Um campeão de empates? Por favor, não…

Considerando a campanha do Paraguai até agora nesta Copa América, não teria medo de apostar em mais um empate na tarde de hoje. E assim a Albirroja poderá, ironicamente, ser campeã invicta, mesmo sem ganhar nenhum jogo…

Não chega a ser algo inédito uma seleção ir longe num campeonato só empatando. Em 1990, a Irlanda chegou até as quartas-de-final da Copa do Mundo com quatro empates: três na primeira fase, e nas oitavas-de-final eliminando a Romênia nos pênaltis; nas quartas, os irlandeses não conseguiram empatar mais uma, e foram eliminados pela anfitriã Itália com uma derrota de 1 a 0 (curiosamente, na Copa seguinte as duas seleções se enfrentaram na estreia e a Irlanda devolveu o placar). No Mundial de 1998, Chile e Bélgica tiveram campanhas semelhantes, mas não a mesma sorte: ambas empataram os três jogos da primeira fase, mas os chilenos se classificaram, e os belgas voltaram para casa. Já ano passado, com três empates na primeira fase a Nova Zelândia fez história: apesar de não ir adiante na Copa, foi a única seleção invicta e certamente tirou pontos de todos os que participaram de bolões.

Mas campeão só empatando os seis jogos, que eu saiba, nunca se viu. E espero não ver hoje. Pelo bem do futebol e de minha querida Celeste Olímpica. VAI URUGUAI! (E não me importarei se for nos pênaltis, como naquele jogo com Gana. Tá na hora do Paraguai perder uma desse jeito…)

Xinga eles, Dunga!

Não sou fã incondicional de Dunga. E isso não se deve ao fato dele ser colorado – afinal, Olívio Dutra e Luís Fernando Veríssimo também têm este defeito.

Acho que Dunga pisou na bola muitas vezes (nem vou falar sobre os jogadores que ele levou para a Copa – acho que Victor podia estar lá, mas…). Como em suas lamentáveis opiniões sobre a escravidão e a ditadura no Brasil: para o técnico da Seleção, quem não viveu aquelas épocas não pode dizer se foram “boas ou ruins” – no meu caso, é impossível não formar um juízo de valor sobre épocas das quais há inúmeros documentos provando suas atrocidades (mesmo que eu saiba que, se for estudá-las, terei de ser o mais isento possível).

Outra queixa contra Dunga foi que ele não tirou uma das mãos do bolso da calça ao cumprimentar o presidente Lula, antes da Seleção embarcar para a África do Sul. Realmente achei uma atitude deselegante, mas tenho certeza de que muitos dos que criticam Dunga são daqueles que chamam Lula de tudo que é adjetivo depreciativo. Ou seja, um bando de hipócritas.

Agora, a discórdia é com ninguém menos que a Rede Globo, que queria direito a entrevistas exclusivas com os jogadores da Seleção, concedido por Ricardo Teixeira mas vetado por Dunga. Além disso, o técnico já vinha fechando os treinos e restringindo o máximo possível o contato dos jogadores com a imprensa.

Os atritos chegaram ao auge após o jogo contra a Costa do Marfim, em que o repórter Alex Escobar falava ao celular com Tadeu Schmidt durante a entrevista coletiva, criticando Dunga, que ouviu e interpelou o jornalista, que não quis dizer nada. Então o técnico o chamou de “cagão” e outros palavrões que foram captados pelos microfones. Mais tarde, aquele patético “editorial” da Globo detonando com Dunga.

Dunga foi “grosso”? Sim, foi. Mas ele também foi um dos brasileiros mais massacrados pela “grande mídia” em sua longa história de destruição de reputações (se bem que a de Dunga eles não conseguiram detonar). Em 1990, foi criada a expressão “era Dunga” para simbolizar o futebol defensivo da Seleção (como se aquela Copa não tivesse sido justamente marcada pelo defensivismo), considerado “medíocre”. O então volante foi considerado culpado pela eliminação do Brasil diante da Argentina, nas oitavas-de-final (se é para eleger um culpado, voto em Maradona, por ser gênio).

Quatro anos depois, lá estava Dunga para levantar a taça. Ainda sob fogo cerrado – assim como o resto do time – dos mesmos “opinistas”, que criticavam o fato da Seleção Brasileira “não jogar bonito”, mesmo que campeã mundial depois de 24 anos. Pois é, mas deviam perguntar aos torcedores na época (principalmente aos mais jovens, como eu, que nunca tinham visto o Brasil ganhar a Copa) se trocariam aquele time campeão por um que “desse espetáculo” mas ficasse pelo caminho.

Para a “grande mídia”, Dunga não tinha lá muitos méritos: afinal, era capitão de um time campeão, mas que não jogava o “futebol-arte”, logo, “era ruim” – palhaçada repetida até hoje. E vão querer que ele não tenha nenhuma mágoa contra a imprensa?

XINGA ELES, DUNGA!

As Copas que eu vi: Itália 1990

A Copa do Mundo de 1990, realizada na Itália, é a primeira da qual eu tenho lembranças. Mesmo assim, não chegou a ser marcante para mim, visto que na época, mesmo que já com 8 anos de idade, eu não gostava muito de futebol – talvez por sempre ser o último escolhido na hora de montar os times nas aulas de Educação Física. Eu preferia ser “craque” em outras coisas, como em Matemática e Ciências (matéria na qual fui aprovado com média final 10 na 2ª série do 1º grau, que eu cursava naquele ano). Assim, acabei por não dar muita bola para a Copa.

