O brasileiro classe média não curte autocrítica

A escritora Carol Bensimon publicou um artigo na Zero Hora da última segunda-feira, no qual fez uma sensacional crítica ao típico cidadão brasileiro de classe média. O texto sofreu muitas críticas, pelos mais variados motivos, mas o principal me parece ser aquele tradicional “serviu o chapéu”.

Lendo o artigo, tinha a impressão de que estava diante de meus olhos um “resumo” do genial blog satírico Classe Média Way of Life, escrito entre 2009 e 2010 como se fosse um manual de instruções, dando várias “dicas” de como se comportar como a classe média brasileira. Decidi ler os comentários (algo que não costumo fazer em sites de notícias) e também me deparei exatamente com o mesmo tipo de opiniões críticas que lia no Classe Média Way of Life, que podem ser resumidas na expressão “ofensa à classe média”.

Alguém obviamente fará aquele comentário que, de tão óbvio, irrita: “mas de que classe tu és?”. Pois bem: sou da mesma classe média, tão massacrada criticada. Porém, prefiro refletir sobre minhas atitudes ao invés de sair xingando e assim confirmar que “serviu o chapéu”. O que, aliás, apenas dá mais razão às críticas.

Os questionamentos quanto à classe social que pertencem os críticos apenas confirmam minha impressão lá do final de 2009: o brasileiro classe média odeia autocrítica. Acha que criticar o grupo ao qual pertence é atacar a si próprio. Se pertencemos a um grupo que é criticado (por alguém que pertença ou não a ele), o mínimo que devemos fazer é refletir sobre isso, ver se tais questionamentos são realmente aplicáveis a nós – e caso sejam, responder com argumentos ou mesmo repensar nossas atitudes.

Sem contar que quem se sente ofendido por uma crítica genérica, muito provavelmente é merecedor dela.

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Motoristas se manifestam em Porto Alegre

Na última sexta-feira de cada mês, ciclistas se reunem na chamada Massa Crítica, que percorre várias ruas de Porto Alegre. É assim não só aqui, como em várias cidades do mundo.

Só que não apenas na última sexta-feira de cada mês, mas sim diariamente, motoristas têm se manifestado em Porto Alegre. É a “Anti-Massa Crítica”, que chama a atenção para a verdade sobre quem são realmente os donos das ruas. As manifestações, iniciadas há anos, estão cada vez maiores. Enquanto os ciclistas celebram a participação de centenas, os motoristas são centenas de milhares!

Confira um pouco do grande ato acontecido em 12 de maio de 2010, no cruzamento das avenidas Plínio Brasil Milano e Carlos Gomes, Zona Norte da cidade:

E eu já estou decidido a aderir, afinal, é preciso fazer o que todo mundo faz. Larguei mão da ideia de ter uma bicicleta, vou é comprar um carro a 300 prestações!

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Óbvio que os tais “protestos motorizados” (e a minha decisão) nada mais são do que uma ironia quanto aos congestionamentos que são cada vez piores em Porto Alegre. É essa a ideia do genial Vá de Auto: assim como o (infelizmente parado) Classe Média Way of Life, critica um tipo de pensamento através da sátira.

Da série #prontofalei

Sabe aqueles adesivos de família grudados nas traseiras dos carros, que viraram praga moda?

Pois eu acho aquilo uma SENHORA TOSQUICE.

E é uma pena que o Classe Média Way of Life esteja parado, pois um texto sobre esses adesivinhos seria demais. Afinal, isso é algo tipicamente “médio-classista”: a “família feliz” ao estilo comercial de margarina (mesmo que seja só fingimento), passeando (na verdade, sempre indo aos mesmos lugares) no “carro da família”…

Feliz Nateu!

E obrigado ao meu amigo Paulo por me apresentar a autoexplicativa expressão…

Porém, se o leitor preferir, pode adotar o Classe Média Way of Life – ou seja, “ter espírito natalino”:

Parte 1:

Não adianta tentar fugir: para ser médio-classista, é estritamente necessário gostar do Natal.

O Natal é uma festa que acontece todo final de ano, onde as pessoas louvam um deus sempre retratado de barba, que veio do céu para trazer à humanidade o que realmente importa nesta vida. Trata-se do Papai Noel, carregado com um saco bem grande de bens de consumo. O Papai Noel é uma divindade muito louvada pelos médio-classistas, um personagem criado pela indústria de refrigerantes como o símbolo da festa mais importante para a Classe Média: a época das compras de Natal.

