Lições de 31 de março de 1964

Há 44 anos, o Brasil entrava em uma era de terror. Um golpe militar, ironicamente chamado por alguns reacionários de “revolução democrática”, fazia o país mergulhar na longa noite da ditadura militar. O movimento “contra a corrupção, contra a subversão” dizia que colocaria “ordem na casa” e devolveria o poder aos civis já em 1966, quando tomaria posse o presidente eleito em outubro de 1965. Mas os militares governaram até 1985, e o povo brasileiro só voltou a votar para presidente em novembro de 1989.

Já fazem mais de 20 anos que os militares deixaram o poder, mas engana-se quem acha que o apreço pelo autoritarismo não existe mais no nosso país. Nos últimos dias tivemos vários exemplos disso.

O primeiro, foi a decisão do TSE em relação à propaganda política para a campanha eleitoral de 2008. De acordo com ela, a “propaganda eleitoral na Internet somente será permitida na página do candidato destinada exclusivamente à campanha eleitoral”. Mas, o que será considerado “propaganda eleitoral”? Se eu me pronunciar em favor de determinado candidato isto será considerado “propaganda”? Seremos nós, blogueiros, proibidos de expressarmos nossas opiniões?

Outros episódios recentes também mostram a tentação autoritária dos velhos donos do poder, que estão na “grande mídia”. Em março, dois blogueiros perderam seus espaços: o primeiro foi Paulo Henrique Amorim, que cunhou a expressão “PIG” (Partido da Imprensa Golpista) para se referir aos grandes meios de comunicação e perdeu seu espaço no IG; e o segundo foi o Marco Weissheimer, do RS Urgente, que não pôde mais utilizar seu endereço antigo, pertencente ao UOL.

E tem ainda toda a adoração pelo “Capitão Nascimento” demonstrada por boa parte da classe média, que adoraria ter uma polícia ao estilo do BOPE carioca: atira primeiro, pergunta depois. Isto é o maior perigo: com a mídia falando toda hora em violência, muita gente fica assustada e acha que irá levar tiro assim que colocar o pé para fora da porta de casa. Amedrontar a população é a melhor maneira de “amaciá-la” e assim fazê-la aceitar quaisquer medidas, por mais autoritárias que sejam, que supostamente irão resolver o problema que lhes causa medo.

Como aconteceu 1964? Disseminou-se o medo do comunismo! Fizeram a classe média acreditar que os comunistas estavam prestes a tomar o poder, e que se isso acontecesse “os cidadãos de bem” (na verdade, “de bens”) perderiam tudo o que tinham conquistado “com muito suor”. Quando o que o governo de João Goulart faria seriam reformas, e não uma revolução socialista: Jango era pressionado tanto pela direita, que não admitia mudanças, como pela esquerda – principalmente por Brizola – que desejava maior rapidez nas reformas.

Quando Goulart optou pela esquerda e começou a mobilizar as massas em seu favor – como aconteceu no comício de 13 de março de 1964 na Central do Brasil, no Rio -, a classe média, já seduzida pela campanha de medo da direita, saiu às ruas e deu aval aos golpistas: foram as famosas “marchas pela liberdade”. Ficou apenas faltando a “gota d’água”, que se deu com a demonstração de solidariedade de Jango a sargentos rebeldes no final de março, que militares de alto escalão interpretaram como “quebra de hierarquia” – apesar do Presidente da República ser, pela Constituição, a mais alta autoridade do país, inclusive sobre as Forças Armadas.

E assim, no dia 31 de março, deu-se o golpe. No dia 2 de abril, João Goulart partiu para o exílio no Uruguai, depois de ter sido formalmente derrubado pelo Congresso, que declarou vaga a presidência mesmo com o titular do cargo ainda estando no Brasil.

Iniciava-se a longa noite da ditadura.