100 anos de um gênio

Júlio Cortázar (1914-1984)

Júlio Cortázar (1914-1984)

Nesta terça-feira, completam-se 100 anos do nascimento de Julio Cortazar, escritor argentino que, curiosamente, durante boa parte de sua vida morou fora da Argentina. Começando pelo próprio 26 de agosto de 1914: Cortázar nasceu na embaixada argentina em Bruxelas, Bélgica, nas primeiras semanas da Primeira Guerra Mundial. Mas a cidade onde mais viveu foi Paris: mudou-se para a capital francesa em 1951 e lá permaneceu até sua morte, em 12 de fevereiro de 1984.

Julio Cortázar foi um dos escritores mais originais de seu tempo, e dos mais geniais que já tive o prazer de ler. Muitas de suas obras cruzam a fronteira entre o real e o fantástico, como se vê nas “Histórias de Cronópios e de Famas” (sobre a lápide do túmulo de Cortázar no Cemitério de Montparnasse, em Paris, se ergue a imagem de um “cronópio”).

O conto abaixo é um dos que compõem “Histórias de Cronópios e de Famas”.

Ocupações Maravilhosas

Que ocupação maravilhosa é cortar a pata de uma aranha, metê-la num envelope, escrever Senhor Ministro das Relações Exteriores, acrescentar o endereço, descer a escada aos pulos, botar a carta no correio da esquina.

Que ocupação maravilhosa é ir andando pelo Boulevard Arago contando as árvores, e a cada cinco castanheiros parar um momento num pé só e esperar que alguém olhe, e então soltar um grito seco e breve, e girar como um pião, os braços bem abertos, igual à ave cakuy que se vê nas árvores do norte da Argentina.

Que ocupação maravilhosa é entrar num café e pedir açúcar, açúcar outra vez, três ou quatro vezes açúcar, e ir formando um monte no meio da mesa, enquanto cresce a fúria nos balcões e debaixo dos aventais brancos, e exatamente no meio do monte de açúcar cuspir suavemente e espiar a descida da pequena geleira de saliva, escutar o barulho de pedras quebradas que o acompanha e que nasce nas gargantas contraídas de cinco fregueses e do patrão, homem honesto em certas horas.

Que ocupação maravilhosa é tomar o ônibus, descer em frente ao Ministério, abrir caminho a golpes de envelope com selos, deixar para trás o último secretário e entrar, firme e sério, na grande sala de despacho toda de espelhos, no momento exato em que um contínuo vestido de azul entrega uma carta ao Ministro, e vê-lo abrir o envelope com cortador de papel de origem histórica, enfiar dois dedos delicados e retirar a pata da aranha e ficar olhando, e então imitar o zumbido de uma mosca e ver como o Ministro empalidece, quer tirar a pata mas não consegue, está agarrado pela pata, e dar-lhe as costas e sair assobiando, anunciar nos corredores a renúncia do Ministro e saber que, no dia seguinte, entrarão as tropas inimigas e tudo irá para o inferno e será uma quinta-feira de um mês ímpar de um ano bissexto.

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Cão Uivador descobre segredo da ótima geração belga

A Bélgica chegou à Copa do Mundo bem cotada, credenciada por uma ótima campanha nas eliminatórias. Os belgas terminaram a fase de classificação invictos e vários comentaristas diziam que os “Diabos Vermelhos” poderiam ir longe no Brasil, talvez repetindo a campanha de 1986, quando alcançaram as semifinais.

Há 28 anos a campanha belga terminou contra a Argentina, fato repetido em 2014, só faltou ser na mesma fase – desta vez foi nas quartas-de-final. Não apresentou um futebol de encher os olhos: a única partida realmente boa foi contra os Estados Unidos (oitavas-de-final), de resto a Bélgica foi apenas eficiente (exceto contra a Argentina, claro). Mas trata-se realmente de uma ótima geração, a melhor dos últimos anos (a última Copa disputada pelos “Diabos Vermelhos” fora a de 2002, para se ter uma ideia), e que por ser ainda jovem poderá render mais bons resultados nos próximos anos. E, só para variar, conta com um ótimo goleiro: Thibaut Courtois ocupa o posto que na Copa de 1994 pertenceu a Michel Preud’homme, a quem eu gostava de me comparar sempre que defendia um chute (mesmo que deixando passar outros mil).

