CBF: não mudou nada

A saída de Ricardo Teixeira da presidência da CBF, cargo que ocupava desde 1989 (que estranho, a Globo nunca o chamou de ditador…), é obviamente um fato a ser saudado. Afinal, já vinham de bom tempo atrás as acusações de corrupção contra Teixeira: em 2000-2001, uma CPI já investigara as denúncias contra a CBF.

O sucessor de Ricardo Teixeira, José Maria Marin, já foi governador de São Paulo por dez meses no início dos anos 80, completando o mandato de Paulo Maluf, que renunciou para ser candidato a deputado federal pelo PDS nas eleições de 1982. Vamos combinar que ter sido vice de Maluf não é algo lá muito abonador… E Marin assume com um discurso de continuidade, o que é ainda menos animador.

Afinal, o que deve ser mantido após estes 23 anos de “era Teixeira”? Os títulos da seleção brasileira (masculina), como as Copas de 1994 e 2002? Ora, mas quem joga são os jogadores, e não os dirigentes… (E se o Brasil é tão forte no futebol, é graças aos jogadores, e apesar dos dirigentes.)

Ou seria mantido o ridículo apoio da CBF ao futebol feminino? Que, aliás, confirma a nossa força apesar dos dirigentes, pois mesmo sem estrutura alguma e, pasmem, sem um campeonato nacional, as nossas craques são sempre candidatas ao título nas Copas do Mundo e nos Jogos Olímpicos.

Se houve algum progresso nos 23 anos de Ricardo Teixeira à frente da CBF (como a implantação dos pontos corridos e o respeito aos regulamentos no Campeonato Brasileiro), isso não apaga as denúncias contra o dirigente e toda a politicagem que marcou o período. Verdade que ela já existia antes de Teixeira assumir a presidência da CBF, mas se ele a manteve, francamente, não podemos falar em “progresso” do futebol brasileiro como um todo.

Ainda mais que os clubes brasileiros hoje em dia têm imensa dificuldade para manter seus jogadores frente ao assédio dos clubes europeus, que levam embora nossos craques cada vez mais cedo. Enquanto isso, a entidade demonstra preocupar-se apenas com a seleção (masculina), apresentada ao mundo como o principal “produto” da “marca CBF”, sem nada fazer em real benefício dos clubes.

Portanto, o momento não é próprio para empolgação. Ver Ricardo Teixeira fora da CBF pode ser bom, mas sua saída pode muito bem ser a famosa “troca de seis por meia dúzia”.

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Minha proposta de calendário para o futebol brasileiro (e sul-americano)

O texto de domingo rendeu vários comentários acerca do calendário do futebol brasileiro. Destaco a proposta feita pelo André Egg em seu blog, bastante interessante – embora eu defenda algo um pouco diferente. Mas é a partir dela que escrevo.

Por mim, teríamos algo semelhante ao que defende o André em relação ao número de participantes dos campeonatos estaduais. Mas diferente quanto à duração: o modelo que considero ideal é o dos “superestaduais”, adotado em 2002, ano em que os torneios regionais (Copa Sul-Minas, Torneio Rio-São Paulo, Campeonato do Nordeste etc.) ocuparam o lugar dos campeonatos estaduais no primeiro semestre. Como “não se podia acabar com a tradição”, os estaduais foram mantidos, mas de curtíssima duração. O “Supergauchão”, por exemplo, começou em 18 de maio, e no dia 2 de junho o Inter levantou a taça.

Estes torneios estaduais poderiam ser realizados em fevereiro. Os clubes das Séries A, B e C do Brasileirão teriam participação garantida (em 2002, eram os participantes dos regionais). Os demais, disputariam as vagas que restassem até completar um número entre oito e doze equipes, ao longo do ano anterior ao torneio. As “eliminatórias” seriam divididas por regiões, de modo a que clubes de todas as partes dos Estados pudessem jogar os “superestaduais”. Citando um exemplo, o Rio Grande não precisaria ser promovido para enfrentar a dupla Gre-Nal, visto que as divisões estaduais seriam extintas (talvez só fosse necessário mantê-las em São Paulo, onde se disputa até pelo menos a quinta divisão).

Nesse torneio curto, os clubes das capitais jogariam apenas no interior (exceto, é claro, quando se enfrentassem). Assim, se daria mais chance aos times pequenos, assim como “se agradaria aos torcedores do interior”.

