Feliz década de 1990

Como de costume, fui caminhando ao Olímpico. E comecei a pensar no que viria com a confirmação da classificação contra o Bahia: um confronto com o Palmeiras na semifinal da Copa do Brasil.

Grêmio x Palmeiras num “mata-mata”: coisa que não acontecia desde 1996. Impossível não pensar que “os bons tempos estão de volta”, tanto sendo gremista ou palmeirense. Curiosamente, com os técnicos “invertidos”: agora Luxemburgo é tricolor, Felipão é alviverde.

Em comum entre os dois grandes rivais da década de 1990, uma grande “seca” de títulos. Excetuando-se estaduais e Série B, Grêmio e Palmeiras não ganham nada de importante há mais de 10 anos: a última conquista gremista foi a Copa do Brasil de 2001; já a última taça do Palmeiras foi a Libertadores de 1999 – ou, para quem preferir, a Copa dos Campeões de 2000, que não levo muito em conta porque já foi extinta há anos.

Só uma pena que este reencontro aconteça já na semifinal, e não na decisão – ainda mais que Grêmio e Palmeiras jamais fizeram uma final entre si. Mas ao menos a minha torcida deu certo.

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Grêmio: 10 anos sem títulos de expressão

Lá se vão 10 anos daquela tarde fria de domingo, 17 de junho de 2001, em Porto Alegre. Me dirigia à casa do meu amigo Marcel com uma certeza: o Grêmio seria campeão da Copa do Brasil. Pouco me importava o fato de que, após o 2 a 2 no Olímpico no domingo anterior, era preciso vencer o Corinthians no Morumbi lotado, já que empate em 0 a 0 ou 1 a 1 daria o título ao clube paulista.

Só não imaginava que seria da forma como foi: um verdadeiro chocolate. O Grêmio venceu por 3 a 1, quase não tomando conhecimento do adversário. Ganhou não apenas jogando bem: deu espetáculo. A ponto de ser elogiado até mesmo pela “grande mídia” do centro do país, que em todas as conquistas anteriores sempre inventava algum defeito para desmerecer o título gremista.

Outra coisa que eu não imaginava era que depois daquela tarde de 17 de junho de 2001 o Grêmio entraria em um jejum de títulos de expressão que dura até hoje, 10 anos depois. De lá para cá, ganhamos apenas três estaduais (2006, 2007 e 2010), e a Série B de 2005 (o que era nada mais que a obrigação de um clube como o Grêmio).

Porém, parte da explicação do declínio gremista se encontra no próprio time campeão de 2001. Era uma grande equipe, mas extremamente cara para os padrões do futebol brasileiro. Inclusive, a decisão contra o Corinthians foi a última partida de Marcelinho Paraíba com a camisa do Grêmio: o jogador já estava negociado com o Hertha Berlin, da Alemanha.

Os salários extremamente elevados de nomes como Zinho eram herança da parceria do Grêmio com a ISL, assinada no início de 2000, que dava a impressão de que encheria os cofres do clube. Porém, no início de 2001, a empresa faliu. Coincidentemente, na mesma época, Ronaldinho deixava o Grêmio praticamente de graça, graças à absurda incompetência da gestão de José Alberto Guerreiro (maior responsável por nosso jejum), que já recusara propostas “irrecusáveis” pelo (então) craque.

Sem a parceria, era imperioso cortar gastos no Grêmio, pois ficava claro que toda a conta teria de ser paga pelo clube – tanto os salários dos jogadores que ficavam, como os que saíam, caso dos “medalhões” Paulo Nunes, Amato e Astrada, “reservas de luxo” em 2000. Mas o empenho em conquistar títulos importantes adiou duas vezes o necessário enxugamento das finanças: primeiro a Copa do Brasil de 2001, e depois de vencê-la, a Libertadores de 2002 (afinal, qual gremista não sonhava ganhar a América de novo?). Apenas depois da eliminação na semifinal da competição sul-americana, o Grêmio anunciou uma redução salarial e a rescisão de contratos com jogadores de salários elevados.

Mas a conta ainda continuou sendo paga, por muito tempo (como no caso de Zinho). Resultado: o Grêmio enfrenta dificuldades financeiras até hoje, não conseguindo mais montar grandes times como os de 1995-1997 e 2001. E assim entrou em um jejum de grandes conquistas como jamais havia vivido desde que ganhou o primeiro título importante, o Brasileirão de 1981.

Nos últimos trinta anos, o Grêmio já chegou a passar quase seis sem um título de expressão: foi entre o Mundial de 1983 (vencido em dezembro) e a Copa do Brasil de 1989 (início de setembro). Mas em compensação, a partir de 1985 iniciara uma série de títulos estaduais que culminaria no hexacampeonato, em 1990 – sequência que não foi mais alcançada desde então.

