Pastor Everaldo e a contradição de muitos liberais brasileiros

Fazia anos que eu não via um candidato a presidente defender abertamente as privatizações – caso de Everaldo Dias Pereira, o Pastor Everaldo, que concorre à presidência pelo PSC. Ontem, na entrevista ao Jornal Nacional, disse que privatizará a Petrobras caso seja eleito. Além de outras empresas estatais que ele considere como “foco de corrupção”.

Após o governo de Fernando Henrique Cardoso, que privatizou várias estatais e terminou com índices de reprovação que superavam os de aprovação, “privatização” virou uma espécie de “palavrão” no dicionário político brasileiro. Na campanha eleitoral de 2006 tivemos dois exemplos disso. O primeiro, foi na disputa pelo governo do Rio Grande do Sul: a candidata Yeda Crusius (PSDB) tinha como vice o empresário Paulo Afonso Feijó (então PFL, depois DEM), que defendia abertamente as privatizações; a coordenação de campanha procurou forçá-lo a não falar o “palavrão”, temerosa de perder votos; no fim Yeda foi eleita, mas ao assumir o governo já tinha Feijó quase como um “opositor”. O outro foi na disputa pela presidência: o candidato tucano Geraldo Alckmin chegou a vestir uma jaqueta com logotipos de várias estatais, para tentar convencer os trabalhadores delas de que não tinha a pretensão de vender as empresas; não adiantou, e Alckmin conseguiu a façanha de perder obtendo menos votos no segundo turno do que recebera no primeiro.

Everaldo, por sua vez, não esconde o que pensa. Talvez pela baixíssima probabilidade de ser eleito, o que dá a qualquer candidato na mesma situação a tranquilidade de que não precisará cumprir sua promessa: lembro que anos atrás o PCO defendia em seus programas eleitorais o salário mínimo de R$ 1.500, algo que acharia sensacional mas sei que é politicamente inviável ainda nos dias de hoje. Mas a diferença é que Everaldo não é o PCO (esquerda), mas sim, representante da direita mais conservadora. Fosse eleito, não teria dificuldade alguma de aprovar suas propostas: independente de quem vença a disputa presidencial, me parece quase certo que, infelizmente, o Congresso que surgirá das urnas em outubro será bem mais conservador que o atual.

Pois as propostas de Everaldo não se resumem à retomada das privatizações. Na realidade, elas refletem bem uma das maiores contradições de parte considerável dos ditos “liberais” brasileiros, que tanto discursam a favor da “liberdade”: defendem o “Estado mínimo” na economia, mas em compensação pregam a intervenção estatal em assuntos de ordem realmente privada. Sim: como seria de se esperar de um candidato conservador e que prega a “defesa da família” (fica a dica para qualquer um que esteja concorrendo e queira abrir mão do meu voto: fale em “defesa da família”), Everaldo é contra o casamento homossexual, a legalização do aborto e das drogas. Até aí, nenhuma novidade.

Mas o fato é que temos uma candidatura de um típico liberal brasileiro, com um discurso que prioriza a “liberdade” a despeito da igualdade – como se fosse possível real liberdade em uma sociedade desigual – e ao mesmo tempo contrário à liberdade de homossexuais se casarem, de mulheres interromperem uma gravidez indesejada e de pessoas adultas decidirem se drogar com uma substância que não seja álcool, nicotina ou ritalina. Se há algo positivo nisso (ele não esconde o que realmente defende), por outro lado também mostra que a direita mais conservadora está perdendo a vergonha de ser “autêntica” (além de Everaldo há também o candidato do PRTB, Levy Fidélix, que quer “endireitar” o Brasil), justamente por perceber que isso não significa mais votações baixíssimas – o que é muito preocupante.


“Mas eu sou contra o aborto, o casamento homossexual e as drogas”, alguém poderá dizer. Tudo bem: isso se chama liberdade de opinião. Mas, pense um pouquinho: nem todas as pessoas são obrigadas a pensar como você.

A mulher grávida que aborta não “assassina” um bebê: ela interrompe uma gravidez, o que leva à morte o feto que carrega em seu útero. Cientificamente falando, é isso mesmo: aquele pequeno organismo não é um bebê (ou seja, um pequeno ser humano, que vive por conta própria mesmo que precisando de cuidados), é como se fosse qualquer outro órgão do corpo da mulher, tal como o apêndice (que quando inflama sempre é removido cirurgicamente). Claro que, no caso de uma mulher grávida e que deseja ser mãe, é diferente: metaforicamente, ela já se sente mãe de um bebê, mesmo que cientificamente ainda não seja. Mas para a mulher que tem uma gravidez indesejada (pelos mais variados motivos), aquele feto é um tormento e poderá continuar a sê-lo mesmo depois de bebê.

