Sobre as amizades

É mais fácil pensar de forma contrária, preto no branco, os de lá, os de cá. Mas, dessa forma, a vida vai ficando mais pobre. Sem o direito ao convívio diário com aqueles que pensam de forma diferente, estancamos em nossas posições, paramos de evoluir como humanidade. Do outro lado sempre estará um monstro e do lado de cá os santos. Isso sem contar a impossibilidade de apreciar tudo o que o outro tem de melhor – do ombro amigo à conversa inflamada em uma mesa de bar.

O parágrafo acima é de um ótimo texto que li (e recomendo a leitura) no Blog do Sakamoto. Que me fez pensar bastante em como muitas vezes eu agi – e também como certas pessoas agem.

Certa vez, na volta da faculdade eu conversava no ônibus com uma colega, mas ela era mais que isso: era uma pessoa que eu realmente considerava amiga. Não lembro exatamente o assunto do qual falávamos originalmente, mas sim que quando comentei que tinha amigos de direita, ela achou contraditório, e disse que não conseguia fazer amizades com pessoas assim.

Não nos tornamos amigos de uma pessoa totalmente “por acaso”, embora possa parecer (caso de colegas de colégio, de faculdade, de trabalho etc.). Tanto que geralmente se perde o contato com a maior parte, por exemplo, dos colegas de colégio quando vamos estudar em outra escola ou entramos na faculdade. E o mesmo se dá com os próprios colegas da faculdade, quando nos formamos… Do Jardim de Infância, então, nem se fala: nunca mais tive contato algum com meus coleguinhas do Esquilo Travesso (nem mesmo com a menina que em 1988 me presenteou com um ursinho no meu aniversário).

Mas, ao mesmo tempo que as amizades não surgem “por acaso”, isso não quer dizer que sejam “escolhidas” (óbvio que falo de amizades verdadeiras, não aquelas em que há intere$$e$ na jogada). Afinal, nunca escolhemos com quem iremos nos deparar na vida. Não temos poder algum de decisão sobre a formação de uma turma de colégio, de faculdade, de trabalho, enfim, de uma lista de “candidatos a amigos” (que são tanto colegas como pessoas que encontramos em outros ambientes, mesmo os virtuais).

As amizades nascem de afinidades que temos com certas pessoas, mas não basta só isso. Para que elas se mantenham, é preciso que haja convivência – não necessariamente diária. Tanto que as pessoas com as quais mantenho amizade são aquelas com as quais de certa forma convivo, mesmo que em contatos esporádicos e até não presenciais: basta saber como elas estão, o que têm feito etc. Ou seja, há uma espécie de “caminho em comum” entre nós. É a chamada “memória coletiva”, que é importante fator de coesão em um grupo: desde os mais simples como as relações de amizade, até à “comunidade imaginada”, que é como Benedict Anderson define “nação”.

E, quanto mais longo é este “caminho em comum”, mais fortes costumam ser os laços, e o próprio tempo acaba se tornando uma importante afinidade. Assim, a amizade se mantém mesmo que haja muitas discordâncias entre os amigos – o que é natural, pois além de serem pessoas necessariamente diferentes entre si, com o passar do tempo todos mudamos nossas maneiras de pensar, de ver o mundo, fazendo com que certas afinidades deixem de existir. Podem surgir sérias divergências, mas há as lembranças dos momentos felizes, divertidos, e mesmo os tristes que foram sofridos em comum, que ajudam a impedir o fim de uma amizade de “longa data” por conta de uma discordância.

Foi o que contribuiu para evitar que eu brigasse em definitivo com um amigo por conta de divergências políticas (que não tínhamos quando nos conhecemos, há mais de dez anos) – pelo contrário, acabou inclusive fortalecendo nossa amizade, mesmo que com importantes discordâncias. Em compensação, a colega que achava contraditório eu ter amigos de direita… Brigou comigo há mais de dois anos por conta de um desentendimento entre ela e outro colega em uma apresentação de seminário na faculdade: tentei “mediar” o conflito para que ao menos o grupo de trabalho não se desfizesse, mas pelo visto ela achou que eu estava “a favor do cara”, e não só trocou de grupo, como também passou a me ignorar, “jogando no lixo” quatro anos de convivência. De nada adiantou eu tentar evitar que isso acontecesse: ela preferiu a divisão entre “os de lá e os de cá” da qual fala o parágrafo do Sakamoto, e como tudo tem limite, também não a procurei mais depois de ser tratado de forma grosseira.

Com isso, infelizmente não pude saber a opinião dela, que na época era eleitora do PSOL (suponho que continue a ser), sobre a amizade entre Plínio de Arruda Sampaio e José Serra.

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O mito do “país abençoado por Deus”

Ora, a essência de uma nação consiste em que todos os indivíduos tenham muitas coisas em comum, e também que todos tenham esquecido muitas coisas.¹

Os países, em geral, têm mitos que ajudam a forjar suas identidades. Não por acaso, são vistos como “dogmas nacionais”: as populações de tais países vêem tais mitos como valores muito importantes para si. Contestar alguns deles pode ser uma ofensa muito grande.

