Lulu e Tubby: duas faces da mesma moeda

Semana passada, quando falei sobre o aplicativo Lulu previ que logo surgiria um “oposto”, ou seja, no qual as mulheres seriam avaliadas pelos homens. Dito e feito: agora criaram o tal de Tubby, previsto para estar disponível a partir de quarta-feira.

“Igualdade”? Conte outra, por favor. Ambos os aplicativos são duas faces da mesma moeda: o machismo.

O Lulu não tem nada de feminista. Ao contrário, apenas reforça aquela ideia de que a mulher busca um “príncipe encantado” e com grana (aquela velha história do “homem provedor”). Prova disso é que o avaliado ganha pontos se pagar a conta, chamar um táxi para ela ou levá-la para casa (afinal, não dizem que ter carro ajuda a “pegar várias”?). Agora, se ousar propor a divisão da conta… Perde pontos. E muitos.

Como disse, ambos os aplicativos são duas faces do machismo. Porém, como bem sabemos, as faces de uma moeda não são iguais. Ou seja, o Tubby não é o “equivalente masculino” do Lulu: é muito pior.

Antes mesmo de começar a funcionar, os criadores do aplicativo decidiram permitir às mulheres que não querem ser avaliadas a remoção de seus perfis no site do Tubby. Parece uma magnânima atitude, mas acaba por revelar o quão perverso é o app: quando a usuária consegue se descadastrar, aparece uma tela de “despedida” dizendo que ela “arregou”. Só uma prévia do que devem ser as hashtags: realmente ofensivas, ao contrário daquelas bem bobas do Lulu.

Em uma sociedade machista a mulher sempre está em desvantagem, independente de seu comportamento. E o Tubby simboliza bem essa lógica: se ela pede para sair, será chamada de “arregona que certamente tem muito a esconder”; se não exclui o perfil do aplicativo, terá a vida sexual exposta e ainda correrá o risco de ser vítima de mentiras inventadas por algum ex-namorado vingativo, de forma semelhante ao sucedido com jovens que cometeram suicídio após divulgação de vídeos íntimos na internet.

Ou seja, estamos diante de algo ainda mais perigoso. E não basta apenas recomendar às mulheres que se descadastrem do aplicativo: é preciso que nós, homens, não o utilizemos e recomendemos a nossos amigos que também não o usem.

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Intolerância e o massacre no Rio

Ontem pela manhã, aconteceu em São Paulo um ato em defesa do deputado federal Jair Bolsonaro (PP-RJ) e suas declarações abertamente preconceituosas. Basta dar uma olhada nas fotos dos apoiadores de Bolsonaro para perceber o quão “do bem” eles são: caras fechadas, tatuagens nazistas, rostos cobertos (ué, se são “do bem” não deveriam temer mostrar a cara, né?) etc. Em contraposição, a esquerda convocou um ato para o mesmo local e no mesmo horário, inclusive reunindo mais gente que os fascistas. A polícia formou um “cordão de isolamento” entre os nazi-fascistas e os manifestantes de esquerda para evitar que houvesse um confronto, e prendeu oito pessoas: seis da direita (dentre eles o responsável por uma bomba na Parada Gay de São Paulo no ano passado e um dos envolvidos na agressão com lâmpadas a homossexuais na Avenida Paulista, em novembro passado, além de outros que eram acusados de homicídio) e duas da esquerda (dois punks que estavam sem documento de identidade).

Vivemos um momento de crescimento da intolerância não apenas no Brasil, é verdade. Mas é terrível que isso ocorra num país como o nosso, onde o “normal” é justamente a diversidade. Chega a ser risível (mas também assustador) que certas pessoas achem que “o brasileiro típico” é branco, heterossexual e cristão; e pior, que só estes devam ser respeitados.

A cultura da intolerância é a causa do chamado bullying nas escolas e em outros ambientes. Afinal, as vítimas das agressões são sempre pessoas que não são aceitas por não se encaixarem nos “padrões” – até mesmo sendo brancas, heterossexuais e cristãs. Afinal, é preciso também ser “bonito” (qualquer que seja o padrão de beleza), extrovertido, bom no futebol etc. Se fugir um pouco disso, vêm os rótulos, os apelidos depreciativos… Muita gente não se encaixa exatamente no “padrão”, e inclusive chega a se identificar com a vítima, mas por medo de passar a ser alvo de chacota, procura evitar ao máximo o colega agredido, ou pior ainda, une-se aos que o atacam.

Aí eu leio diversos textos sobre o massacre na escola de Realengo com uma importante informação: Wellington Menezes de Oliveira era vítima de bullying. Era gozado pelos colegas por ser “diferente”.

Obviamente isso não quer dizer que toda a vítima de bullying um dia irá invadir a escola onde estudou (ou estuda) e disparar dezenas de tiros. Mas não se pode achar que o alvo de gozações aceita isso numa boa – ainda mais durante a adolescência. Com agressões repetidas ao longo de muito tempo, é difícil que a vítima não sinta a menor vontade de se vingar de seus algozes.

Se o agredido tiver problemas psicológicos – caso de Wellington – ele procurará de fato a vingança. E se não puder acertar as contas com seus verdadeiros agressores, o fará com quem mais se assemelhe: no caso de Realengo, foi com os atuais alunos da escola (principalmente meninas, ou seja, ódio por mulheres, a misoginia), que nada fizeram a ele, e provavelmente nem o conheciam.