Apesar de ser uma importante e apreciada época festiva, as origens do Natal, tal como hoje é conhecido, não são bem claras. Algumas correntes científicas defendem que a data era utilizada, em tempos remotos, para festejar o nascimento de Jesus, ícone das religiões cristãs. Esta teoria, no entanto, enfrenta forte combate quando exposta ao fato de que sua comemoração ocorre no dia 25 dezembro, contrariando a lógica pela qual o calendário ocidental moderno se utiliza do nascimento do mesmo personagem como marco zero, o que, por dedução, só estaria correto se o mesmo nascesse no dia primeiro de janeiro. A contra-argumentação dos estudiosos que ligam o Natal a Jesus apresenta duas versões para resolver o imbróglio: ou ele nasceu prematuro de 7 dias, ou ele só foi registrado no cartório 7 dias depois, porque os pais moravam na roça e naquela época era penoso e demorado chegar à cidade no lombo de um burro. Ainda não há consenso na comunidade científica sobre o assunto.

O Natal também é a época da afirmação dos verdadeiros valores da Classe Média, e isto ela faz com demasiado talento. No afã de deixar claro que ter nascido no Brasil foi apenas um acidente de locação geográfica, os médio-classistas se esforçam para compartilhar do mesmo tipo de festividades que os grandes irmãos do hemisfério norte, também conhecidos como “mundo civilizado”. Abre-se mão do mundialmente invejado clima tropical, que proporciona, por exemplo, noites de agradável temperatura, preferindo ambientar suas comemorações em uma emulação do inóspito clima de nevasca. Em pleno calor causticante de verão, nossos shoppings se cobrem de neve de espuma e isopor. Velhos gordinhos, coitados, são fantasiados de Papai Noel, enfiados em vestimentas, luvas e botas inclusive, desenvolvidas originalmente para que esquimós consigam atravessar vastíssimos desertos de gelo em busca de focas gordas. A tortura se completa com milhares de lâmpadas incandescentes, para tornar o ambiente já quente em uma verdadeira chocadeira, e claro, horas a fio de música instrumental das famigeradas harpas natalinas. Haja saco, hein Papai Noel!

Parte 2:

O Natal é uma grande celebração dos valores da Classe Média. Grandiosas e fartas festas são oferecidas em nome da santíssima trindade: a tradição, a família e a propriedade. Para celebrar estes três pilares de devoção, institui-se a figura do “Natal em família”, uma festa que acontece tradicionalmente todos os anos, com o maior número de familiares possível, normalmente na propriedade do patriarca. E não é uma festa qualquer: é uma espécie de prestação de contas coletiva e anual, algo como uma convenção para tornar pública as vidas alheias. Principalmente suas partes ruins.

Ali se reunirão pessoas que, na maioria das vezes, só se vêem durante estes eventos. Mesmo assim, a necessidade tomar e dar satisfações é legítima e inquestionável. Este tipo de evento não se constroi apenas através da fartura dos comes e bebes. A alma da coisa é a avaliação e o julgamento mútuo da vida de cada presente. Por isso, todos vão dispostos a causar a melhor impressão possível, mesmo para as pessoas que menos gostam ou que nem mantêm contato. E por que estas pessoas se submetem a isto? Por que simplesmente não faltam ao evento? Simples: os que faltam não podem desmentir os boatos que fatalmente surgirão, e portanto serão o foco das conversas a maior parte do tempo, sem direito a defesa. Aos ausentes, o maior prejuízo na imagem. Infelizmente é a lei.

Nesta festa acontecerá a batalha do ano em busca da atenção de quem quer que seja. Aditivados por álcool, cada um tentará se mostrar o mais chegado do patriarca, mesmo que não tenha falado com ele uma vez sequer durante o ano, no intuito de fazer com que a família imagine que o bajulador merece uma substancial fatia da herança que há de vir dentro de poucos natais. Nas rodas de conversa, muitos contarão suas proezas nos negócios, em viagens internacionais, na vida em sociedade, tentarão fazer comparações de salários. As crianças correrão pela casa, quebrarão coisas, perguntarão como diabos o Papai Noel entrará em suas casas, uma vez que apartamentos não possuem chaminé. Os mais ricos humilharão os mais pobres com entrelinhas venenosas, e os intermediários pagarão pau para os mais ricos.

