A primeira “urucubaca”

Na hora de me comprar algum presente no Rio de Janeiro, minha mãe optou, claro, por um livro. E obviamente, de História: no caso, é “Histórias de presidentes”, de Isabel Lustosa.

O livro conta diversas histórias – algumas hilárias – sobre os presidentes do Brasil que passaram pelo Palácio do Catete de 1897 a 1960, período em que o local era a sede da Presidência da República. Não terminei de ler o livro, mas já sinto a necessidade de compartilhar alguns fatos engraçados com os leitores do Cão. Como, por exemplo, dos quatro anos (1910-1914) de governo do marechal Hermes da Fonseca (ou será que era do Pinheiro Machado?). De acordo com Lustosa, Hermes foi um dos presidentes mais satirizados da História do Brasil.

Dizia-se que quem governava o Brasil, na verdade, era o senador Pinheiro Machado, gaúcho como Hermes da Fonseca. Segundo uma anedota publicada na revista O Gato, em 1913, Hermes teria confidenciado a Venceslau Brás (seu sucessor na Presidência): “Olha, Venceslau, o Pinheiro é tão bom amigo que chega a governar pela gente”.

Às vésperas do Carnaval de 1912, morreu o Barão do Rio Branco, notável diplomata do Brasil. Para homenageá-lo, o governo federal decidiu adiar o Carnaval para abril. Resultado: o povo “pulou” tanto o Carnaval de fevereiro quanto o “oficial”, em abril…

Mas notável também era a fama de azarado do marechal Hermes. A palavra “urucubaca”, hoje tão utilizada, teria sido criada em 1915 pelo caricaturista Yantok para “homenagear” a má sorte do já ex-presidente.

A “urucubaca” já teria se manifestado, e de forma fatal, em um desentendimento do marechal Hermes com o presidente Afonso Pena, em 1909. Poucos dias depois, Pena faleceu.

Em outubro de 1910, já eleito presidente, Hermes visitou Portugal. Enquanto o rei D. Manuel II recepcionava o marechal, eclodia o movimento revolucionário que implantou a república no país.

Mas a melhor (para os humoristas, não para as finanças brasileiras) foi o depósito de metade dos 2,4 milhões de libras emprestados pelo Loyds Bank entre 1911 e 1912 ao governo brasileiro em um banco russo. A quantia, junto com o banco, foi encampada pela Revolução Russa em 1917…

Hermes da Fonseca deixou a Presidência em 15 de novembro de 1914, debaixo de vaias.

A Carnavalização da vida

Quarta-feira, postei sobre a “felicidade do Natal”. Algo que para mim é tão falso quanto o tal “espírito”. Afinal, não acredito nem em Papai Noel nem em Deus para comemorar o nascimento de Cristo. Citei um artigo do Luiz Carlos Azenha no Vi o Mundo sobre a “obrigação de se divertir”, que me lembra bastante a “obrigação de se sentir feliz no Natal”.

Eis que, no mesmo local, acho outro ótimo texto do Azenha sobre a chamada “Carnavalização da vida”, em que posta trechos de outro artigo, também excelente, de Umberto Eco, sobre isso. Numa das passagens, Eco diz:

Mas precisamos refletir sobre o fato de que a Carnavalização total não satisfaz o desejo, só aumenta. Prova disso encontramos nas discotecas, onde depois de toda a dança e todos os decibéis os jovens ainda saem para a gincana da morte em alta velocidade nas avenidas.

Leia o texto completo aqui.

Revendo conceitos

Em agosto do ano passado, escrevi um post explicando os motivos pelos quais eu não sinto vontade de deixar o Rio Grande do Sul para fazer um mestrado no Rio de Janeiro – onde se localizam duas das universidades mais bem conceituadas na área de História, a Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ) e a Universidade Federal Fluminense (UFF).

Bom, ainda continuo não muito disposto a fazer isto, basicamente pelos mesmos motivos: clima – tenho excessiva produção de suor, o que me faz literalmente tomar banhos quando caminho pelas ruas nos dias de verão, mas pelo menos o calor aqui em Porto Alegre não dura o ano inteiro – e não ter como prioridade a carreira acadêmica, pois não quero publicar mil e um artigos em revistas acadêmicas que serão lidas só pelos meus pares, e sim escrever para despertar o interesse pela História em quem não está na faculdade de História (este é um projeto que penso em concretizar logo). E isto eu posso fazer aqui.

Mas, muita coisa que eu pensava, mandei para a “lata do lixo”. Não são sobre o Rio de Janeiro e sim, do Rio Grande do Sul.

Sobre a cerveja, eu já havia reconhecido naquele post de agosto: a Polar é muito boa, mas não é melhor que a Bohemia. Os marqueteiros que produziram as campanhas publicitárias da Polar souberam explorar o forte sentimento regionalista dos gaúchos para vender um produto que nem é mais “daqui”: a cervejaria Polar foi comprada – há muito tempo – pela AmBev.

