Quero um “presente de colombiano”

Acaba de sair o resultado absurdo do que chamam “julgamento” de Léo, Réver e Morales no STJD (ou STID*?). Afinal, se pressupõe que um julgamento deva ser justo.

Nunca vi jogador algum receber oito jogos de punição com base em imagens de TV (o que aconteceu com Morales). Isso me faz lembrar uma citação que fiz da obra “Sobre a Televisão” de Pierre Bourdieu (1997, p. 12), em que o autor comenta o trabalho de análise de uma fotografia de Joseph Kraft feito pelo cineasta Jean-Luc Godard:

E eu teria podido retomar por minha conta o programa proposto pelo cineasta: “Este trabalho consistia em começar a se interrogar politicamente [eu diria sociologicamente] sobre as imagens e os sons, e sobre suas relações. Era não dizer mais: ‘É uma imagem justa’, mas: ‘É justo uma imagem’; não dizer mais: ‘É um oficial do exército dos federais sobre um cavalo’, mas: ‘É uma imagem de um cavalo e de um oficial’.”

Já que o STJD me deu um péssimo presente de aniversário, espero receber, em compensação, um presente colombiano: vitória da seleção da Colômbia sobre o time da CBF. Há cerca de um mês, escrevi aqui que não consigo torcer pela seleção que se diz ser do Brasil, por não me identificar com aquele time formado por atletas que jogam longe do país.

Agora, vou torcer contra de raiva mesmo. E conclamo todos os gremistas a cantarem antes do jogo, como forma de protesto, a seguinte música que os jogadores da Colômbia também cantarão.

HIMNO NACIONAL DE LA REPÚBLICA DE COLOMBIA
Letra: Rafael Núñez
Música: Oreste Síndici

Coro:
¡Oh gloria inmarcesible!
¡Oh júbilo inmortal!
¡En surcos de dolores
el bien germina ya!

I
¡Cesó la horrible noche! La libertad sublime
derrama las auroras de su invencible luz.
La humanidad entera, que entre cadenas gime,
comprende las palabras del que murió en la cruz.

II
“¡Independencia!” grita el mundo americano;
se baña en sangre de héroes la tierra de Colón.
Pero este gran principio: “El rey no es soberano”,
resuena, y los que sufren bendicen su pasión.

III
Del Orinoco el cauce se colma de despojos;
de sangre y llanto un río se mira allí correr.
En Bárbula no saben las almas ni los ojos,
si admiración o espanto sentir o padecer.

IV
A orillas del Caribe hambriento un pueblo lucha,
horrores prefiriendo a pérfida salud.
¡Oh, sí! De Cartagena la abnegación es mucha,
y escombros de la muerte desprecia su virtud.

V
De Boyacá en los campos el genio de la gloria
con cada espiga un héroe invicto coronó.
Soldados sin coraza ganaron la victoria;
su varonil aliento de escudo les sirvió.

VI
Bolivar cruza el Ande que riega dos océanos;
espadas cual centellas fulguran en Junín.
Centauros indomables descienden a los Llanos,
y empieza a presentirse de la epopeya el fin.

VII
La trompa victoriosa en Ayacucho truena;
y en cada triunfo crece su formidable son.
En su expansivo empuje la libertad se estrena,
del cielo americano formando un pabellón.

VIII
La Virgen sus cabellos arranca en agonía
y de su amor viuda los cuelga del ciprés.
Lamenta su esperanza que cubre loza fría,
pero glorioso orgullo circunda su alba tez.

IX
La patria así se forma, termópilas brotando;
constelación de cíclopes su noche iluminó.
La flor estremecida, mortal el viento hallando,
debajo los laureles seguridad buscó.

X
Mas no es completa gloria vencer en la batalla,
que al brazo que combate lo anima la verdad.
La independencia sola al gran clamor no acalla;
si el sol alumbra a todos, justicia es libertad.

XI
Del hombre los derechos Nariño predicando,
el alma de la lucha profético enseñó.
Ricaurte en San Mateo en átomos volando,
“Deber antes que vida”, con llamas escribió.

E serão muito bem-vindos os colorados que quiserem se juntar ao coro. Como bom gremista, quero que o Inter se exploda, mas que isso se dê de maneira justa, não de forma vergonhosa como em 2005 e como pode vir a acontecer com o Grêmio em 2008.

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* STID = Superior Tribunal de Injustiça Desportiva

Estranho resgate

Apesar de não ter postado nos últimos dias devido aos últimos trabalhos do final de semestre na faculdade, não deixei de dar uma passada nos blogs que costumo visitar diariamente. E claro, também acompanhei a repercussão a respeito do resgate da ex-candidata à presidência da Colômbia, Ingrid Betancourt, que havia sido seqüestrada pelas FARC em 2002.

Estranho esse resgate. Acontece justamente no momento em que a Justiça colombiana questiona a eleição que deu ao presidente Álvaro Uribe um novo mandato, em 2006. Sem contar que ele já pensa na possibilidade de concorrer a um terceiro mandato.

