Minha proposta de calendário para o futebol brasileiro (e sul-americano)

O texto de domingo rendeu vários comentários acerca do calendário do futebol brasileiro. Destaco a proposta feita pelo André Egg em seu blog, bastante interessante – embora eu defenda algo um pouco diferente. Mas é a partir dela que escrevo.

Por mim, teríamos algo semelhante ao que defende o André em relação ao número de participantes dos campeonatos estaduais. Mas diferente quanto à duração: o modelo que considero ideal é o dos “superestaduais”, adotado em 2002, ano em que os torneios regionais (Copa Sul-Minas, Torneio Rio-São Paulo, Campeonato do Nordeste etc.) ocuparam o lugar dos campeonatos estaduais no primeiro semestre. Como “não se podia acabar com a tradição”, os estaduais foram mantidos, mas de curtíssima duração. O “Supergauchão”, por exemplo, começou em 18 de maio, e no dia 2 de junho o Inter levantou a taça.

Estes torneios estaduais poderiam ser realizados em fevereiro. Os clubes das Séries A, B e C do Brasileirão teriam participação garantida (em 2002, eram os participantes dos regionais). Os demais, disputariam as vagas que restassem até completar um número entre oito e doze equipes, ao longo do ano anterior ao torneio. As “eliminatórias” seriam divididas por regiões, de modo a que clubes de todas as partes dos Estados pudessem jogar os “superestaduais”. Citando um exemplo, o Rio Grande não precisaria ser promovido para enfrentar a dupla Gre-Nal, visto que as divisões estaduais seriam extintas (talvez só fosse necessário mantê-las em São Paulo, onde se disputa até pelo menos a quinta divisão).

Nesse torneio curto, os clubes das capitais jogariam apenas no interior (exceto, é claro, quando se enfrentassem). Assim, se daria mais chance aos times pequenos, assim como “se agradaria aos torcedores do interior”.

Quanto ao Brasileirão, eu não reduziria o número de participantes nas Séries A e B a 16, como propôs o André. Manteria em 20, mas com jogos apenas aos finais de semana – reservando as terças, quartas e quintas para Libertadores, Sul-Americana e Copa do Brasil. O Campeonato Brasileiro de 2011, desta forma, poderia ter começado em 19 de março, se estendendo até 4 de dezembro – ou seja, no próximo fim-de-semana se disputaria a décima rodada, e não a primeira. Isso sem nenhuma “folga” que poderia ser dada devido a convocações da Seleção (se bem que a maioria dos convocados joga na Europa, então…), mas ainda assim há bastante espaço para o Brasileirão.

A Série C atualmente conta com 20 clubes, mas o regulamento é diferente: o campeonato é disputado com fases de grupos e, na sequência, “mata-matas”. Eu acharia legal adotar a mesma fórmula das séries A e B: pontos corridos, turno e returno. Não sei se seria viável. Mas ao menos se manteria os participantes jogando o ano inteiro, como acontece nas séries A e B.

Na Série D, eu mexeria só na definição dos participantes: além dos quatro rebaixados da Série C, também seria disputada por clubes bem classificados nas “eliminatórias” para os “superestaduais” (que seriam jogados apenas pela tradição).

Quanto ao acesso e descenso, manteria como está: quatro caem, quatro sobem. Fossem apenas dois, poderia inviabilizar a disputa em pontos corridos das séries B e C, visto que no meio do campeonato um clube poderia já não ter mais chance de subir, mas também estaria livre do rebaixamento, e assim teria de se manter jogando sem motivação, o que facilitaria tentativas de suborno (não adianta pensarmos bonito, em “eles vão jogar pela honra”, se não estiverem disputando mais nada).

Mudaria a definição das vagas brasileiras à Libertadores. Atualmente, elas ficam com os quatro melhores do Campeonato Brasileiro, mais o campeão da Copa do Brasil (que seria disputada ao longo de toda a temporada, e não só em um semestre). Pela minha proposta, os cinco melhores do Brasileirão iriam para a Libertadores, e o campeão da Copa do Brasil asseguraria vaga na Copa Sul-Americana – vale lembrar que na Europa, nenhuma das copas nacionais classifica para a Liga dos Campeões. E algo bacana seria a volta da Supercopa do Brasil, entre o campeão brasileiro e da Copa do Brasil: na única edição, realizada em 1990, o Grêmio (campeão da Copa do Brasil de 1989) foi campeão diante do Vasco (campeão brasileiro de 1989).

Conforme avisei no título, as mudanças não devem acontecer apenas no Brasil. Deveriam mudar também a Taça Libertadores e a Copa Sul-Americana: assim como acontece com a Liga dos Campeões e a Liga Europa, os dois principais torneios de clubes da Conmebol deveriam ser realizados simultaneamente, e ao longo de toda a temporada. Poderiam começar em fevereiro, e serem decididos em novembro. E em janeiro do ano seguinte, se disputaria a Recopa Sul-Americana, entre os campeões dos dois torneios.

A Copa Sul-Americana deixaria de classificar para a Libertadores (ou seja, o “G-5” do Brasileirão seria sempre “G-5”). Afinal, com os jogos dela menos concentrados em uma época (atualmente, é disputada de agosto a dezembro), não iria “atrapalhar”, a ponto de precisar ter vaga à Libertadores para motivar os clubes a valorizá-la. Diferente do que acontece hoje, quando quem está bem no Brasileirão despreza a Sul-Americana, que acaba sendo prioridade dos times sem chances no campeonato nacional: foi assim com Inter (campeão de 2008), Fluminense (vice de 2009) e Goiás (vice de 2010, depois de ser rebaixado no Brasileirão).

