Quando descobri que alguns de meus amigos são reacionários

O título desta postagem é descaradamente inspirado no da que foi publicada no Contracultura – no caso, a autora do blog relata sua experiência com a família direitosa.

Já eu não tive maior sofrimento familiar por conta disso, já que boa parte dos meus parentes, se não é exatamente de esquerda, ao menos não vomita discursos reacionários. Meu problema, são alguns amigos… Impressionante o quanto eu passo situações semelhantes às descritas no texto que citei (exceção à contradição entre o que eu defendia e os meus votos – jamais dei sequer um voto ao PSDB).

Quando reunido com a turma, procuro evitar discussões políticas e sociais por saber que estarei em desvantagem. O problema é que às vezes não dá para ficar calado. Como quando, por exemplo, defendem que “bandido bom é bandido morto”, ou que “pobre é vagabundo que não quer trabalhar”. (Duvido que eles nunca tenham jogado na Mega Sena, justamente por conta do sonho de “nunca mais precisar trabalhar”.)

Ou, o que para mim foi o cúmulo do individualismo, foi quando ouvi de um amigo que ele era contra pagar INSS, por achar que cada um tinha que pagar sua própria aposentadoria, e não a dos outros (inclusive ele disse que não queria pagar para eu me aposentar); sem contar os demais impostos, porque eles “sustentam vagabundo com Bolsa Família”. Obviamente lembrei a ele que acho muito bom saber que pagando meus impostos eu ajudo a mim mesmo, assim como a ele e a muitos milhões de pessoas… Como neste dia eu não estava em “desvantagem”, e também tinha tomado umas cervejas a mais, a discussão (que foi além de direitos sociais e chegou às velhas besteiras contra o MST) acabou descambando para uma baixaria digna da campanha do PSDB, que por sorte não acabou em “vias de fato” (mas seriam socos, e não bolinhas de papel); e a própria amizade foi salva quando trocamos desculpas três dias depois.

Mas, mesmo assim, percebo que não me identifico mais com aqueles amigos (claro que não todos eles) da mesma maneira que 10 anos atrás; percebo que hoje em dia o que mais temos em comum é o passado (a “memória coletiva”, que segundo Maurice Halbwachs é importante fator de coesão para um grupo – embora não seja determinante). Não sei dizer exatamente se foram eles que mudaram, ou se fui eu; ou talvez todos nós. Mas é fato que o amigo com quem discuti chegou a dizer que “pensava que eu ia mudar”, ao que respondi que “aceito mudar, mas não para pior” (foi quando a situação esteve mais tensa).

Dizem que isso é “amadurecimento”, mas esse “amadurecimento” que eles tiveram, eu não quero de jeito nenhum.

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Estupidez em Porto Alegre

Na madrugada de sexta-feira, enquanto boa parte de nós dormia confortavelmente em boas camas, o morador de rua Vanderlei Pires fazia o mesmo na esquina da Avenida João Pessoa com a Rua Lobo da Costa, em Porto Alegre. Ao acordar, estava pichado com tinta de cor prata, e ainda por cima alguém havia urinado em seus pés.

Assim como a Cris Rodrigues, não consigo imaginar que os autores de tamanha estupidez não tenham sido jovens bem vestidos, de classe média, querendo se mostrar.

Na verdade, o que aconteceu na madrugada de 2 de abril de 2010 em Porto Alegre é mais uma demonstração prática da mentalidade do que chamo classe mérdia (e mais uma vez ressalto que classe média não é igual a classe mérdia, antes que alguém em quem o chapéu serve muito bem venha escrever merda nos comentários). Eles se acham muito superiores – mesmo que sejam apenas baba-ovos das elites – e têm verdadeira ojeriza a pobres:  acreditam que “trabalhando muito, um dia chegam lá”, e que pobre é “vagabundo que não quer trabalhar”.