Reflexo de nosso regionalismo, de nosso “provincianismo” até. Temos tendência a desvalorizar tudo o que “não é daqui”.

E tal preconceito é forte até mesmo entre a esquerda: em 2006 eu votei no Olívio porque achava que ele, um político identificado com os trabalhadores, seria muito melhor governador do que a Yeda, que formou um dos governos mais bizarros da história gaúcha – como exemplo cito o fato da Secretária de Cultura (filha de um dos mais ardorosos defensores da Ditadura Militar) ter sido candidata ao Senado defendendo a bandeira da segurança pública. Mas vi muita gente que sempre defendeu ideais de esquerda dizer que não se devia votar na Yeda simplesmente porque “ela é paulista”. Ou seja, se a pessoa nasceu em outro Estado não tem o direito de governar o Rio Grande do Sul, mesmo que fixe raízes aqui?

Já o Rio de Janeiro foi governado duas vezes por um gaúcho (Leonel Brizola) que, aliás, acabou indo morar lá definitivamente – só voltou a “fixar residência” no Rio Grande do Sul depois de morto. Segundo uma amiga nascida lá, quando Brizola se candidatou ao governo do Rio os adversários não tentavam desqualificá-lo porque era gaúcho.

Bom, poderá usar-se o argumento de que o Rio foi capital federal e, assim, é mais aberto ao resto do Brasil. Mas provavelmente nenhum Estado seja tão fechado culturalmente quanto o Rio Grande do Sul.

Querem uma prova disso? O Carnaval. Tem gente que não é muito de pular Carnaval (é o meu caso), mas a classe média em geral vai a “bailes de Carnaval”. Pois bem: vão às festas de sua classe, mas não querem saber do Carnaval popular, no caso os desfiles de escolas de samba. Aliás, tem gente que adora dizer “o Carnaval de Porto Alegre é ruim” não com o sentido de “tem que melhorar!”, e sim, de “isso não tem que ter aqui”.

Lembram de como a mídia batia no fato de que depois dos desfiles de Carnaval muitas vezes acontecia das escolas deixarem carros alegóricos abandonados nas ruas, “sujando a cidade”? Pois bem: e quando que reclamaram de, depois dos desfiles de 20 de setembro, as ruas ficarem sujas de bosta dos cavalos que desfilaram? Nunca!

Além disso, argumentavam que era preciso “interromper o trânsito” para realizar o Carnaval (e isso não acontece para o 20 de setembro?) e assim justificavam a necessidade de Porto Alegre ter um sambódromo. Mas no Centro e em bairros próximos, nem pensar: a classe média se levantava toda contra a idéia, “ia ser muita bagunça”. Isso que já se dizia que seria uma “pista de eventos”, não só um sambódromo, e que assim outros desfiles – como o 20 de setembro – poderiam acontecer lá.

Mas, o que aconteceu? Construiu-se a “pista de eventos” bem longe do Centro, dificultando o acesso a quem não mora próximo ao local. E assim, mandou-se o Carnaval, “essa coisa de pobre” como muitos reaças pensam, para um local afastado da classe média, enquanto os desfiles de 20 de setembro seguem acontecendo perto do Centro.

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Claro que não acho que o Rio Grande do Sul seja um lugar cheio de defeitos e o Rio de Janeiro cheio de qualidades – até porque não conheço o Rio e fica difícil falar a respeito de lá. Todos os lugares tem suas coisas boas e ruins. O Rio Grande do Sul, por exemplo, tem de bom o inverno (pelo menos na minha opinião), o chimarrão – que não é “tradição gaudéria” porra nenhuma, é de origem guarani -, o Grêmio (é óbvio!) e muitas outras qualidades.

Leia mais sobre o Rio de Janeiro onde escrevem pessoas que conhecem a cidade: no Palanque do Blackão, do Hélio Paz (que está em férias no Rio) e no Blog do Rodrigues – o Diego, mestrando em Economia pela UFJF, passou cinco dias no Rio de Janeiro antes de ir para Juiz de Fora.

A febre amarela me pegou!

Calma… É só uma fraca amigdalite (e nem sei se os sintomas da febre amarela são parecidos).

Mas eu não podia perder a chance de tirar sarro, já que a televisão fala tanto de febre amarela. Pô, o que tem de gente se vacinando mesmo que vá passar o verão inteiro na cidade!

febreamarela.jpg
(charge do Kayser)

O ruim de estar com esta amigdalite, é precisar tomar antibiótico por 10 dias e, assim, começar o Carnaval (mesmo não gostando muito de Carnaval) sem poder pôr uma gota de cerveja na boca…