Uma luta contra o esquecimento

Nunca me canso de elogiar a Argentina pelo valor que dá à memória e à justiça (aqui no Brasil, se tem a cara-de-pau de chamar isso de “revanchismo”). E isso não se dá apenas em relação ao que aconteceu em seu próprio país.

Segunda-feira, via Facebook, li a notícia de que um juiz argentino emitiu, no início de abril, uma sentença condenando a Turquia pelo crime de genocídio contra o povo armênio. O dia 24 de abril de 1915 é considerado o início da matança, quando diversas lideranças armênias foram presas em Constantinopla (atual Istambul) e levadas ao interior do Império Otomano (do qual a Turquia é o Estado sucessor), onde foram brutalmente assassinadas. Cerca de 1,5 milhão de armênios foram mortos deliberadamente entre 1915 e 1923 pelo governo ultranacionalista dos “Jovens Turcos”.

O Genocídio Armênio foi o primeiro evento deste tipo no século XX, e é o segundo mais estudado depois do Holocausto. Ainda assim, os armênios precisam lutar contra o esquecimento, 96 anos depois do início do massacre.

A Turquia não apenas insiste em negar que houve um genocídio – admite que muitos armênios morreram, mas afirmando que foi consequência da Primeira Guerra Mundial, e não de uma matança deliberada -, como ainda reprime qualquer manifestação pró-reconhecimento dentro de suas fronteiras: quando o escritor turco Orhan Pamuk (Prêmio Nobel de Literatura em 2006) afirmou em 2004 numa entrevista a um jornal suíço que na Turquia “ninguém se atreve a falar” do genocídio contra os armênios e da posterior matança de 30 mil curdos, sofreu processo por “insultar e desacreditar a identidade turca” (crime previsto no código penal do país); a acusação foi retirada no início de 2006.

O esquecimento, como já se sabe muito bem, favorece a repetição de eventos semelhantes. Afirma-se que Adolf Hitler teria dito “afinal, quem fala hoje do extermínio dos armênios?” em 1939 – provavelmente argumentando a favor do plano de exterminar milhões de judeus (pois lhe parecia óbvio que isso seria esquecido).

Porém, Hitler perdeu a guerra, e o mundo fez questão de não esquecer o Holocausto, inclusive com a colaboração da própria Alemanha, onde há memoriais em homenagem aos seis milhões de judeus mortos. Nenhum Estado ousa não reconhecer que houve um genocídio, diferentemente do que acontece em relação ao sucedido com os armênios, caso em que muitos países, em nome de manter boas relações com a Turquia (né, Brasil?), não fazem um reconhecimento formal de que houve um extermínio.

E voltando ao começo: a sentença do juiz não foi o primeiro ato oficial nesse sentido na Argentina, pois o Estado argentino já reconhecia formalmente o Genocídio Armênio. O primeiro país a reconhecer o massacre foi o Uruguai, mediante resolução parlamentar em 1965.

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A fome no mundo em 2009

Um dos textos mais lidos do Cão Uivador é o que escrevi em 13 de setembro de 2007, comentando o “mapa da fome” feito pela FAO, que tinha dados de 1970 a 2003.

E agora descobri um mapa mais atualizado (2009) sobre este triste flagelo da humanidade, que também merece alguns comentários. Os países são divididos em cinco categorias: a primeira engloba os que têm menos de 5% da população subnutrida; a segunda, vai de 5 a 9%; a terceira, de 10 a 19%; a quarta vai de 20 a 34%, e a quinta corresponde aos países onde 35% ou mais da população sofre de subnutrição.

A situação da África, por exemplo. Mudou muito pouco desde 2003. Naquela ocasião, apenas cinco países africanos estavam na categoria 1: Líbia, Argélia, Tunísia, Egito e África do Sul (único que não se localiza na “África árabe”, setentrional). Agora, mais dois países se juntaram ao seleto grupo: Marrocos (África setentrional) e Gabão (central) – ou seja, a maioria ainda é de países do norte do continente, árabes e muçulmanos (os “malvados” segundo a visão de mundo tosca de muitos).

