Vazio

Amava secretamente Carolina, que o convidou para ir a um bar naquele sábado juntamente com sua amiga Marina.

Certa hora, Carolina sumiu. Pensou que ela fora embora, mas quando olhou para o lado a viu deitada no chão do bar, dormindo. “Ela tem trabalhado demais, deve estar cansada”, pensou.

Foi embora cedo, deixando Carolina e Marina no bar. Porém, decidiu voltar e encontrá-las, ainda mais depois de ouvir, na rua, que a tropa de choque fora chamada.

Chegando ao local, a confusão já estava estabelecida. A polícia jogava bombas de gás lacrimogêneo na multidão, que corria para todos os lados. Membros de torcidas organizadas respondiam com paus e pedras. Desesperado, procurou Marina e, principalmente, Carolina em meio ao caos. Mas não as encontrou.

Depois de um tempo, enfim, viu Marina, que parecia chorar. Aproximou-se dela e uma mulher, que a acompanhava, se apresentou como sua professora. “Ela foi reprovada no exame”, disse a mulher. Querendo saber onde estava Carolina, tentou falar com Marina, que não quis parar e seguiu em frente, em passo acelerado.

Então seguiu vagando, vazio, pelas ruas já vazias.

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Democracia

Esquina das Avenidas Borges de Medeiros e Salgado Filho, hoje à noite, em Porto Alegre. A tropa de choque da Brigada Militar está bem longe, já no ponto onde o vídeo é gravado a situação é tranquila, não há tumulto… Até começarem a cair as bombas.

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Por outro lado, relatos tanto no Facebook como de quem esteve na manifestação dão conta de algo preocupante: aumentou muito o número de infiltrados, que se aproveitam dos protestos para fazer arruaça e praticar roubos (aí sobra gás lacrimogêneo para todo mundo, tenha ou não feito algo). Ao mesmo tempo, a mídia de direita que antes chamava os manifestantes de “baderneiros” (justamente quando a maioria esmagadora era pacífica) agora diz que apenas uma minoria pratica atos de vandalismo…

A Arena e o caos

No dia 8, consegui ingresso de última hora e fui à inauguração da Arena do Grêmio. Como já disse, o estádio é belíssimo, apesar dos problemas que, acredito, logo deverão estar resolvidos, como o número reduzido de bares e banheiros (apesar deles não terem filas, ainda são poucos que estão funcionando).

Aquele dia fui de van, que o Hélio já tinha acertado. Assim, não tive uma real ideia do que é ir à Arena dependendo do transporte público. A oportunidade veio na noite da quarta-feira, quando fui assistir ao Jogo Contra a Pobreza (leia-se “Zidane”).

Ir até lá não foi o maior problema: afinal, o pessoal chega em horários variados. Difícil mesmo foi na hora de ir embora, quando todo mundo sai junto. Simplesmente não havia orientação alguma: queria pegar um táxi, e não sabia onde eles estavam parando. Foi dito que na saída pela rampa sul se encontraria ônibus, lotação e táxi: só havia lotações abarrotadas (e paradas num congestionamento que não andava). Ônibus, só fretados. E táxi, nenhum.

Decidimos tentar o trem. Chegamos à estação, já havia uma multidão, e pelo horário, o trem que ali estava era o último – ou seja, não conseguiríamos pegar. É verdade que fizemos então uma senhora burrada: ao invés de voltarmos até a Avenida A. J. Renner – que era por onde a maioria das pessoas estava indo embora – seguimos pela semideserta Avenida Ernesto Neugebauer, que é onde fica o acesso à estação. Porém, ninguém – nem mesmo um brigadiano para o qual pedimos informações – disse que o caminho que faríamos era um péssimo negócio.

Resultado: no total, caminhamos 3,4 quilômetros até conseguirmos um táxi – um ótimo exercício em situações normais, mas não quando se está cansado e é quase meia-noite.

Já sei que na próxima vez que for à Arena devo fazer outro caminho na hora de ir embora. Mas imaginem um jogo que termina à meia-noite no meio da semana. Chegarei em casa perto das duas da manhã, precisando acordar às sete: haja café para aguentar o dia! Isso que nem falei de quem mora na Zona Sul de Porto Alegre…

Será esse caos em todos os jogos de grande público na Arena em 2013. Pois as obras que tornarão mais fácil o acesso não ficarão prontas em dois toques.