Mas, se a Bélgica já foi embora da Copa dando a sensação de que rendeu menos do que o esperado, o mesmo não se pode dizer de sua comida: essa não decepcionou. No outro final de semana, foi minha vez de cozinhar o tradicional almoço de sábado (que excepcionalmente aconteceu no domingo) na casa da minha avó, e o prato da vez era belga. Pesquisei e dentre as opções achei uma receita chamada Carne Belga – que é uma espécie de carne de panela, simples de preparar, mas diferente das que costumamos comer por aqui. O segredo é um ingrediente comum a várias receitas belgas que encontrei: cerveja. Fiz o prato duas vezes: a primeira no outro final de semana, a segunda ontem – e por conta disso, após passar a receita e o modo de preparo falarei de algumas adaptações que tomei a liberdade de fazer, em especial na segunda vez.

A receita original é a seguinte:

  • Duas colheres de sopa de farinha de trigo;
  • Três colheres de sopa de banha;
  • Duas xícaras de chá de cerveja;
  • 200 gramas de cebolas cortadas;
  • Tempero a gosto;
  • Um quilo de lagarto (tatu).

Modo de preparo:

  • Fritar a cebola até dourar;
  • Fritar a carne (cortada em fatias) até dourar bem dos dois lados;
  • Juntar a farinha de trigo e misturar a cerveja aos poucos, para não engrossar;
  • Cozinhar em panela tampada por pelo menos duas horas.

Como já tinha falado mais acima, fiz algumas adaptações na receita. A primeira disse respeito à banha: decidi usar óleo normal.

Quanto aos temperos, como a própria receita dizia, era “a gosto”. Assim, antes de fritar temperei a carne com aceto balsâmico e cerveja (depois de fritar juntei a farinha com mais cerveja), misturando também um pouco de pimenta – mas só um pouco, para não repetir o “calorão” que passaram todos (inclusive eu, claro) que comeram o prato chileno que cozinhei no início de junho.

A maior adaptação foi quanto à carne utilizada. Na primeira vez, se deu apenas na quantidade: achei que um quilo era demais, então comprei algo em torno de 500 gramas. Usei a mesma quantidade na segunda vez, mas de outro tipo de carne: ao invés de lagarto, optei por entrecot, mais macio – e que, assim, não precisa cozinhar tanto tempo (a receita original fala em duas horas).

Quanto ao tempo, é um problema ter de cozinhar a carne por duas horas – ainda mais que a cerveja dá ao molho um cheiro irresistível. Por isso, vale mais a pena optar por cortes mais macios. Ainda mais que justamente no dia em que preparei a receita com lagarto o gás acabou quando eu mal começara a fritar as cebolas: o que já seria demorado tornou-se ainda mais demorado, e dada a fome de todos, a carne não cozinhou o tempo necessário, ficando um pouco “dura”.


Para beber, a sugestão é óbvia, né? Mesmo que inverno combine com vinho, essa receita “pede” para ser acompanhada por uma boa cerveja – de preferência a deliciosa Stella Artois, uma das mais famosas da Bélgica.

O prato principal do almoço de domingo. Pena que não deu para anexar o cheiro junto...

Pena que não deu para anexar o cheiro junto…

Um campeão de empates? Por favor, não…

Considerando a campanha do Paraguai até agora nesta Copa América, não teria medo de apostar em mais um empate na tarde de hoje. E assim a Albirroja poderá, ironicamente, ser campeã invicta, mesmo sem ganhar nenhum jogo…

Não chega a ser algo inédito uma seleção ir longe num campeonato só empatando. Em 1990, a Irlanda chegou até as quartas-de-final da Copa do Mundo com quatro empates: três na primeira fase, e nas oitavas-de-final eliminando a Romênia nos pênaltis; nas quartas, os irlandeses não conseguiram empatar mais uma, e foram eliminados pela anfitriã Itália com uma derrota de 1 a 0 (curiosamente, na Copa seguinte as duas seleções se enfrentaram na estreia e a Irlanda devolveu o placar). No Mundial de 1998, Chile e Bélgica tiveram campanhas semelhantes, mas não a mesma sorte: ambas empataram os três jogos da primeira fase, mas os chilenos se classificaram, e os belgas voltaram para casa. Já ano passado, com três empates na primeira fase a Nova Zelândia fez história: apesar de não ir adiante na Copa, foi a única seleção invicta e certamente tirou pontos de todos os que participaram de bolões.

Mas campeão só empatando os seis jogos, que eu saiba, nunca se viu. E espero não ver hoje. Pelo bem do futebol e de minha querida Celeste Olímpica. VAI URUGUAI! (E não me importarei se for nos pênaltis, como naquele jogo com Gana. Tá na hora do Paraguai perder uma desse jeito…)

1960 e 2010: Os Anos da África

Foi ainda no tempo do colégio que li a expressão “1960: O Ano da África” em um livro didático. O motivo, é que só naquele ano 16 países do continente obtiveram sua independência política. Livravam-se de um colonialismo que fora por demais cruel, e do qual sofrem até hoje as consequências.