E por falar em muçulmanos, é digna de nota a situação do Irã, atual “perigo mundial”: segundo o mapa, a subnutrição era um problema para menos de 5% da população iraniana. Ou seja, o país está na mesma categoria que a maior parte da Europa.

Sim, “maior parte”, e não “toda” a Europa. A fome é uma realidade um pouco mais dolorosa para Eslováquia, Croácia, Bósnia-Herzegovina, Sérvia, Montenegro, Albânia, Bulgária e Moldávia. Países da Europa Oriental, poderá lembrar algum fã da “civilização” e do liberalismo, que ainda dirá que a fome “é fruto do comunismo” – mas convém lembrar que, exceto a Albânia (país mais pobre da Europa), eles não sofriam de tais problemas antes da queda dos regimes “socialistas”; e também que destes oito países, dois integram a União Europeia (Eslováquia desde 2004 e Bulgária desde 2007), que diziam ser “o paraíso”. Dentre os oito, há até mesmo integrantes da categoria 3 (10-19%), caso de Sérvia, Montenegro e Moldávia.

Já na América Latina, nada mudou muito. Cuba continua com menos de 5% de sua população subnutrida, assim como Argentina, Chile, Uruguai, Costa Rica e México (os dois últimos, novidades em relação a 2003).

O Brasil está um pouco abaixo, de 5% a 9% de subnutrição. Em 2003, o país se enquadrava entre 5 e 15% (ou seja, o critério para categorização era um pouco diferente), e provavelmente o percentual de pessoas subnutridas tenha baixado devido aos programas sociais do governo federal.

Final monárquica

Domingo, o seleto clube das seleções campeãs mundiais ganhará um novo integrante. Mas a decisão entre Holanda e Espanha também tem outro fato curioso a ser destacado: ambos os países são Estados monárquicos.

A última monarquia campeã mundial foi a Inglaterra, em 1966. E a última (e única, até agora) vez em que duas monarquias decidiram a Copa do Mundo foi em 1938: o título ficou com a Itália (campeã também em 1934), que tinha Benito Mussolini como seu primeiro-ministro, mas o Chefe de Estado era o rei Vítor Emanuel III, que reinou até 9 de maio de 1946, pouco antes da proclamação da República Italiana; já o vice-campeonato ficou com a Hungria, também monárquica na época, embora o Chefe de Estado não fosse propriamente um rei, e sim um regente eleito, Miklós Horthy, que colaborou com o nazismo e “reinou” até 1944, quando abdicou defendendo um armistício com a União Soviética.

A Hungria de 1938 não foi a única monarquia vice-campeã mundial. Também “bateram na trave” a Suécia em 1958, e a própria Holanda, em 1974 e 1978.

Como se vê, a maioria esmagadora das Copas teve como campeãs e também vices seleções representantes de países republicanos. Alguns, apenas nominalmente: duas vezes, países sob ditaduras militares ganharam a taça – o Brasil em 1970, e a Argentina em 1978 (jogando em casa).

Já os países “socialistas” (acho mais adequado o termo “burocráticos de partido único”) chegaram duas vezes ao vice-campeonato: a fantástica Hungria de Ferenc Puskás em 1954, e a Tchecoslováquia em 1962 (inclusive, se diz que a liberação de Garrincha para jogar a final mesmo tendo sido expulso na semifinal contra o Chile se deveria ao temor de que uma seleção do “bloco soviético” ganhasse a Copa).

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Outra curiosidade desta “final monárquica” é que ela também é a segunda consecutiva entre seleções europeias, o que não acontecia desde 1934 (Itália x Tchecoslováquia) e 1938 (Itália x Hungria).

¡VAMOS URUGUAY!

Já escrevi sobre meu pouco (para não dizer “nenhum”) entusiasmo pela Seleção Brasileira, e alguns de seus motivos. Eu torço bastante pelo Brasil em outros esportes (em 2004, para terem uma ideia, eu sentia vontade de pular para dentro da televisão e encher de porrada aquele padre que empurrou Vanderlei Cordeiro de Lima para fora da maratona dos Jogos de Atenas). Se é para falar de futebol, acho que a Seleção Feminina, cujas craques não tem nenhum apoio por parte da CBF, merecem muito mais nossos aplausos do que o time que hoje perdeu para a Holanda (e mesmo que tivesse ganho).

