A esquina da agonia

Quinta-feira, fui e voltei do trabalho pelo mesmo caminho. Ao invés de “cortar” pela Redenção, optei pela Sarmento Leite, pelo meio do Campus Central da UFRGS. Assim, tive de passar duas vezes pela esquina da Sarmento com a Osvaldo Aranha, que passo a denominar, “carinhosamente”, como “esquina da agonia”.

O motivo? É que ali, pedestre mofa esperando uma chance para atravessar. É preciso esperar que feche o sinal não só para cruzar a Sarmento Leite, como a Osvaldo Aranha no trecho em direção à João Pessoa, visto que os carros dobram ali um atrás do outro. E o tempo que se tem para atravessar é mínimo: mal a sinaleira abre para os pedestres, já fecha, e os carros voltam a converter um atrás do outro… Um dia vou cronometrar, mas tenho certeza de que os veículos têm no mínimo três vezes mais tempo do que quem anda a pé. (E alguns motoristas, não satisfeitos com o latifúndio temporal à disposição deles, ainda dobram mesmo com o sinal vermelho: semana passada eu começava a atravessar quando uma daquelas caminhonetes poluidoras se atravessou; gesticulei lembrando que era a minha vez de passar e a motorista teve a cara de pau de reclamar como se estivesse certa.)

Obviamente defendo que se aumente o tempo para quem anda a pé atravessar, o que certamente gerará uma reação contrária. “Vai trancar o trânsito!”, dirá o(a) motorista revoltado(a) e estressado(a). Pois bem: trancará mais o trânsito de veículos automotores (é preciso fazer tal ressalva, pois pedestres e ciclistas também são trânsito). E que seja assim mesmo, pois nos finais de tarde, a maioria dos carros circula apenas com o motorista: além de “trancar o trânsito”, também representa um grande desperdício de energia, pois gasta-se combustível – que também polui o ar que respiramos – para mover uma máquina cuja massa é em torno de uma tonelada, com o objetivo de transportar uma pessoa de aproximadamente 80kg. (E esses 80kg tendem a aumentar, com mais gente preferindo andar de carro do que a pé.)

Aliás, por mim automóveis particulares teriam circulação restrita na área central há muito tempo. “E o direito de ir e vir?”, pergunta novamente o(a) motorista revoltado(a) e estressado(a). Pois bem: ele tem de ser garantido a todos, independentemente do meio usado para se locomover. E sinto que é o meu – e o de muitas pessoas – que está sendo negado, ao se permitir que milhares de carros transportando apenas o motorista congestionem as ruas da cidade: quantas vezes já não mudamos nossa programação (tanto em termos de horários como de local) devido à tranqueira? Sem contar o próprio prejuízo à nossa saúde: além da poluição, uma rua tomada de veículos que não andam impede que uma ambulância chegue rápido a seu destino e salve uma vida.

Assalto na Avenida Independência

Fui assaltado ontem em uma parada de ônibus na Avenida Independência, pouco depois das 20h. Após me encostar por baixo da roupa a ponta de uma suposta faca (talvez fosse até mesmo uma ponta de caneta, mas eu não quis tirar a dúvida), o ladrão pediu o celular (não pude mentir que não tinha pois pegara para ver a hora pouco antes); depois pediu o dinheiro mas não quis levar a carteira, como eu não estava com pouca grana o cara foi “gente boa” e me deixou 10 reais “para a passagem”. Prejuízos apenas materiais, portanto.

Fazia mais de 10 anos que não era assaltado, e obviamente me deu muita raiva de ter sido roubado por um homem que, talvez, nem estivesse realmente armado. Mas ao mesmo tempo, o acontecimento de ontem pode nos deixar lições, que vão além do clichê “tomar mais cuidado e não esperar ônibus num lugar com pouco movimento e mal iluminado”.

Como a de que carro passando na rua não é segurança (aliás, coisa que eu já sabia há muito tempo). A Independência é uma das principais vias que saem do Centro de Porto Alegre, e às 20h ainda tem considerável fluxo de veículos. Porém, falta o que realmente pode intimidar a ação de ladrões: pessoas nas calçadas. Após o horário comercial, a movimentação de pedestres na Independência cai muito, tornando-a bastante atraente a criminosos.

Por que cai o movimento? Podemos citar diversos fatores (dentre eles o fato da Independência ser uma via predominantemente residencial, com raros bares ou restaurantes que funcionem à noite). Mas o principal, sem dúvida alguma, é a cultura do medo tão arraigada em nossa sociedade.

