O melhor feriadão do ano

Sim, é o Carnaval. Mas não por conta de “folia” e semelhantes.

E sim pois o feriadão é sempre garantido. Começa na sexta de noite e só termina quarta de manhã. Outras datas às vezes caem sábado ou domingo e assim perdem toda a graça.

Com a vantagem de não ter hipocrisia como no final de ano: não aparece eleitor do Bolsonaro desejando “muita paz e amor”.

Mas também é verdade que o “espírito do Carnaval” é ser exatamente aquilo que eu não sou. Confesso que já tentei, lá em 2001: foi a única vez na minha vida em que fui a um baile de Carnaval. Depois, nunca mais.

Bloco de rua? Tô fora. Imagina se no meio de toda aquela gente recebo um “chamado da natureza” e preciso atendê-lo em um banheiro químico. Só de pensar já me dá náuseas. (Ainda mais com o calor do verão.)

carnaval

Tudo bem que essa foto não parece ser de Carnaval, mas acho que me fiz entender.

Muito melhor ficar em casa no ar condicionado, com um monte de coisas mais interessantes a fazer: beber minha cerveja com calma, ler, e em especial no ano de 2018 posso também assistir aos Jogos Olímpicos de Inverno e devo estudar para um concurso que prestarei em abril.

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A ditadura da sociabilidade

Semana passada correu na internet uma lista, feita por um estadunidense casado com uma brasileira, citando os motivos pelos quais tinha detestado morar no Brasil – e em um fórum dos Estados Unidos, internautas acrescentaram novos itens, “dobrando” o tamanho da lista.

A lista gerou polêmica, por conter muitas generalizações que, obviamente, não são corretas. Nem todas as ruas de nossas cidades são sujas, nem todos os brasileiros querem sempre “levar vantagem em tudo”, não é “quente como o inferno durante nove meses por ano” (Porto Alegre é infernal, mas felizmente não por todo esse tempo) etc. E dizer que, fora Rio de Janeiro e Salvador (mais especificamente, o Pelourinho), as cidades brasileiras são todas feias e “sem árvores”, é sinal de que a pessoa mal conhece o Brasil: Porto Alegre ainda é uma cidade bastante arborizada, apesar de nossa prefeitura se esforçar para mudar tal situação.

Porém, alguns itens são, realmente, perfeitos. Como os que falam na prioridade dada aos carros, na (péssima) qualidade dos serviços de eletricidade e internet, e no fato das elites se julgarem acima das leis. Mas o número 16 da lista, em especial, me chamou a atenção, por tratar de algo que incomoda muito: o da “sociabilidade” dos brasileiros. Transcrevo-o abaixo:

Os brasileiros são super sociais e raramente passam algum tempo sozinho, especialmente nas refeições e fins de semana. Isso não é necessariamente uma má qualidade, mas, pessoalmente, eu odeio isso porque eu gosto do meu espaço e privacidade, mas a expectativa cultural é que você vai assistir (ou pior, convidar amigos e família) para cada refeição e você é criticado por não se comportar “normalmente” se você optar por ficar sozinho.

Não posso dizer que isso seja “coisa de brasileiro”: sou da opinião que “mala” existe em todo lugar. Certamente não faltam pessoas assim nos próprios Estados Unidos.

Mas o fato do texto ter citado as refeições e finais de semana caiu como uma luva. Obviamente gosto de encontrar os amigos, tomar uma cerveja, conversar etc. Mas não sempre. Porém, a maioria das pessoas não entende que alguém possa estar com vontade de ficar só em alguns momentos. Pois acham que devemos ser sempre “sociáveis” e bem humorados; já comigo acontece o contrário, e meu humor se vai quando me sinto forçado a “ter que conviver”.

Gosto de fazer refeições tanto sozinho como acompanhado. Mas com um detalhe: se alguém quer realmente me agradar com sua companhia, tem de ser convidado para sentar à mesa comigo. Pois, se vou almoçar ou jantar só, na verdade não estou realmente só: desfruto de minha própria companhia. Simplesmente chegar com o prato e sentar à mesa, começando a falar, não é “camaradagem”: é interromper um momento de introspecção. É se meter onde não foi chamado. (Às vezes não sobram lugares no restaurante e é preciso dividir a mesa com algum desconhecido, mas nesse caso não vejo problemas pois a outra pessoa não tinha opção.)