Quanto ao Brasileirão, eu não reduziria o número de participantes nas Séries A e B a 16, como propôs o André. Manteria em 20, mas com jogos apenas aos finais de semana – reservando as terças, quartas e quintas para Libertadores, Sul-Americana e Copa do Brasil. O Campeonato Brasileiro de 2011, desta forma, poderia ter começado em 19 de março, se estendendo até 4 de dezembro – ou seja, no próximo fim-de-semana se disputaria a décima rodada, e não a primeira. Isso sem nenhuma “folga” que poderia ser dada devido a convocações da Seleção (se bem que a maioria dos convocados joga na Europa, então…), mas ainda assim há bastante espaço para o Brasileirão.

A Série C atualmente conta com 20 clubes, mas o regulamento é diferente: o campeonato é disputado com fases de grupos e, na sequência, “mata-matas”. Eu acharia legal adotar a mesma fórmula das séries A e B: pontos corridos, turno e returno. Não sei se seria viável. Mas ao menos se manteria os participantes jogando o ano inteiro, como acontece nas séries A e B.

Na Série D, eu mexeria só na definição dos participantes: além dos quatro rebaixados da Série C, também seria disputada por clubes bem classificados nas “eliminatórias” para os “superestaduais” (que seriam jogados apenas pela tradição).

Quanto ao acesso e descenso, manteria como está: quatro caem, quatro sobem. Fossem apenas dois, poderia inviabilizar a disputa em pontos corridos das séries B e C, visto que no meio do campeonato um clube poderia já não ter mais chance de subir, mas também estaria livre do rebaixamento, e assim teria de se manter jogando sem motivação, o que facilitaria tentativas de suborno (não adianta pensarmos bonito, em “eles vão jogar pela honra”, se não estiverem disputando mais nada).

Mudaria a definição das vagas brasileiras à Libertadores. Atualmente, elas ficam com os quatro melhores do Campeonato Brasileiro, mais o campeão da Copa do Brasil (que seria disputada ao longo de toda a temporada, e não só em um semestre). Pela minha proposta, os cinco melhores do Brasileirão iriam para a Libertadores, e o campeão da Copa do Brasil asseguraria vaga na Copa Sul-Americana – vale lembrar que na Europa, nenhuma das copas nacionais classifica para a Liga dos Campeões. E algo bacana seria a volta da Supercopa do Brasil, entre o campeão brasileiro e da Copa do Brasil: na única edição, realizada em 1990, o Grêmio (campeão da Copa do Brasil de 1989) foi campeão diante do Vasco (campeão brasileiro de 1989).

Conforme avisei no título, as mudanças não devem acontecer apenas no Brasil. Deveriam mudar também a Taça Libertadores e a Copa Sul-Americana: assim como acontece com a Liga dos Campeões e a Liga Europa, os dois principais torneios de clubes da Conmebol deveriam ser realizados simultaneamente, e ao longo de toda a temporada. Poderiam começar em fevereiro, e serem decididos em novembro. E em janeiro do ano seguinte, se disputaria a Recopa Sul-Americana, entre os campeões dos dois torneios.

A Copa Sul-Americana deixaria de classificar para a Libertadores (ou seja, o “G-5” do Brasileirão seria sempre “G-5”). Afinal, com os jogos dela menos concentrados em uma época (atualmente, é disputada de agosto a dezembro), não iria “atrapalhar”, a ponto de precisar ter vaga à Libertadores para motivar os clubes a valorizá-la. Diferente do que acontece hoje, quando quem está bem no Brasileirão despreza a Sul-Americana, que acaba sendo prioridade dos times sem chances no campeonato nacional: foi assim com Inter (campeão de 2008), Fluminense (vice de 2009) e Goiás (vice de 2010, depois de ser rebaixado no Brasileirão).

Outra ideia para valorizar a Sul-Americana seria diminuir o número de clubes brasileiros e argentinos que a disputam. Ao invés de oito (que se enfrentam numa tosca “fase nacional”), iriam apenas quatro, direto para a disputa com os estrangeiros. Deixaria, assim, de acontecer a bizarrice de um clube escapar do rebaixamento na última rodada e acabar na Sul-Americana do ano seguinte.

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Claro, pensei nas datas levando em conta o atual calendário usado pelo futebol brasileiro, em que a temporada começa e termina no mesmo ano. Mas há as propostas para que se adote o chamado “calendário europeu”: assim, basta trocar janeiro por julho, março por setembro, dezembro por junho, e por aí vai…

O retrocesso no calendário do futebol brasileiro

Ano passado, quando listei os motivos pelos quais prefiro o inverno ao verão (lista atualizada quando se iniciou o último verão), lembrei que a combinação de “verão” com “futebol no Rio Grande do Sul” dava “Gauchão”. Nada contra o futebol gaúcho, muito pelo contrário. É que acho o atual modelo de estaduais anacrônico, ruim para o futebol do interior do Estado – ao contrário do que muita gente pensa. Em breve, pretendo escrever mais sobre como se poderia realmente melhorá-lo.