Eles procuram mostrar “o quanto são superiores” humilhando, espancando e até matando quem eles consideram “inferiores”, como já se viu em outras oportunidades: foram jovens desse tipo que atearam fogo no índio Galdino Jesus dos Santos enquanto ele dormia em uma parada de ônibus em Brasília, em 1997; e também foram jovens da mesma “categoria” que espancaram a empregada doméstica Sirlei Dias de Carvalho Pinto em uma parada de ônibus no Rio de Janeiro, em 2007 (e ainda por cima roubaram dinheiro e celular dela). Não bastasse o que fizeram, os covardes ainda deram estúpidas justificativas: mataram Galdino por “terem pensado que era um mendigo”; já os que espancaram Sirlei disseram ter feito isso “por pensarem que era uma prostituta”.

E quando falei em humilhar, isto inclui outros atos além de pichar e urinar em um morador de rua. Pois já vi muita gente gritar “vai trabalhar, vagabundo!” a pedintes. Dá vontade de chegar em um destes babacas e falar: “Então dá um emprego para ele, já que achas tão simples arrumar trabalho” – um dia ainda farei isso.

Moradores de rua, pessoas pobres em geral, ao longo de suas vidas vão acumulando momentos de humilhação. De tanto serem mal-tratados, não é óbvio que uma hora muitos deles começarão a reagir? “Tô cansado de apanhar. Tá na hora de bater!”, diz a letra da música “Pátria que me pariu”, de Gabriel O Pensador.

Felizmente, Vanderlei Pires não pensa em vingança. “Espero que estas pessoas não façam nenhum outro mal para alguém como fizeram comigo”, disse ele.

A volta do “caso Isabella”

Como a “grande mídia” volta a dar destaque ao “caso Isabella”, devido ao julgamento de Alexandre Nardoni e Anna Carolina Jatobá (acusados do crime e já condenados pela “grande mídia” há dois anos), minha “resposta” é o texto abaixo, originalmente publicado em 11 de abril de 2008.

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Caso Isabella: o “fato-ônibus”

Semestre passado, cursei na faculdade um seminário temático cujo tema era a mídia ao longo da História. A cadeira encerrou-se com um trabalho de análise sobre o filme “O Quarto Poder” – do consagrado diretor Constantin Costa-Gavras – feito com base em uma obra fundamental para se entender a televisão e sua lógica de funcionamento: “Sobre a Televisão”, de Pierre Bourdieu.

O filme de Costa-Gavras mostra como um simples incidente pode tornar-se um espetáculo midiático. No caso, o ex-segurança de um museu da cidade de Madeline, Sam Baily (John Travolta) busca recuperar seu emprego, mas levara uma espingarda para ameaçar a diretora do museu e acidentalmente atirou, acertando um segurança. Max Brackett (Dustin Hoffman) fazia uma reportagem sem importância no museu, e no momento do tiro estava no banheiro, quando percebeu a chance de retomar à sua antiga fama, cobrindo o incidente em uma posição privilegiada: junto ao acontecimento. Havia notícias mais importantes a serem dadas – como um escândalo de corrupção – mas todas as emissoras passaram a priorizar “o drama do museu”: a concorrência, tão exaltada pelos defensores do “livre mercado”, serviu para homogeneizar as informações, e não para oferecer alternativas aos telespectadores. E além disso, o tom da cobertura televisiva influenciava muito a “opinião pública” sobre o fato: no princípio do caso, com Brackett apresentando Baily às câmeras como um desempregado que tinha uma família para sustentar, as pessoas viam o ex-segurança com simpatia; quando o foco passara a ser as crianças que ele havia tomado como reféns (e vale lembrar que foi Brackett que orientou Baily a transformar o incidente em um seqüestro, com exigências à polícia para libertar os reféns), a “opinião pública” mudou de lado. E a mudança do teor na cobertura se dava em todas as emissoras, não apenas em uma.

Tal drama é o que Bourdieu chama de “fato-ônibus”. São as notícias de variedades (onde se encaixam os dramas), que “interessam a todos” sem terem maiores conseqüências – em “O Quarto Poder” elas seriam maiores do que o esperado, mas o que a mídia buscava era o índice de audiência, nada a mais. Diz Bourdieu que “quanto mais um órgão de imprensa ou um meio de expressão pretende atingir um público extenso, mais ele deve perder suas asperezas, tudo o que pode dividir, excluir”¹.

