Porto Alegre: já é insuportável, vai piorar…

Olhar a previsão do tempo em Porto Alegre nos últimos dias tem sido algo que me desespera. Ao contrário dos últimos dois verões, este que começou ontem deverá ser mais rigoroso. Nada mais desanimador para quem literalmente “derrete” de tanto suar…

E vai piorar. Cada vez mais, a cidade se transforma numa selva de concreto. Ontem, foi aprovado o projeto de “revitalização” do Cais Mauá.

Revitalizar, de verdade, é necessário. Já acontecem alguns eventos no local, como a Feira do Livro (a área infantil é lá) e a Bienal do Mercosul. Mas é preciso que haja atividades no cais durante o ano inteiro. Com mais pessoas circulando, a área se torna mais segura – e consequentemente, o próprio Centro de Porto Alegre.

Porém, vão acontecer é alguns absurdos por ali. Haverá um shopping (mais um!), com 5 mil vagas de estacionamento. PORRA! O trânsito no Centro já é um caos, e agora vão estimular a circulação de mais 5 mil carros por ali!

Não bastasse isso, haverá dois prédios de 100 metros de altura. 100 metros! Não se iludam, pensando que é só ali: em Porto Alegre, virou moda “legislar por partes” (passando por cima inclusive do Plano Diretor, que prevê altura máxima de 52 metros), em breve haverá muitos outros espigões desses não apenas por toda a orla, como por toda a cidade, em bairros onde hoje há apenas casas e prédios baixos. Se preparem: o que já é infernal, ficará ainda mais infernal…

Claro que os concretoscos são todos a favor disso: “gera empregos” (que tal uma usina nuclear, para dar oportunidades de trabalho a físicos desempregados?), e Porto Alegre se tornará uma cidade “cosmopolita”. Inclusive acham que mesmo 100 metros é pouco, Porto Alegre tinha de ter torres de mais de 500 metros, tipo Dubai.

Já eu prefiro uma cidade boa para se viver, por isso quero ir embora de Porto Alegre assim que possível (por tanto insistirem em estragar a cidade, os concretoscos me convenceram). Não pretendo ir para Cuba, como eles desejam: detesto calor. Pena que a União Soviética não existe mais, facilitaria a vida dos que virão me xingar…

Procurarei alguma cidade menor e de elevada altitude aqui no Brasil, que não seja desesperada por tornar-se “cosmopolita” (infelizmente não há como já ir para uma cidade dessas para fazer mestrado).

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Chororô concretosco

Interessante a postura dos concretoscos após a acachapante vitória do NÃO na consulta pública sobre o Pontal…

Reclamam do “baixo quórum” da votação! De fato, apenas 2% do eleitorado de uma cidade (e que é capital do considerado “Estado mais politizado do Brasil”) comparecer às urnas é muito pouco. A grande maioria dos porto-alegrenses optou pela omissão.

Mas sabem o que penso disso? Quem não votou, “azar o seu”. Deixou que os outros decidissem no seu lugar – mesmo os que votariam NÃO, pois deixar de participar significava correr o risco do “sim” ganhar sem fazer nada contra isso.

Sou favorável ao voto facultativo (como foi ontem), mas ainda mais à participação popular: democracia não é só eleger “representantes” e deixar que eles decidam por nós. A omissão é sempre um péssimo negócio: no primeiro turno da eleição presidencial francesa de 2002, boa parte do eleitorado se omitiu; essa patetice, somada à divisão da esquerda, levou o líder da extrema-direita Jean-Marie Le Pen para o segundo turno, quando a esquerda teve de “se unir” em torno do (apenas) direitista presidente Jacques Chirac e ajudar a reelegê-lo para evitar um mal maior.

E eu faço uma pergunta aos concretoscos que tentam deslegitimar a vitória do NÃO: se tantos porto-alegrenses queriam o “progresso”, onde eles estavam?

Afinal, mesmo que tenham sido poucos os que participaram, 80% dos que não quiseram se omitir se mostraram contrários ao descalabro. Não acredito que uma maior participação popular resultaria em vitória do “sim”.