Já na atual “década perdida”, o Tricolor conseguiu a “façanha” de ficar fora de quatro finais consecutivas do Campeonato Gaúcho, de 2002 a 2005. Além de fazer papelão no Campeonato Brasileiro por dois anos seguidos: em 2003, quando celebrava o centenário, passou várias rodadas na zona do rebaixamento, e só escapou da queda na última rodada; já no ano seguinte, não teve jeito, e caiu. Depois do retorno (a Batalha dos Aflitos, tão celebrada por Odone), o Tricolor fez boas campanhas, terminando o Campeonato Brasileiro sempre na metade de cima da tabela, e sendo vice da Libertadores em 2007. Mas título, que é bom…

Dessa forma, os gremistas com menos de 15 anos de idade cresceram sem saber o que é um título de verdade, já que no último eles eram muito pequenos, ou nem tinham nascido.

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Para quem quer relembrar não só uma grande conquista do Grêmio, como também um banho de bola, é possível assistir ao jogo inteiro, no canal do usuário Zobarilhas no YouTube.

Abaixo a Batalha dos Aflitos!

A derrota do Grêmio, acreditem, não chegou a me irritar demais – serviu foi de desculpa para exagerar na cerveja após o jogo. Eu não tinha lá muita esperança de que passaríamos pelo Universidad Católica (no máximo, pensava que a classificação significaria simplesmente adiar a eliminação). Não achava que fôssemos perder em casa, é verdade. Mas, assim como o Guga, também não fiquei surpreso.

Agora, irritação das grandes me veio quando soube da entrevista pós-jogo de Paulo Odone, que falou da Batalha dos Aflitos como “exemplo” para o Grêmio reverter a situação em Santiago do Chile. (Reverter a situação no Chile? Um time que tem medo de chutar a gol e não terá o ataque titular, vai marcar no mínimo dois gols na casa do adversário? Vou ali falar com o Papai Noel para saber a opinião dele, esperem aí.)

Chega de falar dessa Batalha dos Aflitos! Foi bacana naquela época? Foi sim, por muitos motivos: o Grêmio tinha um time horrível, estava com quatro jogadores a menos, na casa do adversário e com um pênalti contra, eu já me preparava psicologicamente para mais um ano na segunda divisão… Mas acabou ganhando o jogo, quando tudo indicava que perderia.

Só que isso foi em novembro de 2005. E já estamos praticamente em maio de 2011. Ou seja, se passaram cinco anos e meio daquilo. E o que ganhamos desde então? NADA! O Gauchão (conquistado pelo Grêmio em 2006, 2007 e 2010) não pode mais servir de parâmetro para um clube que já conquistou o MUNDO.

Se o Gauchão – competição na qual temos a oportunidade de enfrentarmos nosso tradicional adversário – não pode servir de parâmetro, o que dizer da Série B? Como eu já disse em texto postado aqui em novembro passado (em ocasião do quinto aniversário da Batalha dos Aflitos), aquela partida contra o Náutico só se tornou memorável devido à assombrosa incompetência do Grêmio: primeiro, por não ter conseguido se manter na Série A em 2004; em segundo lugar, por ter deixado de vencer um jogo que já estava ganho contra a Portuguesa em São Paulo – com aqueles dois pontinhos a mais o Tricolor já teria assegurado a classificação uma semana antes da bola rolar nos Aflitos. E vale lembrar que a campanha na Série B de 2005 não foi nenhuma maravilha, com direito a uma humilhante derrota de 4 a 0 para a Anapolina, que considero como um dos dez maiores vexames da história gremista.

Comemorar a Batalha dos Aflitos, e usá-la como exemplo, até considero aceitável nos primeiros anos após aquilo, quando, além dela ser mais recente, o time do Grêmio era bem mais fraco que o de 2011. Agora, por favor, basta disso! Em seus grandes títulos o Tricolor contava com jogadores que não tinham apenas garra (o que considero obrigação de qualquer atleta profissional), como também muita qualidade. Ou será que foi esquecido que o “cangaceiro gremista” Dinho também sabia desarmar muito bem sem precisar fazer a falta? Renato Portaluppi é nosso ídolo-mor não por ter dado trocentos pontapés nas canelas adversárias, mas sim por seu futebol de alta qualidade, simbolizado por aqueles dois golaços contra o Hamburgo. Lembram daquela sensacional sequência de passes que resultou no terceiro gol do Grêmio (marcado por Marcelinho Paraíba) na decisão da Copa do Brasil de 2001? (Que, aliás, foi nossa última conquista de verdade.)

