Dia de usar panelas…

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Para cozinhar, é claro. Pois neste domingo, fazer comida é um ato político. Mesmo que, no meu caso, tenha cozinhado apenas um ovo e uma porção de arroz (que, inclusive, eu poderia ter feito no sábado à noite mas deixei para o domingo justamente pelo caráter político da coisa).

“Panelaço” é coisa séria. Se consagrou como um protesto contra a pobreza e a falta de perspectivas – situações que deixam muitas pessoas com as panelas vazias, por falta de grana para comprar comida. Não por acaso, é uma forma de manifestação tipicamente latino-americana – e que chamou a atenção quando chegou à Europa, nos protestos contra a crise financeira na Islândia em 2009.

Mas sempre tem gente que desvirtua as coisas. No caso do “panelaço”, é gente que não passa o drama de estar com as panelas vazias por falta de dinheiro. Os sem-noção aqui do Brasil não são fato novo: na Venezuela, muito se bateu panela contra Hugo Chávez – e tal como aqui, não eram os mais pobres que o faziam. Não por acaso, enquanto rolava “panelaço” na Zona Sul do Rio de Janeiro, no Complexo do Alemão as panelas estavam sobre o fogão cumprindo sua função primordial de fazer comida.

Isso não quer dizer que vá tudo bem com o país. É fato que há inflação: mesmo que ela seja “brincadeira de criança” em comparação com o que tínhamos no final dos anos 80 e no início dos 90, é algo que complica a vida de quem ganha menos. O desemprego subiu: mesmo que ainda possa ser considerado baixo se fizermos uma comparação com outros países e inclusive com o Brasil de um passado não tão distante (10, 15 anos atrás…), causa preocupação a quem tem suas contas a pagar. Toda hora se descobre um novo escândalo de corrupção: a galera esquece que até não tanto tempo atrás o mais comum era as denúncias serem engavetadas e não investigadas, mas isso não inocenta o PT de ter aderido ao esquema apenas “porque os outros também faziam”.

Mas ainda assim me recuso a aderir ao coro do “Fora Dilma”. Primeiro, porque nem faz um ano que ela foi reeleita, e assim é descarado que protestos como os de hoje são puro chororô de quem perdeu a eleição e quer ganhar na marra. Coisa de criança mimada que quando não vê sua vontade atendida começa a espernear e a fazer escândalo.

Mas tem outro motivo também: mesmo que apareçam indícios que comprometam Dilma e assim justifiquem a abertura de um processo de impeachment, não tenho como participar de protestos como os de hoje. Um texto escrito por Luis Fernando Veríssimo em 2007 ajuda a explicar (aliás, basta trocar “Lula” por “Dilma” para o texto ficar totalmente atual):

Cumplicidade

Uma comprida palavra em alemão (há uma comprida palavra em alemão para tudo) descreve a “guerra de mentira” que começou com os primeiros avanços da Alemanha nazista sobre seus vizinhos. A pouca resistência aos ataques e o entendimento com Hitler buscado pela diplomacia européia mesmo quando os tanques já rolavam se explicam pelo temor comum ao comunismo. A ameaça maior vinha do Leste, dos bolcheviques, e da subversão interna. Só o fascismo em marcha poderia enfrentá-la. Assim muita gente boa escolheu Hitler como o mal menor. Ou, comparado a Stalin, o mau menor. Era notório o entusiasmo pelo nazismo em setores da aristocracia inglesa, por exemplo, e dizem até que o rei Edward VIII foi obrigado a renunciar não só pelo seu amor a uma plebéia mas pela sua simpatia à suástica. Não tardou para Hitler desiludir seus apologistas e a guerra falsa se transformar em guerra mesmo, todos contra o fascismo. Mas por algum tempo os nazistas tiveram seu coro de admiradores bem-intencionados na Europa e no resto do mundo – inclusive no Brasil do Estado Novo. Mais tarde estes veriam, em retrospecto, do que exatamente tinham sido cúmplices sem saber. Na hora, aderir ao coro parecia a coisa certa.