(No atual Gauchão, que começou em 15 de janeiro, passou-se quatro meses jogando para a decisão ser, mais uma vez, um Gre-Nal. Apesar de que fazia quase 20 anos que não se tinha dois Gauchões seguidos decididos em Gre-Nal – a última ocasião foi nos anos de 1991 e 1992 -, Grêmio e Inter decidindo o título é talvez a maior tradição do campeonato. A década passada é que foi “estranha”, quando apenas em 2006 e 2010 o Gauchão acabou em Gre-Nal.)

Mas, voltando à questão “retrocesso calendárico”. Conforme falei, o campeonato começou em 15 de janeiro (menos de um mês, portanto, do fim da temporada de 2010 para o Internacional, que no ano passado disputou o Mundial de Clubes). E só termina hoje, 15 de maio. Ou seja, se “verão + futebol gaúcho = Gauchão”, ao mesmo tempo não podemos chamar o campeonato estadual de “torneio de verão”, visto que já se foi quase metade do outono, e daqui a pouco mais de um mês já será inverno.

Como bem lembrou o Vicente em seu ótimo texto no Carta na Manga, desde 2003 (quando foi adotada a fórmula dos pontos corridos no Brasileirão), o campeonato nacional nunca tinha começado tão tarde. Naquele ano, iniciou-se em 29 de março (ou seja, os estaduais foram realmente “torneios de verão”), terminando em 14 de dezembro. Em 2004 e 2005 começou mais tarde, no final de abril, durando respectivamente até 19 e 4 de dezembro (primeiro domingo do último mês do ano, como passou a ser regra desde então). O Brasileirão de 2006 teve seu início um pouco mais cedo, em 15 de abril, devido à paralisação prevista durante a Copa do Mundo. A partir de 2007, passou a começar no segundo sábado de maio, fazendo os estaduais avançarem um pouco mais outono adentro (foi assim inclusive em 2010, ano de Copa). E agora, em 2011, começa apenas em 21 de maio, um mês antes do início do inverno.

Ou seja, temos estaduais cada vez mais longos, e um Campeonato Brasileiro cada vez mais espremido. Um certame de 20 clubes disputado em turno e returno (ou seja, com 38 rodadas) não pode durar apenas seis meses e meio (o Brasileirão 2011 termina em 4 de dezembro). É jogo demais em pouco tempo – e lembrando que a Libertadores ainda não terminou, e no segundo semestre tem Copa Sul-Americana para vários clubes (e aí estranham quando os que estão bem no Brasileirão escalam reservas na “Sula”).

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Mas uma coisa é verdade também. Com tanto espaço no calendário, se poderia tranquilamente reduzir o número de participantes do Campeonato Gaúcho e fazê-lo em pontos corridos, turno e returno. E também não teria se visto aquela polêmica quanto ao Gre-Nal da decisão do 2º turno (a Conmebol não marcaria um jogo do Grêmio na terça já sabendo que ele teria de jogar dois dias antes, visto que a partida do Gauchão estaria marcada há meses).

Mas, entre um Gauchão longo de pontos corridos com Brasileirão espremido, e um Gauchão curto e “formulista” com Brasileirão de oito meses (e, claro, disputado em pontos corridos, turno e returno), prefiro sem dúvida alguma a segunda opção.

Isto sim que é referência para o Grêmio

3 de maio de 1981. Há 30 anos, o Grêmio era campeão brasileiro pela primeira vez.

Taí a inspiração para tentar reverter a dificílima situação na Libertadores (e também para depois): o Grêmio teve de superar muitas dificuldades ao longo do Campeonato Brasileiro de 1981, e ao chegar à decisão contra o São Paulo, o adversário era considerado o favorito absoluto. (Bem diferente de uma certa partida na qual Paulo Odone resolveu buscar inspiração, em que na base do “drama” o Tricolor conseguiu apenas o que era sua obrigação.)

GRANDE GRÊMIO!

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Para ler (e ver, e também ouvir…) mais duas dicas: o especial Grêmio no Brasileiro 1981 (do blog Grêmio 1903) e o blog Brasileiro1981, do André Kruse (do blog Grêmio 1983).

