A Revolução dos Cravos na voz de Chico Buarque

Hoje, Portugal celebrou (com protestos contra a austeridade) o 39º aniversário da Revolução dos Cravos, que em 25 de abril de 1974 pôs fim a um regime ditatorial que durava quase 50 anos: iniciado em 1926, desde 1933 se chamava oficialmente de Estado Novo (denominação que inspirou Getúlio Vargas para nomear sua ditadura a partir de 1937 no Brasil), mas era também conhecido como “salazarismo” devido a Antônio de Oliveira Salazar, que governou o país com mão-de-ferro por 36 anos (1932-1968).

A derrubada do Estado Novo começou na noite do dia 24 de abril, com a execução da música “E depois do adeus”, bastante popular, no rádio. Era a primeira senha escolhida pelo Movimento das Forças Armadas (formado em sua maioria por capitães que tinham combatido na guerra que Portugal travava para tentar impedir a independência de suas colônias na África), sinalizando que as tropas deveriam ficar a postos nos quarteis. Nos primeiros minutos do dia 25, o rádio deu a segunda senha, que determinava o início da ação: a canção “Grândola, Vila Morena”, de Zeca Afonso, proibida pela ditadura por “fazer alusão ao comunismo”.

A Revolução dos Cravos deixou quatro mortos, em Lisboa, vítimas de uma desesperada tentativa de resistência por parte de membros da DGS (Direção-Geral de Segurança), antiga PIDE (Polícia Internacional e de Defesa do Estado), que era a polícia política do salazarismo. Marcelo Caetano, que substituíra Salazar no governo em setembro de 1968, refugiou-se no Quartel do Carmo, cercado pelas forças do capitão Salgueiro Maia. Após negociações, aceitou render-se ao general Antônio de Spínola (que não fazia parte do MFA), a quem transmitiu o governo. Nas ruas, o povo festejava o fim da ditadura distribuindo cravos aos soldados, que colocavam as flores nos canos de suas armas – daí a denominação “Revolução dos Cravos”.

Uma revolução tão musical em seu início não podia deixar de receber homenagens no mesmo tom. Como a de Chico Buarque, que compôs uma belíssima canção chamada “Tanto Mar”. A música tem duas letras diferentes: a primeira, de 1975, foi censurada no Brasil e gravada apenas em Portugal (afinal de contas, a Revolução dos Cravos era inspiradora para quem sonhava com o fim da ditadura militar por aqui). A segunda é de 1978, quando o ímpeto revolucionário já arrefecera, e sobreviveu à censura.

O vídeo abaixo compila a primeira versão de “Tanto Mar” com uma entrevista de Chico Buarque em 1978 explicando os motivos pelos quais compusera a segunda letra, tocada em seguida.

Primeira versão (1975):

Sei que estás em festa, pá
Fico contente
E enquanto estou ausente
Guarda um cravo para mim

Eu queria estar na festa, pá
Com a tua gente
E colher pessoalmente
Uma flor do teu jardim

Sei que há léguas a nos separar
Tanto mar, tanto mar
Sei também quanto é preciso, pá
Navegar, navegar

Lá faz primavera, pá
Cá estou doente
Manda urgentemente
Algum cheirinho de alecrim

Segunda versão (1978):

Foi bonita a festa, pá
Fiquei contente
E inda guardo, renitente
Um velho cravo para mim

Já murcharam tua festa, pá
Mas certamente
Esqueceram uma semente
Nalgum canto do jardim

Sei que há léguas a nos separar
Tanto mar, tanto mar
Sei também quanto é preciso, pá
Navegar, navegar

Canta a primavera, pá
Cá estou carente
Manda novamente
Algum cheirinho de alecrim

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Chico Buarque sabe das coisas

Nos últimos dias, essa excelente música do Chico Buarque me vinha muito à cabeça. “Apesar de você” foi composta com inspiração no general Emílio Garrastazu Médici, ditador do Brasil de 1969 a 1974.

Mas, para além de “homenagear” ditadores, ela serve também para outras pessoas que nos incomodam demais. Um cara muito chato, alguém que amamos mas nos despreza… E também, certos torcedores de um certo clube*, que por quatro anos se acharam a última bolachinha do pacote, numa arrogância que parecia infinita.

Neste último caso (os certos torcedores de um certo clube), quando o Chico fala em “hoje”, pense em “antes dos 7 do 2º tempo”. Pois agora já é amanhã. Já é outro dia.

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* Ressalto o “certos torcedores”, pois não podemos cometer injustiças. Os malas se tratam de uma minoria, mas muito barulhenta.