Finais de semana é a mesma coisa. Tem ocasiões em que simplesmente quero ficar em casa lendo, escrevendo, ou mesmo “fazendo nada”.

Porém, ninguém aceita um “não estou com vontade” como resposta quando nos convida para sair. Aliás, quantas vezes não precisamos inventar desculpas para recusar um convite, apenas para evitar que a outra pessoa se sentisse ofendida? E o mesmo acontece se estamos em algum lugar sozinhos e alguém “pede licença” para fazer companhia: quantas vezes não dissemos “sim” só por educação, quando na verdade preferíamos continuar sós?

Sem contar as visitas inconvenientes, que todos já receberam várias vezes… Chegam “do nada” (sequer ligam antes para saber se estamos em casa e, caso estejamos, se queremos ou não receber visitas), e ainda se sentem “donas do pedaço”. Não é um saco estar fazendo alguma coisa e ter de interromper só porque alguém chegou sem avisar?

De forma geral, as pessoas encaram o fato de estarem sós como “fracasso social”. Não sabem desfrutar de suas próprias companhias (e existem diversas formas de fazer isso: ler, assistir filmes, escrever etc.), e por conta disso, acabam não suportando estarem consigo mesmas. Ainda mais que vivem nos dizendo que devemos “curtir a vida adoidado”, sempre rodeados de muita gente.

E em certas ocasiões, a imposição torna-se ainda mais forte. Como assim ficar um sábado à noite em casa, ao invés de ir “causar muito” nas baladas? Onde já se viu alguém passar o Carnaval (logo o Carnaval!) lendo? Que falta de “espírito de Natal” não curtir a festa em família! Pouco interessa que gostemos mais de livros do que de noitadas e carnavais, ou que a convivência com os familiares seja complicada (como realmente é para muitas pessoas): virão os rótulos de “antissocial”, “chato”, “velho”, “mau-humorado”, “revoltado”, “maluco”, “rabugento”, “ranzinza”… Além de outros (aceito sugestões nos comentários).

Como falei na última sexta, todos somos pequenos ditadores: em algum momento de nossas vidas, nos metemos a “cagar regras” aos demais, mesmo que os gostos dos outros em nada nos afete. Quando apenas uma pessoa que tenta nos outorgar seus hábitos, é mais fácil se livrar; agora, quando raros são os que discordam, aquilo que deixa tantas pessoas felizes (será que ficam felizes mesmo?) acaba por oprimir quem não gosta.

Como NÃO montar uma tabela de campeonato

Em novembro, comentei sobre a maluca ideia da FGF na época, de levar o Gre-Nal do primeiro turno do Gauchão para Boston, nos Estados Unidos. Felizmente a maluquice foi deixada de lado, e o clássico aconteceu no Estádio Olímpico Monumental, no último dia 5 (deixemos o resultado para lá, por favor).

Mas isso não quer dizer que a tabela do Gauchão tenha ficado uma beleza. Basta olhar para a última rodada deste primeiro turno, marcada para amanhã, para perceber a estupidez.

Primeiro pelo fato dela prever dois jogos envolvendo a dupla Gre-Nal em Forno Alegre, no mesmo horário (como manda o bom-senso em rodadas decisivas). O Inter joga contra o Pelotas no Beira-Rio, enquanto o Grêmio enfrenta o São José no Passo d’Areia. Embora a distância entre os dois estádios seja bem maior do que aquela que separa Olímpico e Beira-Rio, não deixa de ser absurdo marcar dois jogos da dupla Gre-Nal para o mesmo horário na mesma fornalha cidade. Ainda mais em um sábado de Carnaval: para que a Brigada Militar possa policiar os dois estádios onde a bola rola amanhã, mais o Sambódromo, foi necessário antecipar as partidas, originalmente previstas para as 17h.

O resultado é o horário para o qual estão marcados os jogos de amanhã: 16h20min. Pelo horário de verão… Ou seja, será 15h20min pelo sol. E está prevista temperatura máxima de 39°C para amanhã em Forno Alegre.

(Não que realizar os jogos às 17h fosse melhorar muito as coisas: foi antes de um jogo neste horário que o comentarista Batista desmaiou em 2010, quando a temperatura superou os 40°C. O ideal seria que as partidas ocorressem à noite, mas aí teríamos o problema relativo ao policiamento. Sem contar os interesses da televisão…)

Agora somem a isso o ingresso caro, o feriadão de Carnaval, e temos uma maneira perfeita de espantar o público dos estádios. E depois há quem reclame que o Gauchão “não é valorizado”; mas também, como valorizar um campeonato com esta “organização”?

