Guerra Fria em campo

Neste domingo, completaram-se 40 anos de uma partida histórica. Em Hamburgo, duas seleções alemãs entraram em campo na noite de 22 de junho de 1974 para um jogo de Copa do Mundo. Os únicos “estrangeiros” dentro de campo eram os integrantes do trio de arbitragem: a partida foi apitada pelo uruguaio Ramon Barreto Ruiz, com o brasileiro Armando Marques e o argentino Luis Pestarino como auxiliares.

O jogo reunia as seleções das Alemanhas Ocidental e Oriental, que jamais tinham se enfrentado até então. E tal confronto aconteceu pela primeira (e única) vez justamente em uma Copa do Mundo. Mas todos os 22 jogadores que iniciaram a partida serem alemães não queria dizer que era um confronto “entre iguais”, e isso não tem a ver com o fato de serem dois países rivais por motivos ideológicos. Enquanto a anfitriã capitalista Alemanha Ocidental já tinha uma seleção respeitadíssima (ganhara a Copa de 1954 batendo a fantástica Hungria de Puskas, e dificilmente não ficava entre as semifinalistas dos Mundiais que disputava), a socialista Alemanha Oriental disputava apenas a sua primeira Copa (e que acabaria sendo a única). A lógica, portanto, pesava a favor do oeste.

As duas seleções já estavam classificadas, e o que restava em disputa era a liderança do grupo 1 da primeira fase – que ficaria com os ocidentais caso o jogo acabasse empatado. E assim parecia que ia acontecer: mais da metade do segundo tempo já tinha se passado e o placar permanecia fechado. Mas aos 32 minutos, o meio-campista Jürgen Sparwasser tratou de abri-lo, fazendo 1 a 0 para a Alemanha… Oriental.

E assim acabou o jogo: com uma inesperada vitória do leste sobre o oeste. Após o apito final não houve a tradicional troca de camisetas entre os jogadores, tamanha era a tensão (obviamente por motivos políticos) em torno da partida.

Reza a lenda que a Alemanha Ocidental teria facilitado as coisas para a Oriental (fato nunca comprovado e altamente improvável, visto que até os 32 do segundo tempo o placar permanecia em 0 a 0). Mas não pelos jogadores ocidentais simpatizarem com o comunismo, e sim para terem um caminho mais fácil na segunda fase – que naquela Copa era disputada em grupos, não em confrontos eliminatórios – e, em especial, para escaparem do Brasil – mesmo que a Seleção não estivesse jogando grande coisa.

Com o primeiro lugar no grupo 1, coube à Alemanha Oriental enfrentar não só os brasileiros, como também a Holanda (sensação da Copa) e a Argentina no grupo A da segunda fase; enquanto a Ocidental ficou no grupo B com Iugoslávia, Suécia e Polônia. Os orientais foram eliminados (mas acabaram à frente da Argentina), já os ocidentais ficaram em primeiro lugar no grupo, foram à final contra a Holanda e acabaram campeões com uma vitória por 2 a 1, de virada.

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O otimismo é uma ilusão

“Todo esforço será recompensado. Basta querer, que vai chegar lá.”

Quantas vezes já ouvimos dizerem isso para nós? Chega a parecer que somos os únicos culpados por tudo o que dá errado em nossa vida.

Se não passamos no vestibular, por exemplo. A culpa é nossa, pois “não estudamos o suficiente”, mesmo que tenhamos perdido muitas noites de sono. Pouco importa que fossem centenas de candidatos por vaga ou que não tenhamos acordado bem no dia da prova: sempre seremos os culpados. Sempre.

É muito fácil, quando já se tem uma garantia de futuro, ser otimista e dizer aos demais que “basta ter persistência” para ser “um vencedor”. Não deixa de ser verdade que para “chegar lá” é preciso ser persistente (isso quando já não se nasce “lá”), mas por outro lado, poucos dizem que “lá” não tem lugar para todos. Ou seja, que muitos de nós passaremos a vida “batalhando duro” sem jamais chegarmos ao tal “dia da vitória”.