Não entendeu? Então ligue a televisão, de preferência naqueles programas asquerosos do estilo mostra-a-cara-do-vagabundo. O que eles fazem não é jornalismo, é terrorismo. Se os levarmos a sério (e infelizmente, muita gente leva), vamos ficar trancados dentro de casa a maior parte da vida, apenas dando mais audiência a eles. Afinal, se é fato que há violência, ao mesmo tempo reparo que na esmagadora maioria das vezes que saí à rua não me aconteceu absolutamente nada.

Porém, tais “noticiários” em geral nos passam a ideia de que a rua é um lugar inóspito, extremamente perigoso. E acreditamos que devemos sair do trabalho, da aula etc., e ir direto para casa, sem escalas. Quanto menos tempo na rua, melhor!

O resultado é esse que senti na pele ontem e muita gente já conhece. As ruas deixam de ser espaços de sociabilidade, já que as pessoas preferem se encontrar no shopping. Tornam-se apenas pontos de passagem (que é feita predominantemente de carro, e não a pé), e por isso mesmo, mais perigosas. E pior ainda: pessoas assustadas aceitam qualquer medida que supostamente acabe com a causa de seu temor. Pode ser um Estado policial, ou mesmo a barbárie de um linchamento.

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Estamos, portanto, trilhando o caminho inverso ao de Bogotá (como mostra a ótima matéria feita por Renata Falzoni em 2010 com o ex-prefeito da capital colombiana, Enrique Peñalosa). Na década de 1990, a cidade era talvez a mais violenta do mundo, e seu trânsito era caótico. Peñalosa assumiu a prefeitura em 1998 e resolveu os dois problemas promovendo uma mudança de mentalidade: ao invés de alargar ruas e erguer viadutos, optou por melhorar o transporte coletivo e pela construção de ciclovias e vias para pedestres, estimulando a retomada das ruas pela população (o que ajuda a inibir a criminalidade, que despencou em Bogotá). Além disso, proibiu o estacionamento nas ruas com um argumento que, de tão óbvio, chega a dar raiva por não ser levado a sério no Brasil: o estacionamento não é um direito constitucional em nenhum país, e o fato das pessoas não terem onde estacionar seus automóveis particulares (ou seja, propriedades privadas) não é problema público.

Para que serve uma árvore?

O prefeito de Porto Alegre parece não saber, conforme declarou ao Correio do Povo. Ele acha que todas aquelas árvores derrubadas defronte à Usina do Gasômetro “não eram utilizadas” pela população.

Aliás, o que quer dizer “utilizar uma árvore”? Eu achava que elas serviam para serem aproveitadas, proporcionar sombra, purificar o ar etc. Aliás, “aproveitar” é um dos sinônimos de “utilizar”, o que quer dizer que aquelas árvores eram muito bem utilizadas.

Porém, para a prefeitura aquelas árvores só serviam para atrapalhar o andamento de uma “obra da Copa”. É assim no Gasômetro, e também lá na Anita Garibaldi, onde será construída uma passagem de nível também chamada de “trincheira” (se bem que o nome acerta na mosca: priorizar o automóvel faz o trânsito ficar cada vez mais estressante, num clima de “guerra”).

Se as árvores são “inúteis” e atrapalham o trânsito, então botem-nas abaixo! Afinal, em Porto Alegre o tempo é sempre frio e chuvoso… Essa história de “Forno Alegre” é coisa da oposição.

Carro pra quê?

Terça-feira era dia de aula na especialização. Assim, ao invés de sair do trabalho e voltar a pé para casa, embarquei em um ônibus da linha T1.

Na hora de descer, me deparei com o par de olhos mais lindo que já vi. Até agora me pergunto se o rosto dela era tão belo assim, ou se era só reflexo daqueles olhos verdes…

Isso também me faz perguntar: comprar um carro, pra quê? Quando saio com os amigos, também me acompanha a cerveja – o que me deixa inapto a voltar dirigindo. Assim, melhor pegar carona com quem não bebe, ou um táxi, ou até ônibus no caso deles ainda passarem.

Usar carro durante a semana, para ir e voltar do trabalho? Nem pensar. Se andando a pé (ou de ônibus, como na última terça) já sou estressado ao extremo, imaginem dirigindo no “fantástico” trânsito de Porto Alegre? Isso não iria acabar bem.

