Breve crônica de um esquecimento anunciado

Olhando as imagens da batalha campal entre “torcedores” de Atlético-PR e Vasco na Arena Joinville, é possível constatar: incrível e felizmente, ninguém morreu.

Veremos muitas pessoas propondo mil e uma “soluções mágicas” para a violência no futebol. Se falará bastante no assunto nos próximos dias. Autoridades anunciarão, com toda a pompa, que “medidas serão tomadas”. Parece que, finalmente, será feita alguma coisa.

Porém, logo virão as festas de final de ano, todos serão muito felizes (risos) e o que aconteceu hoje em Joinville será esquecido. Podem anotar.

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Tragédia no Egito: mais que futebol

Ontem se escreveu uma página triste na história do futebol, com a briga generalizada após um jogo do Campeonato Egípcio, que deixou mais de 70 mortos. A torcida do Al Masry, de Port Said, invadiu o gramado após a vitória de 3 a 1 sobre o Al Ahly, do Cairo, e agrediu jogadores, comissão técnica e torcida do adversário. Três jogadores do Al Ahly (Mohamed Aboutrika, Mohamed Barakat e Emad Moteab), chocados com os acontecimentos, decidiram se aposentar.

Porém, pelo que já li em algumas páginas de notícias, a origem da tragédia parece estar do lado de fora dos estádios. Uma das torcidas organizadas do Al Ahly, a UA07, foi ativa participante das manifestações que derrubaram a ditadura de Hosni Mubarak, no começo do ano passado. Não faltam acusações de que partidários do ex-ditador e a própria junta militar que governa o país desde a queda de Mubarak teriam provocado o episódio, inclusive com o fechamento dos portões do estádio no lado da torcida do Al Ahly. E nos diversos vídeos que podemos assistir, é perceptível que a polícia nada fez para impedir a violência: simplesmente deixou os torcedores do Al Masry invadirem o gramado.

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A nomenclatura utilizada no futebol deixa muito claro que ele é uma “metáfora da guerra” (ainda mais que é praticado no campo, assim como as guerras em “campos de batalha”). Inclusive, serviu muito como “válvula de escape” da violência, quando da parlamentarização da política na Inglaterra. Assim, muitas vezes os ressentimentos de origem política, social e étnica acabam “transbordando” para o estádio.

A intensa rivalidade entre Real Madrid e Barcelona, por exemplo, é muito mais que futebolística. Os confrontos entre os dois clubes simbolizam, para muitos, um embate entre o centralismo de Madri e os anseios nacionalistas da Catalunha (cujas cores o Barça sempre utiliza em sua braçadeira de capitão). A rixa acirrou-se durante a ditadura de Francisco Franco (1939-1975), período em que qualquer manifestação de apreço a uma nação que não a Espanha “una” (que só existia nos delírios de fascistas como Franco) era severamente reprimida. Os jogos do Barcelona, principalmente contra o Real Madrid (por ser este o principal clube da capital), eram as raras oportunidades de se demonstrar que a “homogeneidade” espanhola era pura fantasia.

Origem semelhante teve a tensão em uma partida aqui no Brasil, há quase 40 anos. Em 17 de junho de 1972, 110 mil pessoas foram ao Beira-Rio vaiar a Seleção Brasileira, que enfrentava uma “Seleção Gaúcha” (na verdade, um combinado de jogadores da dupla Gre-Nal). Não havia nada de separatismo em jogo, muito pelo contrário: a origem era o ressentimento dos gaúchos pelo Rio Grande do Sul estar cada vez mais marginalizado na política e na economia do Brasil (mesmo que o ditador da época fosse o general bageense Emílio Garrastazu Médici). Fato simbolizado pela não-convocação do lateral-esquerdo Everaldo, titular da conquista da Copa de 1970, para a Seleção Brasileira que disputaria a Taça Independência (popularmente conhecida como “Minicopa”), torneio comemorativo aos 150 anos de independência política do Brasil: apesar do gremista não atravessar uma boa fase em 1972, foi inaceitável para os gaúchos que “o seu único representante” na Seleção perdesse não só a titularidade, como também fosse preterido na reserva por Rodrigues Neto, do Flamengo (que anos depois, ironicamente, seria contratado pelo Inter). Como as manifestações de contestação ao status quo da época eram reprimidas (inclusive as de caráter regional), restava apenas o futebol: vaiar a Seleção, utilizada pela ditadura militar para aumentar sua popularidade (ainda mais após a Copa de 1970), era como vaiar o Brasil “forte e unido” da propaganda oficial.

