Carlos Lacerda, o comunista

Certos direitosos se contradizem muito facilmente. Como um tal de Antonio, que deixou um comentário com argumentação facilmente desmontável no texto de quarta-feira, procurando “justificar” o golpe de 1964.

Concordo com sua opinião. mas não esqueça que quem foi perseguido pela ditadura não queria democracia, mas sim uma ditadura comunista como as de Cuba, URSS, etc. Concordo também que os torturadores devem ser punidos. Os torturadores dos dois lados, pois no momento os guerrilheiros estão recebendo polpudas somas devido a terem sido “perseguidos”. Os criminosos de direita e de esquerda devem receber o mesmo tratamento, pois, do contrário, será apenas revanchismo e não democracia onde todos devem ser iguais perante a lei.

Aquele velho papo furado de que o golpe “impediu uma ditadura comunista” (que bela maneira de proteger a democracia, implantando uma ditadura…), de que “é preciso punir os dois lados” (como se ambos fossem equivalentes em força, e nenhum deles tivesse sofrido punição – ou querem coisa pior que tortura, execução e desaparecimentos?), revanchismo etc.

Mas o argumento mais tosco é o de que “quem foi perseguido pela ditadura queria uma ditadura comunista”. Pois bem: se é assim, isso quer dizer que Carlos Lacerda era comunista!

É, ele mesmo, um dos mais ferrenhos anticomunistas que o Brasil tinha nas décadas de 50 e 60. Carlos Lacerda chegou a ser comunista na juventude, mas depois “endireitou”, e foi um modelo perfeito para o famoso ditado “o pior reacionário é o esquerdista recalcado”. Dono do jornal “Tribuna da Imprensa” e líder da conservadora UDN, Lacerda apoiou abertamente o golpe de 1964, ocasião em que era governador do Estado da Guanabara (correspondente ao atual município do Rio de Janeiro).

Deposto João Goulart, era previsto que os militares ficariam no poder até 31 de janeiro de 1966, data em que se encerraria o mandato de Jango e seria empossado o presidente eleito em 3 de outubro de 1965. Dentre os cotados para vencer aquela eleição estavam Carlos Lacerda e o ex-presidente Juscelino Kubitschek.

Só que, como todos sabem, o regime militar não foi apenas “transitório”, e acabou apenas em 1985. E os planos de Lacerda para chegar à presidência foram por água abaixo.

Percebendo que fora “escanteado” pelos militares, Lacerda voltou-se contra a ditadura e uniu-se a seus antigos adversário Juscelino e Jango, formando a “Frente Ampla”. Obviamente o regime não deixou barato: em nome da “segurança nacional”, um dos maiores apoiadores do golpe que instaurara aquela ditadura teve seus direitos políticos cassados, e passou a sofrer perseguição política.

Carlos Lacerda faleceu em 1977, em circunstâncias bastante estranhas (estava internado em uma clínica devido a uma gripe comum, ou seja, nada de grave), levantando a hipótese de que teria sido assassinado pela ditadura.

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Cão está lá!

O Beto Bertagna fez uma lista de “blogs sujos” que ajudaram a eleger Dilma no último domingo.

Para minha satisfação, lá está o Cão… Mesmo que tenha sido pelos motivos que expliquei em 28 de setembro. Vai lá e confere a “imunda” lista.

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Mas também não posso deixar de manifestar indignação: o Professor Hariovaldo, nobre defensor dos homens bons, também é citado como “blogueiro sujo” que ajudou a eleger a guerrilheira búlgara, representante do comunismo ateu! Injustiça!

Que São Serapião nos proteja!

Filme para o domingo

Enquanto muita gente chega a brigar por conta das eleições (e o pior é que os desentendimentos se dão até entre pessoas de esquerda, por divergências de ordem partidária), o aniversário de um fato histórico corre o risco de passar despercebido. Há 20 anos, no dia 3 de outubro de 1990, a Alemanha voltou a ser um só país.

O processo que levou à reunificação alemã foi extremamente rápido: as mudanças se deram em menos de um ano, motivadas pelos protestos populares na Alemanha Oriental, como também pela própria política da União Soviética, de não mais intervir nos países do Leste Europeu, estimulando-os a adotarem reformas semelhantes às que Mikhail Gorbachev aplicava na URSS (glasnost e perestroika). Em 18 de outubro de 1989, o linha-dura Erich Honecker renunciou à liderança do governante Partido Comunista, e em 9 de novembro, foi liberado o trânsito entre as duas Alemanhas, tornando a fronteira interalemã mera formalidade. Quatro meses após a abertura do muro foram realizadas as primeiras eleições multipartidárias – ou seja, em que não era apenas o Partido Comunista que participava – na República Democrática Alemã (nome oficial da Alemanha Oriental) e, em 3 de outubro de 1990, legalmente aconteceu a reunificação (que no futebol, conforme já falei, demorou um pouco mais), com a RDA passando a integrar a República Federal da Alemanha (nome oficial da antiga Alemanha Ocidental e do atual país unificado).

O filme “Adeus, Lênin!” (2003), de Wolfgang Becker, é sensacional justamente por mostrar a velocidade com que se deram as mudanças na Alemanha – e, podemos dizer também, em todo o Leste Europeu – entre 1989 e 1990.

Christiane (Katrin Sass) é uma dedicada militante socialista desde que seu marido fugiu para a Alemanha Ocidental em 1978. Em 7 de outubro de 1989, ao ver seu filho Alexander (Daniel Brühl) ser preso pela polícia durante violenta repressão a uma passeata pró-democracia, tem um ataque cardíaco e entra em coma por oito meses.