Você é heterossexual e por motivos óbvios não pretende casar com alguém do mesmo sexo? Eu também.

Toma uma cervejinha todas as semanas? Pois, assim como eu, você está usando drogas… A diferença é que a nossa não é proibida. (E, inclusive, é causa de incontáveis acidentes de trânsito, que todos os anos matam milhares de pessoas em nosso país.)

Repare que garantir tais direitos (aborto, casamento homossexual e liberação de drogas como a maconha) em nada nos prejudica. Só prestar atenção no que acontece com os já garantidos: drogas como álcool e tabaco são legalizadas e ninguém é obrigado a beber ou fumar, inúmeros casais héteros optam por não formalizarem a união mesmo que tenham direito a tal… Ou seja: o aborto legalizado não impedirá mulher alguma de ser mãe, o casamento homossexual não obrigará ninguém a deixar de ser hétero, assim como ter o direito de fumar maconha é exatamente isso, direito, não obrigação.

Ou seja, se você é mulher e contra o aborto, é só não interromper uma gravidez mesmo que seja indesejada; se é contra o casamento homossexual, não case com alguém do mesmo sexo; se é contra as drogas, antes de tudo seja coerente e nunca mais ponha na boca um cigarro ou um gole de cerveja. Mas para isso não é preciso obrigar todas as pessoas a fazerem o mesmo.

Anúncios

Cordeiro em pele de lobo

“É um lobo em pele de cordeiro”, diz o ditado popular. Ele se refere a pessoas falsas, que fingem ser amigas mas que quando menos esperamos, nos fazem mal. Daí a analogia: o cordeiro é visto como um animal “pacato” e “simpático” (logo, simboliza o “bem”), e o lobo como “feroz” e “traiçoeiro” (ou seja, o “mal”).

Porém, algo interessante é repensar as significações associadas aos dois animais. Afinal, as características de ambos não fazem deles “bons” ou “maus” naturalmente. Cada espécie tem um papel a cumprir na natureza: certamente todos nós matamos baratas quando elas aparecem em nossas casas, mas se elas fossem extintas, isso afetaria inúmeras espécies que se alimentam delas.

O cordeiro simboliza o “bem” porque uma de suas características é ser “pacato”. Quando se fala que uma pessoa é “pacata”, pensamos em geral em alguém que não incomoda. Logo, também não contesta nada, se limita apenas a se comportar bem e “seguir o rebanho” – ou seja, um legítimo “cordeirinho”.

Já o lobo é sempre “mau”, geralmente sendo o vilão em histórias infantis. Por ser um caçador, representa exatamente o oposto do “pacato” carneiro: é um animal que incomoda. Representa uma ameaça – característica também associada às pessoas contestadoras, que não aceitam o status quo.

Como é o cordeiro que representa o “bem”, por razões óbvias a tendência é que sejamos educados para nos tornarmos “cordeirinhos” e não “lobos”. A família conservadora é a principal responsável por isso, mas a escola (que é escolhida pelos pais) também tem um papel muito importante, visto que ela não ensina a pensar, mas sim a legitimar a ordem estabelecida: repare que o conteúdo que é passado pelos professores não tem de ser aprendido, e sim decorado (ou seja, tem de ser “daquele jeito”, sem margem para outras interpretações, sob risco de uma nota baixa na prova); o que se aprende mesmo é a passar bastante tempo sentado e calado, por obrigação e não por vontade própria. Obviamente, é difícil achar alguma criança que goste de ir à escola; quando a adolescência chega, muitas vezes a aversão cresce, se voltando tanto contra a escola como também contra os pais: a impressão que é de que não teremos mais um pacato “cordeirinho”, mas sim um feroz e ameaçador “lobo”.

Mas, se engana quem pensa que a “rebeldia juvenil” necessariamente resultará em um adulto contestador: trata-se do tão falado “rebelde sem causa”, que acha tudo “uma merda” e até se diz de esquerda, mas não propõe nem defende nada de diferente para substituir o que considera estar errado (até por muitas vezes não ter maior conhecimento do mundo). Tanto que os pais conservadores sempre falam que a rebeldia dos filhos “é fase”, e que depois eles “amadurecerão”. E de fato, é isso que muitas vezes ocorre, com os filhos passando a reproduzir o mesmo discurso dos pais – e não raro, com uma virulência maior.