O que há de bom no verão em Porto Alegre

Na última quarta-feira, disse que o verão de Porto Alegre só tem uma coisa boa, o fim. Gostaria de fazer uma justa correção: há outra coisa boa (além do Porto Verão Alegre, quando se pode assistir espetáculos de teatro, música e dança a preços mais acessíveis do que no restante do ano).

Trata-se da redução populacional na cidade. Hoje, às 6 e meia da tarde, o movimento nas ruas era inacreditável, em nada lembrando uma segunda-feira. Na Avenida Loureiro da Silva, onde a tranqueira no fim da tarde é mais previsível do que a música de final de ano da Globo, o trânsito fluía.

Não fosse o calor insuportável (que felizmente decidiu tirar “uns dias de folga”), o verão seria a melhor época para se estar em Porto Alegre. Pois boa parte da população – em conjunto com seus carros – migra para o litoral, levando para lá os congestionamentos, as filas nos supermercados, nos restaurantes…

O problema é que, além do fato de que dias como hoje (em que faz um pouco de calor e com vento, não aquela febre da semana passada) serem exceção nessa época, o verão só acaba entre março e abril, enquanto o fluxo migratório para o litoral inverte o sinal após o Carnaval – que em 2012 será pouco depois do meio de fevereiro. O que quer dizer que teremos pelo menos um mês de combinação “febre e caos”.

“Rabugentos”, mas autênticos

Via Facebook, descobri por esses dias um texto que falava sobre uma pesquisa feita na Universidade de Nova Gales do Sul (Austrália). Segundo ela, pessoas mal-humoradas são mais atentas, menos influenciáveis e mais cuidadosas na hora de tomar decisões. Ou seja, o mau humor faz bem ao cérebro!

É verdade que costumo ficar com um pé atrás em relação a essas pesquisas. Afinal, não raro me aparecem umas dizendo que a chegada da primavera deixa as pessoas mais alegres – quando sinto exatamente o contrário, e fico feliz mesmo é quando chega o outono. E já que falei do tempo, não custa nada lembrar que o calor infernal que faz em Porto Alegre no verão me deixa de mau humor. E não faço questão nenhuma de esconder isso – o que me rende uma certa fama de “rabugento”, para a qual eu “cago e ando”.

Obviamente não é só o calorão infernal que me deixa de mau humor. O Natal, por exemplo, mesmo que fosse no inverno (aliás, como é no hemisfério norte) eu detestaria. Mas é fato que não tenho o hábito de “sorrir para a foto”*, de fingir felicidade quando na verdade estou triste ou irritado. Inclusive, já fui chamado de “ranzinza” mas também de “autêntico” pela mesma pessoa. E não acho que isso seja por acaso.

Afinal, o “chato” muitas vezes é a pessoa que não se importa em ser a única discordante em um grupo. Claro que há aqueles que discordam só para serem “do contra”, mas há também os que têm convicções e não se importam de defendê-las nem que tenham de ir na contramão de todos à volta. Não deixarão de dizer o que consideram necessário só porque isso “desarmonizaria” o grupo, justamente por não se sentirem confortáveis com uma “harmonia” que tende à homogeneização, sufoca as diferenças.

E o mesmo vale para o “humor do dia”. O dito “normal” é todos se sentirem “felizes” em épocas como NatalCarnavalverão… É só manifestar desagrado, e pronto: lá vêm os rótulos. E o pior é que não falta pessoas às quais certas épocas “felizes” (principalmente o Natal) sejam um tormento, mas que preferem o fingimento à autenticidade, só para não serem chamadas de “rabugentas”.

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* É coisa muito rara achar uma fotografia em que estou sorrindo. Ainda mais que uma vez fui sorrir para uma foto e fiquei com a cara mais ridícula de todos os tempos. Depois daquela, nunca mais forcei porra nenhuma de sorriso!

Grêmio, o time dos extremos

30 de maio de 1979. No Estádio da Montanha, em Bento Gonçalves, se enfrentaram Esportivo e Grêmio. Um jogo de Gauchão que ficou no 0 a 0 não teria motivo algum para ser histórico, certo?