Mas não me é nem um pouco esquisito não ver nossos (de)formadores de opinião afirmarem que Álvaro Uribe quer se tornar um ditador, da mesma forma que atacavam o Chávez por querer o mesmo na Venezuela.

Sempre gosto de lembrar Pierre Bourdieu, que escreveu um artigo cujo título é “A opinião pública não existe”. O uso de tal expressão dá a falsa idéia de existir um consenso a respeito de um tema. Como o próprio Bourdieu diz, “O equivalente de ‘Deus está conosco’ é, hoje em dia, ‘a opinião pública está conosco'” – ou seja, trata-se de uma nova forma de absolutismo. Utilizar a “opinião pública” como justificativa para uma ação é uma maneira extremamente eficaz de obter apoio, como mostra, mais uma vez, Bourdieu, mas em trecho do excelente “A Economia das Trocas Lingüísticas”:

A especificidade do discurso de autoridade (curso, sermão etc.) reside no fato de que não basta que ele seja compreendido (em alguns casos, ele pode inclusive não ser compreendido sem perder seu poder), é preciso que ele seja reconhecido enquanto tal para que possa exercer seu efeito próprio. Tal reconhecimento (fazendo-se ou não acompanhar pela compreensão) somente tem lugar como se fora algo evidente sob determinadas condições, as mesmas que definem o uso legítimo: tal uso deve ser pronunciado pela pessoa autorizada a fazê-lo, o detentor do cetro (skeptron), conhecido e reconhecido pela sua habilidade e também apto a produzir essa classe particular de discursos, seja sacerdote, professor, poeta etc.; deve ser pronunciado numa situação legítima, ou seja, perante receptores legítimos (não se pode ler um poema dadaísta numa reunião do conselho de ministros), devendo enfim ser enunciado nas formas (sintáticas, fonéticas etc.) legítimas.¹

Pois bem: a mídia é vista como uma autoridade pela maioria das pessoas. O que lhe dá esse caráter é o fato de sempre declarar-se – com raras exceções – acima dos partidos e das ideologias, conforme já lembrei em uma postagem em abril. Boa parte das pessoas, que não foi ensinada a pensar, na hora do noticiário quer “tudo pronto”, sem precisar refletir sobre os assuntos. Quer visão única, “definitiva”. Por isso a mídia corporativa, “apartidária”, é tão eficaz.

Pois bem: e o que isso tem a ver com Betancourt e Uribe? Tudo!

Ontem e hoje, o resgate da ex-senadora colombiana é capa da Zero Hora. E ainda por cima as matérias dos jornais afirmam que ela teria dito “se o povo quer, por que não?” a respeito da possibilidade de um terceiro mandato para Uribe.

Será que o povo realmente quer? Ou é interesse de alguns poucos, porém influentes?

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¹ BOURDIEU, Pierre. A Economia das Trocas Lingüísticas. São Paulo: Editora da Universidade de São Paulo, 1996, p. 91.

Para quem tem muita esperança de mudança com Obama

Se eleito presidente, o democrata Barack Obama afirma que a Colômbia terá direito “de atacar terroristas que busquem santuários além de suas fronteiras”. Ou seja: Álvaro Uribe não sofrerá recriminações de Obama caso as tropas colombianas invadam território estrangeiro – seja peruano, equatoriano, venezuelano ou brasileiro – para atacar as FARC.

Leia mais no Blog das Américas.

Voltairenet: Canadá se preparou para invasão do Afeganistão antes de 11/09/2001

Denis Morisset, un ex miembro de la «Joint Task Force 2», unidad de élite de los servicios secretos de las fuerzas armadas canadienses, hace un recuento de 8 años de operaciones secretas en un libro cuyo lanzamiento debía tener lugar el lunes, en Québec. Titulado Nous étions invincibles [En español, “Éramos invencibles”.], el libro cuenta detalladamente acciones en Rwanda, Bosnia y Afganistán así como, lo cual constituye una revelación, en Perú y Colombia.

Entre las revelaciones que aparecen en el libro se encuentra la afirmación de que Canadá participó en los preparativos del ataque anglosajón contra Afganistán antes de los atentados del 11 de septiembre de 2001.

Pero el libro no saldrá a la venta. El autor fue arrestado y encarcelado ayer por solicitación sexual de menores a través de Internet. Mientras tanto, la casa editora JCL recibió una carta del ministerio de Defensa de Canadá en la que se le comunica que la publicación de la obra puede poner en peligro la seguridad nacional. Ante la presión, la editora JCL retiró inmediatamente el libro de su catálogo.

Este é um caso em que “a realidade imita a ficção”: em Arquivo X – O filme, um médico que tinha informações comprometedoras também foi acusado de “pedofilia”…

O que não se fala sobre Bogotá

Quando aconteceu uma manifestação contra as FARC em Bogotá, nossa mídia noticiou, é claro. Mas a passeata de quinta-feira passada, contra o governo de Álvaro Uribe, não mereceu nenhuma notinha nos jornais daqui. Entre os participantes estava até mesmo o prefeito da cidade, Samuel Moreno, do partido oposicionista Pólo Democrático Alternativo.