Obviamente não devemos ser pessimistas, pessoas que “se entregam” antes mesmo de lutar. Nem exageradamente otimistas. Opto pelo realismo, e a realidade me mostra que nem todo esforço será recompensado. Não creio na meritocracia, segundo a qual o jovem da favela e o do condomínio fechado têm as mesmas chances de “vencer na vida”.

Aliás, não quero um mundo em que tenhamos de “vencer”, mesmo com chances iguais a todos. Nem mais vencedores nem perdedores: que sejamos todos um solidário empate.

A suposta “turma socialista”

Recebi mais um texto daqueles que classifico como “correntes”. Só que este é diferente: mais bem escrito, elaborado, sem exalar aquele ódio comum aos que recebo mais frequentemente. Mas ainda assim, não podia ficar sem resposta.

Vamos a ele, então:

Um professor de economia em uma universidade americana disse que nunca havia reprovado um só aluno, até que certa vez reprovou uma classe inteira.

Esta classe em particular havia insistido que o socialismo realmente funcionava: com um governo assistencialista intermediando a riqueza ninguém seria pobre e ninguém seria rico, tudo seria igualitário e justo.

O professor então disse, “Ok, vamos fazer um experimento socialista nesta classe. Ao invés de dinheiro, usaremos suas notas nas provas.” Todas as notas seriam concedidas com base na média da classe, e portanto seriam ‘justas’. Todos receberão as mesmas notas, o que significa que em teoria ninguém será reprovado, assim como também ninguém receberá um “A”.

Após calculada a média da primeira prova todos receberam “B”. Quem estudou com dedicação ficou indignado, mas os alunos que não se esforçaram ficaram muito felizes com o resultado.

Quando a segunda prova foi aplicada, os preguiçosos estudaram ainda menos – eles esperavam tirar notas boas de qualquer forma. Já aqueles que tinham estudado bastante no início resolveram que eles também se aproveitariam do trem da alegria das notas. Como um resultado, a segunda média das provas foi “D”. Ninguém gostou.

Depois da terceira prova, a média geral foi um “F”. As notas não voltaram a patamares mais altos mas as desavenças entre os alunos, buscas por culpados e palavrões passaram a fazer parte da atmosfera das aulas daquela classe. A busca por ‘justiça’ dos alunos tinha sido a principal causa das reclamações, inimizades e senso de injustiça que passaram a fazer parte daquela turma. No final das contas, ninguém queria mais estudar para beneficiar o resto da sala. Portanto, todos os alunos repetiram aquela disciplina… Para sua total surpresa.

O professor explicou: “o experimento socialista falhou porque quando a recompensa é grande o esforço pelo sucesso individual é grande. Mas quando o governo elimina todas as recompensas ao tirar coisas dos outros para dar aos que não batalharam por elas, então ninguém mais vai tentar ou querer fazer seu melhor. Tão simples quanto isso.”

1. Você não pode levar o mais pobre à prosperidade apenas tirando a prosperidade do mais rico;
2. Para cada um recebendo sem ter de trabalhar, há uma pessoa trabalhando sem receber;
3. O governo não consegue dar nada a ninguém sem que tenha tomado de outra pessoa;
4. Ao contrário do conhecimento, é impossível multiplicar a riqueza tentando dividí-la;
5. Quando metade da população entende a idéia de que não precisa trabalhar, pois a outra metade da população irá sustentá-la, e quando esta outra metade entende que não vale mais a pena trabalhar para sustentar a primeira metade, então chegamos ao começo do fim de uma nação.