Errado! Pois naquela noite se jogou com neve e temperatura de 0°C. O Grêmio não foi o único (e nem mesmo o primeiro) grande clube brasileiro a disputar uma partida nestas condições (em 1976, o Cruzeiro jogou na neve contra o Bayern de Munique, na Alemanha, pelo Mundial Interclubes), mas provavelmente foi o primeiro (e único?) a enfrentar tal situação dentro do Brasil.

No dia 3 de fevereiro de 2010, novamente um jogo do Grêmio pelo Gauchão, que poderia ter caído no esquecimento, acabou se tornando histórico por razões climáticas: dessa vez, foi por causa do calor. Aquela quarta-feira foi um dos dias mais quentes da história de Porto Alegre: a temperatura máxima oficial foi de 38,1°C, registrada na estação do INMET no Jardim Botânico. Mas no bairro Menino Deus, chegou a 41,3°C.

A estação que registrou os 41,3°C fica próxima ao Estádio Olímpico, onde naquela tarde Grêmio e São Luiz se enfrentaram, no cumprimento de uma das tabelas mais absurdas já feitas para um campeonato: jogo às 17h de uma quarta-feira, dia útil… O calorão foi apenas um elemento a mais para ressaltar a estupidez.

A partida foi assistida por 4.746 torcedores (dentre eles, não estava eu) e acabou empatada em 1 a 1, mas isso é o de menos, pois o que ficou para a história é que o Grêmio, quase 31 anos depois de jogar na neve, enfrentou um calor de 41°C. Temperatura que fez o comentarista Batista desmaiar ao vivo na TVCOM antes da bola rolar (não se engane com os 37°C que aparecem no vídeo, pois esse “frio” é o que fazia no Morro Santa Teresa, onde fica a emissora).

Agora, se esse foi o maior calor enfrentado por um grande clube brasileiro, eu não sei. Considerando que há várias cidades no Brasil onde já se registraram temperaturas superiores a 41,3°C, é provável que não pertença ao Grêmio tal marca.

Depois do absurdo que foi a realização de tal partida nestas condições, uma liminar da Justiça do Trabalho determinou que os jogos do Gauchão só poderiam começar se não fizesse mais de 35°C, para preservar a saúde dos jogadores. Mas não foi o que se viu na última rodada do primeiro turno, realizada no sábado de Carnaval (13 de fevereiro): dez minutos antes de Grêmio x São José, o árbitro Carlos Simon afirmou ter medido 32,5°C no gramado do Estádio Olímpico (tirou o termômetro da geladeira antes???), quando logicamente a temperatura era superior a 35°C. Bom para a televisão, que pôde transmitir a partida no horário (16h) que havia anunciado… Mas péssimo para os atletas: ao menos três jogadores passaram mal nos jogos daquela tarde.

Esta época em que “não acontece nada”…

O Natal (já passou, viva!) é a data que praticamente antecipa o fim do ano. Pois ainda temos alguns dias de 2010 pela frente, mas para muitos, ele já acabou*. Inclusive já fizeram suas retrospectivas, seus balanços, desprezando o período de 26 a 31 de dezembro. Até mesmo as emissoras de televisão costumam passar especiais lembrando os fatos marcantes do ano antes dele terminar.

Pois é… Com isso, deixam de considerar como pertencentes ao ano que acaba, alguns acontecimentos nada desprezíveis que se dão de 26 a 31 de dezembro. Não é uma época “inútil”, como parece. Inclusive, por quatro anos seguidos (1991 a 1994) tive aula: no primeiro deles, fruto de uma greve dos professores das escolas estaduais (as aulas foram até a metade de janeiro); já nos outros três anos, consequência do “calendário rotativo” implantado pelo governo de Alceu Collares.

Então, vejamos o que aconteceu de importante nesta época em anos anteriores – além, é óbvio, do nascimento do meu pai, em 31 de dezembro de 1951.