Se o futebol é uma “metáfora da guerra”, ele também pode ser prelúdio dela, com a violência não sendo meramente simbólica. Em junho de 1969, as tensões entre Honduras e El Salvador se refletiram no confronto entre as seleções dos dois países por uma vaga na Copa do Mundo de 1970. O governo de Honduras havia decidido expulsar os camponeses salvadorenhos que viviam no país (principalmente na região da fronteira com El Salvador), gerando uma onda de xenofobia mútua entre hondurenhos e salvadorenhos, extremamente interessante para os governos de ambos os países por assim desviar o foco de seus problemas internos. No meio disso tudo, as partidas de futebol: a primeira, disputada em Tegucigalpa (Honduras), terminou com vitória hondurenha por 1 a 0; na segunda, em San Salvador (El Salvador), os salvadorenhos venceram por 3 a 0, forçando assim a realização de um terceiro jogo, realizado na Cidade do México e vencido novamente por El Salvador, 3 a 2. A violência nas partidas foi o pretexto que faltava para os dois países romperem relações diplomáticas; semanas depois, tropas salvadorenhas invadiram Honduras, dando início à chamada “Guerra do Futebol”, que durou apenas quatro dias (14 a 18 de julho de 1969, por isso sendo também chamada de “Guerra das Cem Horas”) e deixou quase 2 mil mortos.

na antiga Iugoslávia, a guerra não teve o futebol como pretexto, mas ele nos deu uma “prévia”. Os ressentimentos entre sérvios e croatas vinham desde a Segunda Guerra Mundial: os primeiros acusavam os segundos de terem colaborado com o nazismo, mesmo que Josip Broz Tito, líder da resistência aos nazistas, fosse croata. Durante os 35 anos em que Tito esteve no poder, as tensões foram aliviadas, devido à liderança de um “símbolo de união nacional”. Porém, com a morte de Tito em 1980, foi implantado um sistema de revezamento do poder entre as repúblicas que formavam a Iugoslávia; tal sistema não agradava aos nacionalistas sérvios, que por serem a população mais numerosa consideravam injusta a divisão igualitária do poder; ao mesmo tempo, a crise econômica pela qual o país passava levava muitos sérvios a emigrarem para a Croácia, mais desenvolvida, aumentando o sentimento anti-sérvio entre os croatas. O ódio mútuo resultou em um violento conflito entre as torcidas do Dínamo de Zagreb e o Estrela Vermelha de Belgrado, durante partida entre os dois clubes realizada na capital croata em 13 de maio de 1990. No ano seguinte, Croácia e Eslovênia (as duas repúblicas mais desenvolvidas) declararam-se independentes e teve início a sangrenta desintegração da Iugoslávia: a guerra se deu principalmente entre sérvios e croatas, com atrocidades de ambos os lados em conflito.

Bons e velhos tempos

Via Alma da Geral, tomei conhecimento do ótimo texto escrito por um palmeirense que veio ao último Grêmio x Palmeiras, no Olímpico Monumental, domingo passado. Além de falar sobre o jogo em si, o autor dedica seis parágrafos ao estádio gremista, em tom de homenagem ao palco de inesquecíveis partidas entre Grêmio e Palmeiras na década de 1990, principalmente nos anos de 1995 e 1996.

