A polêmica do terreno da Fase

Charge do Eugênio Neves

Texto da Cris Rodrigues:

Um projeto de lei encaminhado pelo Poder Executivo para apreciação na Assembleia Legislativa autoriza a Fundação de Atendimento Sócio-Educativo do Estado do Rio Grande do Sul (Fase) a alienar ou permutar o terreno que hoje abriga cinco de suas sedes, na avenida Padre Cacique. A proposta tem como justificativa o “nobre” objetivo de melhorar o atendimento aos menores, através da descentralização das sedes, mas é preenchida por vácuos de informação.

Não há planejamento de como se daria a reestruturação da Fase. Sabe-se, de antemão, que a instituição não tem profissionais suficientes para atender à demanda do projeto. Na atual estrutura já há uma defasagem muito grande, os servidores recém aprovaram seu Plano de Cargos e Salários e lutam pela realização de concurso público, para o qual não há previsão.

Além disso, lideranças de movimentos sociais argumentam que não é necessário entregar esse terreno, de valor altíssimo, visando a reformulação, já que o PL 388/2009 não prevê quais terrenos seriam entregues na permuta, nem onde, nem de qual valor, deixando em aberto a possibilidade de entregar um patrimônio público a preço de banana.

A região ali é extremamente valorizada. Praticamente em frente ao estádio Beira-Rio, fica na rota da Copa do Mundo de 2014, que vem recebendo atenção e investimentos tanto da iniciativa privada quanto do poder público. Praticamente na beira do Guaíba, tem uma vista deslumbrante, o que encarece qualquer apartamento a ser vendido ali. A não muitas quadras de distância, fica o Museu Iberê Camargo, ponto turístico que valoriza ainda mais o local. Isso sem contar o Barra Shopping Sul, espaço praticamente reservado à elite porto-alegrense.

Ou seja, os cerca de R$ 160 milhões estimados como valor do terreno se mostram irreais. Até porque esse preço corresponde ao índice 0 de construção, em que não podem crescer prédios. Considerando os recentes projetos do Pontal do Estaleiro e do Cais do Porto, os porto-alegrenses já estão vacinados para esse tipo de situação, e sabem, por experiências recentes, que aprovar uma legislação que mude os parâmetros de construção é bem fácil com a atual composição da Câmara de Vereadores, em que a maioria tem privilegiado interesses privados em projetos semelhantes.

A questão já seria grave se o seu único aspecto fosse a entrega de um terreno muito valorizado financeiramente, mas há outros. A área abriga 17 espécies com status de conservação em ambiente natural, algumas ameaçadas de extinção e uma enquadrada na categoria provavelmente extinta. Mais da metade de sua vegetação, representativa dos campos do Rio Grande do Sul e de matas naturais, encontra-se bastante conservada. É um dos últimos terrenos de Porto Alegre a manter características originais do Bioma Pampa. Isso sem contar que construir ali causaria grande impacto na paisagem da região, interferindo inclusive no regime de ventos e prejudicando os bairros do entorno.

Os prédios que abrigam a Fase são considerados patrimônio histórico, construídos no século XIX pelo imperador D. Pedro II como um colégio, que deu nome ao morro Santa Tereza, onde está localizado.

Como se não bastassem todas as questões referentes à valorização da área, ainda há que se considerar um fator social muito importante. Cinco vilas ocupam o terreno, com cerca de 20 mil pessoas. O governo simplesmente não as menciona em momento algum. Ou seja, não se sabe o que vai acontecer com os moradores das vilas, se receberão alguma proposta, se serão simplesmente despejados ou se serão entregues junto com o terreno para que a iniciativa privada os expulse.

Porto Alegre: já é insuportável, vai piorar…

Olhar a previsão do tempo em Porto Alegre nos últimos dias tem sido algo que me desespera. Ao contrário dos últimos dois verões, este que começou ontem deverá ser mais rigoroso. Nada mais desanimador para quem literalmente “derrete” de tanto suar…

E vai piorar. Cada vez mais, a cidade se transforma numa selva de concreto. Ontem, foi aprovado o projeto de “revitalização” do Cais Mauá.

