Presente melhor, não podia haver

No dia em que o Grêmio completa seus 107 anos, nada melhor do que um jogo como o de hoje à noite.

Grêmio x Palmeiras, Renato x Felipão. Renato e Felipão na mesma noite, no Estádio Olímpico. Dois personagens históricos do Tricolor, numa partida que faz relembrar aqueles inesquecíveis confrontos dos anos 90 entre Grêmio e Palmeiras. Época em que os dois clubes encontraram-se várias vezes em mata-matas, com direito a muitas brigas.

O primeiro confronto foi pelas quartas-de-final do Campeonato Brasileiro de 1990. No jogo da ida, em São Paulo, 1 a 0 para o Palmeiras. Mas no Olímpico, o Grêmio fez 2 a 0 e se classificou para a semifinal.

Na Copa do Brasil de 1993, Grêmio e Palmeiras se enfrentaram nas quartas-de-final. Dois empates em 1 a 1, em São Paulo e em Porto Alegre; nos pênaltis, 7 a 6 para o Grêmio, classificado.

A primeira briga aconteceu pelas oitavas-de-final da Copa do Brasil de 1995. No jogo da ida, 1 a 1 no Olímpico. Uma semana depois, no Parque Antarctica, o Grêmio chegou a fazer 2 a 0 no primeiro tempo, mas ainda na etapa inicial, após confusão, teve três jogadores expulsos (Dinho, Arílson e Luís Carlos Goiano), ficando com dois homens a menos (o palmeirense Mancuso também levara o vermelho). Acabou cedendo o empate em 2 a 2, resultado que classificou o Tricolor por ter marcado mais gols fora de casa.

Três meses depois, pela Libertadores, novo confronto. E nova briga. Na partida de ida, disputada no Olímpico, 5 a 0 para o Grêmio e uma confusão que deixou o jogo parado por 15 minutos – foi a famosa voadora de Dinho sobre Válber. Uma semana depois, no Parque Antarctica, o que parecia resolvido tornou-se dramático: 5 a 1 para o Palmeiras, e por pouco o Tricolor não perdeu a vaga.

Pela Copa do Brasil de 1996, Grêmio e Palmeiras se encontraram na semifinal. O primeiro jogo foi em São Paulo, e deu Porco: 3 a 1. A missão do Grêmio no Olímpico ficou complicada: precisaria fazer 2 a 0, ou vencer por três gols de diferença, para se classificar. O Palmeiras saiu na frente, mas o Tricolor virou para 2 a 1, resultado insuficiente para obter a vaga na final; não fosse o gol legal de Jardel anulado no final, acabaria 3 a 1 e a definição seria nos pênaltis. Resultado: nova confusão.

Meses mais tarde, mais uma vez, Grêmio e Palmeiras se viram frente a frente num mata-mata: eram as quartas-de-final do Campeonato Brasileiro. Como a melhor campanha era do Palmeiras, o primeiro jogo foi em Porto Alegre, e o segundo em São Paulo. No Olímpico, 3 a 1 para o Tricolor, de virada. A partida da volta, disputada no Morumbi, foi dramática em seus minutos finais, quando o Palmeiras fez 1 a 0; mais um gol daria a vaga ao Porco. Mas o Grêmio segurou, e seguiu em frente para conquistar seu segundo título brasileiro. Nestas partidas, incrivelmente, não houve nenhuma briga.

Desde então, nunca mais Grêmio e Palmeiras se enfrentaram em um mata-mata.

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Quando a vitória não é exatamente nossa

19 de junho de 1996, Estádio Palestra Itália, São Paulo. Palmeiras e Cruzeiro entram em campo para decidir a Copa do Brasil. Nunca eu fui tão cruzeirense como nesse jogo. E nunca o Cruzeiro foi tão Grêmio como nesse jogo.