Meio século passou, e novamente temos um Ano da África. Desta vez, no futebol. 2010 foi o ano da primeira Copa do Mundo no continente africano (embora não haja apenas coisas boas nisso). Por muito pouco, uma seleção africana (Gana) não chegou à semifinal desta Copa.

E agora, no Mundial de Clubes, pela primeira vez a decisão não será entre América do Sul e Europa. Quem está lá? A África. Representada pelo Mazembe, da República Democrática do Congo (antigo Zaire), que foi até 1908 propriedade privada do rei Leopoldo II da Bélgica com o no mínimo irônico nome de “Estado Livre do Congo” – que mascarava a mais brutal colonização europeia na África.

O “reino privado” de Leopoldo II tornou-se colônia em 1908 com o nome de “Congo Belga”, subetendo-se assim ao parlamento da Bélgica, e não mais às decisões pessoais do rei, embora isso não mudasse muita coisa – afinal, a população local continuava sob domínio europeu, que duraria até o Ano da África, ou seja, 1960.

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E o Mazembe ganhou do Inter com todos os méritos. Certa imprensa quer fazer acreditar que os vermelhinhos “perderam para si mesmos”, contra um adversário “muito inferior, frágil” (que, de tão frágil, foi muito mais competente para marcar não um, mas dois gols).

Provavelmente se tenha lido opiniões semelhantes nos jornais de Barcelona, em dezembro de 2006… Só mudando as cores dos que “perderam para si mesmos”, e dos “frágeis” vencedores.

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O Grêmio também participou desta grande vitória do Mazembe sobre o co-irmão. Afinal, nós gremistas temos um colega de torcida na República Democrática do Congo. E não é qualquer um: trata-se do médico Denis Mukwege, indicado ao Prêmio Nobel da Paz em 2009, que é especialista no tratamento de mulheres vítimas de violência e tortura sexual durante a guerra civil que por vários anos assolou seu país.

E, não bastasse um tão ilustre gremista no país do Mazembe, a gloriosa camisa Tricolor se misturou à torcida dos “Corvos” (apelido do clube) em Abu Dhabi.

A noite em que terei de torcer pelo vermelho

Não tenho nada contra a cor vermelha. Muito pelo contrário. Na política, não tenho vergonha nenhuma de dizer que sou vermelho, já que esta é a cor associada com a esquerda. Tanto que, nos tempos em que eu “bandeirava” para o PT (ou seja, até 2004), a bandeira sempre foi vermelha. Nunca quis a azul.

Mesmo no futebol, não posso dizer que basta um time vestir vermelho para merecer meu ódio mortal. Para citar um exemplo: nas quartas-de-final da Copa do Mundo de 1994, na mesma tarde torci por dois times que jogaram de vermelho: primeiro para a Bulgária nos 2 a 1 contra a Alemanha; e depois para a Romênia que, vermelha da cabeça aos pés, infelizmente acabou eliminada pela Suécia nos pênaltis. Tudo bem, eram os uniformes reservas, mas eram vermelhos. E naquela mesma Copa também torci por outra seleção vermelha, a Bélgica – neste caso, era a cor do uniforme titular.

Ou seja, só abomino a cor vermelha do rival do Grêmio. Então, não terei nenhuma dificuldade em torcer pelo Independiente nesta bizarra noite. (Mas para quem não consegue de forma alguma torcer pelo vermelho, resta a alternativa de secar o Goiás…)

Sem contar que não chega a ser uma novidade. Em 1983, o Grêmio precisou de uma ajudinha do vermelho América de Cali para chegar à final da Libertadores. O time colombiano já estava eliminado, mas se segurasse o empate com o Estudiantes, classificaria o Tricolor para a decisão; se os argentinos vencessem, ficariam com a vaga.

Acabou 0 a 0. O resto da história, todos conhecem…

As Copas que eu vi – Coreia do Sul/Japão 2002

Como definiu Eduardo Galeano, eram “tempos de quedas”. Em 11 de setembro de 2001, caíram as torres gêmeas do World Trade Center, em Nova Iorque. Caiu também o mito de que os Estados Unidos eram invulneráveis a ataques externos. Em resposta, a partir de 7 de outubro de 2001 bombas caíram de aviões estadunidenses sobre o Afeganistão – e continuam caindo até hoje.