Foi quando reparei que infelizmente não pude conhecer o antigo Palestra Itália, demolido para dar lugar a uma nova “arena” (que ao menos ficará no mesmo lugar do estádio anterior, enquanto o Grêmio vai se mudar para longe de onde é o Olímpico).

Depois, também reparei que o grande antagonismo entre Grêmio e Palmeiras na década de 1990 se devia ao que eles tinham em comum: grandes times, que eram inegavelmente os melhores do Brasil. Eram os clubes que dominavam o cenário nacional (apesar de, ironicamente, não terem se enfrentado em nenhuma final). Para se ter uma ideia, de 1991 a 1999 não houve semifinal de Copa do Brasil sem Grêmio nem Palmeiras. E no mesmo período, quatro finais de Campeonato Brasileiro (1993, 1994, 1996 e 1997) também tiveram a presença de um dos dois clubes.

Mas os jogos mais marcantes foram, sem dúvida, pela Libertadores de 1995. Mais especificamente, pelas quartas-de-final (os dois clubes se enfrentaram também na fase de grupos).

A primeira partida foi na noite de 26 de julho, no Olímpico. Em um jogo marcado pela briga entre Dinho e Valber (que acabou se tornando generalizada), goleada histórica de 5 a 0 para o Grêmio, que dava a entender que a fatura estava liquidada. Eu já pensava na festa pela conquista da Libertadores…

Então veio aquele 2 de agosto. O Grêmio podia perder por quatro gols de diferença para se classificar. E ainda por cima fez um gol no começo do jogo, ampliando a vantagem. Parecia que o Palmeiras estava morto, mas reagiu de forma impressionante, e chegou aos 5 a 1. Insuficientes para a ir à semifinal, mas merecedores dos aplausos da torcida que lotou o Palestra Itália e quase presenciou o que seria considerado milagre. Além de nossa incredulidade: como quase conseguimos perder a classificação?

No fim, o sufoco serviu de lição: nunca, em hipótese nenhuma, se deve cantar vitória antes da hora. E assim o Grêmio ganhou a Libertadores.

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Hoje em dia Grêmio e Palmeiras têm mais uma característica em comum: vivem um jejum que parece não ter fim. Ambos não ganham nada de importante há anos: o Grêmio desde a Copa do Brasil de 2001 e o Palmeiras, ironicamente, desde a Libertadores de 1999. As conquistas se resumiram a títulos estaduais e da Série B (vencida pelo Palmeiras em 2003 e pelo Grêmio em 2005). E nesta reta final de 2011 ambos os times se arrastam em campo, contando os dias para o fim de uma temporada pífia.

Resta torcer para que o último ano do Olímpico Monumental pelo menos nos ofereça um mata-mata entre Grêmio e Palmeiras, como nos bons e velhos tempos (a última vez que os dois clubes se enfrentaram em mata-mata foi no Campeonato Brasileiro de 1996). De preferência, na decisão da Copa do Brasil, corrigindo assim a injustiça de ambos nunca terem se enfrentado em uma final. Só é uma pena que não haja mais o antigo Palestra Itália.

Quando descobri que alguns de meus amigos são reacionários

O título desta postagem é descaradamente inspirado no da que foi publicada no Contracultura – no caso, a autora do blog relata sua experiência com a família direitosa.

Já eu não tive maior sofrimento familiar por conta disso, já que boa parte dos meus parentes, se não é exatamente de esquerda, ao menos não vomita discursos reacionários. Meu problema, são alguns amigos… Impressionante o quanto eu passo situações semelhantes às descritas no texto que citei (exceção à contradição entre o que eu defendia e os meus votos – jamais dei sequer um voto ao PSDB).

