Uma receita de Camarões: Zom

zom

Camarões disputou sua primeira Copa do Mundo em 1982, na Espanha. A campanha não foi brilhante (eliminação na primeira fase), mas ao mesmo tempo foi histórica: os camaroneses voltaram para casa invictos (feito inédito e jamais repetido por nenhuma seleção africana), após empatarem as três partidas disputadas – uma delas foi contra a Itália, que acabaria campeã (e o empate em 1 a 1 que levou a Azzurra adiante só aconteceu devido a uma falha do bom goleiro Thomas N’Kono).

Alem de N’Kono, outro destaque daquele time de 1982 era Roger Milla. Oito anos depois, o já veterano atacante (38 anos de idade em 1990) foi fundamental na Copa do Mundo da Itália: Camarões chegou às quartas-de-final (feito até então inédito para uma seleção africana) e só perdeu para a Inglaterra na prorrogação. Mas engana-se que a história de Roger Milla em Mundiais acabou ali: já quarentão, o atacante ainda foi aos Estados Unidos em 1994.

Na última rodada da primeira fase, Rússia e Camarões enfrentaram-se pelo grupo B sonhando com uma improvável classificação às oitavas-de-final entre os melhores terceiros colocados (ambos os times acabaram eliminados). Os russos venceram por 6 a 1, na maior goleada daquela Copa; e o atacante Oleg Salenko estabeleceu o recorde ainda não superado de cinco gols em um só jogo (Salenko também foi artilheiro do Mundial, junto com o búlgaro Hristo Stoichkov). Mas aquele jogo disputado em 28 de junho de 1994 ainda teve mais dois recordes, ambos de Roger Milla, com 42 anos e 39 dias de idade: jogador mais velho a atuar em uma Copa (marca superada em 25 de junho de 2014 pelo goleiro colombiano Faryd Mondragon, 43 anos e 3 dias de idade ao entrar em campo nos minutos finais da partida contra o Japão) e a marcar gol em um Mundial (essa escrita continua intacta).

A campanha ruim de 1994 não foi exceção. Desde então, Camarões não mais superou a primeira fase da Copa do Mundo – e, em 2006, sequer foi à Alemanha. Em 2014, os Leões Indomáveis (apelido da seleção) foram facilmente “domados”: três jogos e três derrotas (duas delas de goleada, 4 a 0 da Croácia e 4 a 1 do Brasil). Assim como “uma andorinha só não faz verão”, apenas um craque (Samuel Eto’o) não faz timaço.

Porém, se Camarões não tem feito bonito no futebol, na cozinha os camaroneses vão muito bem, obrigado. No último final de semana, foi a minha vez de fazer o tradicional almoço de sábado (que mais uma vez foi adiado para o domingo) na casa da minha avó, e a tabela me designava um prato de Camarões. Ao contrário das ocasiões anteriores, não foi preciso fazer pesquisas no Google: meu amigo Hélio Paz (que escreveu o texto lá do primeiro link) é fã dos Leões Indomáveis desde a Copa de 1982, e me passou várias receitas quando comentei que faria comida camaronesa. Escolhi o Zom, receita que acabei não seguindo à risca, mas que ficou muito boa.

Ingredientes:

  • 900g de agulha cortada em cubos
  • 4 colheres de sopa de óleo vegetal
  • 1 cebola grande picada
  • 900g de espinafre lavado e picado (ou outra verdura qualquer)
  • 2 tomates bem picados
  • 2 colheres de sopa de purê de tomate
  • 2 colheres de sopa de manteiga de amendoim
  • Sal a gosto
  • Pimenta preta a gosto

Modo de preparo:

  1. Ferva a carne na panela com um pouco de sal e água suficiente para cobri-la. Tampe a panela e deixe por 100 minutos ou até a carne ficar macia;
  2. Retire a carne mas mantenha o caldo na panela;
  3. Em outra panela, aqueça o óleo. Use-o para fritar a cebola até ficar macia. Adicione a carne e cozinhe por 2 minutos;
  4. Ponha de volta a carne junto com a cebola na panela com o caldo de carne;
  5. Misture o espinafre, o tomate, o purê de tomate e a manteiga de amendoim e ponha para ferver. Abaixe o fogo e mantenha por 30 min. na panela fechada.
  6. Sirva a carne com o molho e a cebola sobre uma travessa de arroz e cubra a carne com a mistura de verduras e legumes.

