Leite adulterado: vale tudo pelo lucro

Charge que o Kayser fez em 2007 e que, infelizmente, continua atual...

Charge que o Kayser fez em 2007 e que, infelizmente, continua atual…

A revelação por parte do Ministério Público do Rio Grande do Sul de que empresas adicionavam formol ao leite que vendiam causou indignação, por razões óbvias: quem beberia, em sã consciência, algo que contém uma substância cancerígena?

Mas não pensem que trata-se de caso isolado: a própria charge lembra que em 2007 houve escândalo semelhante. E sabe-se lá quantos outros produtos estão também adulterados por substâncias e que acabamos comprando (e ingerindo) sem saber.

Isso nada mais é do que resultado da lógica capitalista, segundo a qual o alimento não existe para nutrir as pessoas, mas sim para ser vendido. Traduzindo: tem de dar lucro. Obviamente não podemos generalizar: há muitas pessoas que não colocam o dinheiro acima de tudo, e optam pela honestidade mesmo que com isso seu negócio dê prejuízo. Porém, em outros casos a ganância fala mais alto, e aí vale tudo para lucrar. (Entendeu por que existe corrupção?)

O pior de tudo é que quem se ferra com isso somos nós, que bebemos leite com formol e achocolatado com detergente, comemos alimento velho com prazo de validade adulterado para parecer novo…

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O grande erro político de Hugo Chávez

Algo que já disse várias vezes, e que novamente repito: a aprovação pelo povo venezuelano da reeleição ilimitada em referendo realizado em fevereiro de 2009 foi uma aparente vitória do presidente Hugo Chávez, que ganhou o direito de se candidatar novamente à presidência em 2012. Assim aconteceu, e em outubro passado, os venezuelanos deram mais um mandato a Chávez.

O fato da vitória ser “aparente” ficou claro quando Hugo Chávez anunciou que tinha câncer, em junho de 2011. Não tivesse se empenhado tanto em mudar a constituição para poder se reeleger mais vezes (inclusive alcançado tal objetivo), Chávez teria forçado seu partido, o PSUV, a formar novas lideranças em condições de dar continuidade a seu projeto político – e isso já teria começado bem antes de 2011.

Resultado: o povo não votava em um projeto político, e sim, no líder que encarnava uma espécie de “salvador da pátria”. Prova disso é que Nicolás Maduro, o candidato indicado por Chávez (apenas em dezembro de 2012), venceu, mas por uma margem muito pequena, inferior a 2%. A expressiva votação do oposicionista Henrique Capriles assanhou a oposição, que solicitou auditoria dos votos (pedido prontamente aceito por Maduro) e recusa-se a aceitar a vitória do candidato governista, o que pode resultar inclusive em violência nas ruas, dado o histórico da direita venezuelana.

Ou seja, das urnas emerge uma Venezuela praticamente dividida ao meio. A eleição de Maduro mostra que um chavismo sem Hugo Chávez não é impossível (afinal, vitória apertada não deixa de ser vitória), mas é muito mais fraco na ausência de seu líder. Justamente por ser um projeto político extremamente vinculado a Chávez.

Pedra cantada há quatro anos

Porém, como ninguém está livre de nada, e se acontecer algum problema que impeça Hugo Chávez de continuar, quem o substituirá? Não há a preocupação de se lançar novas lideranças dentro do próprio partido de Chávez, que possam sucedê-lo sem dificuldades.

Escrevi o parágrafo acima em fevereiro de 2009, quando os venezuelanos aprovaram, em referendo, o fim do limite de reeleições consecutivas para cargos executivos. Foi, aparentemente, uma vitória do presidente Hugo Chávez.

Ao contrário do que os ingênuos acreditam, a medida não beneficiou apenas Chávez: a mudança foi na constituição, ou seja, todos os ocupantes de cargos executivos na Venezuela podem concorrer indefinidamente à reeleição. Logo, prefeitos e governadores oposicionistas também se deram bem.

Mas o principal motivo pelo qual a vitória foi aparente, agora é entendido – embora não sem aviso, como prova o texto de quatro anos atrás. Antes da emenda constitucional ser aprovada, Chávez não poderia ser candidato à presidência em 2012. Desta forma, seu partido precisaria se preocupar em formar novas lideranças em condições de dar continuidade a seu projeto político – o que seria ótimo para o chavismo, que deixaria de ser vinculado apenas a Chávez.

Não foi o que aconteceu: com Chávez podendo concorrer indefinidamente, a possibilidade dele não ter condições de continuar na presidência acaba gerando uma grande incerteza na Venezuela. Caso a emenda não tivesse sido aprovada em 2009, na próxima quinta-feira um novo presidente (provavelmente vinculado ao chavismo) seria empossado em situação que, embora não de normalidade (afinal, Chávez estaria ausente da cerimônia de transmissão do cargo devido às suas condições de saúde), seria bem mais tranquila em termos políticos.

