Vale tudo por audiência

Charge do Kayser

Não assisto BBB. A única vez que tentei assistir foi na primeira edição: enchi o saco logo no começo. (E pelo que sei, a única coisa realmente boa que o programa fez ao Brasil foi tornar conhecido Jean Wyllys, que hoje é deputado federal pelo PSOL-RJ e empreende no Congresso uma valorosa luta contra a homofobia.)

Porém, com todo mundo falando do programa na época de sua exibição (o que é um dos motivos pelos quais odeio o verão), praticamente não tinha como saber sobre a acusação de abuso sexual cometido por um dos participantes. A vítima, sob efeito de álcool e visivelmente desacordada no momento, já é acusada pelos machistas de plantão de “ter se insinuado”. Sim: para eles, mulher vítima de abuso sexual “fez por merecer”.

(Assim, caso vejas uma mulher de minissaia na rua, pode ter certeza: ela não está com calor – o mesmo que te faz destilar suor – e sim, quer ser agarrada… Ela vai gritar, te chamar de tarado, mas não dá bola, isso é só para “se fazer de difícil”: vai fundo e mostra quem é o dominador nessa história.)

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O participante acusado de abuso foi expulso do BBB pela produção do programa, e provavelmente terá de se explicar à polícia (que foi aos estúdios da Rede Globo para investigar a denúncia). Ótimo.

Porém, o que acontecerá com a Globo, que transmitiu as cenas ao vivo, depois dessa? Não fosse a grande repercussão do caso na internet (que levou a polícia ao Projac), podem ter certeza de que a emissora teria “posto panos quentes” no assunto, que “morreria” em poucos dias. Afinal, pelo que li, a Globo já tinha negado qualquer possibilidade de abuso sexual no programa, e Pedro Bial ainda teria dito “o amor é lindo”, em referência ao fato.

Acho que já passa muito da hora de rever as concessões (que são públicas) para emissoras que fazem qualquer coisa por audiência.

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Teoria e prática 2

A postagem anterior, na qual citei um trecho do livro “Sobre a Televisão” de Pierre Bourdieu e depois mostrei um pouco de como aquilo se dava na prática para “confirmar a teoria”, acabou “rendendo” mais devido a uma expressão que usei: “livre concorrência”. No caso, ela se aplicaria às emissoras de televisão aberta no Brasil. Resultado: “apanhei” de tudo que é lado.

O Diego, em comentário, disse que no Brasil não há “livre concorrência” entre as emissoras de TV aberta no Brasil, pelo fato delas serem concessões públicas: ou seja, elas estariam nas mãos do Estado. Porém, nenhum governante jamais ousaria, por exemplo, cassar (ou não renovar) a concessão da Rede Globo. O único que talvez pensasse em fazer isto seria Leonel Brizola, que em sua campanha para presidente em 1989 atacava abertamente a Globo.

Resultado: a Globo atacou Brizola de tudo que é jeito, e impediu a ida dele para o segundo turno, quando teria boas chances de derrotar Fernando Collor. Ela mostrou a Brizola quem realmente detém o poder neste país.

Mas, é justamente o fato da Globo ter todo este poder que mostra o meu erro, como lembraram meus colegas de faculdade em conversa antes da aula de ontem à noite. Esta “livre concorrência” entre as emissoras de televisão não existe pelo simples fato de haver, se não um monopólio, um amplo domínio da Globo: só recentemente ela passou a sentir-se ameaçada pela Record, que mandou os programas religiosos para a madrugada, para transmitir nos outros horários atrações mais viáveis comercialmente. Porém, a Globo ainda detém uma ampla vantagem sobre a rival.

Assim, digo: não há a “livre concorrência” à qual me referi. Mas isto se deve ao grande poder da Globo, que impede uma concorrência realmente livre: prova disto é o fato de que demorou até termos duas alternativas de canais para assistir o Campeonato Brasileiro, apesar de que tanto Globo como Record, como lembrei no post anterior, transmitem o mesmo jogo, o que não nos proporciona verdadeiramente uma “nova alternativa”. De certa forma, é a Globo que acaba pautando as outras emissoras: isto não invalida o que Bourdieu escreveu – pois a “informação sobre a informação” para os outros canais acaba realmente vindo dos outros informantes (no caso, da Globo) -, mas sim a minha afirmação de que há “livre concorrência”.

A afirmação do Diego, de que “a TV aberta está nas mãos do Estado, pois é concessão pública” é verdadeira, mas apenas na teoria. Na prática, a TV (principalmente a Globo) é mais forte.

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Continuando a responder ao comentário do Diego na postagem anterior, digo que concordo totalmente em relação à decisão da concessão – ou não – ficar nas mãos do presidente da República: também acho um absurdo que um ato tão importante dependa de uma única pessoa. Pois sempre haverá a tendência de favorecimento político dos aliados, dando-lhes concessões de rádio ou TV, como aconteceu muito durante a ditadura e mesmo depois da volta da democracia. Penso que uma boa idéia seria um conselho formado por várias pessoas, e no qual todos os Estados brasileiros estivessem representados, para decidir sobre as concessões.