Em primeiro lugar, nos atenhamos ao “um professor de economia em uma universidade americana”. Qual é o nome do professor? De qual universidade ele é? O fato do texto não passar tais informações me faz pensar que muito provavelmente tal “experimento socialista” jamais aconteceu. Basta lembrar que o “experimento nazista” relatado no filme “A Onda” não foi ideia “de um professor de História em um colégio nos Estados Unidos”: o professor se chamava Ron Jones, e a escola era a Cubberley High School, em Palo Alto, Califórnia. Mas, vamos dar ao texto o benefício da dúvida e suponhamos que o experimento realmente aconteceu – afinal, o mais importante é contra-argumentar. Continuar lendo

A prova de que a democracia que temos é uma farsa

Nos últimos dias, as bolsas de valores vinham caindo por conta da notícia que o governo da Grécia havia decidido convocar um plebiscito sobre o novo plano de ajuda internacional ao país. Aliás, “ajuda”, pois a que a Grécia já recebeu não melhorou a vida dos gregos, muito pelo contrário: todos os indicadores do país regrediram, exceto a taxa de suicídios, que nos cinco primeiros meses de 2011 aumentou 40% em relação ao mesmo período em 2010.

O “remédio” para a crise na Grécia não está fazendo efeito – ou melhor, faz “ao contrário”: ao invés de estancá-la, só a aprofunda. Nada mais justo do que consultar o povo – o que, aliás, já devia ter sido feito há bem mais tempo, para saber se ele estava disposto a tal sacrifício. Talvez o primeiro pacote não tivesse sido aprovado, daí ele não ter sido submetido a uma consulta popular.

Já agora o governo “socialista” (país que tem uma esquerda assim, precisa de direita?) de George Papandreou amarga uma alta taxa de impopularidade, e na prática não governa a Grécia – quem manda são os bancos. A proposta do plebiscito seria uma tentativa de retomar a soberania do país que é considerado o berço da democracia.

Porém, o governo não descarta abrir mão do plebiscito, caso haja um acordo com a oposição para aprovar o novo pacote. Ou seja, como sempre, o povo que se lixe, na visão dos verdadeiros donos do poder. E dê-lhe repressão policial, gás lacrimogêneo, cassetetes… Tudo muito “democrático”.

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Para entender melhor a crise da Grécia (e como o país chegou a tal ponto), uma ótima dica é o documentário abaixo, “Dividocracia”, produzido por jornalistas independentes gregos.

Dividocracia

Um excelente documentário sobre a crise grega, disponibilizado com legendas em português pelo João Martins, do Movimento Apartidário da Cidade de Loulé.

O vídeo, produzido por jornalistas independentes gregos, demonstra como a Grécia chegou à situação vivida hoje: após a ilusão de que o país viraria “potência econômica”, resta agora a dívida impagável (e imoral, visto que contraída sem o conhecimento do povo) e a necessidade de lutar contra o “remédio” imposto pelos organismos internacionais (FMI, Banco Mundial, União Europeia etc.) que simplesmente transfere a conta para os cidadãos. Aliás, ocasião na qual o sistema capitalista mostra, através do gás lacrimogêneo e dos cassetetes dos policiais, o quão “democrático” é.

São as mesmas medidas que no passado foram aplicadas na Argentina, levando boa parte do povo à miséria e provocando uma revolta popular que pôs para correr o presidente Fernando de la Rúa em dezembro de 2001.

Assista:

Grandes empresas privadas não precisam de incentivos fiscais

A Azaléia fechou sua unidade em Parobé, pondo “no olho da rua” 800 trabalhadores. Os motivos, são as famosas “reduções de custos”. E aí não entendem porque tanta gente quer trabalhar no serviço público… Afinal, na iniciativa privada se trabalha (bem) mais por um salário menor, e ainda com o risco de perder o emprego por “corte de gastos”.

Pior do que isso, é saber que a empresa já recebeu generosas verbas do Estado – ou seja, de todos os gaúchos. Pagamos, supostamente para “gerar empregos”, mas na verdade, apenas para que a Azaléia lucrasse mais por um tempo, e depois, alegando “perda de competitividade”, decidisse “cortar gastos”, ou seja, funcionários. Convenhamos: não é fácil demais reclamar da “interferência do Estado na economia” ao mesmo tempo em que se recebe milhões dele próprio?