  • Dia 26:
    • Nascimento do revolucionário chinês Mao Tse-tung (1893);
    • Promulgação da lei que institui o divórcio no Brasil (1977);
    • Tsunami causado por terremoto no Oceano Índico devasta o sul da Ásia (2004);
  • Dia 27:
    • Promulgação de constituição democrática na Espanha, após o fim do franquismo (1978);
    • Assassinato da ex-primeira-ministra do Paquistão, Benazir Bhutto (2007);
  • Dia 28:
    • Primeira sessão pública de cinema, em Paris (1895);
    • Adoção da primeira constituição da República da Irlanda (1937);
  • Dia 29:
    • Nascimento de Cândido Portinari (1903);
    • Renúncia de Fernando Collor à presidência, para tentar escapar do processo de impeachment – o que não consegue (1992);
    • Palmeiras conquista a primeira Copa Mercosul, ao bater o Cruzeiro no terceiro jogo da decisão – o segundo fora também após o Natal, em 26 de dezembro (1998);
    • Câmara Municipal de Porto Alegre aprova projetos da Dupla Gre-Nal, rasgando o Plano Diretor da cidade (2008);
  • Dia 30:
    • Criação da União das Repúblicas Socialistas Soviéticas (1922);
    • Abdicação do rei Miguel I na Romênia, que se torna república “popular”, sob domínio do Partido Comunista (1947);
    • Queda do alambrado do estádio de São Januário durante a final da Copa Jean Marie João Havelange, entre Vasco e São Caetano, deixa mais de 100 feridos e adia a decisão (2000);
    • Execução, por enforcamento, do ex-ditador iraquiano Saddam Hussein (2006);
  • Dia 31:
    • Ditador cubano Fulgencio Batista foge do país e da Revolução Cubana (1958);
    • Última transmissão radiofônica do Repórter Esso (1968);
    • Extinção do AI-5 (1978);
    • Naufrágio do Bateau Mouche, no Rio de Janeiro (1988);
    • Boris Yeltsin renuncia à presidência da Rússia, assumindo em seu lugar Vladimir Putin (1999).

Só para constar: tirei algumas informações da Wikipédia, outras de minha própria memória.

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* Com isso, estamos no “período de transição” entre um ano e outro – pois, como diz o ditado, os anos no Brasil começam depois do Carnaval. Ou seja, entraremos em 2011 só a partir do dia 9 de março…

E quem não gosta de Carnaval, faz o quê?

Não sou fã de Carnaval. Mas não tenho com a data a mesma relação que tenho com o Natal.

O Carnaval, simplesmente não sou muito chegado, mas não o detesto. Diferentemente do Natal.

Pode ser fruto do meu ateísmo. Pois embora o Carnaval esteja vinculado a uma questão religiosa – termina 40 dias antes da chamada “sexta-feira santa” – ele é uma festa pagã. Não vejo nada de hipocrisia em ser ateu e “pular Carnaval”. Diferente de não ser cristão e comemorar o Natal, que é uma festa cristã.

Só que eu sou ateu e não “pulo Carnaval”. Prefiro os livros – ou os blogs. Se eu estivesse agora em Pernambuco, bom, aí não veria o menor sentido em não entrar na festa pelo menos uma vez: não conheço pessoalmente o Carnaval pernambucano, mas tem jeito de ser divertido. E mesmo que eu estivesse errado, provavelmente ainda acharia melhor do que passar uma noite inteira no sambódromo assistindo desfile de escolas de samba – jamais eu gastaria dinheiro nisso.

Mas o brabo disso tudo é a “obrigação de se divertir”. Ninguém deveria ser obrigado a estar feliz todos os dias – até porque nunca se tem só dias felizes. Mas, ouse fazer cara aborrecida uma vez sequer – se for no Natal ou no Carnaval, fica ainda melhor para o resultado final da experiência. É, meu caro amigo, serás taxado de “mal-humorado” e “anti-social”, mesmo que passes o resto do ano sempre de bom humor e com amigos à volta!

E aqueles “bem-humorados de ocasião” provavelmente sejam os mesmos que de março a novembro fazem cara feia “porque o verão não chega nunca”.

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Não vês a hora que acabe o Carnaval? Então, o negócio é ler bastante para aproveitar o feriadão. Blogs ou livros, a escolha é tua!

As curtas “férias” do blog

Já houve “não-férias” da mesma duração – principalmente em épocas de correria. Desde sua criação, em 14 de maio de 2007, o blog jamais teve “férias” propriamente ditas, pois o Carnaval de 2009 fez com que parasse tanto tempo quanto no fim de maio de 2008, quando eu tinha de terminar um artigo para a faculdade.