Síntese do pensamento dos concretoscos

Vez que outra, acesso alguns blogs pontaleiros, que defendem o “sim” na consulta de amanhã.

Um deles toscamente diz que votar NÃO é deixar a área do antigo Estaleiro Só do jeito que está – debocham da inteligência de milhares de pessoas ao acharem que queremos um monte de lixo (deixado no local pelo dono, que não limpa sua propriedade e não é multado!), quando há muito tempo defendemos que a área seja um parque público (afinal, ela é originalmente pública, foi cedida pelo Estado ao Estaleiro Só) – e apresenta o terreno como cheio de “ruínas, ratos e marginais”.

Uma leitora, que se identificou como Marie, deixou o seguinte comentário abaixo, que sintetiza bem o que pensam os concretoscos:

Fiquei um bom tempo procurando nas fotos os “marginais” que vocês citam no texto de entrada do site… E só encontrei algumas crianças, brincando no rio…

Claro, devem estar se referindo aos pobres… Que junto às “baratas e ratos” também citados serão erradicados do lugar por este “purificador e higienizador” projeto.

Quem vocês pensam que são para julgar e apontar outras pessoas como “marginais”?

Depois de ler esse comentário, acessei o álbum com as fotos e também não achei nenhum “marginal”. Só pessoas simples.

Pois é isso que eles querem com o Pontal do Estaleiro: afastar os pobres, “marginais” para os concretoscos.

A um parque público, todos têm livre acesso, ricos e pobres, sem distinção de classe social ou cor. No Pontal, quem iria? Dizem que haveria uma “área pública”, mas fica a pergunta: se uma pessoa bem humilde fosse lá, como seria tratada? O comentário que citei já dá uma pista.

E ao ler que os concretoscos consideram a área do antigo Estaleiro Só como de “ratos, baratas e marginais”, foi impossível não lembrar de tudo o que já li e assisti sobre o nazismo, que afirmava ter o propósito de “embelezar o mundo” acabando com as “impurezas” dele. Hitler considerava os “não-arianos”, principalmente judeus, como “pragas sociais” que precisavam ser eliminadas.

O problema era convencer a população alemã, traumatizada pela Primeira Guerra Mundial, a apoiar tal política sanguinária. A solução foi um discurso “higienizador”, apresentando as “pragas” – inclusive as “sociais” – como uma ameaça às “boas famílias alemãs”.

O resultado disso, qualquer um que tenha o mínimo conhecimento de História sabe quais foram: Segunda Guerra Mundial e Holocausto.

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Por aqui já tivemos uma mostra ontem, com o assassinato do  trabalhador rural sem-terra Elton Brum da Silva em São Gabriel – o que já era temido pelo MST.

De fato, não é de se estranhar. No final de fevereiro, a Zero Hora publicou em sua seção de cartas o texto de um fascista (não tenho outras palavras para descrever o cara) que defendia o extermínio (sic) do MST. É o tipo de gente que quer acabar com a pobreza não reduzindo a desigualdade social, mas sim matando os pobres. Gente que certamente votará no “sim” amanhã.

Afinal, a pobreza é “feia” e “impura”, e Porto Alegre precisa ser “embelezada” – daí a necessidade, na ótica concretosca, do Pontal.

A fé cega no “progresso”

No dia 14 de janeiro de 1993 o seriado Os Simpsons, do qual sou fã, exibiu pela primeira vez (nos Estados Unidos) o episódio “Marge x Monotrilho”, que é considerado um dos melhores da série.

Nele, o Sr. Burns é flagrado escondendo lixo nuclear em um parque de Springfield e é multado em 3 milhões de dólares. Em uma reunião para os cidadãos decidirem o que fazer com o dinheiro, Marge Simpson propõe o conserto da rua central da cidade, extremamente esburacada. A questão estava praticamente decidida: a população em geral percebia que era uma obra realmente necessária.