A impressão que tenho, é de que ficou proibido querer que o Grêmio pratique um futebol de qualidade: o importante é (só) ter garra, dar pontapé (mas concordo que às vezes é realmente necessário cometer algumas faltas) e ganhar jogando mal… Como foi na maldita Batalha dos Aflitos. Opa, nem tanto: sem o talento de Anderson, não teríamos vencido aquele jogo (no máximo teríamos empatado em 0 a 0 e nos classificado em 2º lugar). Esse desprezo pela qualidade técnica e valorização do pontapé, que não se via no Grêmio e em sua torcida nos anos 90, me faz lembrar o que aconteceu com o futebol do Uruguai, cuja seleção passou 40 anos sem conseguir chegar às quartas-de-final de uma Copa do Mundo (isso quando as disputava):

No futebol uruguaio, a violência foi filha da decadência. Antes, a garra charrua era o nome da valentia, e não dos pontapés. No Mundial de 50, sem ir mais longe, na célebre final do Maracanã, o Brasil cometeu o dobro de faltas que o Uruguai. (Eduardo Galeano. Futebol ao Sol e à Sombra. Porto Alegre: L&PM, 2002, p. 206.)

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E, caro leitor, há mais dois textos sobre esse mesmo assunto, que também valem muito a pena serem lidos: o do Igor Natusch no Carta na Manga, e o do Bruno Coelho no Grêmio 1903 e no Tribuna Gremista.

Sinais incontestáveis de que estou ficando velho

Por cerca de um ano e meio, o blog Cataclisma 14 publicou uma série de posts muito interessante sobre o tema “envelhecendo”. Claro que não falava sobre se estar entrando na terceira idade, mas sim de situações demonstrativas de que o camarada já é, realmente, adulto, já tendo portanto uma certa “experiência de vida”. (O que parece… “Papo de velho”!)

Como o pessoal do Cataclisma não retomou os posts “velhos”, eu faço isso, de uma vez só, e citando por experiência própria alguns sinais incontestáveis de que, feliz ou infelizmente, não sou mais jovem.

E mesmo que eu fale em primeira pessoa, quem assim como eu está por volta dos 30 anos – para mais ou para menos – e leu esse texto, certamente se identificou com algum item da lista acima…

Quando o GRÊMIO voltará a ser GRÊMIO?

Aqui é tu mesmo, direto de 2010. Vou ser curto e grosso. Em um momento de angústia tive que te (me) escrever esta carta por descarga de consciência. Quero te falar do Grêmio aqui em 2010. Não vou te aporrinhar com coisas que acontecerão neste meio tempo que nos separa. Acredite, tu não vai querer saber. Só uma dica: comemore MUITO a Copa do Brasil de 2001.

O trecho acima é de uma carta escrita por Cristian Bonatto em 2010 para ele mesmo, 10 anos atrás. Reflete perfeitamente o sentimento de qualquer torcedor gremista neste agosto que, em 2010, faz jus à expressão “mês do desgosto”.

O mais interessante é o fato do “destino” da carta encontrar-se exatamente em 2000, ano em que podemos dizer que se iniciou a decadência que fez do Grêmio o que ele é hoje. Foi quando o nosso Tricolor começou a deixar de ser aquele time lutador, temível.

Naquele ano, o Grêmio assinou um contrato de parceria com a ISL, empresa suíça de marketing esportivo que era uma das principais parceiras da FIFA. O torcedor sonhava com glórias, que o então presidente, José Alberto Guerreiro, prometia que se tornariam “barbadas” com o dinheiro que a ISL investiria no clube para transformá-lo num “Real Madrid brasileiro”. Mas o meu pai, colorado, ironizava e dizia “estar torcendo pelo Guerreiro”. Parecia pressentir que o negócio não ia dar certo.

Contando com o dinheiro da ISL, o Grêmio gastou muito para contratar “medalhões” como Amato, Astrada, Paulo Nunes e Zinho – este último, o único que deu certo. E pagando altíssimos salários, na casa dos 200 mil dólares. Enquanto isso, o nosso verdadeiro craque, Ronaldinho, carregava o time nas costas e não recebia a metade do valor pago mensalmente a “reservas de luxo”.

Mesmo com toda a grana que gastou, o Grêmio não ganhou nenhuma taça em 2000. Foi vice-campeão gaúcho (perdeu para o Caxias na final), eliminado de forma humilhante da Copa do Brasil (4 a 1 para a Portuguesa em pleno Olímpico) e semifinalista da Copa Jean Marie João Havelange (eliminado pelo São Caetano com duas derrotas: 3 a 2 em São Paulo e 3 a 1 no Olímpico).