Mas, é claro, o “amadurecido” jamais admite seu conservadorismo. Pelo contrário: se diz “contestador”, posa de “politicamente incorreto”, enfim, parece um feroz e ameaçador “lobo”. Mas não ameaça porra nenhuma. Pelo contrário: apenas reage ao que considera uma ameaça ao status quo, que no passado ele dizia combater mas ao qual acabou se adaptando. Este “lobo” é igual ao “cão que ladra” daquele ditado popular: “não morde”. Tem pele de lobo, mas trata-se apenas de um disfarce: por baixo, se esconde mais um pacato cordeirinho.

Moral e bons costumes

Semana passada, entrou em vigor a chamada “lei da moral e dos bons costumes” no Estado do Rio de Janeiro. Houve quem reagisse falando apenas da autora do projeto que virou lei, a deputada Myrian Rios (PSD): porém, se a proposta virou lei, primeiro ela teve de ser aprovada em plenário (ou seja, tem muita gente que concordou com Myrian), e depois ainda sancionada pelo governador Sérgio Cabral (o que aconteceu na quinta-feira). Ou seja, criticar apenas a deputada é, no mínimo, injusto.

Mas a questão que considero fundamental é: quem definirá o que é “moral” ou “imoral”, os costumes “bons” ou “maus”? Olha, se depender de algumas figurinhas eleitas por aí, é de dar medo.

Há quem, por exemplo, ache imoral tomar uma cervejinha ao ar livre. Foi ano passado, se não me engano, que se propôs uma lei em São Paulo que proibiria o consumo de bebidas alcoolicas na rua – ou seja, sentar numa mesa na rua para pegar um vento e tomar uma cerveja gelada, negativo!

E se alguma mulher estiver a fim de um cara e chegar nele, poderá sofrer sanções com base na nova lei? Se depender da visão de muita gente, sim: afinal, mulher que toma a iniciativa é “vadia, oferecida”, que está “pedindo para ser estuprada”; ou seja, isso é “imoral”, transgride a lei.

Vale o mesmo para usar roupas curtas. Afinal, “estar com calor” nada mais é do que “desculpa para praticar a devassidão”.

Se quisermos, podemos fazer uma enorme lista do que é “imoral”. Acordar tarde, dormir durante o dia, falar palavrão etc. O maior problema é que dificilmente todos os nossos costumes se enquadram no conceito de “moralidade” para certas pessoas; e se estas detiverem algum tipo de poder (como um mandato legislativo), haverá o risco de enfiarem goela abaixo de todos as suas noções de certo e errado, sem debate nem nada… Daí o risco que decorre de uma lei de “moral e bons costumes”.

E vamos combinar que, se não gosto de alguma coisa e ela não me afeta, não há motivos para querer que ela seja proibida. Num exemplo bem simples: eu não gosto de ir a “baladas”. O que eu faço? Simples: não vou! O fato de muita gente gostar e frequentá-las não me prejudica em absolutamente nada. Por que proibir?

Os valores conservadores e a influência da escola

Em 1970, o sociólogo francês Pierre Bourdieu publicou, em parceria com o colega Jean-Claude Passeron, “A reprodução”, obra que faz uma análise do sistema educacional na França. Embora não a tenha lido, tive acesso a sinopses e resumos dela, sabendo que o livro demonstra, de forma geral, que a função principal das escolas francesas não era a de estimular o pensamento, e sim, de legitimar o status quo.

Semana passada, tive um excelente exemplo de como a análise de Bourdieu e Passeron é correta. Percebi o óbvio: alunos de colégios conservadores tendem a ser adultos conservadores, ainda mais se vindos de famílias assim. (E se estudarem em universidades conservadoras, então…)

Notei isso semana passada, quando conversei com uma ex-colega do segundo grau com quem não falava há muitos anos, e uma das primeiras coisas que ela me perguntou foi se eu tinha casado… Foi quando reparei que, dentre o pessoal da época do segundo grau que mais encontro, o casamento – seja formal ou informal (o famoso “se juntar”) – é regra.

Então comparei com a turma de amigos do tempo do primeiro grau: nela, não só o casamento não é regra, como há mais contestação à “obrigatoriedade” de se ter uma relação afetiva estável. Como prova uma manifestação de uma de minhas ex-colegas, solteira e descompromissada, no Facebook em dezembro passado: comentando os “votos” para que arranjasse um namorado em 2012, ela questionou por que uma mulher solteira aos 30 anos incomoda tanta gente.