Então apareceu o esperto Lyle Lanley, dono de uma desconhecida empresa que construía monotrilhos, com a proposta de fazer um em Springfield. Utilizando-se de uma musiquinha contagiante, convenceu a todos. Bom, a quase todos: Marge continuou a preferir o conserto da rua central, desconfiando de Lanley.

Springfield não era tão grande assim de modo a precisar de um monotrilho, e as cidades onde o esperto já havia feito as obras não eram conhecidas. Mas, e daí? O importante era o “progresso”! O povo estava entusiasmado.

O resto da história? Eu achei o episódio inteiro, mas só dublado em russo. E Mas não era em nenhum dos serviços de vídeo compatíveis com o WordPress (YouTube, Google Video, Dailymotion etc.), então apenas passo o link. Mesmo sem ter conhecimento de russo, é possível entender o que acontece. (Com agradecimento ao meu amigo Paulo pelo link do vídeo em português.)

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Porto Alegre é bem maior que Springfield, mas não falta gente por aqui que pensa igual aos da cidade dos Simpsons. É essa a lógica de Pontais do Estaleiro e outras concretosquices: “progresso” acima de tudo! Pouco importando se são ou não coisas realmente boas e necessárias.

Menos mal que, por aqui, o que não falta são “Marges Simpsons”, que não acreditam de cara nessa história de “progresso” regado a concreto.

Domingo, vote NÃO!

Para saber onde votar NÃO, clique aqui.

Dia 23, diga NÃO à concretosquice!

O voto na consulta popular sobre o Pontal do Estaleiro, dia 23 de agosto, é facultativo. Ou seja, vota quem quiser. Logo, será muito tentador para os acomodados: se não estiverem a fim de votar, podem ficar em casa…

Ou seja, é mais um motivo para quem realmente é contra o absurdo do Pontal ir votar NÃO no dia 23. A consulta popular só acontecerá graças à mobilização dos cidadãos, que não se resignaram com a aprovação do projeto em novembro passado pela Câmara. Por isso, Fogaça o vetou e enviou à Câmara o novo projeto, prevendo um referendo – substituído pela consulta do dia 23, já que o referendo era considerado “caro” (Democracia sai caro?). Se os cidadãos não tivessem se mobilizado, a construção daquelas porcarias de prédios já teria começado.

Deixar de ir votar por ser contra a consulta (pois nem sequer deveria ser cogitada a construção de espigões na orla do Guaíba!) é burrice. Afinal, se apenas uma pessoa for votar, e ela optar pelo “sim”… Mesmo que a consulta não tenha um caráter decisivo – afinal, se ela não sair o Pontal estará aprovado – é importantíssimo participar dela: se a Prefeitura não respeitar a vontade popular em caso de vitória do “não”, ela ficará desmoralizada.

Dia 23, é dia de dizer NÃO à concretosquice! Vá votar NÃO ao Pontal do Estaleiro!

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E por falar em “não”, NÃO caia na conversa furada do “incentivo ao turismo”. É por isso que eu chamo os defensores do Pontal do Estaleiro de “concretoscos”: querem nos fazer acreditar que, como num passe de mágica, o concreto na Ponta do Melo fará com que um cara que queira ver espigões troque Nova Iorque por Porto Alegre; ou que turistas originados de países da Europa e da América do Norte são apaixonados pela enorme quantidade de neve que cai na “Serra” – na verdade, é uma escarpa – e não ficam em Porto Alegre por falta de espigão.

Ora, conforme já foi dito em abril pelo Cão, os porto-alegrenses não conhecem a cidade em que vivem. Aí saem a repetir bobagens, como “Porto Alegre não é atrativa”, ao invés de procurarem conhecer o que só existe aqui e mostrar a quem é de fora.