Já li uma vez em algum lugar que o Brasil não vive um regime capitalista puro, pois se assim o fosse, apenas o “mercado” ditaria os rumos da economia. Num exemplo de como seria: se a tua empresa tá mal, o azar é teu, outra vai ocupar o teu espaço…

Porém, sou favorável a que o Estado dê algum incentivo às empresas que dele necessitem. Com a ressalva: que sejam pequenas, no máximo médias. Azaléias e Fords (lembram?) da vida, não precisam do nosso dinheiro, pois o que não falta a elas é grana.

Como os grandes empresários privados são geralmente os primeiros a reclamarem da “interferência do Estado na economia”, deveriam ao menos ser coerentes, né?

A origem do Dia Internacional da Mulher

Por muito tempo, ouvi a história de que o 8 de março era o Dia Internacional da Mulher devido a um acontecimento de 1857. Naquele dia, mulheres que trabalhavam numa fábrica teriam sido queimadas vivas por ordens do dono da empresa, em punição ao fato de estarem em greve. Inicialmente eu acreditava, mas depois de um certo tempo pensei que se o cara realmente fez isso, ele queimou não só sua mão-de-obra, como também as máquinas. E sabemos que, para um capitalista, nada pode ser mais importante que a produção: ele caga e anda para a mão-de-obra; agora, as máquinas…

E de fato, é possível que esta greve não tenha acontecido – ou não com um final tão trágico. De acordo com o blog Quem mandou nascer mulher?, não há registros históricos sobre tal acontecimento de 8 de março de 1857.

Já tinha lido que a escolha do 8 de março se devia a um acontecimento da Revolução Russa de 1917: sua primeira etapa, a “Revolução de Fevereiro”, começou nesse dia (23 de fevereiro pelo calendário juliano, utilizado pela Rússia naquela época), quando teve início uma greve de operárias têxteis, que saíram às ruas protestando contra a fome e a participação na Primeira Guerra Mundial (cujas trincheiras ceifavam muitas vidas). Só que, de acordo com o link que citei no parágrafo anterior, a escolha da data se deveu justamente ao fato de já ser, na época, considerada como Dia Internacional da Mulher.

Assim, a razão pela qual se considera o dia de hoje como Dia Internacional da Mulher permanece desconhecida. Agora, o que se sabe é o motivo de existir um dia dedicado às mulheres: a luta contra a exploração. Não é uma data comercial, para se dar rosas, como muitos fazem.

Seja pela tal greve de 1857 da qual falta documentação, seja pelas operárias russas de 1917, o que se percebe é que o Dia Internacional da Mulher está diretamente relacionado à luta contra o capitalismo – sistema que gera toda a exploração que elas enfrentaram, e ainda enfrentam*.

Logo, engana-se quem pensa que a luta das mulheres “é problema delas”. Nós, homens que defendemos um mundo mais justo, não podemos deixar de apoiá-las, e também devemos combater o machismo que ainda está enraizado em nossa sociedade (dentro de nós mesmos, muitas vezes). Até porque isso é prejudicial não só às mulheres, como até mesmo aos homens que não se encaixam no padrão de “masculinidade” que é socialmente imposto.

Ou seja, sem a superação do machismo, será impossível que se tenha uma sociedade mais justa.

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* Alguém pode lembrar que nos países ditos “socialistas reais” uma mulher jamais chegou ao poder, e é verdade. Porém, é bastante questionável a ideia de que aquilo era, realmente, socialismo: afinal, o regime que pregava a igualdade apenas criava uma nova elite dirigente, a burocracia do Partido Comunista (os “mais iguais” dos quais falava George Orwell em seu excelente “A Revolução dos Bichos”). E, como qualquer elite, ela era predominantemente masculina.

Quem quer o progresso da pesquisa científica no Brasil NÃO VOTA EM JOSÉ SERRA!

