oportunidade de fazer propaganda), havia um torneio de futebol, chamado “Taça Independência” – ou também “Minicopa”, por reunir várias seleções nacionais, algumas delas fortes, como Argentina, Uruguai e França. Apesar das ausências de Alemanha Ocidental, Inglaterra e Itália (na época, as únicas seleções europeias campeãs mundiais), por perceberem que o campeonato era de cunho mais político do que esportivo – e não apenas por parte da ditadura militar: o presidente da CBD, João Havelange, convidou algumas seleções fraquíssimas como a Venezuela (pagando uma cota bem maior do que a cobrada pela Seleção Brasileira), de olho em seus votos na eleição para a presidência da FIFA que ocorreria em 1974 e seria vencida por Havelange.

No dia 15 de maio de 1972 o técnico da Seleção Brasileira, Zagallo, anunciou a lista de jogadores convocados para representarem o Brasil na “Minicopa”. E nela não constava o nome de Everaldo, lateral-esquerdo do Grêmio titular da Seleção de 1970 – e que mantivera a titularidade desde então. Mais do que passá-lo para a reserva, Zagallo sequer relacionava Everaldo para vestir a camisa da Seleção, e também não convocara mais nenhum jogador de clubes do Rio Grande do Sul.

É, quem acha que antigamente os gaúchos não eram tão bairristas… Começou uma “guerra” de palavras, via imprensa. Na Folha Esportiva do dia 16 de maio, Antônio Carlos Porto foi o primeiro a “jogar lenha na fogueira”: propôs um boicote aos jogos da “Minicopa” em Porto Alegre, como forma de retaliação à CBD pela ausência de Everaldo na Seleção.

A reação da CBD foi quase imediata. João Havelange afirmou que o boicote à competição que celebrava os 150 anos da independência era uma atitude “antipatriótica” – palavras confirmadas em nota oficial. Porto respondeu em sua coluna do dia 18 de maio:

Até por uma questão de cheiro, poluição ou coisas desta ordem, vamos dispensar qualquer lição de brasilidade que parta do próspero empresário Jean Marie, presidente full-time da CBD. Não vamos invocar os sentimentos de brasilidade de nossa gente e trazer os múltiplos exemplos. Infantilidade ou maldade o chamamento deste sentimento para as coisas simples do futebol, especialmente em se tratando de uma “microcopa” vergonhosamente desprezada pelas seleções mais representativas do Velho Mundo.

Surgiu aí a genial ironia: Havelange acusava os gaúchos de não terem “sentimento de brasilidade”, mas tinha um nome “estrangeiro” – filho de belgas, foi registrado como “Jean Marie Faustin de Godefroid Havelange”. Dali em diante, os colunistas da Folha Esportiva começaram a constantemente chamar o dirigente apenas por seu nome de batismo, sem sequer citarem o sobrenome.

Um dos jogos da Seleção preparatórios para a “Minicopa” – ou “microcopa”, como os colunistas também passaram a constantemente ironizar – estava marcado para o dia 17 de junho, um sábado, em Porto Alegre. O adversário ainda era indefinido quando do início da polêmica pela não-convocação de Everaldo, mas não demorou a surgir uma proposta que, hoje em dia, pareceria notícia d’O Bairrista: uma “seleção gaúcha” (na verdade, um combinado Gre-Nal) desafiar a Seleção Brasileira.

Poucos acreditavam que a CBD aceitasse o desafio, mas o fato é que aceitou. E a partida, realizada no Beira-Rio, reuniu o maior público da história do estádio: mais de 110 mil pessoas estiveram presentes. Ficou claro que não havia uma “revolta separatista em curso”: na preliminar, a Seleção Olímpica do Brasil venceu o Hamburgo por 4 a 1 e foi bastante aplaudida. Já no jogo principal (que acabou empatado em 3 a 3, sem que em nenhum momento os “gaúchos” ficassem atrás no placar), de nada adiantou os dois times entrarem em campo juntos e carregando uma bandeira brasileira: a Seleção de Zagallo foi intensamente vaiada pelo público. Que também lembrou Havelange e sua afirmação quanto à “falta de brasilidade” dos gaúchos, com uma faixa: “Jean Marie, o Brasil vai até o Chuí”.

Quando vi a foto acima pela primeira vez, na hora já achei o texto “perfeito” para ser parte do nome do meu trabalho – que é intitulado “Jean Marie, o Brasil vai até o Chuí”: futebol e identidade “gaúcha” nas páginas da Folha Esportiva (1967-1972). Embora eu tenha escrito o trabalho em 2009, não posso deixar de lembrar que o título começou a surgir em 18 de maio de 1972, naquela coluna de Antônio Carlos Porto.