Pois bem, e onde entra o “caso Isabella”? Vejam bem: percebe-se que a cobertura da mídia tem-se esforçado em pintar o pai e a madrasta como culpados da morte da menina. Em qualquer canal de televisão, o telespectador terá informações sobre o fato, que o levam a pensar que o crime já está solucionado: o pai e a madrasta são assassinos. Vejam bem: não quero dizer que eles não sejam culpados, mas antes mesmo da polícia chegar a uma conclusão a mídia induz as pessoas a pensarem nisto. Não há espaço para o contraditório neste caso.

E tem mais: Isabella Nardoni era filha da classe média. Tradicionalmente, quando algum membro da classe média é vítima da violência, a televisão manda a ética para o espaço e super-explora o crime de modo a aumentar sua audiência. Com a mídia martelando, dificilmente as pessoas não sabem do caso e não têm uma opinião – em geral coincidente com a apresentada implicitamente pela mídia. No caso da Isabella: é difícil não se ouvir pessoas dizerem “como é que pode um pai fazer isto com sua filhinha?” (reparem que a polícia ainda nem chegou à conclusão sobre quem matou a menina!), ou mesmo repetirem o velho brado “tem que matar um cara desses!”.


(charge do Kayser)

Reparem que existem muitas coisas acontecendo ao mesmo tempo no Brasil, mas a mídia dá destaque ao “caso Isabella”. É a lógica do “ocultar mostrando”, da qual Bourdieu fala: mostra-se muito uma coisa, e assim deixa-se de mostrar outras que poderiam ser importantes. E assim todos ficam fissurados pelo “caso Isabella”, e quem não sabe é tratado como “alienado”. Meu irmão estranhou a capa da IstoÉ desta semana, que mostrava – é claro! – a Isabella, e minha mãe respondeu na hora: “Mas como tu não sabe?”, como se o assassinato da menina fosse mais importante para nós do que, por exemplo, a poluição do Guaíba.

Deste modo, a mídia acaba influenciando nas discussões cotidianas, gerando uma “comoção geral”. No momento, é a Isabella. Ano passado, tivemos o acidente da TAM – quando todo mundo falava sobre aviação, “grooving”, reverso etc., e no fim “a culpa era do Lula” – e o “caso João Hélio”, um crime “bárbaro” cometido por menores de idade – ótimo para se defender pena de morte e redução da maioridade penal, toda hora se falava disso na televisão!

Clique aqui para ler uma ótima crítica do antropólogo Roberto Albergaria à cobertura midiática do caso. E leia também o que o Valter escreveu no Moldura Digital a respeito do assunto.

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¹ BOURDIEU, Pierre. Sobre a Televisão. Rio de Janeiro: Jorge Zahar Ed., 1997, p. 63.

Classe Média Way of Life

Sem dúvida alguma, foi a novidade mais genial da blogosfera em 2009. O blog Classe Média Way of Life faz uma sátira do setor mais reacionário (literal e ironicamente, em média) da sociedade brasileira.

É um assunto que já foi tema de posts aqui e em outros blogs. Inclusive procuro diferenciar “ortograficamente” a classe média (formada por pessoas que não podem ser consideradas pobres mas ao mesmo tempo também não são ricas – como é o meu caso) da classe mérdia, que é formada por pessoas de classe média mas que são ultra-reacionárias, individualistas, conformistas, têm pavor de pobre e costumam bajular – e muito – os “ricos e famosos”, na esperança de receberem uma migalha de “reconhecimento” deles. E é justamente esse o tipo de pessoa retratado pelo Classe Média Way of Life.

Se eu já falei disso em um post (e bem por cima além de tudo), o Classe Média Way of Life tem um mérito: transformar algo aparentemente simples em um blog temático, com vários posts. E o melhor de tudo – que é justamente o detalhe que o faz genial – é a ironia do autor, Pierre do Brasil, em cada uma das “dicas” para agir como a classe média brasileira. Pois o blog é escrito justamente como um “manual de instruções” – que, pasmem, é “seguido à risca” por muita gente que conheço.