No Brasil, temos dois grandes mitos. O maior de todos é quanto ao futebol. É fato: experimenta dizer a “heresia” de que não temos o melhor futebol do mundo, ou pior ainda, que o verdadeiro “país do futebol” não é o Brasil (já li um artigo que defende a tese de que a Alemanha é tão “país do futebol” quanto o Brasil, tamanha é a paixão dos alemães pelo esporte). É, meu amigo, serás simplesmente massacrado por midiotas que repetem feito papagaios tudo o que certo locutor esportivo costuma dizer (no Twitter mandavam ele “calar a boca” só para fazerem farra). Se disseres que a Argentina é melhor que o Brasil ou que ela é o “país do futebol”, então…

Considerando que o futebol, gostem ou não, é o terreno onde melhor se expressa a “identidade nacional” brasileira, é compreensível tais reações. Porém, algo difícil de compreender é que se continue com o mito de que o Brasil é um “país abençoado por Deus”. Tem até música sobre isso:

Moro num país tropical, abençoado por Deus
E bonito por natureza, mas que beleza²

Tenho certeza de que moradores de rua em várias partes do Brasil andaram com vontade de ter uma conversinha com Jorge Ben Jor, autor da letra, perguntando onde fica o tal país tropical, já que o frio polar chegou até a Amazônia. Tudo bem que lá a queda da temperatura foi rápida, mas em Porto Alegre o frio é praticamente contínuo há duas semanas, com breves intervalos de calor (pouco mais de 20°C).

Agora, quanto ao “abençoado por Deus”, serve apenas para que se diga que o Brasil tem muitos problemas mas, em compensação, “não tem terremoto, tornado, furacão etc.”, males que afetam países mais desenvolvidos como Estados Unidos e Japão.

Nada mais ilusório do que isso. Pois se não temos terremotos arrasadores como os países citados, não raras vezes a terra treme em nosso país. Em dezembro de 2007, uma criança morreu quando a casa em que morava desabou devido a um tremor em Minas Gerais. Tudo bem que foi um terremoto fraco (se não me engano nem chegou a 5 graus na escala Richter), e que a casa provavelmente caiu por ser frágil, mas será que não é hora de parar com a história de que “aqui não tem terremoto”?

Outra ilusão é quanto aos furacões, como nos mostrou de forma trágica o Catarina em março de 2004. Há quem o credite às mudanças climáticas, já que foi o primeiro furacão documentado no Atlântico Sul. Se já houve outro no passado, só uma ampla pesquisa poderá nos dizer (afinal, se já aconteceu em outra oportunidade, é possível terem dito que foi um “temporalzão”, com base no mito de que “aqui não tem furacão”). E em março deste ano, uma nova tempestade tropical – que recebeu o nome de Anita – se formou próximo às costas de Santa Catarina e Rio Grande do Sul (tal qual o Catarina). Logo, é bom que as cidades litorâneas estejam preparadas para a ocorrência de furacões, ao invés de se continuar com a crença no mito. Até porque eles não provocam só vento, como também muita chuva – que já causou várias tragédias no Brasil, como as recentes enxurradas em Alagoas e Pernambuco.

E quanto aos tornados, nada mais furado do que acreditar que eles não acontecem por aqui. O centro-sul da América do Sul (ou seja, Paraguai, Uruguai, norte da Argentina e sul do Brasil) é a segunda região mais propícia à ocorrência de tornados no planeta. Ou seja, o que aconteceu em Canela na última quarta-feira não foi “fato isolado”, e seria bom que se tivesse no Brasil um sistema de alerta como nos Estados Unidos.

Mas para tudo isso se torne realidade, será preciso convencer a população do país de que não somos “abençoados por Deus” e que aqui tem tornado, furacão e até alguns terremotos, sem contar as enchentes e mesmo as secas, para que não haja absurdas reclamações de que “isso é caro e desnecessário” (e os “elefantes brancos” para a Copa e a Olimpíada, são o quê?): perguntem a quem perdeu pessoas queridas em tais eventos se não acham que as vidas valem muito mais. Sem contar que, mesmo se não houvesse nada disso, ainda assim o Brasil não seria “abençoado por Deus”, já que a fé em Deus (que eu não tenho) não é exclusividade brasileira: os argentinos teístas certamente acham que a Argentina é “abençoada por Deus”, e que seu “país temperado” é “bonito por natureza”.

Agora, se ainda quiserem continuar com a crença nesse mito… Quando vierem para Porto Alegre em fevereiro, não esqueçam do casacão, do gorro e do cachecol, afinal, aqui faz muito frio o ano inteiro – ainda mais durante a noite.

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¹ Original, em francês: “Or l’essence d’une nation est que tous les individus aient beaucoup de choses en commun, et aussi que tous aient oublié des choses”. Ver: RENAN, Ernest. Qu’est-ce qu’une nation? In: Oeuvres completes, 1, p. 892 apud ANDERSON, Benedict. Comunidades Imaginadas. São Paulo: Companhia das Letras, 2008, p. 32.

² “País tropical”, letra de Jorge Ben Jor.

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