A parada se deveu a uma curta viagem para a praia de Araçá, um pouco depois de Capão da Canoa (mas pertencente ao mesmo município), onde não tive acesso à internet (e não seriam três dias sem computador que me entediariam). Como é típico do litoral gaúcho, teve vento, areia e água gelada. Além de chuva, trânsito caótico (afinal, boa parte de Porto Alegre se muda…), cerveja e carteado. Somei também o War à lista.

E nada de Carnaval: a única folia que me atrai é a de Pernambuco – por curiosidade, pois nunca fui mas acredito que deva ser divertido. Por mais que falem maravilhas do Carnaval da Bahia, eu jamais gastaria meu dinheiro para ir ver trios elétricos e cantoras de cabelos diferentes mas de vozes iguais. E não tenho saco para passar uma noite assistindo desfile de escolas de samba: o que eu gosto mais é de acompanhar a apuração.

Mas o que mais me chamou a atenção no feriado foi a especulação imobiliária, que está a todo vapor no Litoral Norte. Já há diversos condomínios fechados prontos, e mais uma porrada em construção.

O que muitos vêem como “progresso do Litoral Norte”, me passa a impressão de um retorno no tempo; para ser mais preciso, à Idade Média. Diversas cidades cercadas por muralhas (com direito à cerca eletrificada no alto, na versão do século XXI), que servem para dar a famosa “sensação de segurança”. Mas que claramente servem para manter do lado de fora, “invisíveis”, não apenas os “bandidos”: no retorno para casa, vi de um lado da Estrada do Mar uma muralha, e do outro, uma favela. Cujos moradores provavelmente serão expulsos com a valorização da região.

As próximas “férias” do blog talvez durem apenas um fim-de-semana (menores que muitas “não-férias”). Quero ir ao litoral no inverno, não só pela curiosidade de ver a praia vazia no frio, mas também para ter uma idéia melhor de como é a vida real na região – o verão engana.

A primeira “urucubaca”

Na hora de me comprar algum presente no Rio de Janeiro, minha mãe optou, claro, por um livro. E obviamente, de História: no caso, é “Histórias de presidentes”, de Isabel Lustosa.

O livro conta diversas histórias – algumas hilárias – sobre os presidentes do Brasil que passaram pelo Palácio do Catete de 1897 a 1960, período em que o local era a sede da Presidência da República. Não terminei de ler o livro, mas já sinto a necessidade de compartilhar alguns fatos engraçados com os leitores do Cão. Como, por exemplo, dos quatro anos (1910-1914) de governo do marechal Hermes da Fonseca (ou será que era do Pinheiro Machado?). De acordo com Lustosa, Hermes foi um dos presidentes mais satirizados da História do Brasil.

Dizia-se que quem governava o Brasil, na verdade, era o senador Pinheiro Machado, gaúcho como Hermes da Fonseca. Segundo uma anedota publicada na revista O Gato, em 1913, Hermes teria confidenciado a Venceslau Brás (seu sucessor na Presidência): “Olha, Venceslau, o Pinheiro é tão bom amigo que chega a governar pela gente”.

Às vésperas do Carnaval de 1912, morreu o Barão do Rio Branco, notável diplomata do Brasil. Para homenageá-lo, o governo federal decidiu adiar o Carnaval para abril. Resultado: o povo “pulou” tanto o Carnaval de fevereiro quanto o “oficial”, em abril…

Mas notável também era a fama de azarado do marechal Hermes. A palavra “urucubaca”, hoje tão utilizada, teria sido criada em 1915 pelo caricaturista Yantok para “homenagear” a má sorte do já ex-presidente.

A “urucubaca” já teria se manifestado, e de forma fatal, em um desentendimento do marechal Hermes com o presidente Afonso Pena, em 1909. Poucos dias depois, Pena faleceu.

Em outubro de 1910, já eleito presidente, Hermes visitou Portugal. Enquanto o rei D. Manuel II recepcionava o marechal, eclodia o movimento revolucionário que implantou a república no país.

Mas a melhor (para os humoristas, não para as finanças brasileiras) foi o depósito de metade dos 2,4 milhões de libras emprestados pelo Loyds Bank entre 1911 e 1912 ao governo brasileiro em um banco russo. A quantia, junto com o banco, foi encampada pela Revolução Russa em 1917…

Hermes da Fonseca deixou a Presidência em 15 de novembro de 1914, debaixo de vaias.