Enquanto isso, acontecem as mudanças na Alemanha. Erich Honecker renuncia, a fronteira entre os dois Estados alemães é aberta, e os produtos orientais começam a sumir das prateleiras das lojas para serem substituídos por importados (tanto do oeste como de outros países ocidentais). Os costumes dos alemães orientais passam a ser considerados “velhos”, que precisam ser urgentemente abandonados.

Até em sua casa as mudanças são drásticas: a filha Ariane (Maria Simon) troca os antigos móveis por outros mais “modernos” (leia-se “ocidentais”), e larga os estudos para trabalhar como vendedora em um drive-thru do Burger King, onde conhece o novo namorado, o ocidental Rainer (Alexander Beyer), que leva para morar junto no apartamento. Já Alex, durante suas visitas à mãe no hospital, apaixona-se (e é correspondido) pela bela enfermeira soviética Lara (Chulpan Khamatova), que conheceu naquela passeata de outubro de 1989, quando ela o ajudou durante um engasgo com uma maçã.

Quando Christiane acorda, em junho de 1990, o médico alerta que ela não pode sofrer fortes emoções, devido ao risco de sofrer outro enfarto, e logo Alex percebe que ela não resistirá ao saber das mudanças que aconteceram no país. Decide não só levá-la para casa (temendo que ela saiba de tudo caso fique no hospital), como também fazer com que ela pense que absolutamente nada mudou.

Porém, mesmo dentro de casa é difícil Christiane não ter nenhuma percepção de que as coisas não são mais as mesmas. Quando ela quer pepinos de Spreewood (iguaria muito apreciada na Alemanha Oriental), Alex só encontra importados da Holanda – que na prática são a mesma coisa (afinal, são pepinos, apenas com outra marca) – e assim os armazena em frascos com rótulos antigos, para que a mãe tenha a ilusão de estar comendo pepinos “socialistas”. Quando ela quer assistir televisão, obviamente as transmissões já não são mais as mesmas, e a solução é “transmitir” (via utilização de um videocassete escondido) programas antigos. Aliás, interessante papel tem a televisão: por conta da ilusão que muitos têm de que ela “mostra a verdade” (afinal, são as imagens do que acontece, logo, “só pode ser verdade”), Alex se utiliza de noticiários fictícios, produzidos em parceria com seu amigo ocidental Denis (Florian Lukas) – que sonha em ser diretor de cinema – para que acontecimentos totalmente imprevistos, como um banner da Coca-Cola em um prédio vizinho ou carros ocidentais estacionados em Berlim “Oriental” (não esqueçamos que não há mais muro), tenham uma explicação que mantenha em sua mãe a crença na continuidade do sistema socialista (e até de seu fortalecimento, com o consequente “colapso do capitalismo” na Alemanha Ocidental), mesmo com tudo indicando o contrário. Porém, com o passar do filme acabamos descobrindo também que não é só Christiane que vive uma ilusão.

Ao mesmo tempo que nos faz rir das inusitadas situações, “Adeus, Lênin!” também nos leva a boas reflexões. Como sobre a velocidade das mudanças. Pois independentemente das convicções políticas de cada um, elas se deram muito rápido. Naquela época, apenas os mais velhos tinham lembranças em primeira mão* de como era uma Alemanha unificada; no leste, a maioria esmagadora da população não tinha ideia de como era o dia-a-dia de uma sociedade capitalista, já que por mais de 40 anos haviam vivido sob o “socialismo” de modelo soviético. Obviamente isso foi um impacto muito grande sobre os habitantes da parte oriental da Alemanha, que não por acaso tiveram bastante dificuldades para se adaptarem aos novos tempos: além de não terem mais a garantia de sobrevivência que o regime “socialista” dava, a solidariedade entre as pessoas (que se dava até como forma de resistência ao autoritarismo) foi minada pela excessiva competitividade estimulada pelo capitalismo.

Outra coisa interessante em “Adeus, Lênin!”, tem a ver com a ideia de “nação”, ligada à de “nascimento”. Não por acaso, trata-se a “pátria” como se fosse uma “mãe” ou um “pai”. Afinal, tratam-se de nossas principais referências de origem, de pertencimento. Tanto que a palavra “pátria” lembra, de certa forma, “pai”. Em inglês, se diz motherland (numa tradução literal, “terra-mãe”) e em alemão, vaterland (“terra-pai” literalmente). No caso do filme, isso fica muito claro quando Alex afirma que a Alemanha Oriental é um país que, na memória dele, sempre estará conectado com a mãe. Afinal, além dela ter sido uma apaixonada socialista, também foi ela que o pôs no mundo e o criou – assim como a RDA foi o país onde ele nasceu e cresceu. Um país que no final de 1989 “entrou em coma”, assim como sua mãe – que, ao acordar, fez com que, ao menos para Alex, a Alemanha dividida continuasse a existir, parecendo com o que era antes, mas que não era mais a mesma coisa: no caso, tratava-se de uma divisão entre a ilusão e a realidade.