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Outra coisa que já tinha me chamado a atenção, e que o Alexandre (que dividiu táxi comigo na ida) comentou: a Arena causa um contraste social absurdo naquela região, pois é um estádio moderníssimo junto a um bairro pobre. Claro que a população está gostando, pois a maior movimentação é uma boa oportunidade de negócios (os bares vão faturar bastante nos dias de jogos), mas muitos dos novos vizinhos do Grêmio não têm condições de pagar os valores de ingressos e mensalidades para assistir aos jogos na Arena.

Palhaçada

Sexta-feira, aconteceu em Porto Alegre uma insólita passeata contra “a bagunça do ENEM”. Mesmo que os problemas tenham afetado muito poucos, e que o Ministério da Educação já tenha tomado providências, estudantes saíram às ruas usando narizes de palhaço.

Simplesmente ridículo: um protesto com todo o jeito de ter sido arregimentado* por cursinhos pré-vestibulares (afinal, eles lucram menos com o ENEM) e cujos participantes mais parecem felizes – afinal, estão saindo na TV, no jornal – do que indignados.

Tinha gente até propondo anular o ENEM! Pois é: se uma pequena parcela já havia sido prejudicada pelos problemas com as provas, é óbvio que anular o exame significa prejuízo para a esmagadora maioria.

O que se percebe, é que o ENEM foi a largada do “terceiro turno” da eleição de 2010 – assim como foi o “caos aéreo” em 2006.

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* Pergunta que não quer calar: aqueles direitosos que chamavam os estudantes que protestavam contra a corrupção no (des)governo Yeda de “massa de manobra”, onde estão???

Acabou a farsa

Antes de qualquer coisa, quero deixar bem explícito o meu repúdio aos acontecimentos de ontem no Rio de Janeiro, envolvendo militantes do PT e do PSDB. Por mais que houvesse motivos para protestar contra Serra, foi uma atitude extremamente burra: afinal, o candidato tucano estava acompanhado por muitos apoiadores, ou seja, obviamente o resultado seria a confusão que se viu – e, saindo na “grande mídia”, a probabilidade da notícia ser tendenciosa pró-Serra era enorme.

Por sorte, foi justamente um dos veículos desta “grande mídia” que acabou desmascarando a farsa que os demotucanos estavam tentando construir: a de que Serra levara uma “pedrada” durante o tumulto. O vídeo do SBT mostra muito bem: o candidato foi atingido por um objeto que não é claramente identificável, mas parece ser uma bolinha de papel (colégio, lembram?). Tanto que ele sequer leva a mão à cabeça na hora, o que seria natural se fosse um objeto mais pesado, que causasse dor. É só mais adiante, provavelmente orientado por assessores, que Serra age como se estivesse sentindo dor.

Mas ao mesmo tempo que repudio o acontecido ontem, também não posso deixar de dizer que Serra “colheu o que plantou”. Pois sua campanha só tem pregado o ódio, a intolerância.

O ideal é que não se caia em provocações de adversários – pois tudo o que eles querem é confronto, para posarem de vítimas. O problema é que ninguém tem “sangue de barata”, e por isso é que eles provocam.

Presente melhor, não podia haver

No dia em que o Grêmio completa seus 107 anos, nada melhor do que um jogo como o de hoje à noite.

Grêmio x Palmeiras, Renato x Felipão. Renato e Felipão na mesma noite, no Estádio Olímpico. Dois personagens históricos do Tricolor, numa partida que faz relembrar aqueles inesquecíveis confrontos dos anos 90 entre Grêmio e Palmeiras. Época em que os dois clubes encontraram-se várias vezes em mata-matas, com direito a muitas brigas.

O primeiro confronto foi pelas quartas-de-final do Campeonato Brasileiro de 1990. No jogo da ida, em São Paulo, 1 a 0 para o Palmeiras. Mas no Olímpico, o Grêmio fez 2 a 0 e se classificou para a semifinal.

Na Copa do Brasil de 1993, Grêmio e Palmeiras se enfrentaram nas quartas-de-final. Dois empates em 1 a 1, em São Paulo e em Porto Alegre; nos pênaltis, 7 a 6 para o Grêmio, classificado.

A primeira briga aconteceu pelas oitavas-de-final da Copa do Brasil de 1995. No jogo da ida, 1 a 1 no Olímpico. Uma semana depois, no Parque Antarctica, o Grêmio chegou a fazer 2 a 0 no primeiro tempo, mas ainda na etapa inicial, após confusão, teve três jogadores expulsos (Dinho, Arílson e Luís Carlos Goiano), ficando com dois homens a menos (o palmeirense Mancuso também levara o vermelho). Acabou cedendo o empate em 2 a 2, resultado que classificou o Tricolor por ter marcado mais gols fora de casa.