Bogotá também não é citada pela nossa mídia como uma cidade em que o poder público passou a valorizar mais as pessoas do que os carros, como mostra a postagem do blog Apocalipse Motorizado. Entendível: as empresas automobilísticas enchem os cofres das corporações de mídia graças aos anúncios em jornais e emissoras de rádio e televisão.

Na capital da Colômbia as ruas deixaram de ser simplesmente espaço de fluxo de veículos, e voltaram a ser ponto de encontro, como acontecia antigamente em Porto Alegre na Rua da Praia. Foram construídos muitos quilômetros de ciclovias pela cidade. Em muitas ruas o trânsito de carros foi proibido, e o movimento de pessoas – a pé ou de bicicleta – mantém-se alto. O que contribuiu para diminuir a violência: não foi o terrorismo de Estado praticado por Uribe que fez caírem os índices de criminalidade em Bogotá, mas sim a retomada das ruas pela população.

E conforme já falei em 20 de novembro de 2007, se muito carro na rua fosse segurança, o entorno da Redenção seria a área mais segura de Porto Alegre, já que os carros passam aos montes nas avenidas Osvaldo Aranha e João Pessoa – e o que acontece é o contrário, é preciso muita coragem para se arriscar a caminhar sozinho por ali durante a noite.

Leia mais sobre Bogotá no Apocalipse Motorizado, e assista ao documentário produzido sobre a cidade – o vídeo está em inglês, mas a tradução de alguns trechos está na postagem do Apocalipse.

Confira também uma entrevista (com legendas em português) com o ex-prefeito de Bogotá Enrique Peñalosa, que começou a implementar as mudanças na cidade. Em um trecho ele lembra: temos cidades desde aproximadamente 5 mil anos atrás, e carros há cerca de 80 anos, o que quer dizer que durante a maior parte do tempo as ruas das cidades eram feitas para as pessoas, e não para os carros como acontece atualmente.

Quem sabe não exigirmos do prefeito que elegeremos em outubro que comprometa-se a fazer de Porto Alegre uma cidade menos motorizada e mais humana?

E se fosse no Brasil?

Na manhã de hoje, a pesquisa interativa do programa “Polêmica” da Rádio Gaúcha perguntava “quem tem razão, Colômbia ou Equador e Venezuela?” aos ouvintes. E o resultado foi o seguinte: 88% (sim, 88%!) diziam que a Colômbia estava certa em violar a soberania do Equador para atacar os guerrilheiros das FARC. Só 12% deram razão a Equador e Venezuela.

Dou toda razão ao presidente equatoriano Rafael Correa em protestar veementemente contra a invasão a seu território. Já Hugo Chávez, eu acho que era melhor ele se manter “na dele”: uma eventual guerra cairia do céu para seu maior inimigo, George W. Bush, que provavelmente daria apoio militar a seu aliado Álvaro Uribe.

Mas o que eu me questiono é: se os militares colombianos invadissem não o Equador, e sim o Brasil, para atacar as FARC, será que estes 88% favoráveis à Colômbia da manhã de hoje apoiariam o ato?

Que golaço!

Esse quase encerrado primeiro mês de 2008 tem sido marcado, pelo menos para mim, pela nostalgia. Nada muito incomum: vez que outra, leio no Cataclisma 14 postagens que mostram o quanto eu estou “velho”.

Talvez seja o fato de estarmos em 2008. Fazem 8 anos e 29 dias que só se falava na virada do ano 2000. Eu tinha 18 anos na época, não tinha nem feito vestibular. Muita coisa que parece que foi ontem (como a Libertadores de 1995 ou o Campeonato Brasileiro de 1996), aconteceu há mais de uma década.

E, novamente no Cataclisma 14, vi um vídeo que aumentou meu sentimento de nostalgia.

Copa do Mundo de 1994 (ou seja, há 14 anos), pela primeira vez eu via o Brasil ser campeão – e fazia 24 anos que a taça não vinha para cá. Mas aquela Copa foi inesquecível não só por causa do pênalti perdido pelo Roberto Baggio. Teve também um dos maiores craques que eu vi jogar: o romeno Gheorghe Hagi. Melhor que Hagi, só vi o Maradona. Pelé não vale, porque ele parou em 1977 e nasci em 1981. Não vi ele jogar.

No início da noite de 18 de junho de 1994, saí para jantar com o meu pai e o meu irmão. Fomos bem cedo, porque queríamos ver Romênia x Colômbia. Mais: queríamos ver Valderrama, Asprilla, Rincón, enfim, o time que era apontado por Pelé como favorito ao título. Não era para menos: a Colômbia vinha jogando um bolão, e tinha metido 5 a 0 na Argentina em Buenos Aires pela última rodada das Eliminatórias Sul-Americanas, em setembro de 1993.

Pois bem: voltamos cedo para ver a Colômbia, mas vimos uma exibição fantástica da Romênia, e o segundo gol romeno foi um dos mais belos que já vi. Golaço de Hagi.