E ao mesmo tempo que quer mudanças, Alex percebe que também não quer perder as suas origens – no caso, a mãe e o país, como fica claro quando ele diz que aquela Alemanha Oriental fictícia que criara para que sua mãe não se chocasse com as mudanças era a RDA que gostaria de ter tido na realidade. O que é explicado pelas palavras do filósofo esloveno Slavoj Zizek:

Quando as pessoas protestavam em regimes comunistas do Leste Europeu, a grande maioria delas não estava pedindo por capitalismo. Eles queriam a liberdade de viver suas vidas fora do controle estatal, de ir e vir e falar o que desejassem; eles queriam uma vida de simplicidade e sinceridade, liberta da indocrinação ideológica primitiva e da cínica hipocrisia dominante.

Como muitos analistas observaram, os ideais que levaram os manifestantes às ruas eram, de alguma forma, uma extensão daqueles da própria ideologia socialista – as pessoas aspiravam por algo que pode ser melhor aproximado através do termo “socialismo com um rosto humano”. Talvez essa atitude mereça uma segunda chance.

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* Segundo Eric Hobsbawm em Era dos Extremos, passamos a armazenar “lembranças em primeira mão” de como é a vida “real” por volta dos 15 anos de idade: no capítulo em que fala justamente das mudanças no Leste Europeu e do fim da União Soviética, Hobsbawm diz que em 1990 todo húngaro acima dos 60 anos (ou seja, nascidos até 1930) de idade tinha lembranças de como era a Hungria antes do “socialismo” (teria no mínimo 15 anos em 1945); já na URSS, nenhum cidadão com menos de 88 anos (ou seja, nascido depois de 1902) tinha alguma ideia da Rússia pré-Revolução de 1917. Para o caso alemão, podemos aplicar os mesmos números da Hungria, visto que o país foi dividido, na prática, em 1945, com o final da Segunda Guerra Mundial – embora as repúblicas do oeste e do leste só tenham sido fundadas em 1949.

Depois dos concretoscos, os DIREITOSCOS

A direita brasileira é mortal… Mata de rir!

Tudo bem, nada que me surpreenda. O baixo nível das correntes de e-mail continua. Aliás, cada vez mais baixo.

Esses dias, recebi a mensagem sobre a tal “bolsa bandido” (que já fora detonada pelo Vinicius Duarte). Respondi ao meu amigo, que um dia depois enviou outra corrente, mas esta batendo na Rede Globo (o famoso boato do “Criança Esperança”), perguntando se eu ia gostar “agora que não fala mal do PT, do Lula e da Dilma”. Claro que respondi de novo, dizendo que o problema não era fazer críticas ao governo Lula – já que eu tenho muitas – mas sim que elas fossem realmente críticas, não abobrinhas: afinal, essas porras de correntes são pura pregação direitosa, não vi nenhuma delas reclamando de que os arquivos da ditadura não foram abertos, por exemplo.

Outras tosqueiras foram as mensagens que vi ontem. Uma delas, que foi encaminhada pelo meu pai para que eu risse junto com ele, tinha o título “Cuidado, tsunami em outubro”, e chamava a possível vitória da Dilma de “tsunami”. A imagem em anexo, então, foi uma das coisas mais toscas que já vi: a imagem de uma onda gigante com a cara da candidata petista… PQP!

A outra, o meu pai não me repassou porque eu cheguei a ver o momento em que ele respondeu. Foi para detonar mesmo: o texto da mensagem dizia que uma “jornalista” (sim, entre aspas mesmo!) tivera seu blog censurado pelo governo Lula por conta de um texto (aliás, muito ruim) publicado no ano passado (ela se utilizava várias vezes da expressão “petralhas”, que se não está entre aspas no texto, é para mim um atestado de “coisa que não é séria”). Claro que isso servia para dizerem que “temos de salvar o Brasil de uma ditadura” e muito blá blá blá direitoso (interessante que eles fizeram e ainda defendem a ditadura militar…). Mas faltou alguém avisar aos ingênuos que repassam essa porcaria que o blog da moça foi “censurado” por uma ordem judicial a pedido de um deputado estadual do Mato Grosso – ou seja, não tinha absolutamente nada a ver com o governo federal!

E, para completar o dia de ontem, descobri no Twitter uma mulher que a única coisa que “tuíta” é bobagem contra a Dilma. Ela, assim como vários outros direiTOSCOS, quer fazer os bobos acreditarem que a vitória petista significará “a implantação do comunismo no Brasil”. Só aviso que desse jeito o risco que correm é de justamente me convencerem a votar na Dilma!

Mas, como não acredito nessas tosquices, vou de Plínio.

Final monárquica

Domingo, o seleto clube das seleções campeãs mundiais ganhará um novo integrante. Mas a decisão entre Holanda e Espanha também tem outro fato curioso a ser destacado: ambos os países são Estados monárquicos.

A última monarquia campeã mundial foi a Inglaterra, em 1966. E a última (e única, até agora) vez em que duas monarquias decidiram a Copa do Mundo foi em 1938: o título ficou com a Itália (campeã também em 1934), que tinha Benito Mussolini como seu primeiro-ministro, mas o Chefe de Estado era o rei Vítor Emanuel III, que reinou até 9 de maio de 1946, pouco antes da proclamação da República Italiana; já o vice-campeonato ficou com a Hungria, também monárquica na época, embora o Chefe de Estado não fosse propriamente um rei, e sim um regente eleito, Miklós Horthy, que colaborou com o nazismo e “reinou” até 1944, quando abdicou defendendo um armistício com a União Soviética.

A Hungria de 1938 não foi a única monarquia vice-campeã mundial. Também “bateram na trave” a Suécia em 1958, e a própria Holanda, em 1974 e 1978.