Caia também o presidente da Argentina, Fernando de la Rúa. Os argentinos não aguentavam mais a penúria que lhes era imposta pela crise econômica e os ditames do FMI, e foram para a rua pedir a renúncia do governo, em dezembro de 2001. O presidente argentino atendeu aos pedidos das massas no dia 20, mas não sem antes decretar estado de sítio e ordenar a repressão aos protestos.

Para mim também eram “tempos de quedas” – no caso, de convicções “profissionais”. Desde meu ingresso no curso de Física da UFRGS, em março de 2000, eu nunca questionara tanto a opção que eu tinha tomado como começou a acontecer no início de 2002. Aos poucos, fui perdendo totalmente a motivação, mas ainda sem coragem de admitir a outras pessoas que eu havia errado – o que fui fazer apenas no final de abril.

Eu ainda insisti por mais um semestre – que começou só em junho de 2002, devido ao atraso no calendário proporcionado pela longa greve dos professores da UFRGS em 2001 (que fez o segundo semestre daquele ano iniciar-se em 17 de dezembro). O primeiro semestre de 2002 começou junto com a Copa do Mundo, pela primeira vez realizada na Ásia e em dois países, Coreia do Sul e Japão. Foi uma Copa diferente também quanto aos horários dos jogos, com muitos sendo disputados pela madrugada no horário brasileiro, correspondente à tarde na Coreia e no Japão. Continuar lendo

As Copas que eu vi: França 1998

O ano de 1998 começou de forma terrível para mim. Tão ruim que antes mesmo do Carnaval (que é quando começam, na prática, todos os anos no Brasil), eu já queria que chegasse logo 1999. Tudo por causa daquele 5 de janeiro, que considerei como o pior dia da minha vida por quase nove anos.

Mas, aos poucos, aquela dor perdeu boa parte de sua intensidade, e o ano de 1998 foi se transformando em ótimo. Primeiro, porque em abril foi confirmado que aconteceria em agosto a viagem a Montevidéu, para a realização de intercâmbio cultural entre o Colégio Marista São Pedro – onde cursei o 2º grau (1997-1999) – e o Instituto de los Jóvenes (IDEJO), colégio da capital uruguaia. Mas também porque se aproximava a Copa do Mundo da França. Enfim, chegava ao fim aquela longa espera de quatro anos iniciada em julho de 1994! E desta vez haveria mais jogos: o número de seleções participantes foi ampliado de 24 para 32. Continuar lendo

As Copas que eu vi: Estados Unidos 1994

No ano letivo de 1993, como sempre acontecia, eu ia muito bem em todas as matérias. Na verdade, em quase todas as matérias: minhas notas em Educação Artística é que destoavam do resto. Comecei bem a 5ª série, com 9 no 1º bimestre, mas no 2º bimestre minhas notas começaram a decair – fruto do que considero uma certa implicância da professora, pois só com ela que fui mal, mesmo que jamais tenha desenhado bem – e cheguei ao último bimestre precisando de 6,5 para evitar o vexame de pegar recuperação. Não era uma tarefa das mais difíceis para quem tirava 10 em tudo, é verdade, mas eu não estava acostumado a uma situação daquelas; e além disso já tivera uma nota 6 no segundo bimestre (e 6,5 no terceiro). Mas consegui tirar 7, e obter a média final de 7,1: foi a única vez em todo o tempo de colégio (1989-1999) em que vibrei com uma aprovação (já que as outras nem tinham graça).

O leitor deve estar pensando: “tá, e o que isso tem a ver com futebol?”. A resposta é que pouco depois da notícia, comentei com um colega: “escapei da repescagem!”. Referência à situação vivida pela Argentina, que só se classificou para a Copa do Mundo de 1994 após vencer a Austrália na repescagem entre América do Sul e Oceania. Sinal dos tempos: eu já me interessava por futebol, graças a uma professora de Educação Física (cujo nome infelizmente esqueci) do Colégio Estadual Marechal Floriano Peixoto, que na segunda semana de aulas de 1993 praticamente me obrigou a jogar, pois não queria mais me ver parado – foi o bizarro episódio em que um colega inventou um gol que eu teria marcado no passado, que tenho certeza absoluta de jamais ter feito (lembro de ter marcado pela primeira vez no colégio na 6ª série, foi tão marcante que até o dia eu recordo: 19 de outubro de 1994).

