Filme para o domingo

Enquanto muita gente chega a brigar por conta das eleições (e o pior é que os desentendimentos se dão até entre pessoas de esquerda, por divergências de ordem partidária), o aniversário de um fato histórico corre o risco de passar despercebido. Há 20 anos, no dia 3 de outubro de 1990, a Alemanha voltou a ser um só país.

O processo que levou à reunificação alemã foi extremamente rápido: as mudanças se deram em menos de um ano, motivadas pelos protestos populares na Alemanha Oriental, como também pela própria política da União Soviética, de não mais intervir nos países do Leste Europeu, estimulando-os a adotarem reformas semelhantes às que Mikhail Gorbachev aplicava na URSS (glasnost e perestroika). Em 18 de outubro de 1989, o linha-dura Erich Honecker renunciou à liderança do governante Partido Comunista, e em 9 de novembro, foi liberado o trânsito entre as duas Alemanhas, tornando a fronteira interalemã mera formalidade. Quatro meses após a abertura do muro foram realizadas as primeiras eleições multipartidárias – ou seja, em que não era apenas o Partido Comunista que participava – na República Democrática Alemã (nome oficial da Alemanha Oriental) e, em 3 de outubro de 1990, legalmente aconteceu a reunificação (que no futebol, conforme já falei, demorou um pouco mais), com a RDA passando a integrar a República Federal da Alemanha (nome oficial da antiga Alemanha Ocidental e do atual país unificado).

O filme “Adeus, Lênin!” (2003), de Wolfgang Becker, é sensacional justamente por mostrar a velocidade com que se deram as mudanças na Alemanha – e, podemos dizer também, em todo o Leste Europeu – entre 1989 e 1990.

Christiane (Katrin Sass) é uma dedicada militante socialista desde que seu marido fugiu para a Alemanha Ocidental em 1978. Em 7 de outubro de 1989, ao ver seu filho Alexander (Daniel Brühl) ser preso pela polícia durante violenta repressão a uma passeata pró-democracia, tem um ataque cardíaco e entra em coma por oito meses.

Enquanto isso, acontecem as mudanças na Alemanha. Erich Honecker renuncia, a fronteira entre os dois Estados alemães é aberta, e os produtos orientais começam a sumir das prateleiras das lojas para serem substituídos por importados (tanto do oeste como de outros países ocidentais). Os costumes dos alemães orientais passam a ser considerados “velhos”, que precisam ser urgentemente abandonados.

Até em sua casa as mudanças são drásticas: a filha Ariane (Maria Simon) troca os antigos móveis por outros mais “modernos” (leia-se “ocidentais”), e larga os estudos para trabalhar como vendedora em um drive-thru do Burger King, onde conhece o novo namorado, o ocidental Rainer (Alexander Beyer), que leva para morar junto no apartamento. Já Alex, durante suas visitas à mãe no hospital, apaixona-se (e é correspondido) pela bela enfermeira soviética Lara (Chulpan Khamatova), que conheceu naquela passeata de outubro de 1989, quando ela o ajudou durante um engasgo com uma maçã.

Quando Christiane acorda, em junho de 1990, o médico alerta que ela não pode sofrer fortes emoções, devido ao risco de sofrer outro enfarto, e logo Alex percebe que ela não resistirá ao saber das mudanças que aconteceram no país. Decide não só levá-la para casa (temendo que ela saiba de tudo caso fique no hospital), como também fazer com que ela pense que absolutamente nada mudou.

Porém, mesmo dentro de casa é difícil Christiane não ter nenhuma percepção de que as coisas não são mais as mesmas. Quando ela quer pepinos de Spreewood (iguaria muito apreciada na Alemanha Oriental), Alex só encontra importados da Holanda – que na prática são a mesma coisa (afinal, são pepinos, apenas com outra marca) – e assim os armazena em frascos com rótulos antigos, para que a mãe tenha a ilusão de estar comendo pepinos “socialistas”. Quando ela quer assistir televisão, obviamente as transmissões já não são mais as mesmas, e a solução é “transmitir” (via utilização de um videocassete escondido) programas antigos. Aliás, interessante papel tem a televisão: por conta da ilusão que muitos têm de que ela “mostra a verdade” (afinal, são as imagens do que acontece, logo, “só pode ser verdade”), Alex se utiliza de noticiários fictícios, produzidos em parceria com seu amigo ocidental Denis (Florian Lukas) – que sonha em ser diretor de cinema – para que acontecimentos totalmente imprevistos, como um banner da Coca-Cola em um prédio vizinho ou carros ocidentais estacionados em Berlim “Oriental” (não esqueçamos que não há mais muro), tenham uma explicação que mantenha em sua mãe a crença na continuidade do sistema socialista (e até de seu fortalecimento, com o consequente “colapso do capitalismo” na Alemanha Ocidental), mesmo com tudo indicando o contrário. Porém, com o passar do filme acabamos descobrindo também que não é só Christiane que vive uma ilusão.

