Sopa indigesta

Amanhã, a página inicial do blog direcionará para uma especial, criada em protesto contra um projeto de lei que tramita no Congresso dos Estados Unidos, o SOPA (Stop Online Piracy Act), que sob o pretexto de combater a pirataria na internet, acabará por instaurar a censura na rede. E não se engane, pensando que só afeta os EUA: boa parte dos servidores da web – dentre eles, os que hospedam este blog – se encontram lá…

Assim, se considerarem que um blog escrito por um brasileiro que mora no Brasil infringe o SOPA, não adianta o autor argumentar dizendo que vive bem longe dos EUA: adeus, conteúdo.

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O dia dos absurdos

Ontem seria o dia em que veríamos o inimaginável. Apenas seria. Pois os congressistas estadunidenses chegaram a um acordo sobre o aumento do limite da dívida pública, e com isso os Estados Unidos evitaram o que seria o primeiro “calote” de sua história.

Mas ainda assim, aconteceu o que, pelo menos, era para ser inimaginável. Não nos Estados Unidos, mas sim aqui no Brasil.

O primeiro absurdo veio de São Paulo. Na Câmara Municipal da capital paulista, foi aprovado um projeto de lei que cria o “dia do orgulho hétero” (o que me dá vergonha de ser hétero). É isso mesmo. Pelo visto, somos nós, os heterossexuais, que somos discriminados… Resta agora torcer para que Gilberto Kassab, prefeito de São Paulo, vete o projeto cujo autor é seu colega de partido, Carlos Apolinário (DEM).

Só que este partido, democrata no nome, não o é na prática. E não só devido a esta excrescência do “dia do orgulho hétero”. Pois foi o DEM que entrou com uma ação na Justiça para proibir a exibição nos cinemas brasileiros do filme de terror A Serbian Film – Terror Sem Limites. Pura e simples censura, 26 anos após o fim da ditadura (e vale lembrar que este mesmo partido “defensor da democracia” surgiu de uma dissidência da velha ARENA, que apoiava o regime de exceção).

“Democracia” também faz parte do nome de outro partido, o PDT (Partido Democrático Trabalhista). Só que um político deste partido (o deputado federal Giovani Cherini) decidiu processar o músico Tonho Crocco por conta de uma letra que critica o absurdo aumento salarial que os deputados estaduais do Rio Grande do Sul concederam a si mesmos no final do ano passado (época em que Cherini ocupava uma cadeira na Assembleia Legislativa do Estado). Para ele, pelo visto, democracia vale só até terminar a apuração eleitoral: criticar deputado que quase dobra o próprio salário (enquanto eu não posso fazer o mesmo com o meu), vira “ofensa”.

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Atualização (04/08/2011, 22:20). Agora que lembrei: Gilberto Kassab não é mais do DEM, saiu para criar o tal de PSD…

Isso, continuem dizendo que punir Bolsonaro é “censura”…

Ele não pode ser impedido de dizer o que quiser. Não deixar Jair Bolsonaro (assim como qualquer pessoa) falar, aí sim é censura.

Agora, querer que ele arque com as consequências do que diz é bem diferente. Quem acha que isso é “censura”, “ditadura das minorias” etc., ou é ingênuo ou pensa igual ao deputado.

O leitor quer ver o resultado da “liberdade de expressão” (que prefiro chamar “liberdade de pregar o ódio”*) de Bolsonaro? É só clicar aqui… E via das dúvidas, se for homem, é bom não mais demonstrar carinho pelo pai na rua.

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* Lembram que uma vez ele disse que filho homossexual era “falta de porrada”? Pois é…

Democracia nunca é demais

Reparem só na declaração do presidente do Grêmio, Paulo Odone: (Os grifos são meus.)