Como se vê, a maioria esmagadora das Copas teve como campeãs e também vices seleções representantes de países republicanos. Alguns, apenas nominalmente: duas vezes, países sob ditaduras militares ganharam a taça – o Brasil em 1970, e a Argentina em 1978 (jogando em casa).

Já os países “socialistas” (acho mais adequado o termo “burocráticos de partido único”) chegaram duas vezes ao vice-campeonato: a fantástica Hungria de Ferenc Puskás em 1954, e a Tchecoslováquia em 1962 (inclusive, se diz que a liberação de Garrincha para jogar a final mesmo tendo sido expulso na semifinal contra o Chile se deveria ao temor de que uma seleção do “bloco soviético” ganhasse a Copa).

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Outra curiosidade desta “final monárquica” é que ela também é a segunda consecutiva entre seleções europeias, o que não acontecia desde 1934 (Itália x Tchecoslováquia) e 1938 (Itália x Hungria).

A Copa e a política no Brasil (parte 2)

Clique e confira a primeira parte, caso ainda não a tenha lido.

A prática esportiva está ligada ao respeito às regras estabelecidas, em que os vencedores reconhecem os direitos dos vencidos, e estes por sua vez não contestam a vitória do adversário. Logo, o esporte se fundamenta no “saber perder sem apelar para a violência”. Assim, ele tornou-se um “símbolo de civilização”, facilitando sua difusão – afinal, todos queriam ser reconhecidos como “civilizados”. O que explica por que a chegada do futebol tanto ao Brasil como à Argentina e ao Uruguai está ligada à presença inglesa em cidades portuárias: afinal, boa parte dos navios que circulavam pelos mares ao final do século XIX era de origem britânica, “civilizada”.

O fato de ser um esporte coletivo pesou muito para que o futebol se tornasse também um símbolo de identidade coletiva e nacional nos países em que mais se popularizou. Afinal, nele a individualidade não podia ser mais importante do que o grupo, simbolizando a ideia de que cada cidadão deveria estar pronto para defender sua nação, deixando seus desejos individuais em segundo plano. Logo, fazia mais sentido representar desportivamente a nação por meio de um esporte coletivo e popular. Sem contar que depois da traumática Primeira Guerra Mundial, tornou-se bem mais atraente “lutar pela pátria” metaforicamente, através de uma “representação da guerra” ao invés de um conflito militar propriamente dito.

Se o esporte era considerado como um símbolo de civilização e nacionalidade, organizar um evento esportivo era visto de forma idêntica. Daí o Brasil ter se candidatado para sediar a Copa do Mundo de futebol.

(…) esperava-se que através de tal competição o Brasil demonstrasse ao resto do mundo – em especial às nações ditas “civilizadas”, tomadas pelos brasileiros como modelo de civilização – que o estágio de atraso nacional estava já superado.¹

Assim, a Copa do Mundo de 1950 significava bem mais para o Brasil do que um simples campeonato de futebol. Era preciso mostrar o progresso que o país vivia (a propósito, dá para traçar um paralelo com 2014, né?), e por tal motivo se decidiu construir o maior estádio do mundo, o Maracanã.

O estádio recebeu 200 mil pessoas na partida decisiva do Mundial, entre Brasil e Uruguai, em que um empate bastava para dar o título à Seleção Brasileira, o que seria o “fecho de ouro” para uma Copa cuja organização fora bastante elogiada por jornalistas estrangeiros. Um triunfo uruguaio era considerado improvável, já que o Brasil vinha massacrando seus adversários (7 a 1 na Suécia, 6 a 1 na Espanha).

Porém, a taça acabou ficando com o Uruguai, que venceu de virada, 2 a 1. E o momento em que o Brasil se afirmaria como “grande nação” acabou por aumentar o que Nelson Rodrigues chamava “complexo de vira-latas”: na hora decisiva, o Brasil enquanto povo “tremeria” diante dos estrangeiros, sendo a Seleção Brasileira mero reflexo disso. Contribuiu para a difusão de tal ideia as afirmações de que Bigode teria “se acovardado” depois de supostamente ter sido agredido pelo capitão uruguaio Obdulio Varela – fato negado por muitos dos jogadores brasileiros que participaram daquela partida.

Dois meses e meio após a trágica derrota, Getúlio Vargas cumpriu a promessa de que “voltaria nos braços do povo” à presidência da República, feita logo após ser derrubado por um golpe militar em 1945. Chegou ao poder pela via eleitoral, e não pelas armas, como ocorrera 20 anos antes. E obteve 48% dos votos, quando a eleição não tinha segundo turno. Em 1950, pela primeira vez aconteceu a coincidência de ocorrerem no mesmo ano Copa do Mundo e eleição presidencial no Brasil (em 1930 o pleito foi em março, portanto antes do Mundial, e de qualquer forma ele “não valeu”), o que torna tentadora a ideia de que a derrota da Seleção beneficiou o “pai dos pobres”. Mas é preciso lembrar que desde o Carnaval (portanto, antes da Copa) já estava “na boca do povo” a marchinha Bota o retrato do velho, bota no mesmo lugar, o sorriso do velhinho faz a gente trabalhar. Óbvia referência a Vargas, que “estava voltando”.