Ao mesmo tempo que nos faz rir das inusitadas situações, “Adeus, Lênin!” também nos leva a boas reflexões. Como sobre a velocidade das mudanças. Pois independentemente das convicções políticas de cada um, elas se deram muito rápido. Naquela época, apenas os mais velhos tinham lembranças em primeira mão* de como era uma Alemanha unificada; no leste, a maioria esmagadora da população não tinha ideia de como era o dia-a-dia de uma sociedade capitalista, já que por mais de 40 anos haviam vivido sob o “socialismo” de modelo soviético. Obviamente isso foi um impacto muito grande sobre os habitantes da parte oriental da Alemanha, que não por acaso tiveram bastante dificuldades para se adaptarem aos novos tempos: além de não terem mais a garantia de sobrevivência que o regime “socialista” dava, a solidariedade entre as pessoas (que se dava até como forma de resistência ao autoritarismo) foi minada pela excessiva competitividade estimulada pelo capitalismo.

Outra coisa interessante em “Adeus, Lênin!”, tem a ver com a ideia de “nação”, ligada à de “nascimento”. Não por acaso, trata-se a “pátria” como se fosse uma “mãe” ou um “pai”. Afinal, tratam-se de nossas principais referências de origem, de pertencimento. Tanto que a palavra “pátria” lembra, de certa forma, “pai”. Em inglês, se diz motherland (numa tradução literal, “terra-mãe”) e em alemão, vaterland (“terra-pai” literalmente). No caso do filme, isso fica muito claro quando Alex afirma que a Alemanha Oriental é um país que, na memória dele, sempre estará conectado com a mãe. Afinal, além dela ter sido uma apaixonada socialista, também foi ela que o pôs no mundo e o criou – assim como a RDA foi o país onde ele nasceu e cresceu. Um país que no final de 1989 “entrou em coma”, assim como sua mãe – que, ao acordar, fez com que, ao menos para Alex, a Alemanha dividida continuasse a existir, parecendo com o que era antes, mas que não era mais a mesma coisa: no caso, tratava-se de uma divisão entre a ilusão e a realidade.

E ao mesmo tempo que quer mudanças, Alex percebe que também não quer perder as suas origens – no caso, a mãe e o país, como fica claro quando ele diz que aquela Alemanha Oriental fictícia que criara para que sua mãe não se chocasse com as mudanças era a RDA que gostaria de ter tido na realidade. O que é explicado pelas palavras do filósofo esloveno Slavoj Zizek:

Quando as pessoas protestavam em regimes comunistas do Leste Europeu, a grande maioria delas não estava pedindo por capitalismo. Eles queriam a liberdade de viver suas vidas fora do controle estatal, de ir e vir e falar o que desejassem; eles queriam uma vida de simplicidade e sinceridade, liberta da indocrinação ideológica primitiva e da cínica hipocrisia dominante.

Como muitos analistas observaram, os ideais que levaram os manifestantes às ruas eram, de alguma forma, uma extensão daqueles da própria ideologia socialista – as pessoas aspiravam por algo que pode ser melhor aproximado através do termo “socialismo com um rosto humano”. Talvez essa atitude mereça uma segunda chance.

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* Segundo Eric Hobsbawm em Era dos Extremos, passamos a armazenar “lembranças em primeira mão” de como é a vida “real” por volta dos 15 anos de idade: no capítulo em que fala justamente das mudanças no Leste Europeu e do fim da União Soviética, Hobsbawm diz que em 1990 todo húngaro acima dos 60 anos (ou seja, nascidos até 1930) de idade tinha lembranças de como era a Hungria antes do “socialismo” (teria no mínimo 15 anos em 1945); já na URSS, nenhum cidadão com menos de 88 anos (ou seja, nascido depois de 1902) tinha alguma ideia da Rússia pré-Revolução de 1917. Para o caso alemão, podemos aplicar os mesmos números da Hungria, visto que o país foi dividido, na prática, em 1945, com o final da Segunda Guerra Mundial – embora as repúblicas do oeste e do leste só tenham sido fundadas em 1949.