Terça-feira, 11 de setembro

Em 11 de setembro, uma terça-feira, uma barbárie causou a morte de milhares de pessoas. Teve importantes reflexos na economia, na política e até mesmo no futebol – o ano seguinte seria de Copa do Mundo.

Sim, falamos do 11 de setembro de 2001. Mas também do 11 de setembro de 1973.

Na terça-feira, 11 de setembro de 1973, um golpe militar depôs o presidente do Chile, Salvador Allende. O comandante do Exército, Augusto Pinochet, que havia sido nomeado pelo próprio Allende, chefiou a criminosa ação na qual o Palácio de La Moneda, sede do governo chileno, foi bombareado por caças da Força Aérea. Allende ensaiou uma resistência, mas ao perceber que não teria como superar as forças golpistas, fez um último pronunciamento no rádio. Depois, cometeu suicídio ou foi assassinado – ainda não há uma certeza sobre a morte do presidente chileno.

O general Augusto Pinochet assumiu o poder, e implantou uma das mais sangrentas ditaduras que já teve a América Latina. De 1973 a 1990, milhares de pessoas foram vitimadas pela repressão. Qualquer um que fosse “suspeito” de simpatizar com o governo de Allende podia ser preso e brutalmente torturado – isso quando não fosse executado ou “desaparecido”.

A economia chilena foi bastante impactada pelo golpe. Antes, o país estava quase paralisado, graças a decisão dos Estados Unidos de “sufocar” o Chile pela via econômica, para não deixar que um país se tornasse comunista “devido à irresponsabilidade de seu povo” como disse Henry Kissinger (ou seja, para ele o povo chileno não valia nada). Com o fim da democracia, os dólares voltaram a entrar no Chile, que transformou-se em “laboratório de testes” para o neoliberalismo dos “Chicago Boys”, cujo maior expoente era Milton Friedman. Exato: não foi com Ronald Reagan nem com Margaret Thatcher que ele começou, mas sim com Augusto Pinochet… Detona-se, assim, o mito segundo o qual liberalismo econômico e democracia são sinônimos.

Até o futebol sofreu o impacto do 11 de setembro de 1973. Mais precisamente, a Copa do Mundo de 1974, na Alemanha Ocidental. Havia uma preocupação muito grande com a segurança (como veremos no Mundial de 2002, menos de um ano após os atentados nos EUA), devido ao terrorismo: nos Jogos Olímpicos de Verão de 1972, realizados também na Alemanha Ocidental (na cidade de Munique), o grupo Setembro Negro invadiu a Vila Olímpica e assassinou onze atletas israelenses. Mas o impacto do 11 de setembro se deu dentro de campo mesmo: nas repescagens das eliminatórias para a Copa, uma das vagas seria disputada entre uma seleção sul-americana e uma europeia; o Chile seria esta equipe da América do Sul, e a União Soviética a da Europa.

A primeira partida foi disputada em 26 de setembro de 1973 (portanto, já depois do golpe) em Moscou, e terminou empatada em 0 a 0. O jogo decisivo estava marcado para 21 de novembro no Estádio Nacional de Santiago, que após o 11 de setembro se tornara um campo de concentração no qual inúmeras pessoas foram torturadas e fuziladas. Os dirigentes soviéticos pediram que a partida fosse realizada em outro local que não o Estádio Nacional, mas a FIFA se fez de surda e com isso, a seleção da URSS não viajou a Santiago para jogar. Desta forma o Chile garantiu a vaga à Copa sem disputar o jogo que a URSS poderia muito bem vencer apesar de jogar fora de casa, mas para “cumprir tabela” os chilenos entraram em campo e marcaram um gol no arco vazio.

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Em 11 de setembro de 2001, uma terça-feira, quase 3 mil pessoas morreram vítimas dos atentados terroristas nos Estados Unidos. Mas em consequência disso, quase um milhão de vidas foram tiradas nas guerras travadas pelos EUA no Afeganistão e no Iraque. Aquele trágico dia tornou-se “justificativa” para matar ainda mais gente.

A economia sofreu as consequências do 11 de setembro de 2001. Os Estados Unidos vivem hoje a sua pior crise econômica desde 1929, e uma das causas disso são os gastos excessivos com as guerras “justificadas” pela tragédia.

E o futebol, claro, também foi afetado. Na Copa de 2002, realizada na Coreia do Sul e no Japão, a preocupação com a segurança foi muito maior do que nos Mundiais anteriores. E a seleção dos Estados Unidos teve de contar com esquema especial de proteção, devido ao temor de ataques terroristas.