Não segui a receita com rigor devido a uma troca intencional, à falta de um ingrediente e a um engano.

A troca intencional foi da carne. Ao invés de agulha, usei cordão do filé mignon, mais macio, para que a comida demorasse menos tempo a ficar pronta.

O que faltou foi a manteiga de amendoim. Fui ao supermercado e não encontrei. Assim, o prato ficou “incompleto”.

Anotei a receita no celular e acabei memorizando. Porém, muitas vezes não “decoramos” corretamente, e assim me confundi com o final: a mistura de tomate, massa de tomate e espinafre deveria ser cozida separadamente e adicionada ao final como uma “cobertura” para a carne, mas acabei misturando tudo ainda na panela. A carne foi servida com arroz, mas em panelas separadas e não na mesma travessa.

Ainda assim, o resultado foi ótimo. E considerando que a motivação disso tudo é a Copa do Mundo (que acabou só no campo, na cozinha ela vai até outubro), podemos dizer que foi uma vitória da culinária-arte: o improviso (mesmo que involuntário) superou a burocracia (seguir à risca o que está escrito). O que não quer dizer que não pretenda fazer novamente o Zom, sendo mais fiel à receita.

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As Copas que eu vi – Coreia do Sul/Japão 2002

Como definiu Eduardo Galeano, eram “tempos de quedas”. Em 11 de setembro de 2001, caíram as torres gêmeas do World Trade Center, em Nova Iorque. Caiu também o mito de que os Estados Unidos eram invulneráveis a ataques externos. Em resposta, a partir de 7 de outubro de 2001 bombas caíram de aviões estadunidenses sobre o Afeganistão – e continuam caindo até hoje.

Caia também o presidente da Argentina, Fernando de la Rúa. Os argentinos não aguentavam mais a penúria que lhes era imposta pela crise econômica e os ditames do FMI, e foram para a rua pedir a renúncia do governo, em dezembro de 2001. O presidente argentino atendeu aos pedidos das massas no dia 20, mas não sem antes decretar estado de sítio e ordenar a repressão aos protestos.

Para mim também eram “tempos de quedas” – no caso, de convicções “profissionais”. Desde meu ingresso no curso de Física da UFRGS, em março de 2000, eu nunca questionara tanto a opção que eu tinha tomado como começou a acontecer no início de 2002. Aos poucos, fui perdendo totalmente a motivação, mas ainda sem coragem de admitir a outras pessoas que eu havia errado – o que fui fazer apenas no final de abril.

Eu ainda insisti por mais um semestre – que começou só em junho de 2002, devido ao atraso no calendário proporcionado pela longa greve dos professores da UFRGS em 2001 (que fez o segundo semestre daquele ano iniciar-se em 17 de dezembro). O primeiro semestre de 2002 começou junto com a Copa do Mundo, pela primeira vez realizada na Ásia e em dois países, Coreia do Sul e Japão. Foi uma Copa diferente também quanto aos horários dos jogos, com muitos sendo disputados pela madrugada no horário brasileiro, correspondente à tarde na Coreia e no Japão. Continuar lendo

As Copas que eu vi: França 1998

O ano de 1998 começou de forma terrível para mim. Tão ruim que antes mesmo do Carnaval (que é quando começam, na prática, todos os anos no Brasil), eu já queria que chegasse logo 1999. Tudo por causa daquele 5 de janeiro, que considerei como o pior dia da minha vida por quase nove anos.

Mas, aos poucos, aquela dor perdeu boa parte de sua intensidade, e o ano de 1998 foi se transformando em ótimo. Primeiro, porque em abril foi confirmado que aconteceria em agosto a viagem a Montevidéu, para a realização de intercâmbio cultural entre o Colégio Marista São Pedro – onde cursei o 2º grau (1997-1999) – e o Instituto de los Jóvenes (IDEJO), colégio da capital uruguaia. Mas também porque se aproximava a Copa do Mundo da França. Enfim, chegava ao fim aquela longa espera de quatro anos iniciada em julho de 1994! E desta vez haveria mais jogos: o número de seleções participantes foi ampliado de 24 para 32. Continuar lendo