Talvez muitos achem que eu estava torcendo “por causa do Dunga”. Na verdade, estava indiferente, torcia mesmo só para que o técnico xingasse mais aqueles caras da Globo. Ainda mais que eles merecem mesmo, e “cagão” é pouco, diante do absoluto desrespeito com que as reportagens feitas pela empresa tratam países como o nosso vizinho Paraguai e também a Coreia do Norte (uma coisa é discordar do regime político norte-coreano – inclusive eu discordo – mas isso é bem diferente de achincalhar seu povo em rede nacional). Queria ver como muitos dos que devem ter achado graça reagiriam se matérias preconceituosas como essas fossem feitas por uma emissora estadunidense sobre o Brasil.

Cerca de dois meses atrás, em uma entrevista ao programa Roda Viva, o ex-jogador e agora comentarista Paulo Roberto Falcão disse que o povo brasileiro, quando fala de futebol (masculino, claro), torna-se extremamente arrogante, e é a mais pura verdade. Nos outros esportes, se não somos propriamente humildes (como no caso do vôlei, em que somos realmente muito fortes), ao menos não nos sentimos “os tais”. Respeitamos os adversários, que têm seus méritos, suas qualidades, não ganham apenas “porque o Brasil jogou mal” ou “porque o técnico brasileiro é burro”.

Essa arrogância toda apenas me faz sentir menos entusiasmo pela Seleção. Não digo que eu seque o time, mas apenas não torço. Até grito nos gols, mais pela farra do que por convicção.

Gritar, comemorar de verdade, e com convicção, foi o que eu fiz horas após Holanda x Brasil: Uruguai nas semifinais depois de 40 anos! Tá certo que também com uma pontinha de lamento pela (má) sorte que teve Gana: se Asamoah Gyan tivesse convertido aquele pênalti e levado uma seleção africana pela primeira vez às semifinais da Copa do Mundo, eu não ficaria triste. O problema para Gyan foi o nervosismo: imaginem o estado emocional dele naquele momento em que a esperança da África inteira estava em seus pés? É muita pressão.

Mas, qualquer que fosse o resultado, teria valido a pena. Ainda mais que Uruguai x Gana foi um JOGAÇO, daqueles dignos de serem lembrados para sempre.

E agora, claro, a festa em Montevidéu…

E também na fronteira com o Brasil, Chuy/Chuí:

Pato ou Nilmar???

Tá, não precisam me avisar que o jogo já passou!

Mas foi impressionante ver o quanto se falou na “grande mídia”, nos últimos dias, sobre o ataque da Seleção. Pato ou Nilmar??? Até parecia que não havia mais nada de importante.

Literalmente, caiu do céu para a “grande mídia” a expulsão do Luís Fabiano contra o Uruguai. Afinal, a lógica dizia que o Brasil não venceria, já que há muitos anos não ganhava do Uruguai no Centenário: assim, haveria vários motivos para malhar o Dunga.

Aí vieram aqueles 4 a 0, autêntico Centenariazo (acredito que o Uruguai ficará fora da Copa – o que lamento muito, visto que torço bastante pela Celeste Olímpica – e que a desclassificação começou para valer no último sábado). Mas os jornalistas esportivos não podiam ficar sem assunto para comentar. Como ficaria estranho atacar o Dunga após uma goleada da Seleção, e que ainda por cima havia quebrado um tabu, acharam o que falar: como o Luís Fabiano não poderia jogar contra o Paraguai, que se debatesse “Pato ou Nilmar”.

E podem ter certeza: se o Nilmar, titular na partida, não fosse bem… Aí as críticas ao Dunga voltariam: “POR QUE NÃO ESCALOU O PATO???”.

