O Dia dos Pais nas famílias de muitos Amarildos

Meu irmão e eu passamos boa parte do dia de hoje com nosso pai. Lembramos histórias do passado, comemos uma feijoada, enfim, convivemos bastante neste domingo.

Muitas pessoas não tiveram a mesma oportunidade. São casos de pais que moram longe, já morreram… Ou simplesmente desapareceram.

O último caso é o dos filhos de Amarildo Dias de Souza, que no dia 14 de julho foi levado por policiais à UPP da Rocinha e nunca mais foi visto. Desapareceu, como tantas outras pessoas que foram vitimadas pela brutalidade da polícia brasileira.

amarildo

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Allende: foi suicídio, não assassinato

Cartum de Carlos Latuff em homenagem a Salvador Allende (2007)

Todas as vezes que lembrei o golpe militar no Chile, disse que não havia a confirmação de como o presidente Salvador Allende tinha morrido: se fora suicídio ou assassinato. Pois (só) hoje descobri que desde o ano passado já há a confirmação: Allende realmente se suicidou. Aliás, a própria família dele já dizia isso, só faltava a perícia comprovar.

Tinha pensado apenas em pôr uma “atualização” reparando o meu texto de ontem (e mesmo o do ano passado e anteriores), mas optei por um novo post e uma espécie de mea culpa. Até para poder escrever mais do que em uma simples “atualização”.

Afinal, se a família de Allende dizia que ele cometeu suicídio, por que insistia tanto em questionar tal informação? Obviamente não era por falta de prova científica, e sim, por conta da ideia de que o suicídio é uma “fuga”. Assim, na dúvida, preferia acreditar na versão de que ele tinha sido assassinado.

Dizer que o presidente chileno se suicidou ao invés de ter sido assassinado parecia dar a impressão de que ele “se acovardou” diante do golpe, “não lutou até a morte”. Porém, basta lembrar tudo o que aconteceu para perceber que, se tem algo que Salvador Allende não fez em 11 de setembro de 1973, foi “fugir”.

Mesmo com o Palácio de la Moneda sob bombardeio, Allende lá permaneceu. Os militares exigiram a renúncia do presidente, o que talvez permitisse que ele saísse vivo do palácio; ainda assim, Allende recusou. Preferiu não capitular.

E, àquela altura, sabendo que não havia mais possibilidades de derrotar os golpistas, fica claro que a única maneira de Salvador Allende não se entregar seria cometendo suicídio. Pois esperar que os militares invadissem o palácio para matá-lo ou levá-lo preso seria exatamente uma rendição.

Resumo do Brasil

Cartum de Carlos Latuff

Foi só por volta de 4 da tarde que acessei a internet hoje, após mais de 24 horas longe do computador. Foi quando fiquei sabendo que, atropelando decisão da Justiça Federal que adiava em 15 dias a reintegração de posse na área do Pinheirinho em São José dos Campos (SP), a PM invadiu o terreno, pertencente à massa falida de uma empresa de Naji Nahas (condenado por crime financeiro), cumprindo ordem da Justiça de São Paulo – que pelo visto, se acha superior à Federal.

Até agora, as informações são desencontradas – há relatos que falam em mortes decorrentes da ação policial, mas elas não são confirmadas. Mas uma certeza eu tenho: este episódio do Pinheirinho é nada mais do que um resumo de nosso país. Onde sob o pretexto de se “manter a ordem”, perpetua-se a injustiça. E ainda com o apoio do poder que, para fazer jus à denominação, deveria agir de forma contrária. Nada mais terrível do que uma decisão da Justiça ser qualquer coisa, menos justa. Faz muita gente acreditar ainda menos no já desacreditado Poder Judiciário.

E para cumprir tais ordens, manda-se a polícia militar. Seja em São Paulo ou em qualquer outra parte do Brasil (com raras exceções), quando se chama a PM para “reestabelecer a ordem” devido a alguma manifestação ou ocupação dita “ilegal” pela Justiça, pode ter certeza: lá vem truculência. Foi o que vimos nas últimas semanas na USP e também em Teresina, onde a PM não poupou brutalidade na repressão aos estudantes que protestavam contra o aumento das passagens de ônibus.