Quando reunido com a turma, procuro evitar discussões políticas e sociais por saber que estarei em desvantagem. O problema é que às vezes não dá para ficar calado. Como quando, por exemplo, defendem que “bandido bom é bandido morto”, ou que “pobre é vagabundo que não quer trabalhar”. (Duvido que eles nunca tenham jogado na Mega Sena, justamente por conta do sonho de “nunca mais precisar trabalhar”.)

Ou, o que para mim foi o cúmulo do individualismo, foi quando ouvi de um amigo que ele era contra pagar INSS, por achar que cada um tinha que pagar sua própria aposentadoria, e não a dos outros (inclusive ele disse que não queria pagar para eu me aposentar); sem contar os demais impostos, porque eles “sustentam vagabundo com Bolsa Família”. Obviamente lembrei a ele que acho muito bom saber que pagando meus impostos eu ajudo a mim mesmo, assim como a ele e a muitos milhões de pessoas… Como neste dia eu não estava em “desvantagem”, e também tinha tomado umas cervejas a mais, a discussão (que foi além de direitos sociais e chegou às velhas besteiras contra o MST) acabou descambando para uma baixaria digna da campanha do PSDB, que por sorte não acabou em “vias de fato” (mas seriam socos, e não bolinhas de papel); e a própria amizade foi salva quando trocamos desculpas três dias depois.

Mas, mesmo assim, percebo que não me identifico mais com aqueles amigos (claro que não todos eles) da mesma maneira que 10 anos atrás; percebo que hoje em dia o que mais temos em comum é o passado (a “memória coletiva”, que segundo Maurice Halbwachs é importante fator de coesão para um grupo – embora não seja determinante). Não sei dizer exatamente se foram eles que mudaram, ou se fui eu; ou talvez todos nós. Mas é fato que o amigo com quem discuti chegou a dizer que “pensava que eu ia mudar”, ao que respondi que “aceito mudar, mas não para pior” (foi quando a situação esteve mais tensa).

Dizem que isso é “amadurecimento”, mas esse “amadurecimento” que eles tiveram, eu não quero de jeito nenhum.

Presente melhor, não podia haver

No dia em que o Grêmio completa seus 107 anos, nada melhor do que um jogo como o de hoje à noite.

Grêmio x Palmeiras, Renato x Felipão. Renato e Felipão na mesma noite, no Estádio Olímpico. Dois personagens históricos do Tricolor, numa partida que faz relembrar aqueles inesquecíveis confrontos dos anos 90 entre Grêmio e Palmeiras. Época em que os dois clubes encontraram-se várias vezes em mata-matas, com direito a muitas brigas.

O primeiro confronto foi pelas quartas-de-final do Campeonato Brasileiro de 1990. No jogo da ida, em São Paulo, 1 a 0 para o Palmeiras. Mas no Olímpico, o Grêmio fez 2 a 0 e se classificou para a semifinal.

Na Copa do Brasil de 1993, Grêmio e Palmeiras se enfrentaram nas quartas-de-final. Dois empates em 1 a 1, em São Paulo e em Porto Alegre; nos pênaltis, 7 a 6 para o Grêmio, classificado.

A primeira briga aconteceu pelas oitavas-de-final da Copa do Brasil de 1995. No jogo da ida, 1 a 1 no Olímpico. Uma semana depois, no Parque Antarctica, o Grêmio chegou a fazer 2 a 0 no primeiro tempo, mas ainda na etapa inicial, após confusão, teve três jogadores expulsos (Dinho, Arílson e Luís Carlos Goiano), ficando com dois homens a menos (o palmeirense Mancuso também levara o vermelho). Acabou cedendo o empate em 2 a 2, resultado que classificou o Tricolor por ter marcado mais gols fora de casa.

Três meses depois, pela Libertadores, novo confronto. E nova briga. Na partida de ida, disputada no Olímpico, 5 a 0 para o Grêmio e uma confusão que deixou o jogo parado por 15 minutos – foi a famosa voadora de Dinho sobre Válber. Uma semana depois, no Parque Antarctica, o que parecia resolvido tornou-se dramático: 5 a 1 para o Palmeiras, e por pouco o Tricolor não perdeu a vaga.