Do ano de 2001, a maioria dos gremistas lembra da conquista da Copa do Brasil, quando o Grêmio, com um grande time comandado por Tite, deu um banho de bola no Corinthians no Morumbi lotado e venceu por 3 a 1. Mas aquele ano teve dois fatos negativos. O primeiro foi a saída de Ronaldinho: quando ele alcançara projeção internacional em 1999, após a Copa América e a Copa das Confederações, Guerreiro mandara dependurar uma faixa na entrada do Olímpico, anunciando que o Grêmio “não vendia craques”. De fato, não vendeu, deu praticamente de  graça ao Paris Saint-Germain… A torcida, claro, ficou revoltada com a saída de Ronaldinho, depois dele tantas vezes ter jurado amor ao Grêmio, mas sejamos sinceros: o cara fazia o time jogar, e tinha de ver Paulo Nunes e Astrada no banco e ganhando mais que o dobro que ele? Pode ter sido “sacanagem” da parte dele, mas ele também se sentia desvalorizado, e por isso, foi embora.

Outro fato negativo em 2001 foi a falência da ISL. Vários dos “medalhões” do ano anterior já haviam saído, mas também ficou claro ali que a conta de tudo aquilo teria de ser paga pelo Grêmio, já que a parceria fora por água abaixo. Mas o necessário enxugamento das finanças do clube foi postergado, primeiro pelo empenho em conquistar a Copa do Brasil em 2001 (tanto que contratou Marcelinho Paraíba, um dos principais responsáveis pelo título), e depois da conquista, em nome do sonho de ganhar a Libertadores em 2002.

O Grêmio foi até a semifinal, quando foi eliminado pelo Olímpia de forma dramática, nos pênaltis, com uma arbitragem pra lá de polêmica. Após a desclassificação, começou a “operação desmanche”. O corte de gastos não era exclusividade gremista naquela época – de modo geral, o futebol era atingido por uma crise, com clubes europeus reduzindo salários – mas o Tricolor finalmente fazia algo que “era para ontem”. O colunista Hiltor Mombach, do Correio do Povo, profetizava sobre o Grêmio naqueles tempos em que fracassos e crises eram sempre associados ao rival:

Grêmio começará a passar pela mesma crise financeira do Inter. Talvez até pior. (Correio do Povo, 19 de julho de 2002, p. 18)

Mesmo com a saída de vários jogadores, entre eles Zinho (salário mais alto do clube – e que já fora maior, visto que ele renovara com o Grêmio no início de 2002 por um salário menor que o anterior), o Tricolor ainda conseguiu fazer uma boa campanha no Campeonato Brasileiro, ficando em 3º lugar e se classificando para a Libertadores de 2003 – o que fez o clube novamente “ir às compras” para conquistar o sonhado troféu naquele ano tão especial, em que celebraria o centenário.

Ao mesmo tempo, terminava o mandato de Guerreiro, e por aclamação, Flávio Obino foi eleito para comandar o clube no biênio 2003-2004 – houve uma única voz discordante, o ex-presidente Hélio Dourado. Obino já fora presidente de 1969 a 1971, quando o Grêmio encerrou uma longa sequência de conquistas (conquistara todos os títulos estaduais de 1956 a 1968, exceto em 1961 – foi o famoso “doze em treze”) e o rival a iniciou. Desde então, Obino ficara com a fama de “pé-frio”, que apenas se consolidou durante sua segunda passagem na presidência gremista.

Em 2003, após ser eliminado da Libertadores nas quartas-de-final pelo Independiente Medellín, o Grêmio viveu uma das situações mais dramáticas de sua história, brigando para não ser rebaixado justamente no ano de seu centenário. Na passagem dos 100 anos, em 15 de setembro, o time ocupava a lanterna do Campeonato Brasileiro, com vários pontos de desvantagem em relação ao 22º colocado (último que se salvava da degola). Buscando forças sabe-se lá de onde, o Tricolor conseguiu escapar da Série B, garantindo a permanência ao vencer o Corinthians por 3 a 0 no Olímpico, na última rodada – o resultado, aliado à derrota do Inter por 5 a 0 para o São Caetano na véspera (quando o rival precisava de um empate para voltar à Libertadores depois de 11 anos) deixou muitos gremistas eufóricos, com a sensação de que 2003 fora atípico, e que no ano seguinte “as coisas voltariam a ficar em ordem”, com o Grêmio conquistando títulos e o rival penando.