Esse papo de “Lula, vai se tratar pelo SUS” já encheu o saco

O câncer na laringe de Lula foi anunciado no último sábado. De cara, enquanto políticos de situação e oposição manifestavam solidariedade ao ex-presidente e desejaram-lhe sucesso no tratamento, alguns reaças começaram a comemorar, torcendo para que ele morresse rápido.

Não demorou para eles perceberem que queimaram muito o filme com essa. Afinal, gente que se diz “civilizada” não pode tratar adversários políticos como se fossem inimigos.

Logo, acharam uma outra maneira de tripudiar em cima da doença de Lula: com uma campanha para que ele tratasse seu câncer pelo SUS. E nessa, foram mais “bem-sucedidos”, pois a saúde pública no Brasil precisa, sim, melhorar, daí a sugestão para que o ex-presidente a utilizasse.

E é por causa disso que me decepcionei com pessoas que sempre considerei sensatas: aderiram sem pensar a essa campanha. Saíram por aí falando horrores do SUS, que ele é “horrível” e por conta disso Lula preferiria pagar por seu tratamento*. E mesmo os defensores do ex-presidente também cometeram uma cagada: disseram que quem critica Lula nunca usou o SUS.

Mas a verdade é que muita gente que enche a boca para dizer “o SUS é uma porcaria” muitas vezes o usa sem saber. Quem já foi atendido pelo Hospital de Pronto Socorro de Porto Alegre, por exemplo, necessariamente usou o SUS. Lembro que 11 anos atrás uma garrafa de champanhe estourou “do nada” enquanto eu almoçava na casa da minha avó, o pedaço que voou caiu exatamente em cima da minha mão direita, me abrindo um talho daqueles. Peguei um táxi e me mandei para o HPS, onde tive um ótimo atendimento sem precisar desembolsar um único centavo naquele momento.

Aí alguém lembrará que foi um atendimento de urgência, que o problema é na hora de marcar uma consulta, muitas vezes só se consegue para muito tempo depois… Tudo bem, o SUS tem muitos problemas, e é preciso cobrar das autoridades as necessárias melhorias. Mas daí a dizer que todo o sistema é ruim, como essa campanhazinha imbecil sugere, é preciso ter muita inocência – ou cara-de-pau mesmo.

Ainda mais que o SUS não se resume apenas a atendimento médico. O(a) leitor(a) tem diabetes, hipertensão, esclerose múltipla ou outra doença incurável? Pois saiba então que tem direito a receber gratuitamente os medicamentos necessários para seu tratamento. Pelo SUS. A Farmácia Popular, lembra? É graças a ela que minha mãe não precisará ficar o resto da vida gastando dinheiro com remédios para a pressão alta que, 30 anos atrás, quase impediu que eu estivesse aqui para escrever este texto.

Mas, quem quiser continuar com essa campanhazinha babaca que já me encheu muito o saco, ao menos seja coerente, e peça para o prefeito de sua cidade largar o carro oficial e pegar um ônibus às 6 da tarde. Ah, e que isso se dê independentemente do partido ao qual ele é filiado, OK?

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* Tenho certeza absoluta de que, se Lula decidisse tratar seu câncer pelo SUS, os mesmos que estão enchendo o saco chamariam ele de “demagogo”, e reclamariam dele tirar a vaga de quem não pode pagar, enquanto ele tem dinheiro para fazer tratamento particular.

A prova de que estupidez é o que não falta

Ontem pela manhã, foi noticiada pela imprensa a descoberta de um tumor na laringe de Lula. O ex-presidente fará tratamento com quimioterapia.

Logo que a notícia foi divulgada, diversos líderes políticos de situação e oposição manifestaram solidariedade a Lula e à família dele. Bem diferente de pessoas que comemoraram e anunciaram a torcida pela morte do ex-presidente.

Pois uma coisa é não ter gostado dos 8 anos de governo Lula, assim como eu não gostei dos 8 anos de Fernando Henrique Cardoso na presidência. Mas torcer para que ele morra (mesmo sendo a morte a única coisa certa da vida), é algo totalmente diferente.

Desejar a morte de um adversário político (desta forma vendo-o como um inimigo) é uma atitude das mais estúpidas que alguém pode ter. Demonstra uma total falta de civilidade – e podem ter certeza que estes “torcedores” pela morte de Lula se acham os “superiores”, os “civilizados”.

Pois digo que quem deseja a morte de um adversário político não é superior a ninguém, seja de esquerda ou de direita. Se fosse FHC que estivesse doente, um petista que comemorasse a notícia seria tão estúpido quanto os que celebram o câncer de Lula.

Quem vê o oponente como um inimigo, precisa rever urgentemente o seu conceito de política. Até porque a vida inteira deparamos com pessoas que pensam diferente (ninguém é 100% igual a nós) e, se as rejeitássemos de cara, deixaríamos de descobrir o que temos em comum, que poderia até mesmo se transformar numa grande amizade.

Câncer de Chávez é ameaça a seu projeto político

O que era rumor, se confirmou ontem. O presidente venezuelano Hugo Chávez, em pronunciamento à TeleSur, admitiu estar combatendo um câncer.