No caso do Pinheirinho, o que mais me indigna é ver pessoas que não têm outro lugar para morar sendo expulsas de casa em nome do “direito à propriedade”. Pois nem a prefeitura de São José dos Campos e o governo de São Paulo (ambos do PSDB) providenciaram outro local para as famílias viverem.

Verdade que isso não é uma exclusividade brasileira, mas impressiona a fidelidade quase religiosa de muitas pessoas à tal “propriedade privada”. Vindo de participantes do Fórum da “Liberdade” eu não me surpreenderia, mas ver tanta gente aplaudindo a PM (quem não tem estômago, é bom não ler os comentários nas notícias sobre os acontecimentos do Pinheirinho) por ter cumprido uma ordem judicial injusta baseada unicamente no “direito à propriedade” de um especulador condenado por crime financeiro, sobrepondo-o assim ao direito à moradia que é assegurado pela Constituição Federal, é algo assustador. Demonstra o poder que os defensores desta antidemocrática corrente de pensamento têm. (Não esqueçam que os donos da mídia são eles.)

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Em resposta à violência policial contra os moradores do Pinheirinho, estão sendo organizados atos de protesto em várias cidades – hoje à tarde já aconteceu um em São Paulo. Via Facebook fiquei sabendo que em Porto Alegre a manifestação acontecerá na Esquina Democrática, amanhã ao meio-dia. Não terei como ir; quem puder, compareça!

17 de abril

A guerra mais longa de todos os tempos não foi a Guerra dos Cem Anos (que durou 115 anos), como a maioria pensa. Hoje pela manhã, descobri pelo meu amigo Antonio Duarte, em seu perfil do Facebook, que houve um conflito quase três vezes mais longo.

Foi a Guerra dos Trezentos e Trinta e Cinco Anos, entre a Holanda e as Ilhas Scilly, localizadas a sudoeste do Reino Unido. O conflito, que se iniciou em 1651, teve origem na Guerra Civil Inglesa de 1648-1649. Defensores da monarquia absolutista (realistas) e do parlamentarismo se enfrentaram. A marinha britânica estava ao lado do rei, mas acabou forçada a se retirar para as Ilhas Scilly.

A Holanda, que recém havia proclamado sua independência, decidira apoiar militarmente os parlamentaristas. Mas sua marinha acabou sofrendo pesadas baixas, impostas pelos realistas baseados nas Ilhas Scilly, e os holandeses decidiram exigir uma indenização. Sem obter resposta, a decisão da Holanda foi de declarar guerra às pequenas ilhas – e só a elas, já que o restante das ilhas britânicas encontrava-se em mãos dos parlamentaristas.

Logo após a declaração de guerra, os realistas foram forçados a renderem-se aos parlamentaristas, e a marinha holandesa retirou-se das Ilhas Scilly sem disparar nenhum tiro. Porém, a Holanda esqueceu-se de um detalhe: assinar a paz. (Sim, antigamente as guerras tinham início e fim formalmente, não eram que nem hoje, quando se inventa uma desculpa do tipo “nós vamos libertar vocês” e assim se mantém indefinidamente a invasão.)

Dessa forma, tecnicamente, as pequenas ilhas continuaram a ser inimigas dos holandeses até 17 de abril de 1986, quando o tratado de paz foi assinado após uma pesquisa histórica comprovar que realmente a Holanda declarara guerra em 1651. Terminava assim, sem nenhum tiro e nenhuma morte, a guerra mais longa de todos os tempos.

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Mas, se uma guerra que durou mais de 300 anos não matou ninguém, um acontecimento acontecido num dia específico – 17 de abril de 1996 – resultou em 19 mortes.

Cartum de Carlos Latuff

Hoje, completam-se 15 anos do massacre de Eldorado dos Carajás. Nenhum dos policiais responsáveis pela matança foi punido.

Será o fim para o mais antigo ditador da atualidade?

Charge de Carlos Latuff

Muammar al-Gaddafi governa a Líbia desde 1969, sendo assim o mais antigo ditador da atualidade.

Por muito tempo, foi um dos “maus” na ordem mundial ditada por Washington. Inclusive, o regime de Gaddafi foi acusado de promover vários atentados terroristas em países ocidentais na década de 1980, com destaque para a explosão de um avião da Pan Am em 21 de dezembro de 1988 sobre a cidade escocesa de Lockerbie, que matou 270 pessoas (onze delas em terra).