Já faz tempo que declarei voto em Plínio de Arruda Sampaio para presidente. O que não quer dizer que eu rejeite a candidatura de Dilma Rousseff: tem muita coisa feita pelo governo Lula (do qual Dilma representa a continuidade) que eu concordo; mas também tem outras que discordo totalmente (leia mais).

Agora, em quem eu não voto nem que a vaca tussa é José Serra (do PSDB, partido de Yeda Crusius). Afinal, sua candidatura representa o que existe de mais atrasado na política nacional: como considerar um governo integrado pelo DEM como “avanço”? Sem contar que não quero, de jeito nenhum, a volta dos tempos em que qualquer denúncia de corrupção no governo sequer era investigada: as CPIs eram barradas pela maioria parlamentar governista, a “grande mídia” não “testava hipóteses” à exaustão como hoje, e se as denúncias eram enviadas ao Procurador-Geral da República, eram majoritariamente arquivadas (o que rendeu ao PGR o apelido de “engavetador geral da República”).

Eu também não quero um Brasil que não dê incentivo à pesquisa científica, em todas as áreas do conhecimento. Pois é algo que está acontecendo em São Paulo, Estado governado por Serra até o final de março: enquanto sobram bolsas de mestrado na Computação, elas são limitadas para os que desejam fazer pesquisas na área de Ciências Humanas – o que deixou a Mari Moscou sem financiamento para seu mestrado em Sociologia da Educação, mesmo que o projeto dela tenha sido considerado merecedor de uma bolsa.

A visão de mundo que a candidatura Serra representa é aquela de que “Ciências Humanas não servem para nada”, e que por isso o incentivo deve ser dado ao que interessa ao tal do “mercado”. Os motivos são óbvios: com mais incentivo à produção de conhecimento em História, Sociologia, Antropologia, Educação etc., aumentaria muito a chance desse pessoal não ganhar mais nem eleição para síndico dos condomínios fechados em que moram.

Financiar o mestrado ou o doutorado de alguém não é “pagar para vagabundo não trabalhar”: só tendo uma mentalidade muito tacanha para se pensar assim, visto que a pesquisa acadêmica é, sim, muito trabalhosa, e se o mestrando ou o doutorando puder se dedicar a ela integralmente, sem precisar trabalhar com outra coisa para se sustentar, os resultados virão muito mais rápido (a propósito, não é isso, a rapidez, que o capitalismo tanto valoriza?). E tem prazo: o mestrando tem dois anos para defender sua dissertação, e o doutorando quatro para sua tese – quem não cumpre o prazo, é obrigado a devolver o dinheiro investido em sua formação.

Sou favorável, inclusive, a que todo aluno de mestrado ou doutorado tenha direito a uma bolsa. Com exceção, claro, ao que tiver emprego fixo, por motivos óbvios: este não poderá se dedicar integralmente à pesquisa. Algum direitoso dirá que “muita gente irá deixar de trabalhar por causa disso, que nem acontece com o Bolsa Família”, e isso certamente acontecerá, por um motivo muito óbvio: salário baixo demais, inferior ao que receberia se dedicando apenas ao mestrado ou ao doutorado; ou até nem tão baixo, mas que não compensa o cansaço de precisar trabalhar e ainda pesquisar para seu curso (se for na área de História, então, a coisa complica muito, já que a maioria dos arquivos não abre nem à noite, nem aos finais de semana).

Com mais incentivo à educação e à pesquisa científica em todas as áreas, ganhará (e muito) o Brasil, que terá mais gente produzindo conhecimento, que estará a disposição de uma sociedade mais preparada para ter acesso a ele (afinal, não pensem que é tão simples ler e entender um texto acadêmico – falo por experiência própria). É isso – e não o número de carros vendidos – que faz um país ser mais desenvolvido.

Só perderá quem paga baixos salários, e claro, os políticos defensores do atraso, que para eles é bom por ser sinônimo de “poder”.