O “vira-latismo” brasileiro no futebol só foi superado em 1958, na Copa do Mundo da Suécia. A conquista da Seleção provocou um sentimento de euforia na população, que ia ao encontro do momento vivido na política: o governo de Juscelino Kubitschek de Oliveira (1956-1961) era marcado pelo otimismo em relação ao desenvolvimento nacional que supostamente viria com a indústria automobilística que se instalava no Brasil. O futebol apenas contribuiu para amplificar o sentimento de que, finalmente, o país conquistara seu lugar junto às “grandes nações”. Ainda mais que a Seleção enfrentara apenas adversários europeus em sua campanha, e jogando um belo futebol: era a consagração do chamado “estilo brasileiro” na Europa. E a revelação dos geniais Garrincha e Pelé (com apenas 17 anos), que encantaram o público nos estádios suecos.

O próprio futebol brasileiro também progredia, não apenas a Seleção. A partir de 1959, começou a ser disputado o primeiro torneio de caráter realmente nacional: a Taça Brasil, que dava a seu vencedor o direito de disputar a Taça Libertadores da América, que começou a ser realizada no ano seguinte. Participavam da TB todos os campeões estaduais: logo, era um torneio interestadual muito mais abrangente que o Roberto Gomes Pedrosa, disputado desde 1950 mas apenas por clubes de São Paulo e Rio de Janeiro (apesar de que mesmo na Taça os clubes dos dois Estados eram beneficiados, entrando apenas nas etapas decisivas). Ao longo da curta história do torneio, clubes de fora do eixo Rio-São Paulo fizeram bonito, como Bahia (campeão da primeira edição batendo o Santos na final, e vice em 1961 e 1963), Cruzeiro (campeão em 1966, com direito a goleada sobre o Santos na final), Fortaleza (vice em 1960 e 1968) e Náutico (vice em 1967).

Em 1962, a Seleção conquistou o bicampeonato no Chile. E a conquista serviu aos propósitos do presidente João Goulart de retomar os plenos poderes presidenciais: após a renúncia de Jânio Quadros, em 25 de agosto de 1961, a posse de “Jango” só aconteceu com a aprovação de uma emenda constitucional que instaurou o parlamentarismo no Brasil – condição aceita pelos ministros militares, temerosos das tendências esquerdistas de Goulart. O presidente fazia questão de vincular-se ao futebol, inclusive lembrando seu passado como jogador (atuou nas categorias de base do Inter) e mostrando o quanto torcia pela Seleção, para aumentar sua popularidade e conseguir apoio para a restauração do presidencialismo: um plebiscito sobre o assunto aconteceria junto com a eleição presidencial marcada para 1965. Mas “Jango”, com aprovação popular, antecipou a consulta para 6 de janeiro de 1963, saindo-se vencedor.

Em 1º de abril de 1964, João Goulart foi deposto por um golpe militar, que contou com o apoio da “grande mídia” e de boa parte da classe média, apavorada que estava por conta do “perigo comunista” que seria representado pelo presidente e suas “reformas de base” (que eram similares às adotadas em vários países desenvolvidos do mundo capitalista).

E o futebol brasileiro, claro, também foi afetado pelo golpe de 1964.

(Continua)

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¹ FRAGA, Gerson Wasen. A “derrota do Jeca” na imprensa brasileira: nacionalismo, civilização e futebol na Copa do Mundo de 1950. Porto Alegre: UFRGS/IFCH, 2009, p. 375. Tese de doutorado. Disponível na Biblioteca Digital da UFRGS.

Não devemos deixar os sonhos de lado

Semana passada, assisti ao excelente documentário Utopia e Barbárie, de Sílvio Tendler. O filme tem como tema o mundo e, principalmente, o Brasil pós-Segunda Guerra Mundial. Fala sobre os sonhos que tinham muitas pessoas, as utopias que guiavam suas vidas, e também sobre as frustrações, que não foram poucas.

Nem vou me estender demais falando simplesmente sobre o documentário (a Cris e a Camila já fizeram isso muito bem), apenas recomendo a todos que o assistam.

Sinceramente, o que seria de nossas vidas se não pudéssemos sonhar? Temos os sonhos pessoais, que variam de pessoa a pessoa, mas dá para dizer que para a maioria, correspondem a um trabalho bacana, o “amor da vida”, filhos etc.

Em geral, acreditamos que basta realizarmos os nossos sonhos pessoais e assim “encontraremos a felicidade”. Será? É possível ser uma “ilha de felicidade” no meio de muitas pessoas infelizes, sem que a maioria acabe por puxar os poucos felizes para baixo? Não seria melhor que fossem todos mais felizes?

Mas a maioria embarca nessa canoa furada. Parece que é proibido desejar um mundo mais justo e, consequentemente, mais feliz. Isso é “perda de tempo”, ainda mais em uma época em que as pessoas vivem correndo. É preciso ter pressa em tudo: para passar no vestibular (no curso que mais agrade, desde que o “agrado” seja igual a “dinheiro”), arranjar um emprego (afinal, “o trabalho dignifica o homem”), comprar um carro (mesmo que não se precise de um), namorar (quando mal se conhece a pessoa), noivar (sem ter muito tempo de namoro), casar (imaginem só que horror, os amigos casando e eu não, sou um fracassado!) e ter filhos (quando mal se tem tempo de brincar com eles).

Já a única urgência que eu enxergo é a de se voltar a ter utopias. Deveríamos ter pressa para resolver os problemas do mundo, e não para adquirirmos bens de consumo.