De qualquer forma, adoro andar de ônibus, apesar dos pesares (como os constantes aumentos na passagem que não correspondem a uma melhoria no serviço – o que motiva mais gente a usar o carro no dia-a-dia). Ao contrário do Milton Ribeiro, não consigo ler durante o trajeto (embora eu siga insistindo em levar um livro toda vez que viajo de ônibus), então procuro observar as pessoas, as paisagens. Olho tanto para fora como para dentro do ônibus, e vejo tanto coisas ruins como boas.

Quando se está dirigindo, por sua vez, é impossível fazer tais observações sem correr sérios riscos. A única coisa que interessa é saber a distância do carro da frente, cuidar a velocidade, a sinalização etc. E a coisa piora quando o trânsito está caótico. Enfim, acho um saco dirigir na realidade, esse negócio que acontece fora das propagandas de automóveis.

Sem contar que dirigindo não há a possibilidade de poder observar um belo par de olhos verdes: se olhar demais, o sinal é que fica verde e preciso acelerar para não ser xingado até a quinta geração.

Por IPI zero para bicicletas

Para deter a desaceleração da indústria automobilística no Brasil, o governo decidiu baixar o Imposto sobre Produtos Industrializados (IPI) sobre automóveis novos. Para carros de mil cilindradas, o imposto foi zerado.

Porém, uma pergunta que faço é: com o trânsito cada vez mais caótico nas grandes cidades brasileiras, ainda vale a pena comprar um carro?

Eu, particularmente, prefiro continuar andando a pé, de ônibus, lotação, táxi, carona… Se assim eu já sou um cara estressado, imaginem se dirigisse nesse caos todos os dias? É portanto duvidoso o benefício econômico do “IPI zero” para automóveis: quem não é facilmente seduzido pela propaganda vai pensar bem antes de decidir comprar um carro.

Mas, talvez realmente as pessoas saiam a comprar mais carros. Teremos assim mais motoristas nas ruas, cada vez mais estressados. Mais poluição atmosférica. Consequentemente, os hospitais ficarão ainda mais lotados com gente doente.

Já se o “IPI zero” fosse para bicicletas, veríamos o contrário. A venda de bicicletas certamente aumentaria, afinal, elas já são mais baratas que automóveis. Teríamos um estímulo a mais bicicletas e menos carros nas ruas – e consequentemente menos poluição atmosférica, visto que as bicicletas não emitem gases (a não ser que o ciclista peide muito). Só isso já seria benéfico à saúde da população, mas como se não bastasse, andar de bicicleta é também um excelente exercício; portanto, o benefício à saúde seria duplo.

Na verdade, triplo: bicicletas ocupam menos espaço que carros, e assim o trânsito fluiria muito melhor. As pessoas se estressariam menos, e por isso, ficariam menos doentes.

O caos no trânsito de Porto Alegre é também um problema de saúde pública

Avenida João Pessoa, defronte à UFRGS, por volta das 6 da tarde da quinta-feira, 26 de abril. Alguém precisou de uma ambulância. E ela ficou presa no caos que é o trânsito de Porto Alegre em todos os finais de tarde.

Não sei qual foi o motivo pelo qual esta ambulância foi chamada. Só espero que tenha sido algo “simples”, tipo uma fratura: dói, mas não põe em risco a vida da pessoa. Bem diferente de um infarto. E o pior é que problemas de saúde não costumam marcar hora: podem vir tanto numa noite de domingo como num final de tarde de quinta-feira. Com ou sem congestionamento.

Aí reclamam que as bicicletas da Massa Crítica atrapalham o trânsito (como se apenas automóveis fossem trânsito). Será que realmente são elas? Ou não será esta montoeira de carros (vista por muitos como “prova da pujança econômica do Brasil”), que impede a passagem de um veículo que tem por objetivo salvar uma vida?

Um ano depois

Ontem, se completou um ano do atropelamento da Massa Crítica de Porto Alegre. O responsável pela barbárie daquele 25 de fevereiro de 2011 responde em liberdade por 17 tentativas de homicídio.

Depois de um ano e de muitas manifestações de solidariedade à Massa Crítica de Porto Alegre, nossa cidade sedia o primeiro Fórum Mundial da Bicicleta, “para discutir o futuro das cidades e o papel da bicicleta nos âmbitos social, econômico, ambiental, esportivo e cultural”, conforme informa a página oficial do evento. Ou seja, apesar dos pesares o atropelamento acabou tendo esta consequência positiva, de fomentar o debate sobre a bicicleta como meio de transporte, e não apenas como lazer.