Não houve nenhuma revolução em 1989

Há mais de um mês, o mundo lembrou os 20 anos da queda do Muro de Berlim. Um fato realmente histórico. Símbolo das grandes mudanças ocorridas na Europa Oriental em 1989.

Eu tinha prometido que postaria algo relativo a tal acontecimento, porém, a monstrografia não deixou. O que não foi tão ruim: mesmo quando terminei o trabalho, achei melhor deixar o texto para hoje, 25 de dezembro. Não pela besteira de “espírito de Natal”, e sim porque há exatos 20 anos foi executado Nicolae Ceausescu, que governara a Romênia com mão de ferro por 24 anos.

Enquanto os demais países da Europa Oriental anunciavam reformas e eleições pluripartidárias, a Romênia mantinha-se “fiel ao comunismo” (não seria melhor dizer “ao stalinista Ceausescu”?). Porém, as notícias que não eram divulgadas abertamente corriam de boca em boca: além da sequência de “anúncios de reformas” nos países vizinhos (ao final de 1989, além da Romênia, só a Albânia não as tinha anunciado), no dia 17 de dezembro, manifestantes foram massacrados pela Securitate (a temida polícia secreta) em Timisoara, cidade no oeste do país. A manifestação transformou-se em revolta popular contra a ditadura, potencializada pelo sofrimento da população causado pelo racionamento de tudo (até da calefação durante o inverno) há vários anos no país. No dia 21, Ceausescu discursou pela última vez, na sacada da sede do Partido Comunista Romeno em Bucareste; as milhares de pessoas levaram muitas faixas de apoio e retratos do ditador e de sua esposa, Elena. Mas o povo romeno não o aplaudia mais.

No dia seguinte, o casal Ceausescu fugiu em um helicóptero da capital, onde já se travavam combates nas ruas, mas foi capturado por militares que aderiram à revolta. Após um julgamento sumário, em 25 de dezembro de 1989, Nicolae e Elena foram executados, e as imagens foram transmitidas pela televisão. Acabava-se o “comunismo” na Romênia, mas não o poder dos antigos burocratas, que apenas criaram um novo partido para manterem-se no comando do Estado, e colocaram o PCR na ilegalidade para dar ao desfecho dos acontecimentos, que ficariam conhecidos no país como “Revolução de 1989”, a aparência de “grande mudança”. O que começou com cara de revolução (lembrando uma história que se conta da Revolução Francesa, segundo a qual o rei Luís XVI ao notar uma grande mobilização popular teria comentado “parece uma revolução”, sem perceber que ela de fato acontecia), terminou com todo o jeito de golpe de Estado.

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A Romênia foi o único país da Europa Oriental no qual o socialismo caiu com violência. Em todos os outros, houve uma transição pacífica, o que levou ao surgimento da expressão “revolução de veludo” para designar as mudanças acontecidas em 1989. Inclusive Hobsbawm considera que nenhum dos regimes socialistas do Leste Europeu foi derrubado – vejo a Romênia como a exceção que confirma esta “regra”.

Não houve nenhum comunista apaixonado disposto a morrer em defesa dos regimes do Leste: mesmo os que pegaram em armas para tentar impedir a queda de Ceausescu na Romênia, provavelmente o fizeram mais por medo de serem perseguidos por um novo governo. Nem mesmo na Rússia, onde tudo havia começado em 1917, se fez algum esforço além da atrapalhada tentativa de golpe em agosto de 1991 – que acabou selando os destinos da União Soviética. O que demonstra a situação vivida em tais países: aquele modelo de socialismo falira.

Embora os países do Leste Europeu tivessem se desenvolvido bastante durante o período socialista, não conseguiram acompanhar o ritmo da Europa Ocidental, ainda mais com a estagnação econômica iniciada na década de 1970. Diante da deterioração da qualidade de vida, que se agravou na década seguinte, era difícil defender o regime: apenas comunistas idealistas poderiam fazê-lo, imaginando um futuro melhor.