A maior tradição do futebol brasileiro

Engana-se quem pensa que vou falar de “futebol-arte” e coisa parecida. Pois isso nem é exclusividade do Brasil: se o que Maradona jogava (e agora Messi joga) não se encaixa nesse conceito de “arte” do qual falam tantos opinistas, não sei mais o que é “futebol bonito”.

A maior tradição do futebol brasileiro chama-se politicagem. Nisso sim, somos inigualáveis. Tanto que, depois de relativa calma nos últimos anos, os clubes trataram de lembrar “os velhos tempos”, com o racha no Clube dos 13 e a possibilidade de acertos em separado com duas emissoras de televisão para a transmissão do Campeonato Brasileiro de 2012 (fim do mundo?) em diante. (E o Grêmio vai negociar diretamente com a Globo, ou seja, provavelmente ainda teremos por um bom tempo os jogos no maldito horário das 21h50min, sem contar que se manterá o monopólio “global”; e além de tudo, isso poderá ser muito prejudicial ao Tricolor, com clubes do eixo Rio-São Paulo recebendo mais que o Grêmio numa proporção muito superior à da atualidade.)

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26 anos do PRIMEIRO TÍTULO MUNDIAL do Rio Grande do Sul

O primeiro homem a pisar na Lua foi Neil Armstrong. O segundo, ninguém lembra…

A primeira ovelha clonada foi Dolly. A segunda, ninguém lembra…

O primeiro avião construído foi o 14-bis. O segundo, ninguém lembra…

O primeiro gol da história do Campeonato Brasileiro foi marcado pelo atacante argentino Nestor Scotta, do Grêmio, contra o São Paulo, em partida vencida por 3 a 0 pelo Tricolor dos Pampas (em pleno Morumbi). O segundo, ninguém lembra…

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No dia 11 de dezembro de 1983, pela primeira vez um clube do Rio Grande do Sul sagrou-se CAMPEÃO DO MUNDO. No Estádio Nacional de Tóquio, numa tarde fria e nublada, o Grêmio bateu o Hamburgo por 2 a 1, dois golaços do grande Renato Portaluppi, obtendo a marca histórica.

Os primeiros são os que todos lembram, e os que alguns, magoados por não terem sido eles os pioneiros, tentam de todas as formas desmerecer. Pelo visto dor de cotovelo pode ser, sim, insuportável…

Mitos acerca dos pontos corridos

A Rede Globo quer o retorno do “mata-mata” no Campeonato Brasileiro – ameaça que poderia se concretizar em 2011. Tudo porque a atual fórmula não tem uma “final”.

Já ouvi diversos argumentos contra e pró-pontos corridos. Porém, os contrários são baseados majoritariamente em mitos. Ao estilo “Mythbusters”, vamos detonar alguns deles então.

1. Os pontos corridos são ruins para o futebol gaúcho, sem mata-mata eles não ganham.

Será?

Talvez o exemplo mais simples para “justificar” o mito seja a campanha do Grêmio no Campeonato Brasileiro de 1996, quando foi campeão. O campeonato foi disputado com uma primeira fase na qual os 24 clubes se enfrentavam em turno único, com os 8 primeiros se classificando para o “mata-mata”. O Tricolor acabou em 6º lugar na primeira fase.

Porém, o que ninguém cita é que faltando três rodadas para o fim da primeira fase, o Grêmio estava em 2º lugar, atrás apenas do Atlético-PR. Poderia ter chegado a liderança. Porém, já classificado, optou por usar time misto – e até reserva – nas últimas três rodadas, poupando-se para as finais. E perdeu os três jogos: 2 a 0 para o Coritiba no Olímpico, 1 a 0 para o Sport na Ilha do Retiro, e 3 a 1 para o Goiás no Olímpico (o famoso jogo do “TORCEDOR GREMISTA, ELES ESTÃO FORA”, em referência à eliminação do Inter). Fosse um campeonato de pontos corridos, o Tricolor não teria poupado jogadores e poderia ter alcançado a liderança, pois tinha time para isso.

Se todos os títulos brasileiros obtidos pela dupla Gre-Nal foram obtidos em campeonatos cheios de fases, isso não quer dizer que os dois clubes não possam ser campeões nos pontos corridos: todos lembram o que aconteceu para que o Inter não fosse campeão em 2005; e em 2008 o Grêmio não teve competência para ser campeão, já o São Paulo teve de sobra.

2. Os pontos corridos são bons para os clubes paulistas, que têm mais dinheiro e são mais organizados.

Ora, isso não devia ser usado como “argumento” contra os pontos corridos! Até porque o primeiro campeão dos pontos corridos não veio de São Paulo – ou o Cruzeiro decidiu se mudar de Belo Horizonte e não me avisaram?