Três meses depois, pela Libertadores, novo confronto. E nova briga. Na partida de ida, disputada no Olímpico, 5 a 0 para o Grêmio e uma confusão que deixou o jogo parado por 15 minutos – foi a famosa voadora de Dinho sobre Válber. Uma semana depois, no Parque Antarctica, o que parecia resolvido tornou-se dramático: 5 a 1 para o Palmeiras, e por pouco o Tricolor não perdeu a vaga.

Pela Copa do Brasil de 1996, Grêmio e Palmeiras se encontraram na semifinal. O primeiro jogo foi em São Paulo, e deu Porco: 3 a 1. A missão do Grêmio no Olímpico ficou complicada: precisaria fazer 2 a 0, ou vencer por três gols de diferença, para se classificar. O Palmeiras saiu na frente, mas o Tricolor virou para 2 a 1, resultado insuficiente para obter a vaga na final; não fosse o gol legal de Jardel anulado no final, acabaria 3 a 1 e a definição seria nos pênaltis. Resultado: nova confusão.

Meses mais tarde, mais uma vez, Grêmio e Palmeiras se viram frente a frente num mata-mata: eram as quartas-de-final do Campeonato Brasileiro. Como a melhor campanha era do Palmeiras, o primeiro jogo foi em Porto Alegre, e o segundo em São Paulo. No Olímpico, 3 a 1 para o Tricolor, de virada. A partida da volta, disputada no Morumbi, foi dramática em seus minutos finais, quando o Palmeiras fez 1 a 0; mais um gol daria a vaga ao Porco. Mas o Grêmio segurou, e seguiu em frente para conquistar seu segundo título brasileiro. Nestas partidas, incrivelmente, não houve nenhuma briga.

Desde então, nunca mais Grêmio e Palmeiras se enfrentaram em um mata-mata.

Polícia violenta é pior do que criminoso

Concordo totalmente com o que disse o Hélio Paz em post sobre a violência da Brigada Militar contra torcedores do Grêmio que ficaram do lado de fora do Olímpico com os ingressos na mão, impedidos de assistirem Grêmio x Cruzeiro, supostamente por não haver mais lugares no estádio. (Eu estava lá dentro e garanto que ainda havia espaço, principalmente nas cadeiras, setor onde muitos proprietários – ou seja, que têm seu lugar marcado, inclusive com seus nomes gravados nas cadeiras – não puderam ingressar.)

A função da polícia é dar segurança aos cidadãos. Porém, quem nos defenderá quando é ela que comete atos criminosos? Teremos de chamar o ladrão? O Hélio disse tudo: “uma polícia aloprada é muito mais perigosa para a sociedade do que delinquentes”.

Porém, como o que não falta no mundo é demência, há gente a defender polícia violenta, que bate (ou até atira) primeiro, e pergunta depois. Provavelmente muitos dos agredidos quinta-feira no Olímpico fossem assim – espero que, depois dessa, pelo menos mudem de opinião.

Já vi esse filme…

E não gostei nada do final.

Mas antes, vejamos o trecho de um outro filme, um grande clássico da história do Cinema. Será que alguém assiste o vídeo abaixo sozinho em casa, de madrugada e com todas as luzes apagadas?

Trata-se de um trecho do filme O Iluminado, versão de Stanley Kubrick (1980). Anos depois foi filmada uma outra versão da história, mais fiel ao livro de Stephen King. Com quatro horas de duração, acaba sendo cansativa, ainda mais que a vi depois de ter assistido ao filme de Kubrick, que é inegavelmente melhor – e extremamente assustador.

Bom, agora o leitor está preparado para o que vem a seguir. Pois o vídeo é apavorante, igual ao nome do novo vice de futebol do Grêmio, à qualidade do time, e também ao caos que se estabeleceu quinta-feira do lado de fora do Olímpico – não vi nada porque já estava lá dentro, mas além de assustador, é revoltante.

O vice de futebol ao qual me refiro é Luiz Onofre Meira, que assumiu com a saída de André Krieger. Meira era o vice no episódio das “ovelhinhas”, no primeiro ano da fatídica gestão de Flávio Obino. Um dirigente que não tinha autoridade: depois do episódio, os jogadores não o respeitavam mais, e tudo ficava por isso mesmo. Logo foi substituído, mas a barca continuou a afundar, até chegar ao fundo.