Comunistas aqui e no resto do mundo tiveram experiência parecida: apegarem-se, sem fazer perguntas, ao seu ideal, que em muitos casos nascera da oposição ao fascismo, mesmo já sabendo que o ideal estava sendo desvirtuado pela experiência soviética, foi uma opção pela cumplicidade. Fosse por sentimentalismo, ingenuidade ou convicção, quem continuou fiel à ortodoxia comunista foi cúmplice dos crimes do stalinismo. A coisa certa teria sido pular fora do coro, inclusive para preservar o ideal.

Se esses dois exemplos ensinam alguma coisa é isto: antes de participar de um coro, veja quem estará do seu lado. No Brasil do Lula é grande a tentação de entrar no coro que vaia o presidente. Ao seu lado no coro poderá estar alguém que pensa como você, que também acha que Lula ainda não fez o que precisa fazer e que há muita mutreta a ser explicada e muita coisa a ser vaiada. Mas olhe os outros. Veja onde você está metido, com quem está fazendo coro, de quem está sendo cúmplice. A companhia do que há de mais preconceituoso e reacionário no país inibe qualquer crítica ao Lula, mesmo as que ele merece.

Enfim: antes de entrar num coro, olhe em volta.

Pois bem: ainda que houvesse motivos para o impeachment de Dilma, eu não deixaria de ficar em casa cozinhando ao invés de ir ao protesto (nem sei se vai ter em Ijuí). Pois como bem alerta LFV, antes de entrar num coro eu olho em volta. E nesse em específico, eu me depararia exatamente com o que há de mais preconceituoso e reacionário no país. E como diz o texto (numa aparente contradição de LFV mas que não entendo como tal), não seria na companhia da direita que eu me manifestaria contra qualquer governo: não é “a minha turma”. Jamais serei cúmplice dessa gente que defende “meritocracia” (seria um sistema justo, sem aspas, se a todos fossem dadas as mesmas condições), fim dos programas sociais, expulsão de imigrantes, pena de morte, redução da maioridade penal, e, o pior de tudo, a tal “intervenção militar” (que jamais será “constitucional”). O que deixa bem claro que tolerância com o diferente não é o forte dessa gente.


O negócio, então, é zoar no dia de hoje. E já que a “moda” é protestar “contra a corrupção” vestindo a camisa da Seleção (com o escudo da super-correta e nada corrupta CBF), agora vai ter 7 gols da Alemanha (pois essa gente merece muito os 7 a 1). Se reclamar, vai ter 14. Se reclamar de novo, vai ter 28!

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Um país de secadores

Acabou agora há pouco a partida entre Brasil e Chile, empate em 2 a 2. Não vi todo o jogo, mas me chamou a atenção a quantidade de manifestações contra a Seleção no Twitter e no Facebook. (E não me refiro a quem foi ao Mineirão, pois as vaias foram um claro sinal de descontentamento com o fraco desempenho nos últimos três anos.)

Antes de qualquer coisa, não quero criticar ninguém por isso (até porque eu também não consigo torcer faz muito tempo). Mas ultimamente eu venho me questionando: por que tantos não apoiam a Seleção, e chegam a torcer contra?

“Há corrupção na CBF”, poderá me dizer alguém. E é um bom motivo, afinal, ela é responsável pela Seleção. Porém, há corrupção em nosso clubes, e isso faz com que torçamos contra eles?

“O futebol é o ópio do povo”, poderá me dizer outra pessoa. Espero que seja coerente e não fume, não beba…

“A Seleção não me representa”, também pode ser um argumento. Mas, por esse critério, posso até dizer que o Grêmio não me representa – e não é por estar jogando mal, já que por pior que esteja, jamais chegará perto de minha “categoria” com uma bola de futebol.

Vários questionamentos poderiam ser feitos para tentar entender o motivo pelo qual tanta gente seca a Seleção (já eu sou indiferente). Talvez seja porque há corrupção na CBF, por não gostarem de futebol, não se sentirem representados por aqueles jogadores etc. Ou, quem sabe, sou eu que tenho muitos amigos “secadores”…

A grande palhaçada do Brasileirão

Está complicado o futebol brasileiro ultimamente… Nem falo da Seleção (para a qual não dou a mínima), e sim, do Campeonato Brasileiro.