O que diferencia ambas as turmas? O colégio. Cursei o primeiro grau em escola pública (Colégio Estadual Marechal Floriano Peixoto); a maioria dos colegas também cursou o segundo grau em escolas públicas (muitos ficaram no próprio Floriano), ou seja, oficialmente laicas. Bem diferente do segundo grau, que cursei no Colégio Marista São Pedro; embora houvesse uma separação nítida entre a religião e o conteúdo ministrado nas aulas (em Biologia e História estudávamos Biologia e História mesmo, não criacionismo), o colégio era oficialmente católico, portanto, conservador (me digam qual religião não é conservadora?), e muitos colegas já eram alunos do São Pedro desde o jardim de infância.

A visão de mundo conservadora dá uma importância muito grande à “defesa da família”. Logo, é compreensível que um dos principais objetivos de vida para quem é conservador seja “constituir família”, antes de crescer profissionalmente, fazer algo para melhorar o mundo etc. (Não que eu considere ruim alguém querer constituir família: só acho que não é a única opção.)

Surge assim parte da resposta ao questionamento da minha amiga solteira: ao não dar tanta importância à busca por um namorado, ela subverte a lógica de que “toda pessoa solteira está em busca de um amor”, o que a impede de “constituir família”. E isso realmente incomoda muita gente – principalmente os machistas, que não suportam a ideia de uma mulher ser independente e não estar a fim de assumir compromisso com homem algum: para eles, a função da mulher ainda é “pilotar fogão”, limpar a casa e cuidar dos filhos.

Por fim, alguns devem estar querendo saber como não me tornei um conservador (e, “pior” ainda, agora sou ateu!). Certamente pesaram para isso o fato de não ter vindo de família conservadora (apesar de minha mãe ser católica, meu pai é agnóstico e de esquerda, logo, questionador), além de ter estudado predominantemente em instituições laicas: foram apenas três anos no São Pedro, contra dezesseis na soma de Floriano e UFRGS (Física inclusive). Pois como foi dito lá no começo, o conservadorismo trata-se de uma tendência, e não de um destino inevitável.

Coragem de mudar

O título deste texto foi o lema da vitoriosa campanha de Olívio Dutra à Prefeitura de Porto Alegre na eleição de 1988. Contrariando as pesquisas, que apontavam Antônio Britto (então no PMDB) como favorito, Olívio foi eleito em 15 de novembro, e Britto acabou em 3º lugar, sendo superado por Carlos Araújo (PDT). Foi o marco inaugural dos 16 anos de gestões petistas em Porto Alegre, uma experiência que deu muitos exemplos ao mundo.

Uma das maiores dificuldades que as pessoas têm na vida se chama “mudança”. Manter tudo como está, em todos os aspectos, é mais cômodo do que tentar fazer diferente. Não por acaso, muita gente tem verdadeiro pavor a qualquer tentativa de mudar as coisas – como a própria palavra explica, são os conservadores.

E não é apenas a sociedade que é difícil de ser mudada. Pois muitas vezes nós mesmos adiamos necessárias mudanças em nossas vidas, pelo simples fato de não aceitarmos que isso se deve a uma opção errada que tomamos anteriormente. Afinal, uma mudança de rumos significa admitir tal erro.

Penso nisso justamente por olhar o calendário. Estarmos em março de 2012 significa que se passaram 10 anos daquele março de 2002, quando começou uma grande reviravolta na minha vida: comecei a admitir que tinha errado (e feio!) na escolha de que faculdade cursar: quando eu cursava o último ano do Ensino Médio, em 1999, não tinha a menor ideia de que curso escolher para o vestibular – quando fazia testes vocacionais, indicavam que “minhas áreas” eram tanto Ciências Exatas como Humanas. E como minhas melhores notas no colégio eram em Física… Bom, não preciso dizer mais nada.

Passei muito bem no vestibular, e comecei a frequentar o curso de Física da UFRGS em março de 2000. Levei dois anos até admitir que estava no lugar errado, embora já houvesse indícios disso que só muito depois fui perceber – e bem além de minhas notas serem lastimáveis (quando eu não rodava nas cadeiras, ficava com o medíocre conceito “C”).

Se era difícil tirar uma boa nota em uma cadeira como Equações Diferenciais, onde o professor muitas vezes ocupava uma aula inteira para explicar a resolução de um (!!!) problema cheio de números imaginários e letras gregas, mais ainda era admitir que havia errado na escolha do curso e que não tinha mais jeito de continuar naquela situação: era preciso recomeçar. Ou seja, enquanto os amigos “seguiam em frente”, construindo seus futuros, eu voltava à estaca zero.