O motivo? O Palmeiras eliminou o Grêmio na semifinal, graças a um erro de arbitragem no final do segundo jogo, no Olímpico. Um gol legal de Jardel foi anulado, sob alegação de impedimento. O então presidente do Grêmio, Fábio Koff, ameaçou deixar a presidência do Clube dos 13 em protesto. Houve invasão de campo por parte dos torcedores gremistas revoltados, que tentaram agredir a arbitragem e os jogadores do Palmeiras.

Devido ao acontecimento, fiquei com raiva do alvi-verde, e torci muito pela derrota do time paulista. Assim, naquela final eu fui “Cruzeiro desde criancinha”.

A primeira partida da final, disputada no Mineirão, acabara empatada em 1 a 1. Logo, o empate em 0 a 0 daria o título ao Palmeiras. A confiança dos palmeirenses no título era enorme, a ponto de meu colega de turma na 8ª série Giuseppe, paulista e palmeirense, passar boa parte da aula na manhã daquele dia dizendo “Palmeiras campeão da Copa do Brasil”. Eu dizia para ele esperar o jogo acabar, que não comemorasse antes…

Mas assim que a bola rolou, tive a impressão de que teria de aturar ainda mais o Giuseppe na manhã seguinte: aos 5 minutos o Palmeiras fez 1 a 0 com Luizão. O Cruzeiro precisaria virar o jogo para ficar com o título, o empate em 1 a 1 levaria a decisão aos pênaltis. E era improvável que o Palmeiras perdesse: para se ter idéia, o time tinha craques como Rivaldo e Djalminha.

Mas o Cruzeiro não se entregou. E me deu esperanças ao empatar o jogo, aos 25 minutos do primeiro tempo. O autor do gol era mais um motivo para vibração: Roberto Gaúcho. Era um gol de “gaúcho” para vingar os gaúchos roubados nas semifinais.

Após sofrer o gol, o Palmeiras voltou a pressionar. Mas esbarrou em Dida, que fez verdadeiros milagres para impedir o segundo gol palmeirense. Velloso, goleiro do Palmeiras, também fez sua parte ao impedir um gol de cobertura de Palhinha, já no segundo tempo.

Porém, Velloso acabaria se tornando o vilão da noite. Aos 36 minutos do segundo tempo, o goleiro palmeirense tentou cortar um cruzamento de Roberto Gaúcho, falhou e deixou a bola nos pés de Marcelo, que virou o jogo: 2 a 1. A partir daquele momento, o empate passava a ser azul, pois o Cruzeiro tinha mais gols fora de casa do que o Palmeiras.

Quando vi a bola balançar a rede, comemorei como se fosse gol do Grêmio. O Palmeiras, apelidado de “máquina mortífera” por ter marcado mais de 100 gols no Campeonato Paulista de 1996, era derrotado depois de eliminar na roubalheira o meu Grêmio! Minha mãe já tinha ido se deitar, acordei ela com a feliz notícia do segundo gol do Cruzeiro, que tirava a Copa do Brasil das mãos de quem havia ousado comemorar antes da hora.

Quando o jogo acabou, sentimos o sabor de termos conseguido nossa vingança, mesmo que não exatamente por nossas mãos. E nos sentimos ainda mais triunfantes quando um jogador do Cruzeiro, que infelizmente não me recordo qual foi, disse em entrevista: “vingamos o Grêmio”.

Na manhã seguinte, cheguei cedo ao colégio. Os colegas gremistas estavam felizes da vida com a derrota do Palmeiras. E ansiosos pela chegada do Giuseppe… Até imaginamos que ele não iria à aula. Mas ele chegou com uma cara terrível, naquela fria e chuvosa manhã de início de inverno em Porto Alegre. Com um tempo daqueles, pegar um resfriado seria barbada. Daí minha pergunta médica ao colega palmeirense: “já tomou teu Energil-C hoje?” – o nome do comprimido efeverscente de vitamina C estampava a camisa do Cruzeiro campeão.