Dizer que o Fluminense está sendo beneficiado é complicado. Seria preciso ter provas de que os seguidos erros de arbitragem têm por objetivo facilitar o caminho do Flu rumo a mais um título – que, convenhamos, o clube carioca conquistaria de qualquer forma, por ser indiscutivelmente o melhor time do Brasil.

O problema é que agora, não querem nem que se insinue isso. Já foi o que vimos em um jogo do Náutico nos Aflitos, no qual o árbitro Leandro Vuaden só apitou o início da partida depois que a polícia retirou uma faixa de protesto que dizia “Não vão nos derrubar no apito” (referência ao absurdo pênalti não marcado a favor do clube pernambucano no jogo contra o Fluminense, no Rio). E por conta da torcida do Atlético-MG ter formado um mosaico nas cores do Flu e com a inscrição “CBF” de cabeça para baixo no jogo contra o mesmo clube carioca, o Galo foi denunciado no STJD.

Assim o leitor deve estar pensando: “bom, então é óbvio que o Flu está sendo ajudado”. Bom, de fato está, mas não exatamente por um “apito amigo”, e sim, por um “apito ruim”. Pois a arbitragem no Brasileirão é calamitosa. Como bem provou o acontecido no jogo do Inter contra o Palmeiras, sábado passado: o árbitro Francisco Carlos Nascimento inicialmente validou o gol que Barcos claramente marcou com a mão, para depois voltar atrás, alertado pelo quarto árbitro (e os bandeirinhas e os juízes de linha de fundo servem para quê?); pior, não deu cartão amarelo para o argentino.

Logo surgiu a polêmica de que o quarto árbitro teria visto o lance pela televisão – o que a regra proíbe. Ora, é impossível provar que ele sofreu ou não influências externas. Mas, o que aconteceu? O STJD decidiu deixar sub judice os pontos da partida, que poderá ser jogada novamente.

Alguém pode alegar, então, que o Palmeiras é beneficiado, e os adversários dele na briga contra o rebaixamento são prejudicados. De fato, isso está acontecendo. Mas é o futebol brasileiro como um todo que perde. E muito.

CBF: não mudou nada

A saída de Ricardo Teixeira da presidência da CBF, cargo que ocupava desde 1989 (que estranho, a Globo nunca o chamou de ditador…), é obviamente um fato a ser saudado. Afinal, já vinham de bom tempo atrás as acusações de corrupção contra Teixeira: em 2000-2001, uma CPI já investigara as denúncias contra a CBF.

O sucessor de Ricardo Teixeira, José Maria Marin, já foi governador de São Paulo por dez meses no início dos anos 80, completando o mandato de Paulo Maluf, que renunciou para ser candidato a deputado federal pelo PDS nas eleições de 1982. Vamos combinar que ter sido vice de Maluf não é algo lá muito abonador… E Marin assume com um discurso de continuidade, o que é ainda menos animador.

Afinal, o que deve ser mantido após estes 23 anos de “era Teixeira”? Os títulos da seleção brasileira (masculina), como as Copas de 1994 e 2002? Ora, mas quem joga são os jogadores, e não os dirigentes… (E se o Brasil é tão forte no futebol, é graças aos jogadores, e apesar dos dirigentes.)

Ou seria mantido o ridículo apoio da CBF ao futebol feminino? Que, aliás, confirma a nossa força apesar dos dirigentes, pois mesmo sem estrutura alguma e, pasmem, sem um campeonato nacional, as nossas craques são sempre candidatas ao título nas Copas do Mundo e nos Jogos Olímpicos.

Se houve algum progresso nos 23 anos de Ricardo Teixeira à frente da CBF (como a implantação dos pontos corridos e o respeito aos regulamentos no Campeonato Brasileiro), isso não apaga as denúncias contra o dirigente e toda a politicagem que marcou o período. Verdade que ela já existia antes de Teixeira assumir a presidência da CBF, mas se ele a manteve, francamente, não podemos falar em “progresso” do futebol brasileiro como um todo.