Foi uma das decisões mais difíceis que já tive, mas também foi a mais sábia de todas. Em março de 2004, quando alguns amigos já estavam se formando, comecei o curso de História da UFRGS, que concluí no final de 2009. No momento atual, apesar de não exercer a profissão de historiador (leia-se “ganhar a vida” desta maneira), vejo os seis anos de faculdade como importantíssimos em relação à minha maneira de pensar atual, graças ao que aprendi dentro e fora das salas de aula.

Assim, se tem um conselho que eu posso dar a qualquer pessoa, este é: não ter medo de mudanças. Elas podem até não dar certo, mas ao menos não causam aquela sensação de arrependimento por não se ter tentado.

Ser de esquerda é atestado de inteligência?

O resultado de um estudo feito por uma universidade canadense é, no mínimo, polêmico. Segundo a pesquisa feita por acadêmicos da Universidade Brock, pessoas de esquerda são mais inteligentes que as de direita.

Não resisti à tentação e compartilhei o link no Facebook, com um comentário pra lá de provocador: “não sei se o estudo é sério, mas eu acredito nesta tese”. Esperei reação indignada de direitosos, mas até agora nenhum deles comentou (o que é uma pena, pois determinados bostejos fariam o “chapéu de burro” servir perfeitamente neles).

Mas, afinal, será que realmente a posição política defendida é um atestado de inteligência ou burrice? Pois, para provocar os reaças, é interessante exibir esta pesquisa como “prova” de que nós, de esquerda, somos os certos e eles, de direita, são os errados. Mas, uma coisa é provocar, outra é argumentar. (E é bom reparar que o conceito de “esquerda” e “direita” é meio variável: no Canadá – onde foi feito o estudo – e nos Estados Unidos, ele é mais de ordem moral que econômica, visto que lá a polarização se dá entre “liberais” e “conservadores”, com os primeiros sendo a “esquerda” e os segundos a “direita”, mesmo que no campo econômico ambos defendam o que consideramos ser políticas de direita.)

Acho mais válido dizer que pessoas de esquerda tendem a ser mais inteligentes. O motivo é simples: são contestadoras. Quem se questiona o tempo todo, não aceita certas verdades ditas “absolutas”, consequentemente pensa bastante, usa mais o cérebro.

Porém, isso não quer dizer que, necessariamente, uma pessoa de direita é “burra”. O escritor (e Prêmio Nobel de Literatura em 2010) peruano Mario Vargas Llosa, por exemplo, para “burro” não serve – muito antes pelo contrário. O fato de ser de direita não faz dele um mau escritor; e, inclusive, não podemos esquecer que também pensa de forma crítica, embora “para o outro lado”, em defesa do neoliberalismo. (Foi Vargas Llosa que criou a expressão “ditadura perfeita” para definir o período em que a política do México foi totalmente dominada pelo PRI – Partido Revolucionário Institucional – com base na violência e na fraude eleitoral; desta forma, o partido fundado na época da Revolução Mexicana que originalmente era de esquerda e inclusive membro da Internacional Socialista, mas passou a adotar práticas cada vez mais de direita – com direito a reformas neoliberais nas décadas de 80 e 90 -, manteve-se por várias décadas no poder, até ser derrotado nas eleições presidenciais de 2000 pelo também conservador Vicente Fox.)

Alguém pode muito bem dizer que a “ignorância das massas” favorece a manutenção do status quo, e portanto, a direita é “burra”. Mas não esqueçamos que manter as coisas assim como estão interessa a certas pessoas. Elas não querem perder o poder – e se fossem ignorantes, não teriam conseguido mantê-lo por tanto tempo.

E além disso, reparem que falei em “ignorância”, termo que denota falta de conhecimento sobre determinado(s) assunto(s) – ou seja, situação plenamente reversível. Pois não acredito que existam pessoas 100% “burras”, nem 100% inteligentes. Aquele aluno no qual ninguém aposta, por só tirar notas baixas, pode muito bem ter um grande talento na música ou no futebol (coisas que não são cobradas em provas de colégio). Ao mesmo tempo que o “CDF” que só tira notas altas pode ser um perna-de-pau; sem contar que ele pode também ter alguma dificuldade numa matéria em específico. Lembro que me chamavam de “gênio” por conta de minhas notas muito boas, mas nunca fui muito bom em Biologia (nos três vestibulares que fiz na UFRGS foi sempre minha pior nota, nunca acertei mais que a metade das questões), e prefiro nem falar do meu “talento” com a bola de futebol…

Queria muito que fosse piada

Para os jovens da UCC, a USP é um antro comunista, nenhum partido político é suficientemente conservador, a pedofilia na Igreja é fruto da infiltração de agentes da KGB, o sexo é uma forma de idiotização da juventude, Geraldo Alckmin colocou uma mordaça gay na sociedade paulista, Fernando Henrique Cardoso foi o criador de Lula e Lula é o próprio anticristo.