Os clubes paulistas têm sido campeões por terem mais dinheiro e serem mais organizados – fato. Mas a organização é fruto do dinheiro, ou o dinheiro é fruto da organização? Acredito mais na segunda opção: ninguém vai querer investir num clube bagunçado. Mesmo em São Paulo, onde há mais dinheiro.

Quem sabe não é melhor se organizar ao invés de chiar contra a fórmula? O Inter fez isso, e se teve o azar de topar com a MSI em 2005, ganhou a Libertadores e o Mundial no ano seguinte. O Grêmio percebeu essa necessidade com o buraco em que caiu no início desta década, e se ainda não vive uma situação financeira confortável, pelo menos consegue montar times que dão para o gasto. O Cruzeiro, campeão de 2003, há muitos anos é um dos clubes mais bem estruturados do país.

Mas, se parece que a fórmula dos pontos corridos é muito benéfica aos paulistas, que “não ganhariam nada” com mata-mata, não custa nada lembrar que na década de 1990 o título ficou nas mãos dos clubes de São Paulo em seis oportunidades (1990, 1991, 1993, 1994, 1998 e 1999) – metade de todas as conquistas paulistas antes dos pontos corridos. E o campeonato de 2002, o último “formulista”, foi conquistado pelo Santos, que ficou em 8º na fase de classificação.

O que indica que o dinheiro e a organização dos clubes paulistas já eram importantes antes mesmo da adoção dos pontos corridos.

3. Acabou o equilíbrio no número de conquistas, já que a maioria dos campeões é de São Paulo.

Pode parecer uma repetição do mito anterior, mas na verdade é apenas mais um – e provavelmente o mais esclarecedor.

Dos 32 campeonatos “formulistas” (1971-2002), 12 ficaram nas mãos dos clubes de São Paulo, e 11 foram para o Rio de Janeiro. O terceiro Estado em número de títulos, o Rio Grande do Sul, tem 5 conquistas.

Ou seja, o tal do “equilíbrio” no número de conquistas, na verdade é apenas na comparação de São Paulo com o Rio de Janeiro (de onde é a Globo?).

Pode parecer que os pontos corridos favoreceram o desequilíbrio no Campeonato Brasileiro pelo fato dos paulistas terem conquistado todos os títulos desde 2004. Porém – e aí é que entende-se mais a pretensão da Globo – os cariocas pararam, e faz tempo.

O futebol carioca não chega ao título desde 2000, quando o Vasco conquistou a bagunçada Copa Jean-Marie João Havelange. Depois disso, o melhor resultado do Rio de Janeiro no Campeonato Brasileiro foi o 3º lugar do Flamengo em 2007. Bem diferente dos vitoriosos anos 80, quando o título só não foi para o Rio de Janeiro nos campeonatos de 1981 (dá-lhe Grêmio!!!), 1985, 1986 e 1988. (Em 1987 considero o Sport e o Flamengo campeões.)

Ou seja, mais da metade das conquistas cariocas aconteceram de 1980 a 1989. Antes do primeiro título do Flamengo, em 1980, o único Campeonato Brasileiro do Rio tinha sido o de 1974, vencido pelo Vasco. Nos anos 90, os cariocas foram campeões em 1992, 1995 e 1997. Com formulismo e tudo, já não vinham muito bem então: inclusive, nos campeonatos de 1996 e 1998 nenhum carioca ficou entre os 8 classificados para as finais.

Inclusive, aqui volta aquela questão da “organização dos paulistas”. Qual é a imagem que se tem dos clubes do Rio, senão a de uma bagunça? Não seria essa desorganização, ao invés da fórmula, a causa do declínio carioca?

4. Um campeonato sem final não tem jogos decisivos, e assim, o público diminui.

Como diria Garrincha, “já combinaram com os russos”*? Neste caso, com os torcedores dos diversos clubes brasileiros, pois a média de público no Brasileirão subiu bastante nos últimos anos.

No formulismo, havia alguns jogos decisivos. Nos pontos corridos, todos são decisivos. Ano passado o Grêmio não perdeu o campeonato na última rodada – quando inclusive venceu seu jogo contra o Atlético-MG – e sim em joguinhos fáceis no Olímpico em que deixou de pontuar, como a derrota para o Goiás e o empate com o Figueirense. Mas eu poderia citar diversos outros jogos, em casa e fora: todos os pontos que o Grêmio perdeu fizeram falta no final. Já o São Paulo não foi campeão ao vencer o Goiás, e sim, por ter feito a melhor campanha. Simplíssimo!