Ainda mais que os clubes brasileiros hoje em dia têm imensa dificuldade para manter seus jogadores frente ao assédio dos clubes europeus, que levam embora nossos craques cada vez mais cedo. Enquanto isso, a entidade demonstra preocupar-se apenas com a seleção (masculina), apresentada ao mundo como o principal “produto” da “marca CBF”, sem nada fazer em real benefício dos clubes.

Portanto, o momento não é próprio para empolgação. Ver Ricardo Teixeira fora da CBF pode ser bom, mas sua saída pode muito bem ser a famosa “troca de seis por meia dúzia”.

11/11/11

Que fim do mundo o quê… Hoje é dia do Baixinho!

Romário foi o maior de todos os que já vi jogarem ao vivo. Assisti ao Baixinho duas vezes no Estádio Olímpico: ambas pela Copa do Brasil, e com ele vestindo a camisa do Flamengo.

A primeira foi em 20 de maio de 1997, primeiro jogo da final que o Grêmio venceria no saldo qualificado, ao empatar em 2 a 2 no Maracanã, dois dias depois.

Já a outra teve um sabor mais amargo. Em 21 de abril de 1999, pelas oitavas-de-final, o Flamengo venceu por 2 a 1, e um dos gols foi de Romário. (No jogo da volta, empate em 2 a 2 no Maracanã e classificação rubro-negra.)

Romário sempre teve o hábito de dizer o que pensa, sem rodeios. E agora, como deputado federal pelo PSB, vem sendo uma legítima “mosca na sopa” dos organizadores da Copa do Mundo de 2014. Não pensa duas vezes antes de questionar o secretário-executivo da FIFA Jerome Walcke e o presidente da CBF Ricardo Teixeira pelas denúncias de corrupção contra os dois.

Minha proposta de calendário para o futebol brasileiro (e sul-americano)

O texto de domingo rendeu vários comentários acerca do calendário do futebol brasileiro. Destaco a proposta feita pelo André Egg em seu blog, bastante interessante – embora eu defenda algo um pouco diferente. Mas é a partir dela que escrevo.

Por mim, teríamos algo semelhante ao que defende o André em relação ao número de participantes dos campeonatos estaduais. Mas diferente quanto à duração: o modelo que considero ideal é o dos “superestaduais”, adotado em 2002, ano em que os torneios regionais (Copa Sul-Minas, Torneio Rio-São Paulo, Campeonato do Nordeste etc.) ocuparam o lugar dos campeonatos estaduais no primeiro semestre. Como “não se podia acabar com a tradição”, os estaduais foram mantidos, mas de curtíssima duração. O “Supergauchão”, por exemplo, começou em 18 de maio, e no dia 2 de junho o Inter levantou a taça.

Estes torneios estaduais poderiam ser realizados em fevereiro. Os clubes das Séries A, B e C do Brasileirão teriam participação garantida (em 2002, eram os participantes dos regionais). Os demais, disputariam as vagas que restassem até completar um número entre oito e doze equipes, ao longo do ano anterior ao torneio. As “eliminatórias” seriam divididas por regiões, de modo a que clubes de todas as partes dos Estados pudessem jogar os “superestaduais”. Citando um exemplo, o Rio Grande não precisaria ser promovido para enfrentar a dupla Gre-Nal, visto que as divisões estaduais seriam extintas (talvez só fosse necessário mantê-las em São Paulo, onde se disputa até pelo menos a quinta divisão).

Nesse torneio curto, os clubes das capitais jogariam apenas no interior (exceto, é claro, quando se enfrentassem). Assim, se daria mais chance aos times pequenos, assim como “se agradaria aos torcedores do interior”.

Quanto ao Brasileirão, eu não reduziria o número de participantes nas Séries A e B a 16, como propôs o André. Manteria em 20, mas com jogos apenas aos finais de semana – reservando as terças, quartas e quintas para Libertadores, Sul-Americana e Copa do Brasil. O Campeonato Brasileiro de 2011, desta forma, poderia ter começado em 19 de março, se estendendo até 4 de dezembro – ou seja, no próximo fim-de-semana se disputaria a décima rodada, e não a primeira. Isso sem nenhuma “folga” que poderia ser dada devido a convocações da Seleção (se bem que a maioria dos convocados joga na Europa, então…), mas ainda assim há bastante espaço para o Brasileirão.