Doce ilusão… O que se viu em 2003 foi glorioso em comparação com 2004. Com um time ridículo, o Grêmio só fazia o torcedor sofrer. Contratou verdadeiras bombas como o goleiro paraguaio Tavarelli (que era titular daquele Olímpia que eliminara o Tricolor da Libertadores em 2002), os zagueiros Capone e Fábio Bilica (que, se eu tivesse o poder, proibiria até mesmo de jogarem botão usando o Grêmio como time), Michel Bastos (é, ele mesmo…), Felipe Melo (é, ELE MESMO!) etc. Em junho, o time deu um vexame impressionante e foi eliminado do Gauchão ao levar 3 a 1 da Ulbra. Caiu o técnico, Adílson Batista, e o vice de futebol, Saul Berdichevsky; e o único que teve coragem de assumir o pepino foi Hélio Dourado – sim, ele que fora o único a não votar em Obino, não hesitou em oferecer sua ajuda para salvar o Grêmio, quando ninguém que apoiara a aclamação do presidente dava sua cara a tapa. Mas não adiantou, e em novembro, o bagunçado Tricolor acabou rebaixado.

Veio 2005 e Paulo Odone na presidência. Em seus quatro anos, vimos o Grêmio sair da Série B e quase ir “sem escalas” ao Japão disputar o título mundial de 2007. Mas faltou time (mesmo que várias contratações tenham sido feitas, na maioria equivocadas) para bater o Boca Juniors de Riquelme (e só) na decisão da Libertadores, quando Odone só falava na “necessidade” que tinha o Grêmio de construir a “arena”. Tivemos a tentativa – frustrada, felizmente – da imposição de Antonio Britto na presidência do Grêmio. As incríveis convicções da diretoria no início de 2008, contratando Vagner Mancini para demiti-lo no sexto jogo da temporada – e ainda invicto! A liderança por várias rodadas no Campeonato Brasileiro sob o comando de Celso Roth, para depois dar de presente o título para o São Paulo.

Em 2009, já com Duda Kroeff de presidente, vimos um time que queria ser campeão da Libertadores, mas que se dava ao luxo de esperar 40 dias por um técnico que prometera “um projeto a longo prazo” mas não hesitou em pegar o chapéu na hora que os árabes ofereceram uma boa grana. E que não conseguia vencer fora de casa.

E agora, vemos um time sem alma, sem vontade – mesmo que seja o melhor grupo de jogadores desde 2001. Sai técnico, sai dirigente, mas isso será garantia de tempos melhores?

Afinal, quando tempo demorará para o Grêmio voltar a ser realmente o Grêmio? Afinal, depois de tantas glórias na década de 1990, os últimos dez anos foram duros demais para nós gremistas.

E tudo começou exatamente naquele ano 2000, o do destinatário da carta de Bonatto – pois se 1998 e 1999 não foram anos vitoriosos, ali o Grêmio ainda não havia embarcado na canoa furada da ISL.

A camisa que eu gostaria de ter

Uma camisa do Grêmio que eu gostaria muito de ter mas não comprei (se arrependimento matasse…), é o modelo que o time vestia na final da Copa do Brasil de 2001 – última grande conquista do Tricolor. E não é só por isso.

Aquele modelo, fabricado pela Kappa, não tinha nenhum anúncio publicitário. Nenhum! Exceto, claro, o logotipo da Kappa, mas não ocupava boa parte da camisa.

No início de 2001, o contrato do Grêmio (e também do Inter) com a General Motors expirou e não foi renovado, e em consequência disso os dois clubes ficaram sem patrocinador por um tempo. Foi com a camisa sem propaganda que o Grêmio conquistou o estadual e, duas semanas depois, a Copa do Brasil, jogando um belíssimo futebol. No segundo semestre, a dupla Gre-Nal assinou contrato de patrocínio com o Banrisul, e acabou-se a camisa sem publicidade.

Eduardo Galeano, em um genial texto sobre os anúncios publicitários nas camisas, definiu o jogador de futebol na atualidade como “um anúncio que joga” – o que explica as proibições das comemorações mostrando camisas personalizadas (independentemente de serem mensagens religiosas ou pacifistas): não se pode deixar de mostrar a marca do patrocinador na hora de comemorar o gol.

Me dei o direito de complementar a definição de Eduardo Galeano: o torcedor, em sua maioria, é um “anúncio que torce”. Afinal, ao comprarmos a camisa de nosso time, não mostramos apenas o orgulho que sentimos por torcer para ele: somos também obrigados a anunciar algum produto, alguma marca.

Talvez isso explique o motivo pelo qual camisas “retrô” – modelos que imitam as utilizadas no passado – fazem sucesso: a única marca que aparece é a do fornecedor esportivo, mas sem ocupar um grande espaço na camisa.