Em geral, as pessoas procuravam se adaptar ao sistema porque era o existente, mesmo sem acreditarem no comunismo. O que me leva a um questionamento: foram estes que saíram às ruas para protestar? Não seria mais lógico que tais pessoas, mais conformadas, justamente ficassem em casa, e depois procurassem “se adaptar” ao que viesse?

Pois esse tipo de pessoa, que procura simplesmente “se adaptar ao sistema”, sem criticá-lo, não costuma protestar. Ainda mais correndo tamanho risco de apanhar da polícia. Quem toma coragem de se manifestar, em geral, é gente que acredita em alguma coisa além de simples bens de consumo. Ou seja: será que as pessoas que protestavam em 1989 não desejavam um outro tipo de socialismo? Provavelmente, conforme as palavras do filósofo esloveno Slavoj Zizek:

Quando as pessoas protestavam em regimes comunistas do Leste Europeu, a grande maioria delas não estava pedindo por capitalismo. Eles queriam a liberdade de viver suas vidas fora do controle estatal, de ir e vir e falar o que desejassem; eles queriam uma vida de simplicidade e sinceridade, liberta da indocrinação ideológica primitiva e da cínica hipocrisia dominante.

Como muitos analistas observaram, os ideais que levaram os manifestantes às ruas eram, de alguma forma, uma extensão daqueles da própria ideologia socialista – as pessoas aspiravam por algo que pode ser melhor aproximado através do termo “socialismo com um rosto humano”. Talvez essa atitude mereça uma segunda chance.

Desta forma, nada mais incorreto do que chamar os acontecimentos de 1989 de “revolução”, termo muito tentador naquele ano em que se celebrava o bicentenário da Revolução Francesa. Mesmo na Romênia, onde houve violência: Ion Illiescu, que assumiu o poder com o fuzilamento de Ceausescu, era um antigo burocrata do PCR. Igual a seus pares em vários outros países do “bloco socialista” – inclusive a Rússia, onde Boris Yeltsin era também um membro do PC. Uma notável exceção foi a Polônia, em que o líder do opositor sindicato Solidarność, Lech Walesa, ganhou a primeira eleição presidencial no pós-socialismo.

E não são tão poucos os que sentem saudade dos tempos de socialismo. Nos quais não havia muita liberdade, mas em compensação, a vida era mais fácil do que sob o capitalismo: além da garantia de sobrevivência dada pelo regime, havia mais solidariedade entre as pessoas, minada pela excessiva competitividade estimulada pelos novos tempos. Não por acaso, se verifica um sentimento de nostalgia até mesmo onde não se esperava vê-los, como a “ostalgia” (de ost, leste em alemão) na Alemanha (cuja divisão fora o maior símbolo da Guerra Fria, e onde a reunificação parecia ser vontade geral da população) e a “yugonostalgia” na antiga Iugoslávia (que se dissolveu a partir de 1991 com uma violenta guerra).

Um muro dentro dos gramados

Politicamente, a Alemanha foi reunificada no dia 3 de outubro de 1990. Foi um processo extremamente rápido (muito bem mostrado no excelente filme “Adeus, Lenin!”): em outubro de 1989, a pressão por reformas democratizantes (vinda tanto de protestos populares como da União Soviética, que não mais interviria em favor dos regimes “linha-dura” de partido único na Europa Oriental) provocou a queda de Erich Honecker, líder do Partido Comunista da Alemanha Oriental; em novembro, foi permitido o trânsito entre as Alemanhas, e o Muro de Berlim começou a ser demolido pelo povo.

Mas, se o muro físico desapareceu há duas décadas, segue existindo um outro, “invisível a olho nu”. E que se percebe nos campos de futebol da Alemanha “unida”: não há nenhum clube da antiga Alemanha Oriental na primeira divisão alemã (Bundesliga). O único que integrava a competição na temporada 2008/09, o Energie Cottbus, foi rebaixado após ficar em 16º lugar no campeonato (disputado por 18 equipes) e perder um play-off para o 3º colocado da 2. Bundesliga (segunda divisão)  – apenas os dois últimos são rebaixados diretamente.