Se qualquer ponto perdido poderá fazer falta ao final, é importante ir a todos os jogos, certo? Assim, o torcedor irá ao estádio sempre que possível.

5. O Brasil não é Europa, o torcedor não tem como ir a tantos jogos por ano, é muito caro.

Muitos torcedores, de fato, não têm como ir a todos os jogos – há muito tempo. E hoje em dia está cada vez mais complicado, com os valores astronômicos dos ingressos.

Porém, os preços não são culpa dos pontos corridos. No Campeonato Gaúcho de 2009, com mata-mata e tudo, o ingresso mais barato no Olímpico custava 30 reais. Como Grêmio e Inter têm muitos sócios, restam menos ingressos para serem vendidos, e como os sócios-torcedores têm direito a pagar metade do valor, ele vai às alturas.

Vale lembrar que o primeiro caso de ingresso a preços malucos no Campeonato Brasileiro foi em 2004, quando torcedores do Atlético-PR ficaram do lado de fora da Arena da Baixada enquanto o jogo rolava, em protesto contra a cobrança de 30 reais pela entrada mais barata. Aquele ano o campeonato foi de pontos corridos, se achou um absurdo o valor que o Furacão cobrava. E em 2003 já era pontos corridos e os ingressos eram bem mais baratos.

E o interessante é que mesmo com a escalada dos preços dos ingressos, a média de público não diminui…

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* Só depois de postar é que lembrei do asterisco. A frase de Garrincha foi dita antes do jogo Brasil x União Soviética, na Copa de 1958. O treinador explicava como a Seleção faria para vencer o “futebol científico” dos soviéticos, e Garrincha, curioso, quis saber se eles sabiam que era para o Brasil vencê-los… No fim, mesmo “sem ter combinado com os russos”, vitória brasileira de 2 a 0, com destaque justamente para Garrincha.

Quando eu “liguei a enxuta”

Depois da hilária série “Top 10 – Humilhações”, com posts sobre os maiores vexames dos grandes clubes brasileiros, o Impedimento lançou uma nova, dedicada apenas ao que o torcedor mais faz no futebol, além de torcer: secar.

Cheguei a fazer uma lista preliminar das minhas maiores secadas, mas agora a completo. E boa parte das referentes ao Inter é dessa década: afinal, os anos 90 foram gremistas, não era preciso secar muito… Era muito fácil o Inter perder quando os colorados mais acreditavam naquele ditado de que “agora, vai”.

Vale a pena chamar a atenção também que não só o Inter foi alvo da minha secação, como vocês verão – e elas nem sempre aconteceram por motivos meramente futebolísticos. Mas nenhum time foi mais secado do que o da beira do rio, afinal, eu tenho “inimigo na trincheira”: modéstia a parte, eu sou um herói por aguentar o meu irmão Vinicius (colorado mais chato da face da Terra) por tanto tempo sem lhe dar sequer um soquinho. Creio que a melhor maneira de suportar isso é… Secando!

Então, vamos ao meu “Top 10 – Secadas”.

10. Flamengo 1 x 0 Inter (13/12/1987)

Eu assisti o jogo decisivo do Campeonato Brasileiro junto com o meu pai e o meu irmão, os dois colorados. Se bem que o meu irmão tinha só 2 anos e meio, assim, ainda não incomodava.

Não que tenha sido uma grande secada, mas é a mais antiga que eu lembro, então precisa estar na lista.

9. Bragantino 1 x 0 Inter (24/11/1996)

Essa entra não tanto pela secada, e sim pelo “ato coletivo”.

Jogavam Grêmio e Goiás no Estádio Olímpico, e ao mesmo tempo, Bragantino e Inter em Bragança Paulista. Já classificado para as finais do Campeonato Brasileiro, o Grêmio jogou um dos piores primeiros tempos que já vi (provavelmente foi o pior daquele glorioso ano de 1996), foi para o intervalo levando 3 a 0, debaixo de vaias. Um vexame digno do “Top 10 – Humilhações” parecia se anunciar. Mas aquele era o Grêmio do Felipão. Sabe-se lá que impropérios o treinador falou no vestiário, mas o time voltou melhor no segundo tempo, e até fez um gol. O Goiás seguia na frente, com 3 a 1 no placar.