Pela Copa do Brasil de 1996, Grêmio e Palmeiras se encontraram na semifinal. O primeiro jogo foi em São Paulo, e deu Porco: 3 a 1. A missão do Grêmio no Olímpico ficou complicada: precisaria fazer 2 a 0, ou vencer por três gols de diferença, para se classificar. O Palmeiras saiu na frente, mas o Tricolor virou para 2 a 1, resultado insuficiente para obter a vaga na final; não fosse o gol legal de Jardel anulado no final, acabaria 3 a 1 e a definição seria nos pênaltis. Resultado: nova confusão.

Meses mais tarde, mais uma vez, Grêmio e Palmeiras se viram frente a frente num mata-mata: eram as quartas-de-final do Campeonato Brasileiro. Como a melhor campanha era do Palmeiras, o primeiro jogo foi em Porto Alegre, e o segundo em São Paulo. No Olímpico, 3 a 1 para o Tricolor, de virada. A partida da volta, disputada no Morumbi, foi dramática em seus minutos finais, quando o Palmeiras fez 1 a 0; mais um gol daria a vaga ao Porco. Mas o Grêmio segurou, e seguiu em frente para conquistar seu segundo título brasileiro. Nestas partidas, incrivelmente, não houve nenhuma briga.

Desde então, nunca mais Grêmio e Palmeiras se enfrentaram em um mata-mata.

Cercas não adiantam nada

Ontem à tarde, uma briga de gangues resultou em um tiroteio próximo ao chafariz do Parque da Redenção, um dos lugares mais movimentados de Porto Alegre. Não presenciei o fato porque estava no Olímpico Monumental.

Já imagino a avalanche de artigos de um colunista de um dos jornais da cidade, clamando pelo cercamento do parque. E muito bovino, claro, vai atrás…

Não percebem que uma cerca em nada deixará os frequentadores da Redenção mais seguros. A diferença é que um eventual ladrão terá de passar por um portão – mas entrará no parque mesmo assim. O mesmo se aplica para as gangues que ontem trocaram tiros: a briga foi combinada pela internet, logo eles iriam à Redenção com ou sem cerca. (A propósito, se o confronto foi marcado, será que não havia maneira de avisar a Brigada Militar com antecedência, para que aumentasse o policiamento de modo a inibir a ação das gangues? Só imagino tudo o que estariam dizendo na mídia se o governador fosse o Olívio: a culpa seria dele e do Bisol!)

Cercas também não adiantam nada porque não eliminariam a causa do problema. Enquanto jovens de bairros da periferia – como os de onde eram as gangues que se enfrentaram ontem – não tiverem educação de qualidade, continuarão com forte tendência à criminalidade. E não hesitarão em cruzar o eventual portão de um parque cercado para lá cometerem seus delitos.

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Também não adiantará nada simplesmente não ir à Redenção. Já li que há pessoas que “não levarão mais os filhos à Redenção”. Eu fui caminhar no final da tarde de hoje no parque. E não deixaria de ir se alguém me dissesse que “a rua está muito perigosa”.

Pois sim, a rua está muito perigosa. Afinal, ela está cada vez mais vazia. Quanto menos pessoas caminhando, melhor para o ladrão, que terá menos testemunhas para seu roubo. Se todo mundo ficar trancado dentro de casa ou só andar de carro, vai piorar. E muito.

Briga ao vivo

O “Sala de Redação”, da Rádio Gaúcha, é um dos mais tradicionais programas de rádio do Rio Grande do Sul. No início da tarde, de segunda a sexta, vários comentaristas falam principalmente de futebol. E obviamente que nem sempre todos concordam entre si. Algumas opiniões geram discussões mais acaloradas.