Claro que as pessoas que “seguem” todas as “dicas” se manifestam. E não é com palavras amistosas. Sinal de que o blog está cumprindo um de seus objetivos: através do humor, criticar a mentalidade de boa parte da classe média. A prova de que a crítica é bem feita, são os xingamentos: o “médio-classista padrão” não costuma ter senso de humor e nem aceitar alguma crítica a seu modo de pensar e agir. Nem aceitam que alguém que seja de classe média faça alguma crítica à própria classe média. Acham que é “ofensa”.

Uma prova de que o blog não é “ofensivo à classe média” porra nenhuma é que eu sou de classe média e não me sinto ofendido. O chapéu não me serve, diferentemente de quem deixa comentários “tipicamente médio-classistas”. Fica a esperança de que depois de um xingamento padrão (“Vai trabalhar!”, “Petralha vagabundo” etc.) surja quem sabe alguma reflexão nas cabeças dessas pessoas.

As diferenças entre classe média e classe mérdia

Tem sido objeto de certa “polêmica” ultimamente o uso da expressão “classe mérdia” em alguns posts. Tem gente que acha o termo ofensivo à classe média. Uma bobagem: eu sou de classe média (vou me xingar no meu próprio blog???), a maioria esmagadora dos meus amigos e conhecidos também. Não iria querer comprar briga com todo mundo, né?

Classe média não é igual a classe mérdia. O primeiro motivo, é ortográfico: um “r” que entra na parada – justamente para diferenciar.

A classe mérdia é uma parte da classe média, não toda ela. Não é rica, mas sonha em ser, em ter os mesmos bens que os “de cima”. Acredita que “trabalhando muito” chegará lá, e que quem é pobre é porque “não trabalha duro”. Não por acaso, se ouve desse tipo de gente (e eu conheço) absurdos do tipo “pobre tem que se f…”.

É formada por pessoas egoístas, consumistas, preconceituosas, e que não admitem ter tais características (quando alguém diz isso, ficam indignados com a “ofensa”). Nelas serve muito bem o chapéu após ouvir a música “Classe média” (sem o “r”, provavelmente para evitar maiores polêmicas) do Max Gonzaga. É a descrição mais perfeita da “classe mérdia” que eu conheço, o que faz eu não me estender muito nesse post:

A “pax guasca”

É dia de Gre-Nal, mas nem vou ficar falando de futebol. Até porque o assunto já gerou baixaria demais aqui durante a semana.

Virou reportagem especial na Zero Hora de sábado a polêmica sobre o artigo do diretor teatral Luciano Alabarse, publicado na edição de quinta-feira do mesmo jornal. No texto, ele reclama do suposto “clima de guerra civil que assola o Rio Grande do Sul”, fruto da tradicional bipolarização que se verifica na sociedade gaúcha em diversos aspectos (já que falei em Gre-Nal, o futebol – sempre ele! – é um deles).

O texto não apareceu por acaso. Alabarse reclama de que há uma “oposição intransigente” que “acusa sem provas”. Clara referência às denúncias feitas pelo PSOL contra o (des)governo Yeda.

(Aliás, por falar nisso, ontem assisti na TV à parte da reprise da sessão de quinta da Câmara de Vereadores. Cheguei no momento em que o vereador Luiz Braz, do PSDB, criticava o vereador Pedro Ruas e seu partido, o PSOL, por se utilizar do “denuncismo” contra Yeda. Estranho que o PSDB fez coisa muito pior contra Lula e Braz não criticou…)

O pior de tudo, é que tem muita gente que embarca na canoa furada do discurso da “pacificação”. Que na verdade significa “despolitização”. Gera apatia política.