Porém, agora uma torcida terá o direito de “fazer propaganda” apenas de sua paixão: a do Racing. E mais: o clube argentino não está sem patrocinador, é que este, o Banco Hipotecario, decidiu não estampar sua marca na camisa do time, e sim, explorar outros espaços para publicidade, como mostra a postagem no Impedimento.

Quem sabe um dia esta ótima ideia chegue ao Brasil, e eu possa anunciar apenas a minha paixão pelo Grêmio, nada mais. Mas, claro, tomara que a fornecedora de material esportivo não “invente” bizarrices para estragar o manto sagrado

10 grandes humilhações da mídia brasileira

O Impedimento, blog dedicado exclusivamente ao futebol sul-americano, iniciou uma série de postagens sobre as 10 maiores humilhações da história de vários clubes brasileiros, assim como da Seleção Brasileira. Clique aqui e divirta-se.

Num comentário ao blog do Eduardo Guimarães em postagem a respeito de uma entrevista do presidente Lula à revista Piauí, na qual ele estraçalhou a “grande mídia”, me veio a idéia de fazer algo semelhante ao pessoal do Impedimento: uma lista com dez momentos humilhantes da mídia.

Surgiram problemas. Pegar só midia brasileira, ou internacional também? Só a Globo, ou também a Veja ou outros veículos? Tratar apenas de fatos ligados a política, ou incluir outros assuntos, como futebol?

Optei por só tratar da mídia brasileira. A maior parte dos fatos lembrados é da Globo, mas não será apenas um fato que tratará de veículos de mídia que não sejam só a Globo. E decidi incluir o futebol, já que não é só da seção de política que saem asneiras.

Ressalto que a lista é extremamente parcial, afinal, fiz sozinho. Críticas e sugestões são muito bem-vindas, já que provavelmente esqueci muita coisa que poderia ser citada. Então, aí vai ela:

10. Corinthians 1 x 3 Grêmio (final da Copa do Brasil de 2001)

Em todas as conquistas do Grêmio, a mídia esportiva colocava algum defeito no time, inventava alguma desculpa para justificar a derrota do clube paulista ou carioca na final. Quase sempre, acusando o time do Grêmio de ser violento. Confundiam “futebol-força” com “violência” – prova disso é que quando times acostumados ao “futebol-arte” resolvem “jogar com raça”, sai de baixo que vem porrada mesmo! É verdade que, quanto mais criticavam o Tricolor, mais prazer dava de ganhar os campeonatos…

Eis que, em 2001, eles não puderam falar nada. O Tricolor jogou muito bem aquela Copa do Brasil, mas a final foi um capítulo à parte. Foi um chocolate não só no Corinthians, como também na mídia do centro do país: o Grêmio jogou tão bonito que ficaria muito descarado que chamar o time de “violento” seria desculpa esfarrapada.

9. O “cansaço” do “Cansei” (2007)

No dia 17 de julho, aconteceu em São Paulo o maior desastre aéreo da história do Brasil, com mais de 200 mortos. Logo a mídia acusou o governo de ser culpado pela tragédia devido à pista do aeroporto de Congonhas, mesmo sem sequer saber o conteúdo da caixa-preta do avião acidentado. E quando este foi revelado, surpresa: o que causou o acidente foi uma falha mecânica no avião!

Oportunistas de plantão decidiram criar “movimentos apartidários”, mas que obviamente pretendiam enfraquecer – e até derrubar – o governo Lula. Sentia-se cheiro de golpe. Surgiu um tal de “Cansei”, cujas peças publicitárias eram recheadas da palavra.

Nos primeiros dias, até foi possível preocupar-se: a marcha prevista pelos “cansados” poderia ser semelhante à “Marcha da Família com Deus pela Liberdade”, que ocorreu duas semanas antes da queda de Jango, em 1964. Alguns veículos de mídia cederam espaço gratuito ao movimento, deixando claro que o apoiavam.

Mas logo ficou claro que o “Cansei” seria mesmo é divertido. O ex-governador de São Paulo Cláudio Lembo (que é do DEM) disse que “Cansei” era “coisa de dondoca”. E logo o movimento virou piada:

No dia 17 de agosto, um mês após o acidente, foi realizado um ato público. Os “cansados” queriam fazê-lo no local do acidente, mas não levaram. Transferiram para a Praça da Sé, OK. Mas não obtiveram autorização para utilizar o interior da Catedral da Sé.