Algum conformista poderá dizer que o comunismo, utopia que guiou os sonhos de muitos, resultou em muitas mortes. Não é verdade. O comunismo jamais chegou a ser implantado, o que existiam eram países onde o poder estava nas mãos do Partido Comunista, mas onde o Estado era autoritário e burocrático, pois a ideia de “mundo melhor” de uma vanguarda (e por que não dizer “elite política”?) foi imposta a todos, com pouca discussão, sem a participação do povo. Mesmo assim, por ser “o socialismo que existia”, era ingenuamente exaltado pelos que sonhavam com um mundo mais justo, sem um olhar mais crítico. E assim, muitos comunistas acabavam apoiando – mesmo que involuntariamente – situações que eram contrárias ao que realmente acreditavam, e que jamais defenderiam se conscientes disso. Como mostra o filme: a Revolução Cultural de Mao Tsé-tung, exaltada por intelectuais de esquerda no Ocidente que jamais tinham ido à China, foi uma verdadeira tragédia para milhões de chineses. Onde se pensava estar em construção uma nova sociedade, mais feliz e justa, na verdade encontrava-se muito medo e injustiça. E a fraternidade entre os povos, tão sonhada, era impedida pelo Muro de Berlim.

Em 1989, parecia que as utopias estavam sepultadas, com o “fim da História” e a “vitória irreversível” do capitalismo. As pseudo-revoluções que varreram o Leste da Europa naquele ano obviamente respingaram no Brasil, que elegia diretamente o presidente depois de 29 anos: Fernando Collor de Mello, utilizando-se do “anti-comunismo” e do apoio da Globo, derrotou Luís Inácio Lula da Silva, o candidato da “bandeira vermelha”. O medo vencia a esperança. Anos depois, Lula ganhou, mas não era mais aquele de 1989; e o PT, que parecia representar os sonhos de um Brasil mais justo, caiu na “vala comum” dos partidos tradicionais.

Mesmo assim, ficou claro que a História não acabou: enquanto houver humanidade, haverá História. E haverá lutas. Só que hoje em dia elas são fragmentadas. Parece faltar uma utopia em comum para milhões de pessoas em todo o planeta.

Planeta… Não seria uma boa ideia todos lutarmos para que continuemos podendo habitá-lo? Já passou da hora de o tratarmos melhor, né?

Porém, uma pessoa sozinha não consegue melhorar o mundo. O importante é que cada um faça a sua parte. Tanto pela preservação do meio ambiente, como pela diminuição das injustiças – luta que jamais deve ser abandonada. Agindo localmente, mas pensando globalmente: se todos fizerem um pouco em seu bairro, na sua cidade, a soma resultará numa grande mudança para melhor em toda parte.

Mas, acima de tudo, é preciso acreditar que é possível, sem desanimar. Não adianta nada passar por insucessos e só por conta disso passar a achar que “não tem jeito, o negócio é se adaptar para se dar bem”. Lembremos a frase dita por Apolônio de Carvalho em Utopia e Barbárie: “Se perdemos hoje, não quer dizer que não podemos vencer amanhã”.

Brasil, Cuba, liberdade e falta dela

Ontem, o presidente Lula cometeu um ato extremamente infeliz. Questionado sobre o recurso à greve de fome utilizado por presos por motivos políticos em Cuba para obterem liberdade, Lula comparou-os a presos comuns para criticar a medida.

A declaração do presidente foi infeliz por dois motivos. Primeiro, porque no passado muitos presos políticos no Brasil se utilizaram da greve de fome para denunciarem suas detenções arbitrárias pela ditadura militar. Segundo, porque não dá para comparar um preso por assassinato com um que simplesmente declarou ser contra o governo e por isso foi para trás das grades: assassinato é crime sempre, já ser contra o governo só é considerado crime se o governo for ditatorial.

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Claro que não dá para igualar o regime do Partido Comunista Cubano com a ditadura militar brasileira de 1964-1985. Pois se os dois reprimiram discordantes em relação ao governo, Cuba hoje é melhor do que era antes da Revolução (e vale lembrar que não era nem um pouco democrática): basta verificar seus indicadores sociais, superiores aos nossos. Já o Brasil de 1985 tinha a economia em frangalhos, pior distribuição de renda do mundo, aumento da favelização e do domínio do tráfico nas favelas (já que por 21 anos o Estado esteve mais preocupado em “combater o comunismo” do que em dar assistência aos pobres), dentre outras mazelas. Diz o ditado que “a melhor das ditaduras não é melhor que a pior das democracias”, mas na comparação entre ditaduras, não resta dúvidas sobre qual delas foi melhor (ou pior) para seu povo.

Quanto à liberdade (ou a falta dela), Cuba pode ser criticada. Mas é preciso ter cuidado, porque para os cubanos, “liberdade” pode ser muito mais do que o simples direito a contestar seus governantes – provavelmente eles não se sentissem muito livres em um país no qual se pode falar mal do governo mas, caso não se tenha dinheiro para o tratamento de uma doença, a morte fica mais próxima.

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Ao mesmo tempo, uma coisa é certa. Muitos direitosos virão com o papo de que “em Cuba se violam os direitos humanos!” e blá blá blá para criticarem a esquerda.

Porém, ao mesmo tempo defendem a ditadura militar no Brasil, pena de morte e ainda dizem que “o pessoal dos direitos humanos só defende bandidos”. Trata-se de pura hipocrisia, pois criticam os atos de um outro país mas defendem os mesmos ou semelhantes para o seu.