A Série C atualmente conta com 20 clubes, mas o regulamento é diferente: o campeonato é disputado com fases de grupos e, na sequência, “mata-matas”. Eu acharia legal adotar a mesma fórmula das séries A e B: pontos corridos, turno e returno. Não sei se seria viável. Mas ao menos se manteria os participantes jogando o ano inteiro, como acontece nas séries A e B.

Na Série D, eu mexeria só na definição dos participantes: além dos quatro rebaixados da Série C, também seria disputada por clubes bem classificados nas “eliminatórias” para os “superestaduais” (que seriam jogados apenas pela tradição).

Quanto ao acesso e descenso, manteria como está: quatro caem, quatro sobem. Fossem apenas dois, poderia inviabilizar a disputa em pontos corridos das séries B e C, visto que no meio do campeonato um clube poderia já não ter mais chance de subir, mas também estaria livre do rebaixamento, e assim teria de se manter jogando sem motivação, o que facilitaria tentativas de suborno (não adianta pensarmos bonito, em “eles vão jogar pela honra”, se não estiverem disputando mais nada).

Mudaria a definição das vagas brasileiras à Libertadores. Atualmente, elas ficam com os quatro melhores do Campeonato Brasileiro, mais o campeão da Copa do Brasil (que seria disputada ao longo de toda a temporada, e não só em um semestre). Pela minha proposta, os cinco melhores do Brasileirão iriam para a Libertadores, e o campeão da Copa do Brasil asseguraria vaga na Copa Sul-Americana – vale lembrar que na Europa, nenhuma das copas nacionais classifica para a Liga dos Campeões. E algo bacana seria a volta da Supercopa do Brasil, entre o campeão brasileiro e da Copa do Brasil: na única edição, realizada em 1990, o Grêmio (campeão da Copa do Brasil de 1989) foi campeão diante do Vasco (campeão brasileiro de 1989).

Conforme avisei no título, as mudanças não devem acontecer apenas no Brasil. Deveriam mudar também a Taça Libertadores e a Copa Sul-Americana: assim como acontece com a Liga dos Campeões e a Liga Europa, os dois principais torneios de clubes da Conmebol deveriam ser realizados simultaneamente, e ao longo de toda a temporada. Poderiam começar em fevereiro, e serem decididos em novembro. E em janeiro do ano seguinte, se disputaria a Recopa Sul-Americana, entre os campeões dos dois torneios.

A Copa Sul-Americana deixaria de classificar para a Libertadores (ou seja, o “G-5” do Brasileirão seria sempre “G-5”). Afinal, com os jogos dela menos concentrados em uma época (atualmente, é disputada de agosto a dezembro), não iria “atrapalhar”, a ponto de precisar ter vaga à Libertadores para motivar os clubes a valorizá-la. Diferente do que acontece hoje, quando quem está bem no Brasileirão despreza a Sul-Americana, que acaba sendo prioridade dos times sem chances no campeonato nacional: foi assim com Inter (campeão de 2008), Fluminense (vice de 2009) e Goiás (vice de 2010, depois de ser rebaixado no Brasileirão).

Outra ideia para valorizar a Sul-Americana seria diminuir o número de clubes brasileiros e argentinos que a disputam. Ao invés de oito (que se enfrentam numa tosca “fase nacional”), iriam apenas quatro, direto para a disputa com os estrangeiros. Deixaria, assim, de acontecer a bizarrice de um clube escapar do rebaixamento na última rodada e acabar na Sul-Americana do ano seguinte.

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Claro, pensei nas datas levando em conta o atual calendário usado pelo futebol brasileiro, em que a temporada começa e termina no mesmo ano. Mas há as propostas para que se adote o chamado “calendário europeu”: assim, basta trocar janeiro por julho, março por setembro, dezembro por junho, e por aí vai…

E na Copa, torces para quem?

O Milton Ribeiro escreveu um belo texto no seu blog sobre a Seleção Brasileira e a falta de identificação de muitos brasileiros com o time.