Se você, aspirante a médio-classista, vislumbrou cenas de terror absoluto na descrição acima, não se preocupe. Apesar da hostilidade do ambiente, por incrível que pareça, ali estará todo mundo sorrindo. Tudo o que você precisa fazer, neste caso, é sorrir também, não importa quais comentários maldosos tenha ouvido a respeito do seu novo emprego ou sobre sua vida amorosa. E você também pode se distrair com a inevitável decoração, e também com a trilha sonora. Pode ser que não toque Beatles (muito provavelmente não tocará), mas pelo menos uma do John Lennon na voz da Simone sempre rola. E ainda tem o especial do Roberto Carlos na TV, uma ótima oportunidade para distrair e se livrar das tias chatas.

Realmente não é uma tarefa das mais fáceis se adaptar a este estilo de vida. Mas para fazer parte da Classe Média, é muito importante entender de espírito natalino. E infelizmente, essa disciplina só pode ser patricada uma vez por ano. Portanto, para fechar o ano bem médio-classista, vista sua melhor roupa, sua melhor máscara e boas festas!

Por que votar em Serra

É simplesmente genial a campanha #votoserrapq, do blog Brasil e Desenvolvimento. O vídeo, carregado de ironia, demonstra o pensamento de muitos dos eleitores de Serra, que obviamente eles não assumem (até porque muitas vezes o defendem sem terem noção disso). É como o Classe Média Way of Life, que muitos seguem à risca sem jamais terem lido o sensacional blog.

Afinal, a ironia serve justamente para isso: fazer as pessoas pensarem, e perceberem o que afinal elas andam fazendo e/ou defendendo.

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Agora, (mais) um bom motivo para não votar Serra: o PL 84/99, ou AI-5 digital, cujo autor é tucano, o senador Eduardo Azeredo.

Ótima notícia

O Classe Média Way of Life, novidade mais genial da blogosfera brasileira em 2009, não acabou. Depois de quatro meses sem postar, o Pierre deu notícias.

Uma pena que a próxima postagem ainda deva demorar um pouco, segundo ele. Continuo aguardando a continuação da “dica” sobre as formaturas homéricas

Classe Média Way of Life

Sem dúvida alguma, foi a novidade mais genial da blogosfera em 2009. O blog Classe Média Way of Life faz uma sátira do setor mais reacionário (literal e ironicamente, em média) da sociedade brasileira.

É um assunto que já foi tema de posts aqui e em outros blogs. Inclusive procuro diferenciar “ortograficamente” a classe média (formada por pessoas que não podem ser consideradas pobres mas ao mesmo tempo também não são ricas – como é o meu caso) da classe mérdia, que é formada por pessoas de classe média mas que são ultra-reacionárias, individualistas, conformistas, têm pavor de pobre e costumam bajular – e muito – os “ricos e famosos”, na esperança de receberem uma migalha de “reconhecimento” deles. E é justamente esse o tipo de pessoa retratado pelo Classe Média Way of Life.

Se eu já falei disso em um post (e bem por cima além de tudo), o Classe Média Way of Life tem um mérito: transformar algo aparentemente simples em um blog temático, com vários posts. E o melhor de tudo – que é justamente o detalhe que o faz genial – é a ironia do autor, Pierre do Brasil, em cada uma das “dicas” para agir como a classe média brasileira. Pois o blog é escrito justamente como um “manual de instruções” – que, pasmem, é “seguido à risca” por muita gente que conheço.

Claro que as pessoas que “seguem” todas as “dicas” se manifestam. E não é com palavras amistosas. Sinal de que o blog está cumprindo um de seus objetivos: através do humor, criticar a mentalidade de boa parte da classe média. A prova de que a crítica é bem feita, são os xingamentos: o “médio-classista padrão” não costuma ter senso de humor e nem aceitar alguma crítica a seu modo de pensar e agir. Nem aceitam que alguém que seja de classe média faça alguma crítica à própria classe média. Acham que é “ofensa”.

Uma prova de que o blog não é “ofensivo à classe média” porra nenhuma é que eu sou de classe média e não me sinto ofendido. O chapéu não me serve, diferentemente de quem deixa comentários “tipicamente médio-classistas”. Fica a esperança de que depois de um xingamento padrão (“Vai trabalhar!”, “Petralha vagabundo” etc.) surja quem sabe alguma reflexão nas cabeças dessas pessoas.