E lá se vão mais de 20 anos…

A Cris Rodrigues escreveu um interessante post lembrando muitas coisas que aconteceram na vida dela – não necessariamente particulares, como também marcantes para todos nós – nos últimos 10 anos. E então chamou a atenção para o fato de que lembrava de acontecimentos da década de 1990, mas que pareciam ter ocorrido há pouquíssimo tempo.

Eu, velho que estou, também comentei sobre coisas antigas, mas até mesmo anteriores à década de 1990, que também dão a impressão de “terem sido ontem”. Depois, lembrei ainda mais. Principalmente de fatos acontecidos em 1989, um ano realmente muito marcante.

Naquele ano comecei a 1ª série do 1º grau (olha a velhice aí: já faz mais de 10 anos que é “ensino fundamental”!), no colégio Marechal Floriano Peixoto. No dia 1º de março, para ser mais preciso. Como eu já sabia ler (só precisava aprender a escrever direito), achava as aulas muito chatas, já que tudo que a professora falava, eu de certa forma já sabia… Talvez por isso eu tenha começado a gostar de Matemática (a ponto de dez anos depois optar por um curso que a tinha): era novidade aprender a somar e subtrair. Tanto que durante todo o colégio (1º e 2º graus) eu sempre gostei de Matemática.

Mas os principais fatos estavam guardados para o final do ano. Como a eleição presidencial no Brasil, a primeira direta desde 1960. Eu ouvi o apresentador do telejornal falar em “os brasileiros votam para presidente depois de 29 anos” e obviamente não entendi nada: eleição não era para ser de 4 em 4 anos? (Naquele caso, seria a cada 5 anos, como previa a Constituição até a aprovação de emenda reduzindo a duração do mandato presidencial.)

Eu era “brizolista”, seguindo a minha avó. E a minha turma no colégio também: em uma votação simulada que fizemos na véspera do primeiro turno, o Brizola ganhou de lavada! Lembro que a professora votou no Lula, e o Collor, se não me engano, não recebeu nenhum voto… No segundo turno, sem Brizola, meu pai me ensinou a fazer o “L” do Lula. Mas, o Collor ganhou, com ajuda da Globo e vários meios de comunicação.

Naquela época, ser “anticomunista” fazia parte da campanha, e podia dar votos. Afinal, o chamado “socialismo real” ruía: no dia 9 de novembro, a Alemanha Oriental anunciou a abertura de suas fronteiras com a vizinha Alemanha Ocidental. Era a queda do Muro de Berlim, que assisti pela televisão, embora sem entender nada. Se derrubar um muro era algo tão importante a ponto de aparecer na televisão, eu podia muito bem pegar uma picareta e derrubar um muro na minha rua, né? Mas não fiz isso, felizmente.

E nem precisava, se o objetivo era aparecer na televisão. Afinal, naqueles mesmos dias eu fui entrevistado pela RBS, em uma reportagem sobre… Natal! Acreditem se quiser, eu gostava do troço… E a entrevista se deu por insistência minha, pois quando vi a equipe da televisão no Iguatemi, ela já se preparava para se dirigir ao estúdio, levando a fita das entrevistas feitas no local. Acabaram demorando um pouco mais para irem embora, mas com minhas imagens gravadas. (Moral da história: meu passado me condena…)

A febre naquele Natal de 1989 foi um brinquedo que mais lembrava um computador, chamado “Pense Bem” – ajudando a alavancar a venda de brinquedos eletrônicos. Quando vi pela primeira vez, obviamente quis ganhar de presente. E começou toda a expectativa. À meia-noite do dia 25 de dezembro, ganhei o tão esperado presente. Assim como a minha rua inteira… A expectativa em torno do “Pense Bem”, somada à euforia por tê-lo ganho – e desta forma, não querer largá-lo por um segundo sequer – impediu que, como em novembro, eu pudesse acompanhar “ao vivo” (pela televisão, é claro…) à História acontecendo.

Na Romênia, uma insurreição popular derrubava a ditadura de Nicolae Ceausescu, que governara o país com mão de ferro desde 1965. O ditador e sua esposa, Elena, fugiram de Bucareste em um helicóptero no dia 22 de dezembro, mas foram capturados por militares que aderiram à revolta, e depois de um julgamento sumário, fuzilados no dia 25. Só fui saber disso vários anos depois – inclusive, a primeira lembrança que tenho da Romênia é de Gheorghe Hagi e aquele timaço da Copa do Mundo de 1994, e não da queda da ditadura.

Craque iugonostálgico

Em entrevista ao programa de Ana Maria Braga na Globo, o meia Dejan Petkovic, do Flamengo, deu uma resposta inesperada à apresentadora. A “cansada” (lembram?) tentou induzir o craque sérvio a dizer que a Iugoslávia socialista era um país em que se passavam muitas dificuldades, mas Petkovic a contrariou. (Não reparem no mapa, em que trocaram Croácia e Bósnia-Herzegovina…)

“Iugonostalgia” é o termo utilizado para definir as pessoas que sentem saudades da época em que Eslovênia, Croácia, Bósnia-Herzegovina, Sérvia, Montenegro, Macedônia e Kosovo formavam apenas um país, a Iugoslávia. Mais específicamente, da época de Tito (1945-1980).

O termo “Iugoslávia”, que significa “união dos eslavos do sul”, passou a denominar em 1929 o reino surgido em 1918 a partir da união entre diversos povos eslavos dos Bálcãs, e que se chamava “Reino dos Sérvios, Croatas e Eslovenos” (embora também o integrassem diversas outras etnias, como montenegrinos, macedônios, bósnios e albaneses).