Hoje em dia, basta dar uma olhada nas listas de convocações para perceber que a maior parte dos jogadores que, dizem, “representam o Brasil”, atuam em clubes europeus. É raro alguém ir a um estádio brasileiro e ver, ao vivo, um destes “seus representantes”. Três semanas atrás, naquele Grêmio x Santos, eu vi Robinho, e só – já que Victor não foi convocado para a Copa do Mundo.

E o pior é que nem se pode mais falar isso apenas para se referir aos clubes onde atuam os jogadores da Seleção Brasileira. Nos últimos anos, a CBF simplesmente não marcou mais amistosos por aqui, exceto aquele Brasil x Portugal (6 x 2) jogado em 2008 na reinauguração do Bezerrão, em Brasília (a propósito, por que construir outro estádio “moderno” lá para a Copa de 2014, ao invés de ampliar o já existente?). A Seleção joga onde “pagam mais”: ou seja, mais que um time que representa um país, virou uma “marca”.

E do jeito que vai, não duvidemos que nas Eliminatórias da Copa de 2018 a Seleção mande seus jogos em sua “nova casa”, o Emirates Stadium

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Quanto à pergunta do título: este ano, pelo menos, vejo a Seleção com menos antipatia do que em 2006, quando chegava a sentir nojo (além da baderna, a “grande mídia” insistia naquela porra de “quadrado mágico” que só funcionava na ficção). Assim fica mais fácil torcer por ela – ou não secá-la.

Mas não escondo que acharia muito bacana ver a Copa sendo levantada pelo Uruguai ou por alguma seleção africana. Se não der nenhum deles (o que é mais provável), pode ser a Argentina (por causa do Maradona) ou a Holanda (para reparar uma tripla injustiça, já que a Laranja Mecânica era o melhor time nas Copas de 1974, 1978 e 1998, e não ganhou nenhuma delas).

E tu, leitor ou leitora, torces para quem?

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Atualização (03/06/2010, 02:49): mais um texto interessante sobre “torcer ou não pela Seleção”, lá no Somos todos torcedores.

Mais sobre pontos corridos x “mata-mata”

Mais dois ótimos textos a respeito da tentativa da Rede Globo de impor suas vontades sobre o futebol brasileiro:

  • O primeiro é do Hélio Paz, que relembra inclusive um post escrito por ele mesmo em outubro de 2007 sobre a fórmula e lembra que a credibilidade de um campeonato depende fundamentalmente da sua regularidade – e é o que vem acontecendo com os Campeonato Brasileiro, desde 2006 com o mesmo regulamento: pontos corridos, 20 clubes e rebaixamento de quatro equipes. Número de vagas à Libertadores é algo que não depende somente da CBF, embora também não tenha sofrido alterações desde então;
  • O segundo, que foi citado pelo Hélio também, é do Bruno Coelho, no Grêmio 1903, que considera o retorno do “mata-mata” como um retrocesso para o futebol brasileiro (e de fato, é), e também detona alguns mitos contra os pontos corridos, como a tal “falta de emoção”.

Os dois apresentam bons argumentos a favor dos pontos corridos. Já em favor do mata-mata, o que existe? Só os interesses comerciais da Globo, que deseja conquistar a esmagadora maioria da audiência brasileira em uma tarde de domingo, transmitindo a “grande final”.

Espero que a CBF, que merece muitas críticas, desta vez faça por merecer um elogio e não se curve à Globo. Inclusive na questão dos horários dos jogos: o presidente Ricardo Teixeira deseja que no Brasileirão 2010 os jogos no meio de semana comecem às 20h, e não mais às 21h ou 21h45min – o último é o horário da transmissão da Globo, depois da novela, reservado aos jogos “mais imporantes”.

Jogos às 20h são muito melhor para o torcedor, já que terminariam por volta das 22h (exceto se fossem eliminatórios, onde haveria a possibilidade de prorrogação ou pênaltis), horário em que ainda há uma boa disponibilidade de linhas de ônibus. Para se ter uma ideia, em jogos da Libertadores que fui gastei uma nota em táxi porque a partida terminou à meia-noite e perdi o último T5, que só conseguiria pegar se saísse rápido do estádio e ainda teria de contar com a sorte para não pegar atrolhado – tanto que pego o ônibus algumas paradas antes para que esteja vazio.

