O Apocalipse desembarca no Sul

São duas previsões diferentes, mas que antecipam os dias de brutal calor que assolarão Porto Alegre. Não sei qual das duas é mais desesperadora.

A primeira é do CPTEC/INPE, que prevê temperatura MÍNIMA de 30°C para a quinta-feira. Para fazer tanto calor de madrugada, é preciso muita umidade: se com alta umidade 30°C de máxima já é ruim, imagine de mínima! Como faltam quatro dias, há a esperança de que a previsão mude ou erre.

Captura de tela feita ao meio-dia de hoje da previsão do CPTEC/INPE (clique para ampliar)

Já a do Correio do Povo de hoje não aponta tamanho calor pela madrugada, mas em compensação, prevê dois dias (sexta e sábado) com máxima de 40°C, o que representa risco à saúde. Muito mais danoso do que o frio (claro que não falo de Sibéria): quando a temperatura está baixa, a solução é se agasalhar e se abrigar – diferente do calorão infernal previsto para Porto Alegre nos próximos dias, pois mesmo que fosse permitido andar PELADO na rua, não se evitaria o risco de hipertermia.

O que mata no inverno não é o frio, e sim a desigualdade social – ou alguém acha que na Escandinávia, onde faz muito mais frio do que aqui, morre muito mais gente? É capaz de até serem registradas menos mortes… Lá existe distribuição de renda. Entendo que as pessoas mais pobres não gostem do inverno: afinal, não tendo muito dinheiro para comprarem roupas, qualquer frio representa sofrimento.

Assim como quem mora em cidades onde é quente o ano inteiro, o que faz qualquer queda maior na temperatura ser muito sentida. É preciso um certo tempo para se acostumar (inclusive acho que o ideal é pegar de cara um inverno dos mais frios, aí dá para aguentar melhor os seguintes que forem menos frios).

Agora, quem mora aqui há anos e não passa dificuldades, por favor… Se está com frio, vista um casaco! Pés gelados? Meias grossas são a solução. Mãos geladas? Luvas nelas!

Não gosta de usar casaco? Pois eu não gosto de bermuda, só uso para passar um pouco menos de calor – diferente do casaco no inverno, que esquenta o corpo, inclusive, dando uma caminhada é até possível sentir… Calor!

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Tudo bem, tudo bem, sei que muitos devem estar pensando: “esse cara exagerado aí, falando de apocalipse, pensa que pode mandar o verão embora”. Sei que (infelizmente) não posso, tudo isso é apenas um desabafo. A maioria acha o verão uma beleza. A mídia, então… Só fala de praia e “corpo bronzeado” essa época (bem que podiam não mostrar aquelas imagens de gente torrando no sol ao meio-dia, isso faz muito mais mal à saúde do que frio).

Um interessante paradoxo: um monte de gente, bem de vida, diz adorar o calor, mas no primeiro sinal do verão, corre para a praia, onde… Faz menos calor! Na praia, até eu gostaria do verão – agora, em Porto Alegre, simplesmente não dá.

Já no inverno, quem gosta do frio quer ir para onde faz mais frio, e não fugir dele. Se eu gostaria até de ir morar em São Joaquim… Só não vou porque não tenho como.

Ofensa a todos nós

Na segunda-feira, dia 30 de novembro, completaram-se 30 anos da Novembrada, como ficou conhecida uma grande manifestação popular em Florianópolis acontecida quando a cidade recebia a visita do general João Figueiredo, último militar a ocupar a presidência do Brasil. Foi um dos mais importantes protestos contra a ditadura no nosso país.

Porém, o comentarista Luiz Carlos Prates, da RBS, disse no “Jornal do Almoço” de Santa Catarina que a Novembrada foi “coisa de fracassados”. Para ele, o Brasil “só piorou” com a saída dos militares do governo, Figueiredo deu “uma lição de democracia” (E ele morreu pobre, com aposentadoria de general? Leitores, façam seus pedidos para o dia 25, eu sou o Papai Noel!), e não houve repressão e censura, visto que ele não as sofreu (indicativo de que lado ele estava). Pode???

Queria saber de Prates o que acha da crise econômica vivida pelo Brasil que se iniciou ainda na década de 1970 e se estendeu pela seguinte, a ponto dela ficar conhecida como “a década perdida”. Os militares gastaram uma fortuna “construindo estradas”, mesmo que inúteis, como a Transamazônica. E a dívida externa, Ó…

O comentário de Prates é uma ofensa a todos os cidadãos brasileiros, e principalmente aos que lutaram pelo retorno da democracia ao nosso país, muitos tendo que se exilar, ou mesmo perdendo suas vidas. É uma ofensa aos cidadãos que em 30 de novembro de 1979 não se intimidaram e saíram às ruas de Florianópolis para mostrar que as coisas não podiam mais ficar do jeito que estavam.

Abaixo, o vídeo com o comentário infame. Se o leitor tiver estômago, assista.

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Em tempo: esse cara é tão reacionário, mas tão reacionário, que é contra as pessoas andarem de bermuda nas ruas. Se tal opinião já seria absurda em Porto Alegre (que é terrivelmente quente no verão), imaginem na praiana Florianópolis…