Em 1945, sob a liderança do croata Josip Broz Tito, a Iugoslávia se libertou do domínio nazista que lhe fora imposto na Segunda Guerra Mundial, e transformou-se em uma república socialista federativa. Era um socialismo diferente do que se viu em outros países do Leste Europeu: não foi imposto pelos tanques soviéticos, e sim, construído pelos próprios iugoslavos a partir da liderança de Tito.

Desta forma, o socialismo iugoslavo adquiriu características próprias, como o sistema de autogestão nas fábricas e propriedades agrícolas (que não eram pertencentes ao Estado, e sim aos próprios trabalhadores), a democracia direta (em que a representação não se dava por deputados, e sim por grupos de delegados), a descentralização política (as repúblicas e províncias tinham ampla autonomia) e a independência em relação à União Soviética, após o rompimento entre Tito e Stalin em 1948. Mesmo após a melhora das relações entre Belgrado e Moscou, os iugoslavos mantiveram sua política externa independente e não-alinhada nem à URSS, nem aos Estados Unidos.

A Iugoslávia de Tito desenvolveu-se muito até a década de 1970, proporcionando o aumento tanto da qualidade como da expectativa de vida. Porém, a situação mudou totalmente nos anos seguintes. Em 1980, Tito morreu, e conforme previa a Constituição promulgada em 1974, implantou-se um sistema de revezamento do poder entre as repúblicas. Ao mesmo tempo, o país começou a passar por uma crise econômica, que não atingiu igualmente a todas as repúblicas: Eslovênia e Croácia eram mais desenvolvidas e viviam uma situação melhor, o que atraiu trabalhadores de outras partes da Iugoslávia.

Os anos sob a liderança de Tito tinham criado um sentimento de união entre as diversas etnias que formavam a Iugoslávia. Porém, a perda de uma figura que simbolizava a união nacional, somada à crise econômica, fez ressurgirem velhos rancores que haviam sido temporariamente esquecidos (como entre sérvios e croatas – os primeiros consideravam os segundos colaboradores dos nazistas, mesmo que Tito fosse croata), dando origem a movimentos nacionalistas, principalmente na Sérvia, república mais populosa.

Os nacionalistas sérvios, liderados por Slobodan Milosevic (que assumiu a presidência sérvia em 1989), consideravam injusto o sistema de igual divisão do poder: para eles, a Sérvia, mais populosa, deveria ter maior influência sobre os rumos da Iugoslávia, o que obviamente não agradou às demais repúblicas. No decorrer dos anos 80, a etnia (sérvia, croata, eslovena etc.) passou a ter maior valor como referência de pertencimento do que a “nacionalidade” iugoslava.

As rivalidades cada vez mais acirradas se verificavam em diversos aspectos da vida social. No futebol (já que falamos do Petkovic…), o ultranacionalismo entrou em campo no dia 13 de maio de 1990, quando torcedores do Dinamo Zagreb e do Estrela Vermelha de Belgrado travaram uma violenta briga no estádio da capital croata, com muitos feridos. A polícia, controlada pelos sérvios, reprimia com violência os torcedores do Dínamo, e em resposta o craque do time de Zagreb, Zvonimir Boban, aplicou uma voadora em um policial, feito que o transformou em um heroi nacional para os croatas.

Em 1991, Eslovênia e Croácia proclamaram a independência, e começou assim a violenta desintegração da Iugoslávia, com um conflito militar principalmente entre sérvios e croatas, em que ambos os lados cometeram atrocidades. No ano seguinte foi a vez da Bósnia-Herzegovina declarar sua independência, porém, como o país tinha uma população muito diversificada (muçulmanos, sérvios e croatas), o que se seguiu foi uma sangrenta guerra civil que durou três anos e meio, ceifou muitos milhares de vidas e produziu os piores massacres na Europa desde a Segunda Guerra Mundial.

Milosevic assumiu em 1997 a presidência da Iugoslávia (já não mais socialista e restrita apenas às repúblicas de Sérvia e Montenegro), cargo que ocupou até ser deposto por uma revolta popular em outubro de 2000. Reprimiu violentamente manifestações nacionalistas em Kosovo, província da Sérvia em que a maioria da população era de etnia albanesa, motivando ataques aéreos da OTAN em 1999, o que elevou a tensão entre Ocidente e Rússia – eslava como a Iugoslávia. Tropas da ONU ocuparam Kosovo, que em 2008 proclamou sua independência, não reconhecida pela Sérvia (que considera a região como berço de sua consciência nacional) e por muitos países, dentre eles o Brasil.

Em 2003, a Iugoslávia mudou de nome, e passou a chamar-se “Sérvia e Montenegro”, união que se manteve até 2006, quando em um referendo os montenegrinos optaram pela independência de sua república, aceita sem problemas pela Sérvia. Da antiga Iugoslávia de Tito, restou apenas um parque temático – a “Iugolândia” – e as lembranças de um tempo em que se tinha assistência médica gratuita, emprego garantido e boa aposentadoria, sem contar uma maior liberdade para se viajar (para se ir da Eslovênia à Macedônia, por exemplo, não era preciso cruzar fronteiras internacionais por serem pertencentes ao mesmo país) e, principalmente, a paz decorrente da tolerância mútua entre diversos povos que acabou desaparecendo na década de 1980.