Outra ideia para valorizar a Sul-Americana seria diminuir o número de clubes brasileiros e argentinos que a disputam. Ao invés de oito (que se enfrentam numa tosca “fase nacional”), iriam apenas quatro, direto para a disputa com os estrangeiros. Deixaria, assim, de acontecer a bizarrice de um clube escapar do rebaixamento na última rodada e acabar na Sul-Americana do ano seguinte.

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Claro, pensei nas datas levando em conta o atual calendário usado pelo futebol brasileiro, em que a temporada começa e termina no mesmo ano. Mas há as propostas para que se adote o chamado “calendário europeu”: assim, basta trocar janeiro por julho, março por setembro, dezembro por junho, e por aí vai…

O retrocesso no calendário do futebol brasileiro

Ano passado, quando listei os motivos pelos quais prefiro o inverno ao verão (lista atualizada quando se iniciou o último verão), lembrei que a combinação de “verão” com “futebol no Rio Grande do Sul” dava “Gauchão”. Nada contra o futebol gaúcho, muito pelo contrário. É que acho o atual modelo de estaduais anacrônico, ruim para o futebol do interior do Estado – ao contrário do que muita gente pensa. Em breve, pretendo escrever mais sobre como se poderia realmente melhorá-lo.

(No atual Gauchão, que começou em 15 de janeiro, passou-se quatro meses jogando para a decisão ser, mais uma vez, um Gre-Nal. Apesar de que fazia quase 20 anos que não se tinha dois Gauchões seguidos decididos em Gre-Nal – a última ocasião foi nos anos de 1991 e 1992 -, Grêmio e Inter decidindo o título é talvez a maior tradição do campeonato. A década passada é que foi “estranha”, quando apenas em 2006 e 2010 o Gauchão acabou em Gre-Nal.)

Mas, voltando à questão “retrocesso calendárico”. Conforme falei, o campeonato começou em 15 de janeiro (menos de um mês, portanto, do fim da temporada de 2010 para o Internacional, que no ano passado disputou o Mundial de Clubes). E só termina hoje, 15 de maio. Ou seja, se “verão + futebol gaúcho = Gauchão”, ao mesmo tempo não podemos chamar o campeonato estadual de “torneio de verão”, visto que já se foi quase metade do outono, e daqui a pouco mais de um mês já será inverno.

Como bem lembrou o Vicente em seu ótimo texto no Carta na Manga, desde 2003 (quando foi adotada a fórmula dos pontos corridos no Brasileirão), o campeonato nacional nunca tinha começado tão tarde. Naquele ano, iniciou-se em 29 de março (ou seja, os estaduais foram realmente “torneios de verão”), terminando em 14 de dezembro. Em 2004 e 2005 começou mais tarde, no final de abril, durando respectivamente até 19 e 4 de dezembro (primeiro domingo do último mês do ano, como passou a ser regra desde então). O Brasileirão de 2006 teve seu início um pouco mais cedo, em 15 de abril, devido à paralisação prevista durante a Copa do Mundo. A partir de 2007, passou a começar no segundo sábado de maio, fazendo os estaduais avançarem um pouco mais outono adentro (foi assim inclusive em 2010, ano de Copa). E agora, em 2011, começa apenas em 21 de maio, um mês antes do início do inverno.

Ou seja, temos estaduais cada vez mais longos, e um Campeonato Brasileiro cada vez mais espremido. Um certame de 20 clubes disputado em turno e returno (ou seja, com 38 rodadas) não pode durar apenas seis meses e meio (o Brasileirão 2011 termina em 4 de dezembro). É jogo demais em pouco tempo – e lembrando que a Libertadores ainda não terminou, e no segundo semestre tem Copa Sul-Americana para vários clubes (e aí estranham quando os que estão bem no Brasileirão escalam reservas na “Sula”).

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Mas uma coisa é verdade também. Com tanto espaço no calendário, se poderia tranquilamente reduzir o número de participantes do Campeonato Gaúcho e fazê-lo em pontos corridos, turno e returno. E também não teria se visto aquela polêmica quanto ao Gre-Nal da decisão do 2º turno (a Conmebol não marcaria um jogo do Grêmio na terça já sabendo que ele teria de jogar dois dias antes, visto que a partida do Gauchão estaria marcada há meses).

Mas, entre um Gauchão longo de pontos corridos com Brasileirão espremido, e um Gauchão curto e “formulista” com Brasileirão de oito meses (e, claro, disputado em pontos corridos, turno e returno), prefiro sem dúvida alguma a segunda opção.

O futebol na Globo

Dos dez estaduais transmitidos, oito são apenas para os Estados aos quais correspondem (Rio Grande do Sul, Santa Catarina, Paraná, Minas Gerais, Goiás, Bahia, Pernambuco e Ceará). Os outros dois campeonatos (Campeonatos Paulista e Carioca) são transmitidos não só para São Paulo e Rio de Janeiro, como para vários outros Estados. Ou seja, o torcedor do Paysandu – que costuma lotar o Mangueirão em Belém – não pode ver seu time na Globo, pois tem jogo do Flamengo…

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