Provavelmente queriam realizar o protesto dentro da Igreja para que as imagens do ato não mostrassem o fracasso retumbante: reuniram-se apenas duas mil pessoas. O comício das Diretas Já de 25 de janeiro de 1984, no mesmo local, reuniu entre 250 mil e 400 mil pessoas…

8. Galvão Bueno hostilizado (2007)

No dia 9 de maio, o Grêmio derrotou o São Paulo por 2 a 0, pelas oitavas-de-final da Libertadores, no Olímpico. Não fui ao jogo: sofrendo forte resfriado, não seria bom me expor ao frio daquela noite.

Uma pena. Pois perdi a chance de “ser ouvido na TV”, junto com vários outros gremistas que deixaram Galvão Bueno numa situação pra lá de desconfortável…

Dois meses depois, Galvão foi xingado pelo público presente à decisão do basquete masculino do Pan do Rio. Não é só no Rio Grande do Sul que não gostam dele.

Mas a melhor aconteceu no jogo Brasil x Equador, dia 17 de outubro, pelas Eliminatórias da Copa de 2010. O Brasil vencia, mas a torcida estava estranhamente silenciosa. Só para quem assistia pela TV, pois no Maracanã o público se divertia:

7. Os dólares de Cuba (2005)

No final de outubro, quando Lula já era fustigado o tempo todo pela mídia devido ao “mensalão”, surgiu mais essa. Uma denúncia da revista Veja, de que a campanha do presidente em 2002 teria recebido doações do governo cubano – a lei eleitoral brasileira proíbe financiamentos estrangeiros de campanhas.

Seria a chance de ouro da direita – a mídia incluída – conseguir iniciar um processo de impeachment do presidente. Porém, eles não contavam com a patetice da Veja, que baseou sua “reportagem” em depoimentos de uma pessoa falecida e ainda teve a genial idéia de dizê-lo na matéria. Sem possibilidades de se provar tudo aquilo, ficou muito claro o desespero da mídia direitosa por produzir fatos contra Lula. Simplesmente vexatório.

6. Entrevista de Lula à revista Piauí (2009)

Quem não leu, pode ler clicando aqui – ou pode apenas conferir o resumo feito pelo Eduardo Guimarães.

Não bastassem as respostas do presidente Lula – que o Eduardo Guimarães considerou como “tapas com luvas de pelica na cara da mídia” -, ainda tem o fato de a entrevista ter sido gravada pelo gabinete da Presidência, deixando bem claro que a “grande imprensa” não é confiável.

5. Diretas Já (1984)

No dia 25 de janeiro de 1984, São Paulo teve a maior manifestação pública da História do Brasil, até então. Entre 250 mil e 400 mil pessoas estiveram na Praça da Sé para pedir eleições diretas para presidente. O noticiário da Globo tentou esconder a razão do comício, falando do aniversário da cidade – São Paulo completava 430 anos.

Porém, o movimento ganhou força, recebeu apoio de vários veículos de mídia, e não pôde mais ser ignorado pela Globo. Só que o povo não esqueceu: como noticiou a Folha de São Paulo após o comício de 16 de abril de 1984 (maior manifestação pública da História do Brasil, que reuniu 1,5 milhão de pessoas no Vale do Anhangabaú, São Paulo), os presentes gritaram o coro “O povo não é bobo, abaixo a Rede Globo!”.

4. Reeleição de Lula (2006)

Durante a campanha presidencial de 2006, foi divulgado que petistas teriam tentado comprar um dossiê contra candidatos do PSDB. Prato cheio para a mídia, que fustigava Lula.

No último debate antes do primeiro turno, ao qual o presidente não compareceu, ficou descarada a vontade da Globo de detonar o presidente: os candidatos presentes tinham a opção de fazer “perguntas ao candidato ausente”.

Um dia depois do debate, em 29 de setembro de 2006, foi divulgada “a foto do dinheiro para comprar o dossiê”. Uma parede de notas montada para “sair bem na foto” (e na TV). E a eleição, realizada dois dias depois, foi para o 2º turno.

Porém, a mídia não contava com o acidente do avião da Gol no mesmo 29 de setembro, que desviou um pouco o foco da foto do dinheiro. E apesar do candidato Geraldo Alckmin (PSDB) repetir quase como um mantra a pergunta “Qual a origem do dinheiro para a compra do dossiê?” em seus programas de televisão e nos debates do segundo turno – aos quais Lula compareceu -, o presidente arrasou seu adversário no dia 29 de outubro. Alckmin conseguiu a façanha de ter menos votos no segundo turno do que no primeiro.

3. Eleição do Brizola (1982)

Após retornar do exílio, o ex-governador do Rio Grande do Sul, Leonel Brizola, candidatou-se ao governo do Estado do Rio de Janeiro pelo PDT, em 1982. Era considerado favorito, mas a ditadura não queria deixar as coisas assim tão fáceis para um de seus maiores adversários.