Aliás, algo que já vivemos. Basta ver os resultados das últimas eleições no Estado (incluo a Prefeitura de Porto Alegre por tratar-se da capital, logo é a prefeitura mais importante do Rio Grande do Sul):

  • 2000: Tarso Genro (PT) conquista a prefeitura de Porto Alegre – último grande triunfo do PT no Estado;
  • 2002: quando se pensava que haveria polarização entre Tarso Genro (PT) e Antonio Britto (PPS), Germano Rigotto (PMDB) surpreendeu a todos e foi eleito governador, pregando “pacificação” e “união”;
  • 2004: José Fogaça (então no PPS) é eleito prefeito de Porto Alegre, também com um discurso “conciliador” (“Manter o que está bom, mudar o que é preciso”);
  • 2006: Rigotto era favorito à reeleição, pois ficara claro que entre o nada e o PT, o “politizado” povo gaúcho escolheria o nada porque o PT era o “demo”, contra a paz no Rio Grande do Sul. Mas para tentar tirar Olívio Dutra do segundo turno, muitos que votariam em Rigotto decidiram mudar o voto e optaram por Yeda Crusius (PSDB) – só que aí foi Rigotto que ficou de fora. Entre Yeda e Olívio, óbvio que os “politizados” escolheram Yeda, para manter a “paz”;
  • 2008: Fogaça (de volta ao PMDB) confirmou seu favoritismo à reeleição sem sobressaltos, pois ficara claro que entre o nada e o PT, o “politizado” povo porto-alegrense escolheria o nada porque o PT era o “demo”, contra a paz em Porto Alegre. Não se repetiu o “efeito Rigotto”.

Aliás, a última campanha eleitoral em Porto Alegre primou pelo “nada”. As diferenças entre os candidatos eram mínimas. Vera Guasso (PSTU), a que mais se diferenciava, era vista pela classe mérdia como “louca”.

Pois é à ela, a classe mérdia, que se dirige o discurso da “pacificação”. Ela é, em si, conflituosa. Vive um dilema identitário: é mais “pobre” do que “rica”, mas não se encaixa completamente em nenhum dos grupos (embora tenha a mesma mentalidade dos ricos). Os mérdios acreditam que “trabalhando muito” qualquer um pode ascender socialmente: daí o fato de acharem que os pobres estão nessa situação porque “são vagabundos” e que quem rouba é “mau por natureza” (mesmo que seja para matar a fome de um filho). Ninguém em sã consciência quer passar dificuldades, mas os mérdios creem piamente que um dia chegarão ao estrato mais alto. Jamais se identificarão com os “de baixo”.

Por se perceberem “no centro” do conflito, os mérdios são os que mais querem a tal da “pacificação”. Só que não é uma “paz justa” para com os dois lados da “guerra”. Não querem justiça ou igualdade, e sim, que “cada um aprenda qual o seu lugar na sociedade, e principalmente, a respeitar hierarquias”. Ou seja: que aqueles “baderneiros” parem de “fazer bagunça” por não concordarem com a ordem das coisas. E, se quiserem ter o mesmo tênis, ou o mesmo carro dos mérdios, que deixem de ser “vagabundos” e “trabalhem duro”.

A Zero Hora, que citei no começo do texto, é o jornal preferido dos mérdios. Não por acaso, o discurso de ambos é o mesmo. E é de uma incoerência tremenda, como mostra o Marco Weissheimer no RS Urgente: os mesmos que querem “pacificação” travaram uma verdadeira guerra verbal contra o governo Olívio entre 1999 e 2002.

E a “pax guasca” pregada por essa gente chega a me dar medo. É só ver a página 2 da Zero Hora do sábado. A seção onde se publicam cartas e e-mails enviados por leitores era dedicada ao tema “MP-RS x Escolas intinerantes do MST”. Não vou me dar ao trabalho de copiar todos os textos que a ZH permitiu serem publicados (a maioria favorável ao fechamento das escolas). Mas um dos leitores defendeu, em seu e-mail, o extermínio (sic) do MST.

O que espera pelos turistas

Saio para a rua e deparo com um baita cocô no chão. De cachorro ou de gente, pouco importa: bosta é bosta. É uma merda.

E não pensem que isso é “coisa de periferia”: caminhando por bairros de classe média, é preciso cuidar bastante, por causa dos restos deixados por cachorros de madames.