Como esta, acontecida no dia 30 de agosto de 2007, quando Kenny Braga e Wianey Carlet quase trocaram socos ao vivo…

A noite em que tive a certeza do título da Libertadores de 1995

Em 26 de julho de 1995, o Grêmio alcançou uma de suas vitórias mais incríveis. Antes da bola rolar, uma goleada de 5 a 0 jamais passou pela cabeça de dirigentes, comissão técnica, jogadores e torcedores. Ainda mais sobre o Palmeiras, que na época tinha um timaço. Em seu estrelado elenco, contava com nomes como Cafu, Roberto Carlos e Rivaldo. O Grêmio queria fazer 2 a 0 no Olímpico para depois garantir a classificação em São Paulo.

Antes do Grêmio marcar os gols, a partida foi disputadíssima, e com muitos lances ríspidos. A violência empregada por ambas as equipes tornava evidente que a qualquer momento ia dar briga. Afinal, o Palmeiras ainda não havia esquecido a eliminação da Copa do Brasil pelo mesmo Grêmio em pleno Parque Antártica, três meses antes, num jogo que também teve confusão, além de muita dramaticidade.

O primeiro alvi-verde expulso foi Rivaldo: após uma entrada dura de Rivarola, o craque palmeirense deu-lhe um pisão e levou o vermelho. Alguns minutos depois, o gremista Dinho e o palmeirense Válber trocaram socos e também foram expulsos. Parecia o fim da confusão, mas na verdade apenas estava começando…

A televisão logo tirou o foco do jogo e passou a filmar a parte do gramado atrás da goleira à direita do vídeo: os dois jogadores partiram um em direção ao outro, ninguém conseguia segurá-los. A primeira porrada foi de Dinho, que se jogou de voadora para cima de Válber, fazendo a torcida gremista vibrar como se fosse gol. Danrlei deu um soco em Válber pelas costas, o que lhe rendeu a suspensão para a partida de volta em São Paulo – além dos que haviam sido expulsos. Logo, todo mundo estava atrás da goleira, trocando sopapos. Após o jogo, Dinho e Válber foram prestar esclarecimentos numa delegacia de polícia.

Após 14 minutos de paralisação, o jogo recomeçou. E o Grêmio desandou a marcar gols. O primeiro foi de Arce, que soltou uma bomba da intermediária, após a defesa palmeirense rebater um escanteio. O segundo gol foi de Arílson: a bola chutada por ele desviou no volante argentino Mancuso e encobriu o goleiro palmeirense Sérgio. O primeiro tempo terminou 2 a 0 para o Grêmio. Já estava ótimo, tudo conforme os planos tricolores.

Mas o Grêmio não quis parar por aí. No início do segundo tempo, Jardel fez algo raro: um gol com o pé, já que em geral ele marcava gols apenas com a cabeça, pois era ruim com a bola no pé. O quarto gol gremista foi novamente de Jardel, e foi típico dele: de cabeça. E no quinto gol, Jardel deu duas cabeçadas: a primeira foi defendida por Sérgio, mas o artilheiro tricolor aproveitou o rebote do goleiro e cabeceou novamente a bola. 5 a 0!

Assisti a essa partida longe de Porto Alegre: estava passando as férias de inverno na casa da minha tia Zita, em São João do Polêsine. No intervalo, fui até um bar, onde meu tio João assistia o jogo. Na hora ele comentou: “quando a briga começou, comecei a torcer que o Dinho acabasse com aquele cara!”.

Com os 5 a 0, os gremistas já pensavam no adversário da semifinal da Libertadores. Eu já tinha certeza não só da classificação, mas também de que o título seria do Grêmio. A partida de volta contra o Palmeiras seria mera formalidade.

Uma semana depois, aprendi que “o jogo só termina depois que o juiz apita”.

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Dez anos depois (eu disse dez anos), o Dinho encontrou o Válber numa boate de Porto Alegre, e quase houve briga novamente. Aquela noite de 26 de julho de 1995, ao menos para os dois, jamais vai acabar.