Revitalizar, de verdade, é necessário. Já acontecem alguns eventos no local, como a Feira do Livro (a área infantil é lá) e a Bienal do Mercosul. Mas é preciso que haja atividades no cais durante o ano inteiro. Com mais pessoas circulando, a área se torna mais segura – e consequentemente, o próprio Centro de Porto Alegre.

Porém, vão acontecer é alguns absurdos por ali. Haverá um shopping (mais um!), com 5 mil vagas de estacionamento. PORRA! O trânsito no Centro já é um caos, e agora vão estimular a circulação de mais 5 mil carros por ali!

Não bastasse isso, haverá dois prédios de 100 metros de altura. 100 metros! Não se iludam, pensando que é só ali: em Porto Alegre, virou moda “legislar por partes” (passando por cima inclusive do Plano Diretor, que prevê altura máxima de 52 metros), em breve haverá muitos outros espigões desses não apenas por toda a orla, como por toda a cidade, em bairros onde hoje há apenas casas e prédios baixos. Se preparem: o que já é infernal, ficará ainda mais infernal…

Claro que os concretoscos são todos a favor disso: “gera empregos” (que tal uma usina nuclear, para dar oportunidades de trabalho a físicos desempregados?), e Porto Alegre se tornará uma cidade “cosmopolita”. Inclusive acham que mesmo 100 metros é pouco, Porto Alegre tinha de ter torres de mais de 500 metros, tipo Dubai.

Já eu prefiro uma cidade boa para se viver, por isso quero ir embora de Porto Alegre assim que possível (por tanto insistirem em estragar a cidade, os concretoscos me convenceram). Não pretendo ir para Cuba, como eles desejam: detesto calor. Pena que a União Soviética não existe mais, facilitaria a vida dos que virão me xingar…

Procurarei alguma cidade menor e de elevada altitude aqui no Brasil, que não seja desesperada por tornar-se “cosmopolita” (infelizmente não há como já ir para uma cidade dessas para fazer mestrado).

A fé cega no “progresso”

No dia 14 de janeiro de 1993 o seriado Os Simpsons, do qual sou fã, exibiu pela primeira vez (nos Estados Unidos) o episódio “Marge x Monotrilho”, que é considerado um dos melhores da série.

Nele, o Sr. Burns é flagrado escondendo lixo nuclear em um parque de Springfield e é multado em 3 milhões de dólares. Em uma reunião para os cidadãos decidirem o que fazer com o dinheiro, Marge Simpson propõe o conserto da rua central da cidade, extremamente esburacada. A questão estava praticamente decidida: a população em geral percebia que era uma obra realmente necessária.

Então apareceu o esperto Lyle Lanley, dono de uma desconhecida empresa que construía monotrilhos, com a proposta de fazer um em Springfield. Utilizando-se de uma musiquinha contagiante, convenceu a todos. Bom, a quase todos: Marge continuou a preferir o conserto da rua central, desconfiando de Lanley.

Springfield não era tão grande assim de modo a precisar de um monotrilho, e as cidades onde o esperto já havia feito as obras não eram conhecidas. Mas, e daí? O importante era o “progresso”! O povo estava entusiasmado.

O resto da história? Eu achei o episódio inteiro, mas só dublado em russo. E Mas não era em nenhum dos serviços de vídeo compatíveis com o WordPress (YouTube, Google Video, Dailymotion etc.), então apenas passo o link. Mesmo sem ter conhecimento de russo, é possível entender o que acontece. (Com agradecimento ao meu amigo Paulo pelo link do vídeo em português.)

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Porto Alegre é bem maior que Springfield, mas não falta gente por aqui que pensa igual aos da cidade dos Simpsons. É essa a lógica de Pontais do Estaleiro e outras concretosquices: “progresso” acima de tudo! Pouco importando se são ou não coisas realmente boas e necessárias.

Menos mal que, por aqui, o que não falta são “Marges Simpsons”, que não acreditam de cara nessa história de “progresso” regado a concreto.

Domingo, vote NÃO!

Para saber onde votar NÃO, clique aqui.