Porém, naquele momento a atenção se voltava a Bragança Paulista. O Inter precisava vencer um adversário já rebaixado para também ir às finais – se empatasse dependeria de resultados paralelos (dentre os quais, uma vitória do Grêmio seria bem-vinda). Os colorados já se sentiam jogando em Tóquio em dezembro de 1997. Só esqueceram de avisar o Bragantino, que venceu por 1 a 0.

No Olímpico, o jogo já era burocrático: o resultado era bom para o Goiás, que se classificava; e o Grêmio só esperava seu adversário nas quartas-de-final. E ainda por cima, o Inter estava fora. Numa jogada de mestre, o responsável pelo placar do Olímpico fez com que o letreiro passasse a exibir os dizeres “TORCEDOR GREMISTA, ‘ELES’ ESTÃO FORA”. Assim os gremistas que já pensavam em vaiar o time ao final do jogo (até eu vaiaria!), saíram do estádio felizes da vida, cantando músicas que debochavam dos vermelhinhos.

8. São Caetano 5 x 0 Inter (13/12/2003)

Eu não vi, não ouvi, nem prestei atenção em boa parte deste jogo da última rodada do Campeonato Brasileiro. Tinha uma atividade no PT (velhos tempos de filiado no PT…) que começava aproximadamente junto com o segundo tempo. Quando saí de casa e me dirigi à avenida João Pessoa, o São Caetano já vencia por 1 a 0.

O fato de não ter prestado atenção não queria dizer que eu não desejasse ardentemente a derrota vermelha. Afinal, bastava um empate para o Inter se classificar para a Libertadores de 2004. Um pontinho apenas, e eles fariam o que não conseguiam desde 1993. Seria um péssimo final para o ano do centenário gremista.

Eu também havia sido convidado para ir a uma pizzaria, comemorar o aniversário de uma amiga. A princípio eu não iria. Porém, quando recebi uma mensagem da minha mãe, me informando que o São Caetano havia vencido por 5 a 0, minhas convicções políticas foram vencidas pela fome – estomacal e “flauteal”. Informei que teria de sair, peguei um ônibus e me mandei para a pizzaria. Cheguei lá, e antes mesmo de cumprimentar a aniversariante, mostrei uma mão aberta a um amigo, primo dela, que era colorado…

Ainda bem que no dia seguinte o Grêmio fez 3 a 0 no Corinthians e se livrou do rebaixamento, se não toda essa diversão da véspera teria sido em vão.

7. Fluminense 2 x 1 Inter (01/09/2004)

Sequei muito, mas não adiantou. O Fluminense venceu o Inter por 2 a 1… PERAÍ??? Não tá errado esse troço???

Não: naquela noite, secar o Inter era… Torcer pelo Inter!

O técnico do Inter era Joel Santana. Desde que fora contratado, já se dizia que não daria certo, seu estilo não combinaria com o “futebol gaúcho”.

E de fato, não deu certo. Joel assumiu o time em 6º lugar no Campeonato Brasileiro, e já estava em 18º. Alguns já diziam que ia conseguir acabar atrás do pior Grêmio de todos os tempos. Se perdesse para o Flu, “tchau tchau, Joel”. Se ganhasse, seria ótimo para nós gremistas: o técnico ganharia uma sobrevida, e depois perderia mais umas três ou quatro partidas… Mas, por perder aquela, acabou demitido.

6. Inter 0 x 4 Juventude (02/06/1999)

Algumas horas antes daquele jogo, eu comentei com uma colega do curso de espanhol que eu fazia, colorada: “o Inter não vai perder hoje, vai ser 2 a 2”. De fato, era o que eu torcia que acontecesse, não imaginava uma vitória do Juventude no Beira-Rio. O empate com gols classificaria o Ju para a final da Copa do Brasil, já que o jogo de Caxias havia acabado em 0 a 0.

Tamanho pessimismo antes do jogo fez com que eu soltasse gargalhadas ao final da partida. Principalmente ao lembrar do meu irmão, sempre confiante, que estava no estádio assistindo àquele baile… É bom demais o Inter dar vexame e o meu irmão assistir ao vivo!

5. Inter 0 x 1 Cruzeiro (13/11/2002)

Penúltima rodada do Campeonato Brasileiro. O Inter estava na zona do rebaixamento, e precisava vencer para não colocar o pé na cova. Os colorados lembravam o jogo contra o Palmeiras, em 1999. Havia uma imensa mobilização deles.

Que não deu certo. O Cruzeiro venceu por 1 a 0, alguns jogadores do Inter já falavam em ficar para jogar a Segundona em 2003, de tão certa que era a queda. No bom e velho portão 8, muitos protestos, e muitas lágrimas.