Parece piada, mas não é. Trata-se da “União Conservadora Cristã”, extrema-direita dos estudantes da USP – um legítimo Tea Party universitário no Brasil. Jovens apenas na idade, pois de cabeça são uma das coisas mais velhas que já vi.

Por mais risíveis que sejam seus argumentos (como a “infiltração de agentes da KGB”* na Igreja como explicação para a existência de padres pedófilos), não podemos “dar de ombros” para a existência deste grupo, assim como diversas outras organizações de extrema-direita. Um dos fatores pelos quais o nazismo cresceu na Alemanha foi o fato de, no começo, não ser levado a sério; e depois, as pessoas não percebiam o que estava acontecendo.

————

* “Infiltração de agentes da KGB”… Alguém avisa esse pessoal que o Muro de Berlim caiu há 22 anos e que a União Soviética se dissolveu há 20.

Estadão “abre o voto”

É uma pratica infelizmente muito rara na “grande mídia” brasileira: um jornal defender, em editorial, o voto em um determinado candidato.

Pois é exatamente o que faz o jornal O Estado de São Paulo, em seu editorial de amanhã (domingo). Enquanto outros jornais insistem em (tentar) enganar seu leitor com a balela da “imparcialidade”, o Estadão deixou bem claro: apoia José Serra para presidente na eleição do próximo dia 3.

Acho que o jornal poderia já ter declarado seu apoio a Serra com um pouco mais de antecedência, é verdade. A revista Carta Capital, por exemplo, “abriu o voto” para Dilma Rousseff logo no início da campanha. Não acredito que o Estadão estivesse “indeciso”, ainda mais que nunca escondeu que é um jornal conservador, de direita.

Mas ainda assim, sua postura merece aplausos, mesmo que eu discorde totalmente das ideias que ele defende. Trata-se de uma atitude que deveria ser seguida por outros veículos da “mídia impressa”, que insistem em não assumirem sua posição, mesmo que seja óbvio qual candidato apoiam.

Porto Alegre: conservadora e machista

Uma proposta quer regrar a vestimenta das parlamentares na Câmara Municipal de Porto Alegre. Há gente que se sente incomodada pelo uso de jeans e camisetas pelas vereadoras no plenário.

Um vereador inclusive disse que enquanto os parlamentares homens sentem-se sufocados pela gravata durante o verão, as mulheres têm mais liberdade para se vestirem. Ora, é muito simples resolver isso: derruba a obrigatoriedade da porra da gravata! Aliás, gostaria de saber para que servem as gravatas, se não para nos deixar sufocados.

Mas isso nem é o pior. Tem muita gente que defende tal absurdo, que mulher não têm de usar calça jeans e camiseta em plenário. Certamente devem achar também que o melhor mesmo é que elas parem de querer fazer política e voltem a “pilotar fogão”.

Para ser bom político, o importante não é a roupa que se veste. E foram engravatados que meteram a mão em muito dinheiro público – taí o escândalo do DETRAN para não me deixar mentir.

Cinema e Censura no Brasil (1964-1988)

Ótima dica encontrada no Dialógico: a página “Memória da Censura no Cinema Brasileiro“, com documentos e material de imprensa de 444 filmes brasileiros que precisaram passar pelo crivo da Censura Federal de 1964 a 1988.

Vale a pena conferir. Até porque, além de documentos oficiais, há também cartas de pessoas indignadas com “filmes imorais” – mostra de que não só a ditadura que era “inquisitorial”. Tudo bem que muitos filmes não fossem nenhuma maravilha cinematográfica, mas taxá-los de “imorais” reflete o quanto a sociedade brasileira era conservadora.

Aliás, ainda é: não assisto novelas, mas lembro de uma grande polêmica quanto a uma novela apresentar ou não um casal homossexual se beijando. No fim, acabou-se decidindo por não apresentar a cena do beijo.