Assim, o Mundial realizado nos Estados Unidos em 1994 não foi uma Copa qualquer, foi A Copa. A primeira que eu, mais que “dar bola”, curti aos montes. Isso após eu voltar a apenas observar meus colegas na Educação Física: no dia 14 de abril eu acordei com uma estranha dor de barriga que não passava, fui à aula de tarde e comecei a me sentir pior; voltei para casa, me deitei, e quando levantei novamente, não conseguia mais caminhar direito e ainda vomitei; minha mãe me levou ao médico e ele de cara deu o diagnóstico: apendicite – e a cirurgia teria de ser feita urgentemente. Uma semana depois, saí do hospital, mas com atestado médico me liberando da Educação Física. Eu queria jogar, mas não podia… Continuar lendo

Atrasado, mas engraçado

Em agosto, publiquei aqui um vídeo com uma entrevista de integrantes do movimento “Cansei” na Bélgica – obviamente, era um deboche.

Agora, achei outro vídeo da entrevista com os “cansados” na Bélgica e publico de novo porque não deixou de ser divertido tirar sarro da cara deles, mesmo depois do retumbante ato cívico que reuniu em frente à Catedral da Sé, em São Paulo, a grande multidão de… Duas mil pessoas!

Os estranhos numerais de Asterix & Obelix*

Nas histórias do Asterix, seu fiel amigo Obelix costumava dizer: “Esses romanos são loucos”. Mas cursando a cadeira de Francês Instrumental (ênfase na leitura e interpretação de textos em francês) descobri que os gauleses também eram um pouco “loucos”. Pelo menos no que diz respeito à hora de contar.

Na última aula, estudamos os numerais em francês. No início, tudo bem. Aliás, os primeiros conhecemos bem por causa das gozações dos franceses em cima de nós brasileiros depois da Copa do Mundo de 1998: “Un, deux, troiszéro!”, repetiam os orgulhosos campeões mundiais de futebol à época.

Fomos vendo os números maiores. Dez por extenso se escreve dix, vinte é vingt, trinta é trente, e segue: quarante, cinquante, soixante, soixante-dix… Opa! Não escrevi errado não: traduzindo literalmente, setenta em francês significa… “Sessenta-dez”! Seria como dizer “60+10”, e segundo o professor (que é francês), isso se originou na época dos gauleses. Mas essa maluquice vale para o francês falado na França, pois na Suíça e na Bélgica se fala diferente: septante.

E olha só o oitenta: quatre-vingt. Ou seja, “quatro-vinte” ou “quatro vintes”. Suíços e belgas, mais simples, dizem huitante.

Mais estranho ainda é o noventa: quatre-vingt-dix! Tradução literal para o português: “quatro-vinte-dez”. Equivalente a “80+10” ou para ser literal: “(4×20)+10”. Mas convenhamos: estranhos por estranhos, esse é o mais maluco, pois mistura multiplicação com adição. Já que os franceses não querem chamar o noventa de nonante (como fazem os suíços e os belgas), podiam muito bem chamá-lo de trois-trente (“três-trinta” ou “três trintas”). Seria a mesma lógica do oitenta ser chamado de quatre-vingt.

Mas, assim como o futebol, a língua francesa parece não dar bola para a lógica. Bom, talvez seja por isso que ambos sejam tão fascinantes.

Agora… Uma pequena aulinha de matemática em francês da França:
0 = zero
1 = un, une
2 = deux
3 = trois
4 = quatre
5 = cinq
6 = six
7 = sept
8 = huit
9 = neuf
10 = dix
11 = onze
12 = douze
13 = treize
14 = quatorze
15 = quinze
16 = seize
17 = dix-sept
18 = dix-huit
19 = dix-neuf
20 = vingt
21 = vingt et un/une
22 = vingt-deux
23 = vingt-trois
30 = trente
31 = trente et un/une
32 = trente-deux
33 = trente-trois
40 = quarante
50 = cinquante
60 = soixante
70 = soixante-dix (“sessenta e dez”)
71 = soixante et onze (“sessenta e onze”)
77 = soixante-dix-sept (“sessenta e dezessete”)
80 = quatre-vingt (“quatro-vinte” ou “quatro vintes”)
81 = quatre-vingt-un/une (“quatro-vinte e um”)
82 = quatre-vingt-deux (“quatro-vinte e dois”)
90 = quatre-vingt-dix (“quatro-vinte e dez”)
93 = quatre-vingt-treize (“quatro-vinte e treze”)
97 = quatre-vingt-dix-sept (“quatro-vinte e dezessete”)
100 = cent
1.000 = mille
2.000 = deux-mille
10.000 = dix-mille
1.000.000 = un million
1.000.000.000 = un milliard