Tomara que se dê um passo para diminuir a influência da televisão no futebol, que decide onde, quando e como se joga. É hora de deter a “telecracia”, nas felizes palavras de Eduardo Galeano em seu ótimo livro “Futebol ao sol e à sombra” (L&PM, 2002, p. 195):

No Mundial de 86, Valdano, Maradona e outros jogadores protestaram porque as principais partidas eram disputadas ao meio-dia, debaixo de um sol que fritava tudo o que tocava. O meio-dia do México, anoitecer da Europa, era o horário que convinha à televisão européia. O arqueiro alemão, Harald Schumacher, contou o que acontecia:

– Suo. Tenho a garganta seca. A grama está como a merda seca: dura, estranha, hostil. O sol cai a pique sobre o estádio e explode sobre nossas cabeças. Não projetamos sombras. Dizem que isto é bom para a televisão.

“Brasil” 2 x 0 Itália

O melhor comentário sobre o amistoso de ontem nem fala sobre o jogo em si. É do André, lá no Cataclisma 14:

Eu ia comentar sobre a demissão do Big Phil, mas tudo indica que ele voltará a treinar o Brasil – não há nada oficial ainda, claro, mas o técnico já admitiu que permanecerá residindo na Inglaterra que, como todos sabem, é a atual terra natal da seleção brasileira.

Depois comentei o texto dele, lembrando que, em breve, a Seleção Brasileira passará a se chamar “Brazilian Team”, e convocará jogadores como “Little Robbie” e “Little Ronald”. E a confederação responsável por ela passará a ser a “Brazilian Football Confederation”.

Façanha boliviana

A última vez que torci mesmo pela Seleção Brasileira foi na Copa de 1994. Não era o futebol mais adorado pela torcida, mas eu ainda me identificava com o time. Talvez pelo fato de que fazia tanto tempo que o Brasil não era campeão.

Depois, comecei a sentir antipatia pela equipe – o Zagallo certamente colaborou muito com isso. E uma das vezes que mais torci contra foi justamente num Brasil x Bolívia, em 1997: Zagallo convocou Paulo Nunes para a Seleção, deixando-o no banco de reservas durante praticamente toda a Copa América, enquanto no Grêmio ele teria sido utilíssimo, e talvez o Tricolor tivesse passado pelo Cruzeiro nas quartas-de-final da Libertadores se o “diabo loiro” estivesse à disposição da equipe. Na decisão do título da Copa América contra os bolivianos em La Paz a altitude não foi tão decisiva, o Brasil fez 3 a 1 e eu tive uma congestão: afinal, engolir o Zagallo não é fácil…

Na Copa de 2002 ainda torci por causa do Felipão, mas sem a mesma intensidade de 1994. Depois, nunca mais. Ainda mais que a Seleção deixou de ser realmente brasileira, jogando apenas na Europa e às vezes nos Estados Unidos, e com raras convocações de jogadores que atuem no Brasil. O time busca apenas atender a interesses econômicos: os amistosos são disputados onde se paga mais pela presença da marca CBF do Brasil, e não com os atletas tendo contato com a torcida brasileira, em seu país.

Por isso, adorei ver a CBF o Brasil empatar em 0 a 0 com a Bolívia, em um Engenhão cheio… De espaços vazios nas arquibancadas. Botaram ingressos caros para ver essa farsa que dizem representar o país.

Quem realmente representa o Brasil são os atletas olímpicos e paraolímpicos, que até sem ganhar medalhas são vencedores, já que conseguem competir mesmo sem o menor incentivo. No futebol, a Seleção Brasileira Feminina consegue ser vice-campeã mundial e olímpica representando um país sem um campeonato nacional da modalidade.

Já esse time que a mídia insiste em chamar de Seleção Brasileira… Quero mais é que fique fora da Copa de 2010. Quem sabe assim aconteça alguma mudança profunda que faça esse time voltar a representar realmente o Brasil.