Posso dizer que não perdi muita coisa em matéria de futebol. O Mundial da Itália foi o de menor média de gols por partida até hoje: 2,2 (115 em 52 jogos). O artilheiro foi “da casa”: o italiano Salvatore “Toto” Schillaci, com 6 gols.

Como eu disse, poucas coisas me marcaram desta Copa. Mas, vamos a elas.

Primeiro, a vinheta da RAI que sempre abria as transmissões dos jogos da Copa. Provavelmente a mais bacana dos Mundiais recentes.

Também foi marcante o “Amarelinho”. Aquele bonequinho redondo, de cor amarela, que me fazia sempre querer ver os jogos do Brasil no SBT. Ele reagia de diversas formas aos lances do jogo: vibrava e berrava a cada gol do Brasil, roía as unhas nas horas de sufoco, e chorava quando a Seleção perdia.

No dia 24 de junho de 1990, eu não vi o choro do Amarelinho, pois assistia o jogo pela Bandeirantes. Melhor, quase todo o jogo. Justo na hora do gol da Argentina que eliminou o Brasil nas oitavas-de-final, eu estava fazendo cocô… Então, 20 anos depois, aí está o vídeo (mas claro que eu já vi antes, meu pai gravou aquele jogo) – e reparem que na hora que Luciano do Valle narra o gol, ao fundo o comentarista (cujo nome esqueci) Juarez Soares diz um “puta que pariu”…

O Brasil, de qualquer jeito, não enchia os olhos de ninguém. Numa Copa marcada pelo defensivismo, quem chamou a atenção foi Camarões, que logo de cara surpreendeu a Argentina, campeã de 1986, na partida de abertura.

Com um futebol ofensivo e mais “brasileiro” do que o próprio Brasil, e ainda por cima contando com o veterano craque Roger Milla (jogando muito aos 38 anos), os Leões Indomáveis seguiram surpreendendo, chegando até as quartas-de-final, feito até então inédito para uma seleção da África (que seria igualado por Senegal em 2002). Camarões caiu diante da Inglaterra, mas só na prorrogação – e no tempo normal esteve a 10 minutos da semifinal.

A Copa de 1990 teve a participação do Uruguai, que foi eliminado pela anfitriã Itália nas oitavas-de-final, em partida que assisti com a minha avó, filha de uruguaios. Desde então, a Celeste só jogou uma Copa em 2002, e sem passar da primeira fase.

A taça ficou com a Alemanha Ocidental, que bateu a Argentina (que teve dois jogadores expulsos) na final por 1 a 0, gol marcado por Andreas Brehme em um pênalti que foi, no mínimo, duvidoso.

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Agora, algumas curiosidades sobre a Copa do Mundo de 1990 (não necessariamente ligadas à minha memória):

  • Três seleções fizeram sua estreia em Copas na Itália: Costa Rica, Emirados Árabes e Irlanda;
  • Três também se despediram. A Tchecoslováquia, que se dissolveu em 1º de janeiro de 1993, ainda disputou as eliminatórias para a Copa de 1994 (iniciadas em 1992), mas sem obter classificação. A União Soviética deixou de existir em dezembro de 1991, quando a tabela das eliminatórias para a Copa de 1994 já estava pronta, e foi substituída pela Rússia, considerada “herdeira” da URSS pela FIFA – às outras ex-repúblicas soviéticas não foi dado o mesmo direito. A outra despedida, mas em tom bem mais feliz, foi da Alemanha Ocidental, que durante a Copa “unificou” a torcida em um país que legalmente ainda era dividido; no dia 3 de outubro de 1990 a Alemanha voltou a ser uma só, e a seleção também;
  • O goleiro italiano Walter Zenga estabeleceu um recorde de invencibilidade em Copas, passando 517 minutos sem levar gol. O primeiro foi na semifinal contra a Argentina – justamente o do empate que levou a decisão aos pênaltis, na qual a Itália foi eliminada;
  • A estreante Irlanda conseguiu uma façanha: foi até as quartas-de-final sem vencer nenhum jogo e marcando apenas 2 gols;
  • O grupo F da Copa, formado por Inglaterra, Irlanda, Holanda e Egito, foi um dos piores da história dos Mundiais: em 6 partidas, foram marcados apenas 7 gols. O único jogo que não acabou empatado foi Inglaterra x Egito, vencido pelos ingleses por 1 a 0;
  • Em sua segunda participação em Copas, a Colômbia foi às oitavas-de-final, classificação obtida em um empate no último minuto contra a Alemanha Ocidental. O goleiro colombiano era o folclórico René Higuita, que tinha o hábito de ficar adiantado e, às vezes, sair driblando os atacantes adversários. Mas, foi inventar de fazer isso com o camaronês Roger Milla, na prorrogação… Resultado: Colômbia eliminada, Camarões nas quartas;

  • Na final, o gênio argentino Maradona foi hostilizado pelos torcedores italianos presentes ao Estádio Olímpico de Roma. Além do remorso pela eliminação da Itália diante da Argentina, havia também outro motivo: Maradona era o grande ídolo do Napoli, e também representava o anseio dos italianos do sul de serem ouvidos, depois de tanto tempo sendo desprezados pelos do norte – que, pelo visto, mantinham a mesma atitude. Quando o hino nacional argentino foi executado, os italianos vaiaram, apupos que nitidamente aumentam quando Maradona aparece na tela, e o craque não deixou barato, soltando um perceptível “hijos de puta”.