Só imagino um turista passando pelos espigões de 72 metros da Azenha (afinal, juram que aquilo vai trazer muitos turistas para Porto Alegre). Se é altura que o atrai, obviamente ele vai caminhar olhando para cima, e por isso não perceberá o cocozão no chão…

Eu vivia muito bem sem

zhbarrasho(fonte: Diário Gauche)

O anúncio na capa da Zero Hora de terça-feira do centro de compras inaugurado no início dessa semana é uma pérola. E junto com a notícia acima dele, prova que não existe mesmo a porra da “imparcialidade” tão defendida por alguns.

Como diz o título, eu vivia muito bem “sem um shopping assim”. E continuarei a viver, pois não me deslocarei até o bairro Cristal apenas para ir visitar um templo do consumo. Se não costumo ir nem ao que fica perto de onde moro…

E conheço gente que vive muito feliz sem shopping algum.

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Aliás, eu gostaria de saber onde andam aqueles que acham tudo o que é do Rio Grande do Sul melhor simplesmente por “ser daqui”. Afinal, a grande glória da nossa classe mérdia é algo totalmente padronizado, que é igual em qualquer canto do mundo. Seja o atual centro de compras – estabelecimento originado da Barra da Tijuca, no Rio de Janeiro -, ou sejam outros.

Dia de Ação dos Blogs: A pobreza em Porto Alegre

Meu post não se diferencia muito dos que hoje foram publicados nos blogs Amigos da Rua Gonçalo de Carvalho e Dialógico, visto que ambos tratam de assuntos semelhantes, embora com abordagens diferentes: a pobreza em Porto Alegre.

Os Amigos da Gonçalo optaram por falar sobre a Vila Chocolatão, uma das mais pobres da capital, que fica bem próxima ao Centro. Há anos se discute sua remoção, porém não o fundamental: como os moradores sobreviverão longe dali? Pois atualmente eles recolhem papel no Centro: levá-los para uma região distante não os privará de seu sustento?

Já no Dialógico foram publicados trechos de uma entrevista coletiva feita por blogueiros com moradores de rua, na tarde do último dia 4 de setembro (para ler a entrevista completa, clique aqui). Falou-se de diversos assuntos, como a criminalização e o preconceito dos quais são vítimas: são vistos como “ladrões”, mesmo que prefiram mil vezes pedir do que roubar para sobreviver.

Provavelmente uma das causas do preconceito do qual são vítimas os pobres em geral de Porto Alegre seja o mito de “cidade sem favelas”, detonado pelo economista Ricardo Martini em uma série de posts em seu blog. Com o uso do Google Earth, ele traçou um “mapa da pobreza em Porto Alegre” que mostrou que a capital gaúcha tem vários núcleos de pobreza espalhados por seu território, porém com uma característica singular: boa parte de nossas favelas são “escondidas”.

Dois ótimos exemplos são as vilas Cruzeiro do Sul e Bom Jesus, das quais todos os porto-alegrenses pelo menos já ouviram falar, mas provavelmente muito poucos já as viram – exceto, é claro, os moradores delas. Afinal, ambas não são “visíveis” pelas pessoas que passam de carro ou ônibus por avenidas movimentadas como Carlos Barbosa, Teresópolis, Nonoai (próximas à Cruzeiro), Protásio Alves e Ipiranga (próximos à Bom Jesus).

Em fevereiro, o meu amigo Diego Rodrigues (que me indicou o blog do Ricardo Martini) esteve no Rio de Janeiro e escreveu a respeito da cidade. O Hélio Paz esteve no Rio em março, mas também já morou lá. Em comum entre ambos, a impressão de que o Rio de Janeiro é uma cidade mais democrática do que Porto Alegre, em que há maior convivência entre classes sociais. Fruto da geografia carioca: com a cidade espremida entre o mar e as montanhas, as favelas encontram-se ao lado de condomínios de luxo.

Porém, como o próprio Hélio escreveu recentemente, a classe média mais consciente e solidária no Rio vive em bairros onde há essa convivência diária com a pobreza, como Copacabana. Na Barra da Tijuca, as pessoas vivem em condomínios fechados: assim como em Porto Alegre, não enxergam a pobreza. E por isso, tanto na Barra quanto em Porto Alegre, em geral são extremamente intolerantes e preconceituosas.