Os “ecochatos” me representam

Resfriado, acabei não indo ao protesto contra o corte de árvores na região do Gasômetro, que aconteceu no final da tarde de hoje. Porém, ao mesmo tempo que lamentava o fato de estar ausente, também tinha certeza de algo: quem lá esteve, me representou.

Não consigo ver sentido em querer reduzir os congestionamentos em Porto Alegre (um problema que é sério) mediante o alargamento de ruas. Com isso trilhamos o caminho inverso ao seguido por cidades como Bogotá, onde o problema do trânsito foi resolvido não com construção de avenidas largas e viadutos, mas sim com ciclovias e transporte público de qualidade. Para ver só: enquanto em outros lugares os governantes (e a população, que os elege) estão abrindo os olhos e percebendo que priorizar o automóvel só piora as coisas…

Aqui em Porto Alegre, certa imprensa não se cansa de deixar bem claro que está ao lado da prefeitura (embora siga fingindo ser “imparcial”). E vários comentários em suas matérias, então, são de um reacionarismo nauseante. Aquele velho papo de “tem que dar pau nesses vagabundos”, típico de gente que não dá a mínima importância para a democracia. Sem contar, claro, as tradicionais referências a quem luta pelo meio ambiente como sendo “ecochatos que impedem o progresso da cidade”.

Pois eu digo: fico feliz que os “ecochatos” estejam se manifestando. Não sei se conseguirão alcançar seu objetivo, que é o de impedir a derrubada das árvores, visto que ela foi permitida pelo Tribunal de Justiça. Mas ao menos estão tentando.

Os “ecochatos” me representam, assim como a todos os que não têm como estar lá. Bem ao contrário dos que ainda conseguem a façanha de acreditar que asfalto é progresso: diante de tanta estupidez, num momento de raiva pensei em responder dizendo que desejava a eles que fossem para o inferno. Porém, depois reparei em algo: Porto Alegre já está se tornando infernal (e não simplesmente devido ao intenso calor do nosso verão), e no que depender desses “asfaltochatos”, o inferno será aqui.

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Como maquiar um problema sério

Hoje à noite, o estádio de outro clube na cidade do Grêmio sediará a decisão da Taça Libertadores da América. Não vou falar do jogo em si, nem sequer perderei meu tempo assistindo à partida (vou ler Bourdieu que eu ganho mais).

O que me chamou a atenção foi a medida adotada pela prefeitura para diminuir o caos no trânsito de Porto Alegre: antecipar o fim do expediente do funcionalismo público para as quatro da tarde – ideia que foi seguida por órgãos estaduais e federais na cidade. Assim, se reduz o número de carros nas ruas nas horas mais próximas ao jogo.

Ótima ideia, né? Assim, os jornalistas de outros países que estão em Porto Alegre para cobrir o jogo não ficam com uma impressão tão ruim da cidade… Não perceberão que ela está quase parando, devido a tantos carros nas ruas.

E a prefeitura tem participação nisso, sim, mesmo que também haja um problema de mentalidade (individualismo): muitas pessoas compram carros porque “dá status”, mas também para fugir do transporte coletivo, que já foi melhor por aqui. Mesmo que tenham de ficar horas paradas no trânsito ao volante de seus carros, preferem-no do que passar o mesmo tempo dentro de um ônibus lotado e sem ar condicionado. Bicicleta, então, para eles é “atraso”, mesmo que estejam se tornando cada vez mais populares em países da Europa (que para eles é “civilizada”).

Se o transporte coletivo fosse melhor (e nem falo só de ônibus: Porto Alegre já tinha de ter um metrô mais extenso, assim como linhas de barco aproveitando o Guaíba) e houvesse ciclovias de verdade, seria mais fácil convencer as pessoas a deixarem seus carros em casa ou a nem os comprarem. Tudo bem que se mais gente deixasse de usar o automóvel sem esperar tais melhoras, isso significaria mais cidadãos (e eleitores – que é o que importa para boa parte dos políticos) a reclamarem do caos nas ruas. Mas isso não exime a prefeitura de sua responsabilidade, de forma alguma.

O que não se fala sobre Bogotá

Quando aconteceu uma manifestação contra as FARC em Bogotá, nossa mídia noticiou, é claro. Mas a passeata de quinta-feira passada, contra o governo de Álvaro Uribe, não mereceu nenhuma notinha nos jornais daqui. Entre os participantes estava até mesmo o prefeito da cidade, Samuel Moreno, do partido oposicionista Pólo Democrático Alternativo.

Bogotá também não é citada pela nossa mídia como uma cidade em que o poder público passou a valorizar mais as pessoas do que os carros, como mostra a postagem do blog Apocalipse Motorizado. Entendível: as empresas automobilísticas enchem os cofres das corporações de mídia graças aos anúncios em jornais e emissoras de rádio e televisão.

Na capital da Colômbia as ruas deixaram de ser simplesmente espaço de fluxo de veículos, e voltaram a ser ponto de encontro, como acontecia antigamente em Porto Alegre na Rua da Praia. Foram construídos muitos quilômetros de ciclovias pela cidade. Em muitas ruas o trânsito de carros foi proibido, e o movimento de pessoas – a pé ou de bicicleta – mantém-se alto. O que contribuiu para diminuir a violência: não foi o terrorismo de Estado praticado por Uribe que fez caírem os índices de criminalidade em Bogotá, mas sim a retomada das ruas pela população.

E conforme já falei em 20 de novembro de 2007, se muito carro na rua fosse segurança, o entorno da Redenção seria a área mais segura de Porto Alegre, já que os carros passam aos montes nas avenidas Osvaldo Aranha e João Pessoa – e o que acontece é o contrário, é preciso muita coragem para se arriscar a caminhar sozinho por ali durante a noite.

Leia mais sobre Bogotá no Apocalipse Motorizado, e assista ao documentário produzido sobre a cidade – o vídeo está em inglês, mas a tradução de alguns trechos está na postagem do Apocalipse.

Confira também uma entrevista (com legendas em português) com o ex-prefeito de Bogotá Enrique Peñalosa, que começou a implementar as mudanças na cidade. Em um trecho ele lembra: temos cidades desde aproximadamente 5 mil anos atrás, e carros há cerca de 80 anos, o que quer dizer que durante a maior parte do tempo as ruas das cidades eram feitas para as pessoas, e não para os carros como acontece atualmente.

Quem sabe não exigirmos do prefeito que elegeremos em outubro que comprometa-se a fazer de Porto Alegre uma cidade menos motorizada e mais humana?