Nos gramados, a reunificação alemã não veio junto com a política. Em 3 de outubro de 1990, já estavam em andamento tanto no oeste como no leste da Alemanha as temporadas 1990/91 dos campeonatos nacionais de futebol correspondentes aos países antes separados – um ano antes, não se havia programado uma unificação das ligas, visto que quando a temporada 1989/90 começou não se imaginava tudo o que ia acontecer. Assim, duas Alemanhas continuaram a existir oficialmente nos gramados até 25 de maio de 1991, quando foi disputada a última rodada da primeira divisão alemã oriental. Na temporada 1991/92, a liga alemã oriental (DDR-Oberliga) desapareceu, com todos os clubes – orientais e ocidentais – disputando as várias divisões de uma liga unificada.

A última edição da primeira divisão do leste foi disputada por 14 clubes, e apenas o campeão (Hansa Rostock) e o vice (Dynamo Dresden) obtiveram o direito de disputar a Bundesliga na temporada 1991/92. Os clubes entre o 3º e o 6º lugar foram para a 2. Bundesliga 1991/92, o 7º e o 8º disputaram play-offs por vagas na “segundona”, enquanto do 9º ao 14º foram relegados para ligas regionais – equivalentes à terceira divisão.

Para se efetuar a união das ligas, a Bundesliga foi ligeiramente ampliada: disputada por 18 equipes na temporada 1990/91, subiu a 20 participantes na 1991/92: 18 do oeste, e apenas dois do leste. Quatro clubes dentre os 20 foram rebaixados (dentre eles o Hansa Rostock, último campeão do leste), e na temporada 1992/93 a Bundesliga voltou a contar com 18 clubes.

Ao analisar as tabelas, fica claro que uma simples “junção” das duas ligas seria inviável. Afinal, colocar os 14 clubes da primeira divisão do leste junto com os 18 do oeste criaria um campeonato com 32 clubes, extremamente longo.

Porém, só se deu o direito a participar da primeira divisão a dois clubes do leste. Futebolisticamente falando, até teria uma certa lógica.

A Alemanha Oriental não obteve o mesmo sucesso nos gramados que a Ocidental. O único feito expressivo do futebol alemão oriental foi a medalha de ouro olímpica nos Jogos Olímpicos de Montreal, em 1976 – a participação de jogadores profissionais era vedada, o que beneficiava os países de regime socialista de partido único na Europa Oriental, que enviavam suas seleções principais, cujos jogadores eram (oficialmente) amadores.

No mesmo período, a seleção da Alemanha Ocidental conquistou três Copas do Mundo (1954, 1974 e 1990), e os clubes do país obtiveram bastante sucesso. Inclusive foi um deles, o Hamburgo, que teve a honra suprema de enfrentar o Grêmio na disputa pelo título mundial de 1983 (e felizmente, perdeu!).

Mas, vale lembrar, no único confronto entre as duas Alemanhas em uma Copa do Mundo (1974), os orientais venceram por 1 a 0, em pleno território ocidental. Ou seja: um espaço maior aos clubes do leste na primeira divisão, pelo menos na primeira temporada unificada, não seria nada demais. Apenas duas vagas dentre 20, mostra como os “ricos” ocidentais trataram os “pobres” orientais, em todos os sentidos: deram-lhes “migalhas”.

E, não por acaso, 20 anos depois da queda do muro ainda persistem as diferenças entre os dois lados da Alemanha. A população do leste é discriminada, e não cresce: muitos jovens emigram para o oeste, em busca de melhores condições de vida e de empregos, difíceis de serem conseguidos no leste. E as dificuldades são um fator desmotivador à geração de filhos: o leste alemão é a região onde menos nascem crianças na Europa.