As Copas que eu vi: Estados Unidos 1994

No ano letivo de 1993, como sempre acontecia, eu ia muito bem em todas as matérias. Na verdade, em quase todas as matérias: minhas notas em Educação Artística é que destoavam do resto. Comecei bem a 5ª série, com 9 no 1º bimestre, mas no 2º bimestre minhas notas começaram a decair – fruto do que considero uma certa implicância da professora, pois só com ela que fui mal, mesmo que jamais tenha desenhado bem – e cheguei ao último bimestre precisando de 6,5 para evitar o vexame de pegar recuperação. Não era uma tarefa das mais difíceis para quem tirava 10 em tudo, é verdade, mas eu não estava acostumado a uma situação daquelas; e além disso já tivera uma nota 6 no segundo bimestre (e 6,5 no terceiro). Mas consegui tirar 7, e obter a média final de 7,1: foi a única vez em todo o tempo de colégio (1989-1999) em que vibrei com uma aprovação (já que as outras nem tinham graça).

O leitor deve estar pensando: “tá, e o que isso tem a ver com futebol?”. A resposta é que pouco depois da notícia, comentei com um colega: “escapei da repescagem!”. Referência à situação vivida pela Argentina, que só se classificou para a Copa do Mundo de 1994 após vencer a Austrália na repescagem entre América do Sul e Oceania. Sinal dos tempos: eu já me interessava por futebol, graças a uma professora de Educação Física (cujo nome infelizmente esqueci) do Colégio Estadual Marechal Floriano Peixoto, que na segunda semana de aulas de 1993 praticamente me obrigou a jogar, pois não queria mais me ver parado – foi o bizarro episódio em que um colega inventou um gol que eu teria marcado no passado, que tenho certeza absoluta de jamais ter feito (lembro de ter marcado pela primeira vez no colégio na 6ª série, foi tão marcante que até o dia eu recordo: 19 de outubro de 1994).

Assim, o Mundial realizado nos Estados Unidos em 1994 não foi uma Copa qualquer, foi A Copa. A primeira que eu, mais que “dar bola”, curti aos montes. Isso após eu voltar a apenas observar meus colegas na Educação Física: no dia 14 de abril eu acordei com uma estranha dor de barriga que não passava, fui à aula de tarde e comecei a me sentir pior; voltei para casa, me deitei, e quando levantei novamente, não conseguia mais caminhar direito e ainda vomitei; minha mãe me levou ao médico e ele de cara deu o diagnóstico: apendicite – e a cirurgia teria de ser feita urgentemente. Uma semana depois, saí do hospital, mas com atestado médico me liberando da Educação Física. Eu queria jogar, mas não podia… Continuar lendo

As Copas que eu vi: Itália 1990

A Copa do Mundo de 1990, realizada na Itália, é a primeira da qual eu tenho lembranças. Mesmo assim, não chegou a ser marcante para mim, visto que na época, mesmo que já com 8 anos de idade, eu não gostava muito de futebol – talvez por sempre ser o último escolhido na hora de montar os times nas aulas de Educação Física. Eu preferia ser “craque” em outras coisas, como em Matemática e Ciências (matéria na qual fui aprovado com média final 10 na 2ª série do 1º grau, que eu cursava naquele ano). Assim, acabei por não dar muita bola para a Copa.

Posso dizer que não perdi muita coisa em matéria de futebol. O Mundial da Itália foi o de menor média de gols por partida até hoje: 2,2 (115 em 52 jogos). O artilheiro foi “da casa”: o italiano Salvatore “Toto” Schillaci, com 6 gols.

Como eu disse, poucas coisas me marcaram desta Copa. Mas, vamos a elas.

Primeiro, a vinheta da RAI que sempre abria as transmissões dos jogos da Copa. Provavelmente a mais bacana dos Mundiais recentes.

Também foi marcante o “Amarelinho”. Aquele bonequinho redondo, de cor amarela, que me fazia sempre querer ver os jogos do Brasil no SBT. Ele reagia de diversas formas aos lances do jogo: vibrava e berrava a cada gol do Brasil, roía as unhas nas horas de sufoco, e chorava quando a Seleção perdia.