Discussão inoportuna

Mês passado, divulguei aqui a palestra realizada pelo engenheiro Henrique Wittler a respeito da definição do Guaíba, se seria rio ou lago. Wittler apresentou diversos argumentos científicos que permitiriam classificar o Guaíba como rio – o que mostra não haver consenso acerca do assunto, visto que também com base em argumentos técnicos se pode chamar o Guaíba de lago, como os utilizados pelo Atlas Ambiental de Porto Alegre, coordenado pelo professor Rualdo Menegat, do Instituto de Geociências da UFRGS.

A definição científica do Guaíba é uma discussão que cabe aos acadêmicos, e ela deve ocorrer em um ambiente propício a ela – ou seja, a universidade – e não na imprensa. E, seja rio ou lago tecnicamente, o fundamental é lutar pela preservação do Guaíba, que legalmente é rio (assim diz a Lei Orgânica de Porto Alegre, o Atlas Ambiental é um trabalho acadêmico, não uma lei).

A propósito, vale lembrar que o próprio Menegat reconhece que seu trabalho está sendo usado em benefício dos concretoscos (já que a área de preservação permanente em margem de rios chega a 500 metros, aí chamam o Guaíba de lago mesmo que legalmente continue a ser rio, para diminuir a APP para apenas 30 metros) e defende que lagos deveriam ser muito mais protegidos do que rios, pelo fato de suas águas serem mais paradas.

Ou seja: trata-se de uma inoportuna discussão entre dois defensores do Guaíba. Melhor seria se nem tivesse começado. Quem ganha com isso são os concretoscos.

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Atualização: a charge abaixo, do Eugênio Neves, ilustra bem esse post.

guaiba-fonte

O “progresso” mata a memória

Em fevereiro, escrevi aqui sobre o caso do Esquilo Travesso. A casa onde a escolinha funcionava era alugada: o proprietário vendeu, a escola fechou. Ao ler a notícia, não levei um segundo para entender qual seria o destino da casa.

Havia ficado de passar na frente dela pela última vez. Adiei diversas vezes a “despedida”, ora porque estava muito quente (e eu suo demais, o que é extremamente desconfortável, daí todo o ódio que sinto pelo verão), ora por não ter tempo, ora por me esquecer mesmo. No último domingo, após almoçar com a minha mãe e o meu irmão, lembrei que havia tempo e não estávamos longe, então decidimos passar pela Rua Dona Laura.

Logo que entramos na rua, a mãe já foi diminuindo a velocidade do carro, para estacionar. Mas vi que no lugar da casa havia apenas um tapume daqueles “imitação de muro”.

Nem estacionamos o carro, e fomos embora. Não havia mais motivos.

Para o meu irmão, que frequentou o Esquilo apenas em 1988 e não lembra de nada (pois era muito pequeno), certamente não foi tão significativo ver aquele tapume. Mas eu fui aluno por três anos (1986-1988), e senti uma certa tristeza, embora já soubesse desde fevereiro que aquilo aconteceria. Pois ver um tapume no lugar da escola deu a impressão de que aquela época está “fisicamente” acabada, com a destruição de seu símbolo (a casa), permanecendo apenas na minha memória – que, com o passar do tempo, se tornará ainda mais falha do que já é. Antes, mesmo que ficasse muitos anos sem passar na frente da escola, pelo menos eu sabia que ela estava lá.

E o pior de tudo, é ver concretoscos chamando isso de “progresso”.

Península da Coreia volta a ser um só país. E é comunista!

Certamente é o que devem ter pensado os concretoscos ao ver a reportagem que foi ao ar ontem no Jornal Nacional. Afinal, para eles quem é contra Pontal do Estaleiro, “arena” do Grêmio, espigões do Inter e outros descalabros, é “comunista”! Pouco importando para eles que a pessoa seja filiada a algum partido que nada tenha de comunista.

Imaginem se quisessem fazer algo igual em Porto Alegre? Os concretoscos teriam um troço! “Ora, que história é essa de transformar a beira do Guaíba em parque, sem carros e sem prédios? Isso é coisa de ecochato comunista retrógrado que tem que ir embora pra Cuba, aquele atraso!”. Ou para a Coreia do Sul, país mais comunista que existe na ótica dos concretoscos.