Em casa, meu irmão tão quieto, mas tão quieto, que chegava a assustar. Nem cheguei a flautear na hora. Decidi guardar as energias para a última rodada.

Eu tinha tanta certeza, que nem fiz força para secar no último jogo, Paysandu x Inter. Já previa uma Série B 2003 com Palmeiras, Botafogo e Inter: apenas dois subiam, assim sobraria um grande para ficar mais um ano no purgatório. Mas eu não contava com a, no mínimo, amarelada do Paysandu, diante de sua torcida em Belém do Pará.

4. Irã 2 x 1 Estados Unidos (21/06/1998)

Esse era o jogo mais aguardado da primeira fase da Copa do Mundo de 1998. Afinal, reunia dois países que estavam há quase 20 anos sem relações diplomáticas. Rivalidade extra-campo entre duas seleções sem tradição no futebol.

Não era admirador do regime teocrático do Irã. Mas também detestava os Estados Unidos e sua política imperialista. Como não eram as palavras em persa que aos poucos iam se incorporando ao dia-a-dia do Brasil, ficou óbvio para quem – ou melhor, contra quem – eu torceria.

E de fato, sequei os Estados Unidos. Bastante no jogo contra o Irã – com direito a muita vibração nos gols iranianos – mas também em toda a primeira fase da Copa do Mundo. A seleção dos EUA perdeu seus três jogos (Alemanha, Irã e Iugoslávia) e ficou em último lugar na Copa.

3. Palmeiras 1 x 2 Cruzeiro (19/06/1996)

Quando um clube brasileiro disputa a decisão da Libertadores contra um estrangeiro, o doutor em Física Galvão Bueno sempre diz: “fulano é o Brasil na Libertadores!”.

Naquela noite, o Cruzeiro, hoje “Brasil na Libertadores”, era “o Grêmio na final da Copa do Brasil”. Tudo porque na semifinal entre Grêmio e Palmeiras, o bandeirinha anulara um gol legítimo de Jardel. Fiquei com ainda mais raiva do Palmeiras – que eu considerava, à época, o verdadeiro rival do Grêmio, já que o Inter não ganhava nem torneio de cuspe.

E de fato, o Cruzeiro “foi Grêmio” naquela noite. Após a vitória de virada dos mineiros, um de seus jogadores falou que a Raposa havia “vingado o Grêmio”.

No dia seguinte, cheguei cedo à aula. Pouco depois, chegou meu colega palmeirense Giuseppe (que no dia anterior já se dizia campeão), com aquela típica cara de “tive uma noite terrível”. Chovia e fazia frio naquela manhã, tempo perfeito para se pegar uma gripe, então recomendei ao Giuseppe que tomasse um Energil-C: o nome do comprimido de vitamina C estampava a camisa do Cruzeiro campeão.

2. Inter 2 x 2 São Paulo (16/08/2006)

Às vésperas desse jogo, ouvi alguns gremistas falarem em um tal de “ser gaúcho”. O que justificaria… Torcer pelo Inter!

Claro que não engoli tamanha sandice. Afinal, se o São Paulo ganhasse a Libertadores pela 4ª vez, teria todo aquele destaque na televisão, etc., etc., mas a solução para isso era muito simples: desligar a TV. E os são-paulinos, salvo um ou outro perdido por aqui, estão em São Paulo. Já os colorados estão aqui, muitas vezes dividindo o mesmo teto – meu caso. Aguentá-los, não é para qualquer um.

A tarefa do São Paulo era complicada, mas não impossível. Precisava vencer por dois gols de diferença para ser campeão – se vencesse por 1 a 0 nos 90 minutos, haveria mais 30 de prorrogação. Havia esperança.

Que parecia se ir quando o Inter fez 1 a 0. Mas renasceu no início do segundo tempo, com o empate são-paulino. O Inter ainda faria 2 a 1, mas o São Paulo ainda buscou o 2 a 2, faltando poucos minutos – apavorando os colorados e enchendo de esperança os gremistas de verdade. Eu já vislumbrava o Clemer levando o frango da vida dele, e um Beira-Rio inundado de lágrimas.

Mas, o frango não aconteceu, e deu Inter, campeão da Libertadores pela primeira vez. Para escapar da flauta, tive uma boa ideia: cumprimentar os rivais, que ficaram bastante surpresos com minha atitude. Bastante compreensível, afinal, nem tudo estava perdido. Ainda.

1. Ih, cadê a 1???

Esta fica para um post a parte. Primeiro, porque este já está muito grande. Segundo, porque, de fato, merece um post a parte, só para ela.