No dia 24 de junho de 1990, eu não vi o choro do Amarelinho, pois assistia o jogo pela Bandeirantes. Melhor, quase todo o jogo. Justo na hora do gol da Argentina que eliminou o Brasil nas oitavas-de-final, eu estava fazendo cocô… Então, 20 anos depois, aí está o vídeo (mas claro que eu já vi antes, meu pai gravou aquele jogo) – e reparem que na hora que Luciano do Valle narra o gol, ao fundo o comentarista (cujo nome esqueci) Juarez Soares diz um “puta que pariu”…

O Brasil, de qualquer jeito, não enchia os olhos de ninguém. Numa Copa marcada pelo defensivismo, quem chamou a atenção foi Camarões, que logo de cara surpreendeu a Argentina, campeã de 1986, na partida de abertura.

Com um futebol ofensivo e mais “brasileiro” do que o próprio Brasil, e ainda por cima contando com o veterano craque Roger Milla (jogando muito aos 38 anos), os Leões Indomáveis seguiram surpreendendo, chegando até as quartas-de-final, feito até então inédito para uma seleção da África (que seria igualado por Senegal em 2002). Camarões caiu diante da Inglaterra, mas só na prorrogação – e no tempo normal esteve a 10 minutos da semifinal.

A Copa de 1990 teve a participação do Uruguai, que foi eliminado pela anfitriã Itália nas oitavas-de-final, em partida que assisti com a minha avó, filha de uruguaios. Desde então, a Celeste só jogou uma Copa em 2002, e sem passar da primeira fase.

A taça ficou com a Alemanha Ocidental, que bateu a Argentina (que teve dois jogadores expulsos) na final por 1 a 0, gol marcado por Andreas Brehme em um pênalti que foi, no mínimo, duvidoso.

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Agora, algumas curiosidades sobre a Copa do Mundo de 1990 (não necessariamente ligadas à minha memória):

  • Três seleções fizeram sua estreia em Copas na Itália: Costa Rica, Emirados Árabes e Irlanda;
  • Três também se despediram. A Tchecoslováquia, que se dissolveu em 1º de janeiro de 1993, ainda disputou as eliminatórias para a Copa de 1994 (iniciadas em 1992), mas sem obter classificação. A União Soviética deixou de existir em dezembro de 1991, quando a tabela das eliminatórias para a Copa de 1994 já estava pronta, e foi substituída pela Rússia, considerada “herdeira” da URSS pela FIFA – às outras ex-repúblicas soviéticas não foi dado o mesmo direito. A outra despedida, mas em tom bem mais feliz, foi da Alemanha Ocidental, que durante a Copa “unificou” a torcida em um país que legalmente ainda era dividido; no dia 3 de outubro de 1990 a Alemanha voltou a ser uma só, e a seleção também;
  • O goleiro italiano Walter Zenga estabeleceu um recorde de invencibilidade em Copas, passando 517 minutos sem levar gol. O primeiro foi na semifinal contra a Argentina – justamente o do empate que levou a decisão aos pênaltis, na qual a Itália foi eliminada;
  • A estreante Irlanda conseguiu uma façanha: foi até as quartas-de-final sem vencer nenhum jogo e marcando apenas 2 gols;
  • O grupo F da Copa, formado por Inglaterra, Irlanda, Holanda e Egito, foi um dos piores da história dos Mundiais: em 6 partidas, foram marcados apenas 7 gols. O único jogo que não acabou empatado foi Inglaterra x Egito, vencido pelos ingleses por 1 a 0;
  • Em sua segunda participação em Copas, a Colômbia foi às oitavas-de-final, classificação obtida em um empate no último minuto contra a Alemanha Ocidental. O goleiro colombiano era o folclórico René Higuita, que tinha o hábito de ficar adiantado e, às vezes, sair driblando os atacantes adversários. Mas, foi inventar de fazer isso com o camaronês Roger Milla, na prorrogação… Resultado: Colômbia eliminada, Camarões nas quartas;

  • Na final, o gênio argentino Maradona foi hostilizado pelos torcedores italianos presentes ao Estádio Olímpico de Roma. Além do remorso pela eliminação da Itália diante da Argentina, havia também outro motivo: Maradona era o grande ídolo do Napoli, e também representava o anseio dos italianos do sul de serem ouvidos, depois de tanto tempo sendo desprezados pelos do norte – que, pelo visto, mantinham a mesma atitude. Quando o hino nacional argentino foi executado, os italianos vaiaram, apupos que nitidamente aumentam quando Maradona aparece na tela, e o craque não deixou barato, soltando um perceptível “hijos de puta”.