Ladrão é pouco. Nunca ouvi coisas como tenho escutado. O sujeito pega e te agride mesmo usando as redes sociais. Tem esta falta de censura. Não estamos amadurecidos para este porre de democracia. A internet é muito boa. É um instrumento que permite até derrubar ditaduras, mas ao mesmo tempo as pessoas perdem os limites – disse o presidente.

Impressão minha, ou o presidente gremista sente falta de uma repressãozinha? Foi esse papo furado de que “o povo não estava amadurecido para a democracia” que jogou o Brasil nas trevas da ditadura militar por longos 21 anos (além dos cinco de José Sarney, eleito indiretamente).

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Uma dica para ti, Odone: se queres parar de ouvir críticas e mesmo ofensas nas redes sociais, trata de fazer algo realmente bom pelo Grêmio, ao invés de rotular os críticos de “falsos gremistas” ou de dizer que “torcem contra” por “interesses políticos”.

Tu não gostas de ser ofendido, e te compreendo totalmente (afinal, quem gosta de ser ofendido?). Ofensa pessoal é algo que condeno. Mas se não consegues suportar críticas ao teu desempenho como presidente do Grêmio (o que é bem diferente de atacar a honra de tua pessoa), renuncia e abre espaço para outras pessoas fazerem algo pelo clube.

Sobre liberdade de expressão e seus limites

Já faz um bom tempo que eu quero escrever sobre isso. Vem desde a polêmica das declarações de Jair Bolsonaro, mas por diversos motivos, não tinha escrito ainda.

O que me motivou a escrever, é o mais recente processo judicial (ou ameaça de) sofrido por blogueiros. No caso, trata-se da Lola Aronovich, que escreveu um texto em seu blog criticando o CQC por uma série de piadas contra a amamentação em público. (Para quem não sabe, a nova moda reaça é ser contra as mulheres amamentarem seus bebês em público, acham que elas devem “ir a um banheiro”. Afinal, amamentar uma criança é igual a mijar ou cagar: não pode ser na rua, né?)

Marcelo Tas, integrante do CQC, leu o texto da Lola e não gostou. Houve uma troca de e-mails, e as mensagens de Tas foram publicadas no espaço de comentários, como “direito de resposta”. Só que ele não ficou satisfeito, queria “retificação” (ou seja, que a Lola alterasse o texto porque ele queria, e não por ela ter achado que deveria corrigir algo), e por conta disso, ameaçou-a com um processo judicial.

A Lola postou um novo texto, falando sobre a ameaça de processo, com uma imagem no início: “censurado”. Embora eu seja totalmente solidário a ela (ainda mais que Tas comprova que coerência não é muito o seu forte, ao cometer a “truculência jurídica” que ele critica no caso Folha x Falha) e ache que sim, processos judiciais contra blogueiros são uma forma de intimidação baseada no poder econômico – afinal, se um dia alguém “importante” me processar pelo que eu escrevo aqui isso significará o fim do Cão, pois não tenho como pagar bons advogados -, não se pode falar em “censura”, como bem lembrou o Vinícius Duarte. Afinal, o texto dela que originou a discórdia continua “no ar”. Assim como ela não precisou submetê-lo a nenhum órgão governamental (como tínhamos na ditadura) antes de publicar.

Tudo isso me faz pensar sobre a nossa tão valorizada “liberdade de expressão”. Após 21 anos de ditadura, poder falar o que se quer era um dos maiores anseios dos brasileiros, e por isso tal direito foi assegurado pela Constituição Federal de 1988.

Porém, como diz o velho e conhecido ditado, “a minha liberdade termina onde começa a do outro”. Ou seja: eu posso falar o que quero, mas tenho de arcar com as consequencias do que digo. Isso quer dizer que ninguém me impedirá de escrever um texto aqui chamando um fulano qualquer de FDP, mas caso ele se sinta ofendido, tem o direito a responder. Seja comentando, enviando e-mail pedindo que eu publique a resposta dele… Ou mesmo pela via judicial – que, apesar dos pesares, ainda me parece melhor que um “acerto de contas” à moda antiga.