Mas nos anos 2000, Gaddafi “fez as pazes” com o Ocidente: deixou de apoiar movimentos rebeldes, abandonou a postura anti-Israel de antes (seu governo deu cobertura ao grupo Setembro Negro, que matou onze atletas israelenses durante os Jogos Olímpicos de Munique, em 1972), indenizou as famílias das vítimas do atentado de Lockerbie, e procurou ter relações menos tumultuadas com os países ocidentais. A Líbia não se transformou numa democracia, é óbvio: apenas deixou de sofrer sanções econômicas, costumeiramente usadas contra regimes que não agradam aos Estados Unidos.

Agora, parece que a longa ditadura se aproxima de seu fim. Mas não sem antes promover um banho de sangue, inclusive usando aviões militares para massacrar os manifestantes: Gaddafi, que se diz socialista (assim como me considero o Papai Noel), toma uma atitude digna de Augusto Pinochet, que em 11 de setembro de 1973 chefiou o violentíssimo golpe militar contra o presidente socialista do Chile, Salvador Allende, com direito a bombardear o Palácio de la Moneda, sede do governo chileno.

Tchau, Mubarak!

Charge de Carlos Latuff

Posso dizer mais do que “desde que me conheço por gente o Egito era governado por Hosni Mubarak”. Seu período no poder praticamente se confundia com minha existência: Mubarak tornou-se presidente em 14 de outubro de 1981, um dia antes de eu nascer. O que mostra quanto tempo durou seu governo (e também o quanto estou ficando velho).

É de se celebrar, é claro, a queda de um ditador, fruto de uma grande mobilização popular. Que começou no fim do ano passado, pela Tunísia (derrubando Ben Ali, que estava no poder desde 1987), e agora motiva o povo em vários países árabes a lutar por democracia. Mas é também preciso ficar cauteloso, pois não sabemos se o que virá pela frente serão verdadeiras democracias, ou apenas “mais do mesmo”.

No Egito, desde a derrubada da monarquia em 1952, todos os presidentes foram militares: o líder do golpe que depôs o rei Faruk I era Gamal Abdel Nasser, que governou o país até morrer, em 1970, tornando-se um dos principais nomes do chamado “Movimento dos Não-Alinhados”; Nasser foi sucedido por Anwar Sadat, que aproximou-se de Israel e dos Estados Unidos, e foi assassinado durante uma parada militar em outubro de 1981 por militares que integravam a Jihad Islâmica, descontentes com as negociações com Israel; com a morte de Sadat, quem assumiu o poder foi o vice-presidente, Hosni Mubarak.

E quem sucedeu Mubarak? Uma junta militar…

Resta torcer para que seja cumprida a promessa de que o governo passará às mãos dos civis após as eleições presidenciais previstas para setembro. É preciso que o povo egípcio se mantenha alerta.

A “guerra do Rio”

Nada escrevi sobre a violência no Rio de Janeiro nos últimos dias, simplesmente porque não significa nada de novo. E infelizmente, não irá acabar de uma hora para a outra – até porque também não foi “do nada” que ela surgiu, e sim da desigualdade social no Brasil, que no Rio é muito visível.

Como diz o ditado, “uma imagem vale por mil palavras”; então troco três mil palavras por três cartuns de Carlos Latuff.

Teremos sanções ao Estado de Israel?

Revoltante. Enojante. Covarde.

São essas as três primeiras palavras que me vêm à cabeça para descrever o criminoso ataque israelense a navios que levavam ajuda humanitária à Faixa de Gaza, submetida a um bloqueio por parte de Israel há três anos. Não bastasse a barbárie em si, ainda há outro agravante: aconteceu em águas internacionais. Ou seja, sequer havia a justificativa de “ingresso não-autorizado” em águas israelenses.

E depois ainda falam em “fundamentalismo islâmico”. Mas tão ou mais fundamentalistas são aqueles que consideram uma frota humanitária como “terrorismo” (querem ver que Israel vai dar essa justificativa?); ou os que vêem o Irã como “ameaça mundial” por querer desenvolver um programa nuclear – que até agora ninguém provou ser destinado à fabricação de armas -, mas têm bombas atômicas suficientes para destruir várias vezes o planeta.

A propósito, se o Irã é “ameaça mundial” por querer desenvolver um programa nuclear, o que dizer de Israel, que tem bombas atômicas e não faz o menor esforço pela paz? Cadê as sanções???