Mesmo estando em Cuba para o tratamento de saúde, Hugo Chávez não transmitiu interinamente o cargo ao vice-presidente Elias Jaua, gerando protestos da oposição. Chávez diz estar acompanhando e liderando as questões políticas na Venezuela.

Em fevereiro de 2009, logo que a população venezuelana aprovou em referendo a reeleição ilimitada para cargos executivos, escrevi sobre o assunto, defendendo que, ao contrário do que muitos apoiadores pensam, tal medida era prejudicial a seu projeto político. Pois este é vinculado a apenas a uma pessoa, o próprio Hugo Chávez, não havendo a preocupação em se formar novas lideranças dentro de seu partido – e com o fim do limite de reeleições, se passou a pensar menos ainda em alguém que possa suceder Chávez sem dificuldades caso ele não possa mais ser o presidente.

Pois tal situação parece mais próxima: embora Chávez diga que o tratamento do câncer esteja evoluindo bem, sabemos como tal doença é traiçoeira, muitas vezes voltando quando se acredita estar livre dela. E a próxima eleição presidencial na Venezuela ocorrerá no final do próximo ano… Chávez terá condições de continuar?

O cigarro e eu

Quem já me viu perto de fumantes, sabe o quanto sou chato… Êta fumacinha desgraçada! O fato do meu pai e da minha mãe serem fumantes apenas ajuda a aumentar minha repulsa por essa (autêntica) droga.

Cheiro de cigarro é simplesmente horrível. Tão ruim, que acredito detestá-lo mais do que o verão de Porto Alegre. Aquele calorão pode ser nojento, me deixar de mau humor… Mas, em si, ele não mata: as doenças típicas do verão – como a dengue – podem ser prevenidas mesmo que a temperatura mantenha-se alta.

Já o cigarro, causa no mínimo um câncer. E o pior de tudo, é que aquela fumaça maldita é mais maléfica para quem não está com o cigarro na boca: afinal, a porcaria tem filtro que impede o fumante de aspirar todo o lixo contido no negócio. Ou seja, quem acompanha o “chaminé” corre mais risco: guardadas as proporções, andar com um fumante é como ter uma Chernobyl ambulante ao lado (afinal, radiação também causa no mínimo um câncer).

Ou seja, quem me conhece acha que eu devo adorar “leis antifumo”, como a que começou a vigorar em São Paulo, e a que já existe em Porto Alegre (não sei se é exatamente igual à paulista). Mas, incrivelmente, eu sou contra. Por quê?

Simples. Apesar do cigarro ser uma droga (literalmente), fazer mal à saúde etc., acho que a melhor maneira de combatê-lo é a educação: ou seja, divulgando o máximo possível os malefícios causados por ele, tornando as pessoas conscientes disso. Assim como, é claro, os fumantes aprenderem que nem todo mundo gosta de cigarro e daquela fumaça desgraçada, e assim evitarem fumar junto a quem não se mata aos poucos.

Sem contar que não vejo lógica em uma lei que proiba o fumo em tantos lugares, sendo o cigarro uma droga legalizada. Ou seja, o fumante pode comprar cigarro (pagando uma porrada de imposto – e tem que pagar mesmo) mas ao mesmo tempo não pode consumi-lo mesmo em alguns locais abertos.

Porém, e se um dono de bar decidir que seu estabelecimento é “exclusivo para fumantes”? Afinal, não haveria conflitos, visto que quem não fuma não entraria. Já aconteceu em Porto Alegre, logo que a lei antifumo passou a vigorar por aqui: o proprietário colocou uma placa em frente avisando que o bar era “exclusivo para fumantes”, mas alguém chamou a Brigada, o que gerou confusão.

E já que falei em bar, não custa nada lembrar a estúpida proibição ao álcool nos estádios de futebol. Venderam isso como a solução para a violência entre as torcidas, e assim desde o Campeonato Brasileiro do ano passado não se pode tomar uma cervejinha gelada durante o jogo. Mas, no dia 16 de novembro de 2008, uma briga entre torcidas gremistas após o jogo Grêmio x Coritiba terminou em tiroteio e pessoas baleadas em estado grave no HPS. E a motivação é bem mais séria do que uma simples desavença provocada por umas cervejas a mais.

O que eu quero dizer com tudo isso? É que utilizando-se de motivos nobres – como o combate aos malefícios causados por uma droga – o Estado vai se “bigbrotherzando” aos poucos. Uma coisa é a defesa da saúde do cidadão e a repressão ao crime, outra é usá-las como desculpas para controlar o dia-a-dia e os costumes das pessoas. Afinal, o que é a Lei Azeredo?

Hoje, os vilões são os pedófilos, os fumantes e os torcedores que gostam de tomar uma cervejinha no estádio (claro que não todo o estoque do bar, aí sim é coisa de bebum!). No futuro, poderão ser todas as pessoas que não se encaixem no padrão para uma “sociedade ideal”. Ou seja, que sua aparência, seus costumes, seus hábitos, não agradem a quem detém o poder.