Só espero que isso não seja uma repetição dos “iluminados” anos de 2003 e 2004…

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Errata: Luiz Onofre Meira não era vice de futebol do Grêmio em 2003, no episódio das “ovelhinhas”. Quem ocupava o cargo era Luiz Eurico Vallandro – Meira tinha outra função, que não recordo com exatidão agora. Mas pouco depois da “ovinice”, Vallandro saiu, e Saul Berdichevisky assumiu o futebol gremista.

A noite em que tive a certeza do título da Libertadores de 1995

Em 26 de julho de 1995, o Grêmio alcançou uma de suas vitórias mais incríveis. Antes da bola rolar, uma goleada de 5 a 0 jamais passou pela cabeça de dirigentes, comissão técnica, jogadores e torcedores. Ainda mais sobre o Palmeiras, que na época tinha um timaço. Em seu estrelado elenco, contava com nomes como Cafu, Roberto Carlos e Rivaldo. O Grêmio queria fazer 2 a 0 no Olímpico para depois garantir a classificação em São Paulo.

Antes do Grêmio marcar os gols, a partida foi disputadíssima, e com muitos lances ríspidos. A violência empregada por ambas as equipes tornava evidente que a qualquer momento ia dar briga. Afinal, o Palmeiras ainda não havia esquecido a eliminação da Copa do Brasil pelo mesmo Grêmio em pleno Parque Antártica, três meses antes, num jogo que também teve confusão, além de muita dramaticidade.

O primeiro alvi-verde expulso foi Rivaldo: após uma entrada dura de Rivarola, o craque palmeirense deu-lhe um pisão e levou o vermelho. Alguns minutos depois, o gremista Dinho e o palmeirense Válber trocaram socos e também foram expulsos. Parecia o fim da confusão, mas na verdade apenas estava começando…

A televisão logo tirou o foco do jogo e passou a filmar a parte do gramado atrás da goleira à direita do vídeo: os dois jogadores partiram um em direção ao outro, ninguém conseguia segurá-los. A primeira porrada foi de Dinho, que se jogou de voadora para cima de Válber, fazendo a torcida gremista vibrar como se fosse gol. Danrlei deu um soco em Válber pelas costas, o que lhe rendeu a suspensão para a partida de volta em São Paulo – além dos que haviam sido expulsos. Logo, todo mundo estava atrás da goleira, trocando sopapos. Após o jogo, Dinho e Válber foram prestar esclarecimentos numa delegacia de polícia.

Após 14 minutos de paralisação, o jogo recomeçou. E o Grêmio desandou a marcar gols. O primeiro foi de Arce, que soltou uma bomba da intermediária, após a defesa palmeirense rebater um escanteio. O segundo gol foi de Arílson: a bola chutada por ele desviou no volante argentino Mancuso e encobriu o goleiro palmeirense Sérgio. O primeiro tempo terminou 2 a 0 para o Grêmio. Já estava ótimo, tudo conforme os planos tricolores.

Mas o Grêmio não quis parar por aí. No início do segundo tempo, Jardel fez algo raro: um gol com o pé, já que em geral ele marcava gols apenas com a cabeça, pois era ruim com a bola no pé. O quarto gol gremista foi novamente de Jardel, e foi típico dele: de cabeça. E no quinto gol, Jardel deu duas cabeçadas: a primeira foi defendida por Sérgio, mas o artilheiro tricolor aproveitou o rebote do goleiro e cabeceou novamente a bola. 5 a 0!

Assisti a essa partida longe de Porto Alegre: estava passando as férias de inverno na casa da minha tia Zita, em São João do Polêsine. No intervalo, fui até um bar, onde meu tio João assistia o jogo. Na hora ele comentou: “quando a briga começou, comecei a torcer que o Dinho acabasse com aquele cara!”.

Com os 5 a 0, os gremistas já pensavam no adversário da semifinal da Libertadores. Eu já tinha certeza não só da classificação, mas também de que o título seria do Grêmio. A partida de volta contra o Palmeiras seria mera formalidade.

Uma semana depois, aprendi que “o jogo só termina depois que o juiz apita”.

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Dez anos depois (eu disse dez anos), o Dinho encontrou o Válber numa boate de Porto Alegre, e quase houve briga novamente. Aquela noite de 26 de julho de 1995, ao menos para os dois, jamais vai acabar.