Se o cara me processar, há censura? Não, pois o texto que originou o processo não precisou ser submetido a nenhum órgão antes de ser publicado. O sujeito apenas luta por seu direito – que é também meu – de não ser ofendido e as coisas ficarem “por isso mesmo”, e precisa convencer o juiz de que tem razão em sua reclamação.

(Óbvio que acho muito antipático processar alguém por conta de um texto, sem sequer tentar uma outra saída. Se eu ler alguma inverdade sobre mim em um blog, tentarei contatar o autor, pedindo que a minha versão seja publicada, para que “o outro lado” seja ouvido. Na pior das hipóteses, posso muito bem linkar o texto do cara e escrever a minha resposta, sem precisar apelar para a Justiça. Ou até mesmo ignorar: às vezes, nem vale a pena dar atenção, isso apenas dá mais audiência… Ou seja, processar por pode gerar o efeito contrário, pois um texto que poderia passar despercebido acaba sendo mais lido por conta de originar uma pendenga judicial.)

Por fim, precisamos ter cuidado na hora de gritarmos contra a “censura”. Pois esse é o mesmo argumento que vem sendo usado pelos defensores de Jair Bolsonaro: que puni-lo por suas declarações homofóbicas (e que incitam à violência, quando ele diz que “corrigiria” um filho homossexual “dando umas porradas”) significa “censurá-lo”. Ora, Bolsonaro já falou suas barbaridades, ninguém o impediu de se expressar. O que se quer, é apenas que arque com as consequências de seus atos.

A censura no Brasil

Esse tipo de censura nos atinge muito mais do que pensamos. Jamais veremos, por exemplo, algum dos principais jornais do Brasil publicar matérias que demonstrem o quanto melhor para a cidade – e mesmo para a saúde humana – é trocar o carro pela bicicleta: basta folhear o jornal e contar os anúncios de revendas de automóveis… A mídia corporativa depende dos anunciantes para sobreviver. Logo, não irá divulgar alguma notícia que prejudique os interesses das empresas que a patrocinam. (E quando uma matéria não é ruim para nenhum anunciante, pode o ser para o próprio dono do veículo de mídia.)

Para ler na íntegra, clique aqui e confira minha colaboração para o Jornalismo B.

A falha (para dizer o mínimo) da Folha

A Folha de São Paulo está processando os autores do blog Falha de São Paulo, que satiriza aquele jornal imparcial, por “uso indevido de marca” e “danos morais”. (Aliás, como se não se tratasse de uma publicação totalmente desmoralizada.)

E agora, não bastassem as manifestações de apoio aos blogueiros – que não têm condições financeiras de se defenderem de forma eficaz no processo – agora a organização Repórteres Sem Fronteiras pede à Folha que retire a ação judicial. A mesma RSF que é exaltada pela “grande mídia” quando critica a Venezuela, agora é ignorada por ela.

Ou seja: intimidar blogueiros, pode. Mas criticar a parcialidade da “grande mídia”, é “ameaça à liberdade de imprensa”…

O crescente controle da internet

Vídeo produzido por Jorge Nogueira, Rogério Garay, Guilherme Maltez e Jaqueline Madke, sobre as crescentes medidas tomadas no sentido de se violar a privacidade das pessoas na internet. Isso nas autoproclamadas “democracias”…

Alertem o Millenium!

Conforme o Milton Ribeiro, crescem as chances de José Serra desistir de concorrer à presidência para tentar a reeleição ao governo de São Paulo. Caso isso realmente aconteça, provavelmente o PSDB indicará o governador de Minas Gerais, Aécio Neves, para ser seu candidato.

Já que os defensores da liberdade de expressão que se reuniram no encontro do Instituto Millenium tanto temem a censura à imprensa, era bom que eles dessem uma olhadinha nos vídeos abaixo.