Deserto verde

Ontem, 21 de setembro, foi o Dia Internacional de Combate às Monoculturas de Árvores. Aqui no Rio Grande do Sul, o plantio de vastas áreas com eucaliptos é alardeado pela mídia como a salvação da economia do Estado.

O eucalipto é uma árvore nativa da Austrália. Consegue sobreviver com pouca água, devido ao clima seco predominante naquele país. Por isso, em regiões mais úmidas, como o sul do Brasil e a região do Prata, tal árvore cresce muito rapidamente (o que faz da monocultura do eucalipto uma atividade extremamente lucrativa em pouco tempo e com pouca mão-de-obra), devido à água em abundância no solo. Porém, ela cobra um preço: consome toda a água do solo, fazendo nascentes secarem, o que já acontece no Uruguai.

Tudo isso para que tenhamos papel. A indústria papeleira é uma das mais agressivas ao meio ambiente. Não é a toa que a instalação de fábricas de celulose na margem uruguaia do Rio Uruguai, fronteira com a Argentina, provocou fortes reações até mesmo do governo argentino.

Sem contar toda a destruição de matas nativas para o plantio de eucaliptos. Troca-se uma árvore adaptada ao meio por uma que suga toda a água do solo.

O que podemos fazer diante disso? O mínimo, é consumir menos papel. Imprimir textos apenas se necessário. Se possível, usar papel reciclado, apesar dele ser caro – o papel comum, produzido em escala industrial, é muito mais barato.

Veja os vídeos abaixo. Os dois primeiros, são um documentário (em espanhol) do Movimento Mundial pelas Florestas Tropicais (que lembra: boa parte do papel consumido no mundo é usado como folderes comerciais, ou seja, muito rapidamente vira lixo). E o terceiro, é uma campanha muito bem bolada da organização sul-africana Food & Trees for Africa.

Façanha boliviana

A última vez que torci mesmo pela Seleção Brasileira foi na Copa de 1994. Não era o futebol mais adorado pela torcida, mas eu ainda me identificava com o time. Talvez pelo fato de que fazia tanto tempo que o Brasil não era campeão.

Depois, comecei a sentir antipatia pela equipe – o Zagallo certamente colaborou muito com isso. E uma das vezes que mais torci contra foi justamente num Brasil x Bolívia, em 1997: Zagallo convocou Paulo Nunes para a Seleção, deixando-o no banco de reservas durante praticamente toda a Copa América, enquanto no Grêmio ele teria sido utilíssimo, e talvez o Tricolor tivesse passado pelo Cruzeiro nas quartas-de-final da Libertadores se o “diabo loiro” estivesse à disposição da equipe. Na decisão do título da Copa América contra os bolivianos em La Paz a altitude não foi tão decisiva, o Brasil fez 3 a 1 e eu tive uma congestão: afinal, engolir o Zagallo não é fácil…

Na Copa de 2002 ainda torci por causa do Felipão, mas sem a mesma intensidade de 1994. Depois, nunca mais. Ainda mais que a Seleção deixou de ser realmente brasileira, jogando apenas na Europa e às vezes nos Estados Unidos, e com raras convocações de jogadores que atuem no Brasil. O time busca apenas atender a interesses econômicos: os amistosos são disputados onde se paga mais pela presença da marca CBF do Brasil, e não com os atletas tendo contato com a torcida brasileira, em seu país.

Por isso, adorei ver a CBF o Brasil empatar em 0 a 0 com a Bolívia, em um Engenhão cheio… De espaços vazios nas arquibancadas. Botaram ingressos caros para ver essa farsa que dizem representar o país.

Quem realmente representa o Brasil são os atletas olímpicos e paraolímpicos, que até sem ganhar medalhas são vencedores, já que conseguem competir mesmo sem o menor incentivo. No futebol, a Seleção Brasileira Feminina consegue ser vice-campeã mundial e olímpica representando um país sem um campeonato nacional da modalidade.

Já esse time que a mídia insiste em chamar de Seleção Brasileira… Quero mais é que fique fora da Copa de 2010. Quem sabe assim aconteça alguma mudança profunda que faça esse time voltar a representar realmente o Brasil.