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Como bem disse o chileno Pablo no vídeo que abre este post, em uma carta dirigida aos familiares de vítimas do 11 de setembro de 2001: os chilenos, assim como todo o mundo, lembram as vidas perdidas de 2001; e é preciso que os estadunidenses, e o mundo também, lembrem de 1973.

Meu primeiro Gre-Cruz

Ontem à tarde, o Internacional foi eliminado em casa do primeiro turno do Gauchão pelo Cruzeiro de Porto Alegre – que este ano volta à primeira divisão estadual depois de 32 anos de ausência. O Inter-Cruz acabou empatado em 1 a 1, e nos pênaltis a vitória foi cruzeirista, 5 a 4. E como o Grêmio hoje fez 5 a 0 no Ypiranga de Erechim, no próximo domingo teremos um outro clássico porto-alegrense, o Gre-Cruz.

Talvez os mais novos estranhem tais expressões (“Gre-Cruz” e “Inter-Cruz”). É que como fazia tanto tempo que o Cruzeiro não disputava a primeira divisão do Gauchão, ela não vinha mais sendo utilizada. Mas, por muito tempo, o Estrelado foi a terceira força de Porto Alegre, justificando que seus jogos contra Grêmio e Inter tivessem também o status de “clássico”. Meu primeiro contato com o Gre-Cruz foi em 2009, durante a pesquisa para o TCC: nos jornais que utilizei, do período de 1967 a 1972, ver as expressões “Gre-Cruz” e “Inter-Cruz” me chamou bastante a atenção, pois a dupla Gre-Nal já detinha a hegemonia estadual desde 1940 (com a exceção do Gauchão de 1954, conquistado pelo Renner).

Campeão estadual em 1929, o Cruzeiro foi o primeiro clube gaúcho a excursionar pela Europa, em 1953 – com direito a um empate sem gols com o poderoso Real Madrid. E foi também o primeiro clube a ter sua camisa utilizada em um jogo de Copa do Mundo: no Mundial de 1950, México e Suíça se enfrentaram em Porto Alegre; como o árbitro achou que as cores das camisas das duas seleções (verde e vermelha, respectivamente) não tinham contraste suficiente, os mexicanos vestiram as camisas cruzeiristas, fazendo um jogo de Copa lembrar um Inter-Cruz – e, infelizmente, a vitória foi “vermelha” (ou seja, suíça), 2 a 1.

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Agora, aguardo com ansiedade o próximo domingo, quando terei um compromisso histórico no Olímpico Monumental: assistir ao primeiro Gre-Cruz da minha vida.

Copa 2014 e Rio 2016: os nossos “Banheiros do Papa”?

Em agosto passado – mais precisamente, durante a final da Libertadores – assisti ao filme uruguaio “O Banheiro do Papa” (El Baño del Papa), de César Charlone e Enrique Fernández. De meu programa alternativo ao futebol nasceu uma resenha, publicada no Pipoca Comentada.

O filme é baseado em fatos reais. Em maio de 1988, João Paulo II visitou o Uruguai, e a cidade de Melo, próxima à fronteira com o Brasil, estava no roteiro.

O anúncio de que o Papa passaria por Melo gerou enorme expectativa em seus moradores, que viram no acontecimento a oportunidade de ganharem bastante dinheiro com a venda de lanches aos muitos milhares de fiéis de outros lugares (principalmente do Brasil) que, segundo a televisão, iriam à cidade ver o pontífice. O personagem principal, Beto (César Troncoso), decidiu construir um banheiro e cobrar pelo uso: como tanta gente iria comer tanto, também precisaria “se aliviar” em algum lugar, né?

Assistir a esse filme faz pensar muito nos próximos “eventos grandiosos” que acontecerão no Brasil: a Copa do Mundo de 2014, e os Jogos Olímpicos de 2016 (embora sejam só no Rio de Janeiro, todos os brasileiros irão pagar). Muitos veem tais eventos como “a grande oportunidade”, e a televisão apenas estimula ainda mais o ufanismo. Aqui em Porto Alegre, pela Copa se justifica qualquer barbaridade.

Só que em Melo, o dia 8 de maio de 1988 virou símbolo de ruína econômica, já que a passagem do Papa não atraiu os muitos milhares de visitantes que a televisão dizia que iriam à cidade e assim a maior parte dos “comes e bebes” não foi vendida, restando apenas dívidas para quem havia apostado tudo no acontecimento. Assim como muitos gregos não devem gostar de lembrar dos Jogos Olímpicos de 2004, realizados em Atenas: dentre os motivos para a quebra da Grécia estão os gastos excessivos com instalações esportivas que, após o apagamento da pira olímpica, viraram “elefantes brancos”. Falta saber como será o final da história para o Brasil.