Porém, nem tudo são flores. Enquanto Porto Alegre deveria se voltar para a discussão de um sistema de mobilidade urbana que deixe de privilegiar os automóveis particulares (modelo que se prova ultrapassado a cada final de tarde em que se locomover pela cidade requer paciência extrema), há um projeto do vereador Alceu Brasinha (PTB) na Câmara Municipal que aumenta o limite de velocidade para 70km/h na cidade – atualmente o máximo permitido é de 60km/h, sendo exceção a Avenida da Legalidade, via expressa na qual se pode transitar a 80km/h.

Alguém acredita que aumentar o limite de velocidade vai melhorar o trânsito? Até porque, com o limite de 60km/h, em horários de pico dificilmente se anda a mais de 20km/h. O que quer dizer que o problema não é a velocidade máxima permitida e sim, a quantidade de carros.

Sem contar o principal: 60km/h já é uma velocidade elevada. Um vento de 60km/h é suficiente para causar alguns transtornos como falta de luz, queda de galhos de árvores etc. Caminhar contra ele, então, requer alguma força.

Agora, imagine o choque de um carro a 60km/h. Melhor só imaginar, jamais querer experimentar.

O que há de bom no verão em Porto Alegre

Na última quarta-feira, disse que o verão de Porto Alegre só tem uma coisa boa, o fim. Gostaria de fazer uma justa correção: há outra coisa boa (além do Porto Verão Alegre, quando se pode assistir espetáculos de teatro, música e dança a preços mais acessíveis do que no restante do ano).

Trata-se da redução populacional na cidade. Hoje, às 6 e meia da tarde, o movimento nas ruas era inacreditável, em nada lembrando uma segunda-feira. Na Avenida Loureiro da Silva, onde a tranqueira no fim da tarde é mais previsível do que a música de final de ano da Globo, o trânsito fluía.

Não fosse o calor insuportável (que felizmente decidiu tirar “uns dias de folga”), o verão seria a melhor época para se estar em Porto Alegre. Pois boa parte da população – em conjunto com seus carros – migra para o litoral, levando para lá os congestionamentos, as filas nos supermercados, nos restaurantes…

O problema é que, além do fato de que dias como hoje (em que faz um pouco de calor e com vento, não aquela febre da semana passada) serem exceção nessa época, o verão só acaba entre março e abril, enquanto o fluxo migratório para o litoral inverte o sinal após o Carnaval – que em 2012 será pouco depois do meio de fevereiro. O que quer dizer que teremos pelo menos um mês de combinação “febre e caos”.

Manobrista bêbado

Quem aceitaria que seu carro fosse estacionado por um manobrista bêbado? Em sã consciência, ninguém…

Trata-se de uma genial campanha de dois bares em São Paulo – aliás, são os mesmos que cobraram “valores absurdos” de seus clientes, como forma de lembrar a eles que dirigir alcoolizado pode sair muito caro do que pegar um táxi.

Motoristas se manifestam em Porto Alegre

Na última sexta-feira de cada mês, ciclistas se reunem na chamada Massa Crítica, que percorre várias ruas de Porto Alegre. É assim não só aqui, como em várias cidades do mundo.

Só que não apenas na última sexta-feira de cada mês, mas sim diariamente, motoristas têm se manifestado em Porto Alegre. É a “Anti-Massa Crítica”, que chama a atenção para a verdade sobre quem são realmente os donos das ruas. As manifestações, iniciadas há anos, estão cada vez maiores. Enquanto os ciclistas celebram a participação de centenas, os motoristas são centenas de milhares!

Confira um pouco do grande ato acontecido em 12 de maio de 2010, no cruzamento das avenidas Plínio Brasil Milano e Carlos Gomes, Zona Norte da cidade:

E eu já estou decidido a aderir, afinal, é preciso fazer o que todo mundo faz. Larguei mão da ideia de ter uma bicicleta, vou é comprar um carro a 300 prestações!

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Óbvio que os tais “protestos motorizados” (e a minha decisão) nada mais são do que uma ironia quanto aos congestionamentos que são cada vez piores em Porto Alegre. É essa a ideia do genial Vá de Auto: assim como o (infelizmente parado) Classe Média Way of Life, critica um tipo de pensamento através da sátira.