A tática era atrasar o máximo possível a divulgação dos resultados finais da votação (que em 1982 acontecia em um só turno), para fraudar a eleição roubando urnas de redutos brizolistas. A Globo entrava na seção “convencimento”: divulgaria que os resultados só sairiam com as últimas urnas, mas projetando a vitória do candidato do PDS (partido da ditadura).

Porém, os espertos não contavam com a indignação de Leonel Brizola: as projeções de resultados do Jornal do Brasil indicavam que ele venceria com folga. Brizola exigiu espaço na Globo para denunciar a fraude, e jornalistas ligados à emissora foram hostilizados. Pouco depois, as projeções passaram a anunciar a vitória de Brizola, que acabou eleito.

2. AI-5 (1968-1978)

O AI-5 foi um dos maiores ataques à liberdade na História do Brasil. A censura prévia de jornais tornou-se corriqueira.

Por que chamá-lo de “humilhação à midia”? Porque praticamente toda a “grande mídia” de hoje em 1964 estava ao lado dos golpistas que derrubaram João Goulart e que quatro anos depois baixaram o ato.

O fato de terem sofrido com a censura fez muitos jornais, rádios e TVs passarem a se posicionar contra a ditadura, mas não podemos nos enganar, achando que são “democratas”. Querem democracia só quando lhes interessa.

1. Direito de resposta do Brizola no “Jornal Nacional” (1994)

Em 1990, Leonel Brizola foi novamente eleito governador do Rio (desta vez, sem precisar enfrentar fraude). Em 1992, uma reportagem do “Jornal Nacional” o atacou duramente, e Brizola entrou na Justiça para pedir direito de resposta. Como eu disse, a mídia se diz “democrata” quando lhe interessa: assim pode decidir os rumos de um país e acabar com a reputação de quem não lhe agrada.

Mas, Brizola se deu melhor de novo, assim como em 1982. No dia 15 de março de 1994 a Justiça determinou a leitura de uma nota de resposta de Brizola, cheia de críticas à Globo e a Roberto Marinho, em pleno “Jornal Nacional”:

Menção honrosa: O retorno de Chávez (2002)

Eu ia tratar só da mídia brasileira, mas o episódio do golpe e o contra-golpe na Venezuela não podia ser esquecido.

No dia 11 de abril de 2002, uma escalada de violência em Caracas, iniciada com protestos da oposição a Hugo Chávez, foi o estopim de um golpe militar contra o presidente venezuelano. Chávez foi seqüestrado por militares, que não o convenceram a renunciar – deixando muito claro que se tratava de um golpe. A TV pública venezuelana, única que não fazia campanha contra o presidente, foi tirada do ar pelos golpistas.

As emissoras privadas, empenhadas em derrubar Chávez, não mostravam informações que fossem favoráveis ao presidente. Diziam, por exemplo, que Chávez havia renunciado. Mas o povo não acreditou e saiu às ruas no dia 13 de abril, para pedir o retorno do presidente legítimo. As TVs privadas, claro, não mostraram nada.

Técnico tem que ser “brigão”?

Ainda sobre a troca de comando no Grêmio.

O estilo de Vagner Mancini, “educado demais”, não agradava a certos dirigentes gremistas. “Com jogador tem que falar grosso”, teria comentado um deles.

Mas, e o Tite? Ele também era “educado demais”. Os críticos o acusavam de ser muito “filósofo”. Mas foi com Tite que o Grêmio ganhou a Copa do Brasil de 2001, dando um chocolate no Corinthians em pleno Morumbi.

Vale lembrar que o Tricolor não deixou de ter garra em 2001, mas jogou um futebol bonito a ponto de, pela primeira vez, não ouvir os comentários de sempre de alguns comentaristas-mala de São Paulo e Rio de Janeiro, que em todas as conquistas do Grêmio acusavam o time de ser violento.

Não que Tite tenha sido o maior técnico de todos os tempos no Grêmio – Felipão “falava grosso” e foi mais vencedor -, mas é a prova de que mesmo um técnico mais “calmo” pode dar certo. Os estilos de Felipão e Tite eram bem diferentes, mas ambos foram competentes em seus trabalhos. Felipão ganhou mais títulos por ser melhor, não por “gritar mais”.

Se Vagner Mancini daria certo, só o tempo de trabalho diria. Mas foi “educadamente” que ele levou o Paulista de Jundiaí – hoje na Série C do Campeonato Brasileiro – à conquista da Copa do Brasil em 2005.