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E lá se vão mais de 20 anos…

A Cris Rodrigues escreveu um interessante post lembrando muitas coisas que aconteceram na vida dela – não necessariamente particulares, como também marcantes para todos nós – nos últimos 10 anos. E então chamou a atenção para o fato de que lembrava de acontecimentos da década de 1990, mas que pareciam ter ocorrido há pouquíssimo tempo.

Eu, velho que estou, também comentei sobre coisas antigas, mas até mesmo anteriores à década de 1990, que também dão a impressão de “terem sido ontem”. Depois, lembrei ainda mais. Principalmente de fatos acontecidos em 1989, um ano realmente muito marcante.

Naquele ano comecei a 1ª série do 1º grau (olha a velhice aí: já faz mais de 10 anos que é “ensino fundamental”!), no colégio Marechal Floriano Peixoto. No dia 1º de março, para ser mais preciso. Como eu já sabia ler (só precisava aprender a escrever direito), achava as aulas muito chatas, já que tudo que a professora falava, eu de certa forma já sabia… Talvez por isso eu tenha começado a gostar de Matemática (a ponto de dez anos depois optar por um curso que a tinha): era novidade aprender a somar e subtrair. Tanto que durante todo o colégio (1º e 2º graus) eu sempre gostei de Matemática.

Mas os principais fatos estavam guardados para o final do ano. Como a eleição presidencial no Brasil, a primeira direta desde 1960. Eu ouvi o apresentador do telejornal falar em “os brasileiros votam para presidente depois de 29 anos” e obviamente não entendi nada: eleição não era para ser de 4 em 4 anos? (Naquele caso, seria a cada 5 anos, como previa a Constituição até a aprovação de emenda reduzindo a duração do mandato presidencial.)

Eu era “brizolista”, seguindo a minha avó. E a minha turma no colégio também: em uma votação simulada que fizemos na véspera do primeiro turno, o Brizola ganhou de lavada! Lembro que a professora votou no Lula, e o Collor, se não me engano, não recebeu nenhum voto… No segundo turno, sem Brizola, meu pai me ensinou a fazer o “L” do Lula. Mas, o Collor ganhou, com ajuda da Globo e vários meios de comunicação.

Naquela época, ser “anticomunista” fazia parte da campanha, e podia dar votos. Afinal, o chamado “socialismo real” ruía: no dia 9 de novembro, a Alemanha Oriental anunciou a abertura de suas fronteiras com a vizinha Alemanha Ocidental. Era a queda do Muro de Berlim, que assisti pela televisão, embora sem entender nada. Se derrubar um muro era algo tão importante a ponto de aparecer na televisão, eu podia muito bem pegar uma picareta e derrubar um muro na minha rua, né? Mas não fiz isso, felizmente.

E nem precisava, se o objetivo era aparecer na televisão. Afinal, naqueles mesmos dias eu fui entrevistado pela RBS, em uma reportagem sobre… Natal! Acreditem se quiser, eu gostava do troço… E a entrevista se deu por insistência minha, pois quando vi a equipe da televisão no Iguatemi, ela já se preparava para se dirigir ao estúdio, levando a fita das entrevistas feitas no local. Acabaram demorando um pouco mais para irem embora, mas com minhas imagens gravadas. (Moral da história: meu passado me condena…)

A febre naquele Natal de 1989 foi um brinquedo que mais lembrava um computador, chamado “Pense Bem” – ajudando a alavancar a venda de brinquedos eletrônicos. Quando vi pela primeira vez, obviamente quis ganhar de presente. E começou toda a expectativa. À meia-noite do dia 25 de dezembro, ganhei o tão esperado presente. Assim como a minha rua inteira… A expectativa em torno do “Pense Bem”, somada à euforia por tê-lo ganho – e desta forma, não querer largá-lo por um segundo sequer – impediu que, como em novembro, eu pudesse acompanhar “ao vivo” (pela televisão, é claro…) à História acontecendo.

Na Romênia, uma insurreição popular derrubava a ditadura de Nicolae Ceausescu, que governara o país com mão de ferro desde 1965. O ditador e sua esposa, Elena, fugiram de Bucareste em um helicóptero no dia 22 de dezembro, mas foram capturados por militares que aderiram à revolta, e depois de um julgamento sumário, fuzilados no dia 25. Só fui saber disso vários anos depois – inclusive, a primeira lembrança que tenho da Romênia é de Gheorghe Hagi e aquele timaço da Copa do Mundo de 1994, e não da queda da ditadura.